DEUS ESTAVA COM ELE
ELISA MASSELLI

O DIVRCIO

Walther entrou em casa acompanhado por Steven, seu amigo de infncia e padrinho de casamento. Tirou a gravata e o palet, jogou-os sobre um sof, dirigiu-se at
ao bar, preparou dois drinques. Estava nervoso; comeou a falar alto:
- Steven! Pode me explicar? Como minha vida mudou dessa maneira? Por mais que tente, no consigo acreditar que o meu casamento tenha terminado de um modo to deprimente.
Steven, pegando o copo que Walther lhe oferecia, disse:
- Confesso que tambm estou admirado. Jamais imaginei que isso fosse acontecer. Vocs representavam o casal perfeito. Fui testemunha do incio de tudo e sempre acreditei 
que eram felizes.
- Voc se lembra de como conheci a Eilen?
- Claro que me lembro! Foi na festa de aniversrio do Brian. Aquela em que voc no queria ir e tive que convenc-lo.
- Foi... Voc teve quase que me obrigar. Eu nem imaginava que encontraria algum. Principalmente uma mulher.
- Encontrou e ficou muito feliz.
- Fiquei mesmo. Voc no viu quando ela chegou. Como sempre, estava rodeado por moas. No sei o que tinha ou tem para atra-las.
Steven, com olhar maroto, disse:
- Charme, meu amigo. Charme... Walther comeou a rir e disse:
- Voc  mesmo um palhao.
- Talvez seja porque sempre estive e estou de bem com a vida.
- No sei como consegue ser assim. Parece que nada o atinge, que nunca teve problemas!
- Depende do que voc julgue que seja um problema. Algumas vezes, tive que tomar decises, mas tenho uma teoria: "Se existe um problema, com certeza existe tambm 
uma soluo." Isso  cientfico!
- Problemas que envolvem nmeros no me assustam, j os da vida, quase sempre tenho dificuldade para resolv-los.
- Pois eu com nmeros  que tenho muita dificuldade, mas continue falando de Eilen.
- Naquela festa, eu estava entediado, pois voc sabe que no gosto de festas, principalmente as de aniversrio, mas voc me fez ver que precisava ir, pois o Brian 
era nosso amigo. Assim que ela chegou, no consegui mais desviar os meus olhos. Foi paixo  primeira vista. Ela estava linda.
- A Eilen  realmente muito bonita. Eu logo percebi que voc estava fascinado, no acreditei quando o vi caminhando na direo dela.
- Lembro-me que uma msica suave comeou a tocar. Aproximei-me e, timidamente, perguntei:
- Quer danar?
- Ela me olhou por alguns segundos, sorriu, abriu os braos, samos danando. Daquele dia em diante, comeamos a nos encontrar cada vez mais assiduamente. Em menos 
de seis meses, estvamos casados. Nunca pensei que todo aquele amor fosse um dia terminar, e de maneira to repentina...
- Tem razo, todos ficamos surpresos. Primeiro, com o casamento, pois voc dizia que nunca se casaria. Era o ltimo da turma que ainda estava solteiro. Depois, com 
a separao. Nunca poderamos imaginar que isso fosse acontecer. No com vocs...
Walther voltou ao bar e encheu outro copo. No conseguia controlar o dio que sentia naquele momento, continuou falando:
- Como, diante do juiz, ela disse tudo aquilo? Como de repente um amor igual ao nosso se transformou em algo to pequeno? No consigo entender. Ser que ela tinha 
razo em suas queixas?
- Do que ela se queixava?
- De vrias coisas, que na poca eu achava sem importncia. Mas agora estou pensando. Talvez ela tivesse motivos para as queixas.
- Por que est dizendo isso?
- Para manter o cargo que ocupo na empresa, tenho que trabalhar muito. Por isso, eu trabalhava at altas horas da noite. Chegava em casa normalmente cansado. Trabalhava 
at nos fins de semana. Ela  jovem e bonita, queria sair para danar, ir ao teatro ou simplesmente a um cinema. Eu sempre me recusava a sair de casa. Com o tempo, 
me distanciei ainda mais, no queria que lhe faltasse nada. Queria que ela tivesse todo o dinheiro que precisasse para fazer compras ou o que quisesse. Reconheo 
hoje que me tornei uma companhia insuportvel. Por muitas vezes reclamou. Estou me lembrando agora de uma noite em que eu estava aqui nesta sala, lendo alguns documentos. 
Na manh seguinte, eu teria que fazer uma apresentao. Ela se aproximou e me beijou. Eu afastei o rosto. Ela, chorando, disse:
- Voc no se preocupa comigo! Estou cansada de ficar em casa sem ter o que fazer! Quero trabalhar, ter o meu prprio dinheiro!
- Como no me preocupo? Como no tem o que fazer? A casa  grande! Tem muito trabalho aqui! No precisa ter seu prprio dinheiro! Tem todo o que necessita, nunca 
lhe faltou nada! Para isso trabalho tanto!
- Sei que trabalha e que no quer que me falte nada, mas no me d o principal, a sua companhia, o seu carinho! Estou sempre muito s, preciso fazer algo para me 
distrair!
- Procure, ento, algo para fazer, v s compras, ao cabeleireiro. Faa o que quiser, mas por favor me deixe em paz. Quando chego em casa preciso ter tranqilidade. 
J tenho muito com o que me preocupar durante o dia todo! Os problemas na empresa so muitos. Sabe que tenho que trazer algum trabalho para fazer em casa! Meu salrio 
 alto! Preciso trabalhar muito para merec-lo! No suporto suas queixas fteis! Deveria se queixar se eu, ao invs de trabalhar, ficasse pelos bares, bebendo, ou 
sasse com amigos! A sim teria motivo de sobra para reclamar! Mas tudo o que fao  pensando em voc, no seu bem-estar! No nosso futuro.
- Quando ouo voc falar dessa maneira, chego a pensar que no teremos futuro!
- Que est dizendo?
- Nada... No estou dizendo nada...
Steven, que at o momento ouvia em silncio o desabafo do amigo, perguntou:
- Nunca parou para pensar que talvez ela tivesse razo?
- No. Eu a considerava mimada, ftil, e ingrata, j que eu trabalhava tanto s para lhe dar conforto. Achava que ela no tinha motivo para reclamar.
- Ser que era s para isso mesmo? Walther arregalou os olhos:
- Por que est perguntando isso?
- Conheo voc muito bem. Crescemos juntos. Voc nunca foi de falar muito, mas na escola sempre se fazia notar sendo o primeiro da classe. Por isso acredito que 
sempre esteve pensando em voc mesmo. Em mostrar na empresa que era o melhor.
- Voc est me ofendendo, Steven!
- Ora, Walther, entre amigos no h ofensas. No estou ofendendo voc, estamos apenas conversando, estou sendo sincero. No queria mesmo mostrar o seu trabalho perante 
seu superior?
Walther ficou calado, pensando. Aps alguns segundos, respondeu:
- Talvez voc tenha razo, Steven. Em toda a minha vida, sempre fiz tudo da melhor maneira possvel.
- Isso no  defeito, e sim uma qualidade. Desde que no seja exagerada.
- Ser que a Eilen tambm sentia isso Steven? Sempre que tnhamos essas brigas, ela ia para o quarto, chorando. Algumas vezes, eu ia at ela, pedia desculpas e prometia 
que mudaria, mas no adiantava. Aps alguns dias, eu me deixava novamente envolver pelo trabalho e voltava a ser como antes. No sei quando ou como ela se envolveu 
com outra pessoa. Um dia, sem que eu esperasse, ela disse:
- Quero o divrcio!
Levei um grande susto.
- Como? Quer o divrcio? Est louca?
- No, no estou louca, quero o divrcio porque encontrei algum que me ama, respeita e que me faz muito feliz.
- Est dizendo que tem outra pessoa? Est dizendo que esteve me traindo?
- Ela estava tranqila, Steven.
E falava com firmeza:
- Isso mesmo. Conheci esse rapaz, nos apaixonamos e para no continuar traindo voc, quero o divrcio!
- Fiquei desnorteado, jamais pensei que um dia aquilo poderia acontecer. Com muita raiva, perguntei:
- Quem  ele? E rico? Pode lhe dar mais conforto do que eu?
- No, ele no  rico, mas me ama e me d toda a ateno que voc nunca deu.
- Se ele no tem dinheiro e voc no trabalha, iro viver do qu? No est pensando que vou lhe dar uma penso para sustentar um vagabundo qualquer! Est?
- Por que sempre tem que colocar o dinheiro na frente de tudo? Da maneira como iremos viver, no  da sua conta. S quero o divrcio. Sabe que tenho meus direitos, 
mas no vou querer nada. O resto  problema meu.
- Naquela mesma noite, ela saiu de casa, Steven. Da em diante, s conversamos atravs dos advogados. Voc sabe que esta casa eu comprei antes do casamento. Ela 
no quis levar nada do que tinha aqui. Nem sequer quis a penso, mesmo sabendo que tinha direito. Disse que no achava justo, pois eu havia comprado tudo. S queria 
mesmo a sua liberdade. O divrcio foi rpido.
- Nos pegou a todos de surpresa.
- Agora, fico pensando: ser que realmente valeu a pena eu ter trabalhado tanto? Ser que realmente eu a amava? Hoje, ao v-la, me pareceu uma estranha. Mas, enfim, 
agora est tudo terminado. Estou perdido, sem saber o que fazer com a minha vida.
- Ainda a ama?
- Acredito que no. No princpio, eu a amava, mas, aos poucos, todo aquele amor foi esfriando. Logo se tornou rotina. Eu chegava, tomava banho, jantava, assistia 
 televiso ou ficava verificando alguns documentos.
- Uma vida normal, igual a muitas.
- Tambm achava que era normal. Pensava que estava fazendo o melhor para o nosso futuro.
- Voc achava que sim, Walther, mas ela pensava diferente. No estava preocupada com o futuro, queria viver o presente.
- Deve ter sido isso mesmo. Ainda bem que no tivemos filhos, pois se isso tivesse acontecido, hoje a situao seria bem pior...
- Nisso voc tem razo. Uma criana agora s iria complicar. Mas, enfim, est feito. Tem agora que recomear a sua vida. Outro amor surgir. Talvez da prxima vez 
no cometa os mesmos erros.
- No sei se poderei amar novamente ou me entregar da mesma maneira. Estou me sentindo um derrotado.
- Que  isso amigo?  ainda muito jovem! Alm do mais, tem ainda outra vantagem.
- Que vantagem?
- Est s com vinte e nove anos. E bonito, tem uma boa situao financeira, est solteiro, poder ter a mulher que quiser e sem culpa.
- Voc me conhece muito bem, sabe que tenho dificuldade para me aproximar das pessoas, principalmente das mulheres. No sei o que vai acontecer. A atitude da Eilen 
faz-me lembrar da minha me.
- Sua me? Por qu?
- Ela tambm me pareceu sempre muito triste. Por muitas vezes quis conversar com ela, saber qual era o motivo daquela tristeza. Por que de vez em quando ela chorava? 
Nunca obtive resultado. Ser que, como a Eilen, tambm se sentia muito s? Embora tenha sido uma tima me, sempre a achei um pouco estranha. Nunca quis falar muito 
sobre a famlia ou amigos que deixou no Brasil, sempre que perguntava, ela respondia:
- No tenho famlia alguma ali. Quando meus pais morreram, eu era ainda muito jovem. Conheci seu pai, nos apaixonamos, voc nasceu, nos casamos e viemos para c.
O telefone tocou. Walther atendeu:
- Al, oi mame, como est?
- Estou bem, meu filho, s telefonei para saber, como foi l no frum?
- Foi tudo muito frio e rpido, mame. Eu e ela parecamos dois inimigos. Mal nos olhamos. O amigo dela estava l, mas por incrvel que parea no senti nada.
- Foi melhor assim. Agora, tem que recomear a sua vida. Filho, preciso que venha at aqui. No estou bem, por isso, antes de morrer preciso lhe contar algumas coisas...
- Morrer? Que  isso? Ainda vai viver muito!
- No adianta querer me enganar ou se enganar. Sabe tanto quanto eu que a minha doena no tem cura e que a qualquer momento vou para junto de Deus, prestar minhas 
contas.
- Que contas teria para prestar, mame? E uma mulher perfeita! Maravilhosa!
- No sou maravilhosa nem perfeita. Filho, o assunto  realmente muito srio.
- Est bem, vou tomar um banho, trocar de roupa e irei at a. O Steven est aqui. Posso lev-lo tambm?
- Sabe o quanto gosto do Steven, mas o que tenho para conversar  muito srio. Gostaria que viesse sozinho.
- Est bem. Logo estarei a. Vou comer aquela comida que s a senhora sabe fazer.
- Venha, meu filho. Estarei esperando.
Walther colocou o telefone no gancho. Sentiu um aperto no corao, sabia que ela estava dizendo a verdade. Todo o tratamento indicado pelo mdico estava sendo feito, 
mas ele sabia que no estava dando resultado. Sabia tambm, que realmente nada mais poderia fazer. Triste, disse:
- Steven, sabe que mame no est bem. Ela quer que eu v at l. Disse que tem um assunto muito srio para conversar comigo. Por isso, pediu que eu fosse s. Voc 
entende?
Steven levantou do sof, respondendo:
- Claro que entendo. Sabe o quanto gosto de sua me. Tenho alguma dificuldade para entender o que ela fala, mas sempre consegui me comunicar.
- Voc sempre foi muito esperto. Aprendeu at algumas palavras em portugus.
- No foi difcil. Eu era criana, e criana aprende fcil. V falar com sua me, no se preocupe comigo, mesmo porque, tambm no poderia ir. Sabe que tenho uma 
linda mulher me esperando para o jantar. No quero cometer os mesmos erros que voc cometeu... - disse com ar zombeteiro.
Walther, rindo, atirou uma almofada sobre ele. Steven o abraou, dizendo:
- Meu amigo, fique calmo. Pense s em sua me, que agora est precisando muito do seu carinho.
- Estou pensando e sentindo muito por no poder fazer mais nada para ajud-la.
- Sabe que, se precisar, basta telefonar, virei em seguida.
- Sei disso. Voc  um grande amigo.
- O melhor de todos!
Walther o acompanhou at a porta. Assim que Steven saiu, ele foi se preparar para sair. Sabia que a me tinha pouco tempo de vida, por isso ficava o mais que podia 
ao seu lado. Trocou de roupa, foi para a casa dela. Quando chegou, ela j o estava esperando. Abriu a porta, sorridente:
- Ainda bem que chegou. Estava morrendo de saudades!
- Dona Geni... Dona Geni... Quem a ouve falar assim, vai pensar que nunca venho visitar a senhora. Estive aqui no domingo e hoje ainda  quarta-feira!
- Sei disso, voc  um filho adorvel. Vamos jantar, depois temos muito para conversar!
- Sempre conversamos muito, mame!
- Mas hoje o assunto ser diferente...
- Que assunto poderia ser esse? Estou ficando curioso!
- Primeiro, vamos jantar e falar s de coisas boas. Entraram, a mesa j estava posta. Sentaram, Marita estava ao lado, esperando a ordem para servir. Walther perguntou:
- Tudo bem Marita?
Ela numa mistura de portugus com espanhol, respondeu:
- Est tudo bem, sua me estava ansiosa por sua chegada.
- Cheguei e estou com muita fome. O jantar est pronto?
- Sim, fiz tudo o que o voc gosta!
Me e filho sentaram. Comeram, conversando sobre amenidades. Aps o jantar, foram para a sala de estar. Walther estava preocupado com o ar de fraqueza dela, mas 
o mdico j lhe havia dito que seria daquela forma. A nica coisa que deveria fazer, era dar a ela toda a ateno merecida. Ela segurou suas mos, olhando bem em 
seus olhos, disse:
- Sempre lhe disse que no Brasil no existia ningum da minha famlia, que todos estavam mortos, mas existe algum que est l. Se um dia quiser, poder procur-lo. 
 meu irmo, seu nome  Paulo.
Walther, surpreso, perguntou:
- Que est dizendo? Tem um irmo no Brasil? Por que nunca me falou dele?
- Tenho sim, na realidade no  meu irmo, mas  como se fosse.  um grande amigo. Nunca lhe falei a respeito dele, porque no havia necessidade. Quando se  jovem, 
pensamos que nunca iremos envelhecer, muito menos morrer. Durante todos esses anos, me correspondi com ele, sem que seu pai soubesse.
- Por que meu pai no poderia saber?
- Foi uma promessa que fiz. Eu o amava muito. Quando decidi acompanh-lo, prometi que romperia todos os laos que me prendiam ao Brasil, incluindo o Paulo. Como 
o amava, aceitei. Mais tarde, por muitas vezes me arrependi, pois sentia muita falta do Brasil. No fundo, sempre guardei a esperana de um dia voltar. Por isso fiz 
questo que voc aprendesse falar, ler e escrever em portugus. O Brasil  a sua terra, foi o lugar em que nasceu. Se um dia precisar, ou quiser conhecer o seu pas, 
basta procurar o Paulo. Ele o receber de braos abertos.
Walther estranhou aquela confisso. Por que, antes, ela nunca lhe falara nada a respeito daquele tal Paulo? Ela levantou, foi at seu quarto, trouxe uma pequena 
caixa e entregou para Walther, que curioso abriu. Dentro dela, havia vrios cartes de Natal. Notou que, todos os anos, Paulo mandava um carto para sua me. Leu 
alguns, mas todos s continham aquelas palavras que j vm impressas. No final, ele escrevia de prprio punho. Desejo sincero do Paulo. Todos eram iguais. Aps devolv-los 
 caixa, perguntou:
- Por que nunca me falou sobre ele, mame?
- Porque no era importante, nunca pensei que morreria to cedo. Seu pai nunca soube destes cartes.
Walther no entendeu o porque de tudo aquilo, mas no discutiu. Ela devia ter os seus motivos. A sua nica preocupao naquele momento era com a sua sade. Ela estava 
muito fraca, sua voz saa baixa e dificultosa. No quis perguntar nada, percebeu que ela no queria continuar com aquela conversa. Quis lhe devolver a caixa, mas 
ela no a aceitou, dizendo:
- Leve com voc, talvez um dia v precisar dela. Preciso lhe fazer mais um pedido. Eu e voc sabemos que tenho pouco tempo de vida. Por mais que tentssemos, no 
conseguimos combater o cncer que me atacou, por isso quero que, quando eu falecer, escreva para este endereo que est aqui,  o endereo do Paulo, comunique o 
meu falecimento.
- Que  isso, mame? No vai morrer!
- Vou, e voc sabe!  importante que comunique ao Paulo! Prometa que far isso!
Ele estranhou aquelas palavras, mas no argumentou. Pegou a caixa, beijou a me, dizendo:
- Eu farei, claro que farei, s que a senhora no vai morrer! Vai continuar o seu tratamento e logo ficar bem!
Despediu-se dela e de Marita que acompanhava toda a conversa. Marita era boliviana, estava j h muito tempo com eles. Era mais uma dama de companhia. Pela proximidade 
dos idiomas, as duas se entendiam. Ela j tinha uma certa idade, por isso no fazia o servio pesado da casa, este era feito por uma empregada negra. Durante todo 
o caminho de volta, Walther foi pensando em tudo o que a me havia lhe contado: Que histria estranha foi aquela? No entendi nada. Ao entrar em casa, j na sala, 
foi at o bar e preparou um drinque. Sentou em um sof. De onde estava, via um quadro na  parede, era a Eilen vestida de noiva. Ficou olhando e pensando: Ela  realmente 
linda. Tem um lindo sorriso, mas hoje tenho certeza de que no era a mulher da minha vida. Preciso trocar os mveis da casa e tirar esse quadro da parede. Tudo aqui 
foi escolhido por ela. No posso negar que tem bom gosto, a casa est muito bonita. Estou lembrando, agora, de como ela ficava feliz a cada objeto comprado. Por 
que ser que o nosso casamento no deu certo? Ser que a culpa foi minha por no ter dado a ateno que ela queria? Ou ser que foi dela por no entender que eu 
s queria o nosso melhor? No sei... No sei... Levantou, foi at a parede, retirou o quadro e o colocou sobre a mesa. Definitivamente tinha que esquecer. Sabia 
que o casamento estava desfeito e que no haveria volta. Era uma pgina virada. Foi at o quarto. Deitou sobre a cama, continuou pensando: O Steven tem razo. Sou 
jovem, tenho uma vida toda pela frente. Talvez eu encontre a mulher certa, aquela que vai entender o meu modo de viver. O Steven, ah... O Steven. Como pode ser da 
maneira que ? Como aceita tudo sem reclamar? Est sempre bem, faz piada de tudo. Quem o houve falar e no conhece sua vida, vai achar que no tem problema algum. 
Ele  um bom amigo. No sei o que teria feito, se no o tivesse como amigo. Durante todo o tempo do divrcio esteve sempre ao meu lado. Alis, esteve ao meu lado 
a vida toda. Levantou, foi at ao banheiro. Olhou-se no espelho. No estava bem, sentia um vazio que no sabia explicar. Que  isso que estou sentindo? Por que esta 
sensao de impotncia? Por que este desnimo? No sei o que vai acontecer. Ainda mais agora, sabendo que vou perder tambm a minha me. No tenho mais ningum no 
mundo. Estou s, completamente s... Agora, j preparado para dormir, deitou novamente e se acomodou na cama, fechou os olhos. Mas sua cabea fervilhava. Embora 
estivesse com muitas perguntas, estava tambm com sono. O dia havia sido desgastante. Aps alguns segundos, adormeceu.

CONHECENDO PAULO

Senhores passageiros, dentro de alguns minutos estaremos pousando no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. Queiram por favor colocar suas poltronas na posio 
vertical, apertem os cintos e respeitem os avisos de no fumar. Assim que desembarcarmos, permaneam com seus documentos nas mos para que possam ser apresentados 
s autoridades locais. No esqueam sua bagagem de mo. Enquanto o comandante do avio dizia essas palavras, Walther estava distrado, olhando pela janela, via muito 
verde e os cortes das plantaes das fazendas. Do alto parecia que haviam sido desenhadas. Suas formas eram como figuras geomtricas perfeitas. Estava encantado 
com a beleza que do alto podia ver. Tirou seus passaportes do bolso do palet. Um com a capa verde, brasileiro, outro com a capa azul, americano. Guardou o americano 
de volta ao bolso. Abriu o brasileiro, l constava um nome. Walther Soares Brown, de nacionalidade brasileira. Ficou olhando para sua fotografia, pensando: Nasci 
aqui neste pas, mas no conheo nada ou quase nada a seu respeito e muito menos me considero brasileiro. Sei de algumas coisas que mame me contava, nada alm disso. 
Sei, tambm, que  um pas do terceiro mundo. No imagino o que poderei encontrar, mas enquanto estiver aqui, terei que me comportar como um nativo da terra, o que 
na realidade sou, embora tenha duas cidadanias: brasileiro por nascimento e americano por filiao. Esteve pensando nisso o tempo todo, desde que recebera aquela 
carta de Paulo.

Prezado Walther,

Sei que no me conhece. No sei, se sua me lhe contou algo a meu respeito. Recebi a sua carta comunicando-me que ela havia falecido. Como eu estou muito doente, 
gostaria que viesse me visitar, assim tambm poder conhecer este pas, que, alm de maravilhoso,  seu. Tenho uma longa histria para lhe contar e isso precisa 
ser feito antes da minha morte. Por favor, atenda ao meu pedido. Algum que muito te estima, Paulo.
Walther havia recebido aquela carta h alguns dias. Estava com sua vida caminhando sem muita emoo. Muito triste, pois alm do divrcio, sua me havia falecido. 
Estava sentindo-se s. Quando terminou de ler, comeou a pensar: Estranho receber um convite como este. No conheo esse meu tio Paulo. S tomei conhecimento dele, 
pouco tempo antes da morte de minha me. Quando ela morreu, cumpri o que havia prometido, enviei uma carta para ele, contando o acontecido. No pensei que me respondesse, 
muito menos que me fizesse esse convite. A princpio, fiquei sem saber se aceitaria. No sabia se poderia deixar a empresa e tirar alguns dias de folga, mas bem 
que estava precisando. Fora as perdas que tive, tudo vai bem em minha vida. Exero j h muito tempo um cargo expressivo na empresa. Estou muito bem no lado profissional, 
entretanto no meu lado sentimental, nunca tive muito sucesso. Quando casei com a Eilen, pensei que seria para sempre, mas no durou muito. Na realidade, nunca encontrei 
aquela mulher que me faria feliz, que seria a minha companheira at o fim da vida. Tive vrios relacionamentos, um deles durou seis meses, mas como os outros, tambm 
terminou. Estou agora com vinte e nove anos. Sinto necessidade de ter filhos, mas me recuso, pois tenho medo de no poder acompanhar seu crescimento, caso o casamento 
termine, como j aconteceu... Olhou novamente pela janela do avio. Agora j podia ver com clareza as casas, ruas e carros se movimentando. Eram muito pequenos, 
mais pareciam brinquedos de criana. A cidade vista do alto parecia ser grande. Ficou olhando e pensando: Estou agora voltando para esta terra que me serviu de bero, 
mas pela qual nada sinto e nada conheo. O pouco que sei era o que minha me me contava:
- Como voc sabe, seu pai  americano, foi trabalhar em um hotel no Brasil. O hotel pertencia  sua famlia. Foi como gerente para poder supervisionar tudo. Eu era 
muito jovem, nasci no Cear. Meus pais morreram quando eu era ainda muito pequena. No tinha famlia, fui criada por uma senhora que era amiga de minha me. Quando 
eu ia completar dezesseis anos, ela tambm morreu. Fiquei sozinha no mundo e como outras pessoas, para fugir da seca, fui morar em Gois. Eu, como todos, cheguei 
ali sem lugar fixo para ficar. Uma de minhas amigas, estava indo em busca de um primo de seu pai, que havia se mudado alguns anos antes. Viajamos de caminho, que 
era chamado de pau de arara. Ficamos algum tempo morando na casa desse primo. Minha amiga, atravs do primo, logo encontrou emprego em um hotel, como arrumadeira. 
Para uma moa como eu, sem instruo, era muito difcil encontrar trabalho, mas atravs dessa amiga, comecei a trabalhar tambm no hotel, como arrumadeira. Um dia, 
minha amiga disse:
- Voc no precisa se preocupar, vou lhe ensinar todo o trabalho, em poucos dias ser a melhor arrumadeira que j existiu!
- Eu estava um pouco assustada. Muito humilde, no abria a boca para dizer nada, pois tinha medo de falar errado. Realmente, logo aprendi o servio. Cuidava dos 
quartos com todo o carinho. Qualquer cliente se sentiria bem dentro deles. Quando entrei no primeiro quarto, fiquei encantada com o que estava vendo. Nunca em minha 
vida havia visto tanta beleza. Sempre morei em casa simples. Nossa casa, alm de pequena, no tinha nada de luxuoso. Um quarto daquele tamanho e com cortinas era 
algo maravilhoso. Aprendi a arrumar as camas, dando aos lenis uma dobra, que os deixava muito bonitos. Em uma manh, minha superiora me chamou e disse:
- Precisa verificar o quarto principal para ver se est tudo em ordem. Um americano vai chegar e ficar aqui por algum tempo. Ele vem observar se est tudo em ordem. 
No sei, mas parece que  filho do dono.
Pela primeira vez, fui at o quarto principal para ver se estava em ordem. Assim que abri a porta, fiquei encantada. Aquilo parecia um cu. Havia achado os outros 
quartos bonitos, mas aquele que estava vendo, era muito mais. Entrei devagar, parecia que a minha presena ali atrapalhava o ambiente. Olhei e arrumei tudo. Coloquei 
flores e fiquei imaginando como seria o americano que ia chegar. Walther sorriu ao lembrar-se do rosto de sua me, quando ela contava essa histria. Em sua mente, 
surgiu a imagem dela. Continuou pensando: Ela era to bonita... No precisava ter morrido to cedo... Como eu a amava e como era amado por ela... Lembro-me do dia 
em que j doente ela me disse:
- Sei que estou muito doente, e que no viverei muito, meu filho. Voc no conseguiu formar uma famlia. Talvez seja porque ela no esteja aqui. Gostaria muito que 
fosse conhecer o Brasil. E um pas maravilhoso. L no temos neve, maremoto, terremotos ou furaces. L existe muito verde, o sol brilha e  quente durante o ano 
todo, at mesmo no inverno.
Walther lembrava das palavras da me, sempre que a ouvia falar sobre isso, dizia:
- Mame, sei que nasci no Brasil, mas no me sinto brasileiro, sou americano, vivo aqui desde que me conheo por gente, mas prometo, assim que houver uma oportunidade, 
irei at l para conhecer toda essa maravilha!
- V, meu filho, sei que no vai se arrepender.
Para agrad-la, eu dizia que faria isso, mas, na realidade, nunca senti vontade de vir para o Brasil. No existe nada que me identifique com esta terra ou este povo. 
Sou americano e pretendo continuar sendo. Ficarei aqui o menor tempo possvel, para isso j comprei a passagem de volta. Enquanto pensava, olhava pela janela. Via 
ao longe o Cristo Redentor e o Po de Acar. Ele j havia visto vrias fotos em jornais. Uma cantora brasileira, Carmem Miranda, estava fazendo muito sucesso nos 
Estados Unidos. Encantou-se com o mar visto do alto. Pensava: Como a mame dizia, a natureza foi realmente prdiga com este pas. O Rio de Janeiro visto aqui do 
alto  muito bonito mesmo! Senhores passageiros, acabamos de pousar, queiram, por favor, permanecer sentados at a parada total do avio. Agradecemos a sua companhia 
e esperamos t-los a bordo novamente. Novamente era o comandante falando. Walther permaneceu sentado, pensando em sua me: Foi uma pena que ela tenha morrido to 
cedo... Como gostaria que estivesse aqui ao meu lado, voltando para a terra que tanto amava. O avio finalmente parou. Todos os passageiros comearam a levantar 
e pegar as suas bagagens de mo. Walther fez o mesmo. Pegou a nica maleta que trouxera, pois no pretendia ficar muito tempo, apenas alguns dias, visitar o tal 
tio Paulo, que era considerado como irmo por sua me, logo aps voltaria. Havia muito trabalho para ser feito. Pedira alguns dias de frias na empresa, mas sabia 
que no poderia ficar muito tempo ausente. Desceu do avio, seguiu os passageiros. Sabia falar, ler e escrever em portugus, pois sua me o havia ensinado, alm 
do mais, embora ela tenha morado nos Estados Unidos por muito tempo, ela nunca quis aprender o ingls, pois no ntimo, tinha a esperana de um dia voltar para o 
Brasil, sua terra. Infelizmente, ela no conseguiu realizar o seu sonho. Morreu antes disso... Walther no conhecia o seu tio, nem por fotografia. Estava ali, agora, 
por ter feito aquela promessa  sua me, antes que ela morresse. Estava ali s por obrigao, no que sentisse realmente algo pelo tio ou pelo Brasil. Assim que 
chegou no saguo, viu muitas pessoas esperando por aqueles que chegavam. Era formado uma espcie de cordo. As pessoas que passavam eram recebidas por seus familiares 
com abraos e beijos. Ele olhava para todos os lados, querendo reconhecer seu tio, mas por mais que tentasse, sabia que no o reconheceria. Pouco a pouco, os passageiros 
foram saindo e indo embora. Ele ficou ali parado, sem saber o que fazer. Possua o endereo do tio, s lhe restava pegar um txi que o levaria ao tal endereo. Estava 
pensando em fazer isso, quando um homem vestido de preto se aproximou:
- O senhor  o senhor Walther?
- Sou sim, mas o senhor quem ? Meu tio Paulo?
- No! Meu nome  Isaas, sou motorista e amigo do seu tio. Ele pediu que eu o viesse apanhar aqui no aeroporto e o levasse at ele. No conheo esta cidade, por 
isso demorei. Fiquei um pouco perdido. Mas onde est a sua bagagem?
- No trouxe muita bagagem, apenas esta maleta com um pouco de roupa, no posso nem pretendo ficar muito tempo.
- Est bem, ento, vamos embora?
- Vamos sim. Confesso que estou um pouco cansado. Sa de um frio enorme e agora encontro aqui este sol maravilhoso. Como dizia minha me, esta terra  realmente 
muito bonita!
-  sim! Ainda mais em dezembro, em pleno vero! Creio que por mais que sua me tenha lhe descrito o Brasil, no conseguiu lhe passar tudo. Isto aqui  mesmo uma 
maravilha! O senhor vai ver!
Walther, sorrindo, acompanhou Isaas at o estacionamento. Enquanto fazia isso, pensava: Realmente, aqui  diferente. Deixei Nova York com frio e muita neve. Encontro 
aqui este sol e um calor maravilhoso. Isaas parou em frente a um carro muito bonito. Pegou a maleta de Walther e colocou-a no porta-malas. Abriu a porta de trs 
para que ele entrasse. Walther disse:
- Por favor, no, prefiro ir no banco da frente para apreciar a paisagem.
- O senhor  quem manda. A paisagem  bonita mesmo. Seu tio no mora aqui no Rio de Janeiro. Mora em So Paulo, mas agora est morando em uma regio serrana, precisamente 
em Campos do Jordo. Teremos ainda uma longa viagem...
- No tem importncia, estou cansado, mas muito curioso. Nunca pensei que um dia viria at o Brasil, mas j que estou aqui, vou aproveitar o mximo! Quero ver tudo!
- Vai ficar encantado, posso at apostar.
Entraram no carro, Walther instalou-se no banco ao lado do motorista. Isaas teve algum problema para sair da cidade e chegar  estrada que os levaria at Campos 
do Jordo. Walther conseguiu ver rapidamente o mar, admirou a cidade, viu o Cristo Redentor e o Po de Acar, s que agora de baixo para cima, se extasiou com tanta 
beleza. Notou os barracos que pareciam despencar dos morros e comentou com Isaas que no respondeu, deixando que ele admirasse tudo. Teriam muito tempo para comentar 
sobre aquilo que ele estava vendo. Finalmente, conseguiu chegar  estrada. Enquanto o carro corria, disse:
- Tenho certeza que o senhor vai gostar, aqui tudo  muito bonito e as pessoas so atenciosas, principalmente com estrangeiros.
- No sou estrangeiro. Nasci aqui! Sou brasileiro!
- Por isso  que fala to bem o portugus?
- Sim, mas devo confessar que embora seja brasileiro, no me sinto como tal. Cresci aprendendo uma lngua e cultura diferente. Meus amigos so todos americanos. 
No acredito que poderia viver para sempre em um pas como este. Passar alguns dias, sim, mas viver, acredito ser impossvel.
- Nada  impossvel. No sabemos nada sobre o nosso futuro... Ele a Deus pertence...
- Deus? Vivo em um mundo onde a tecnologia est muito desenvolvida. As pessoas esto mais preocupadas em estudar, ganhar muito dinheiro e usufruir de tudo o que 
ele pode comprar.
- Isso  muito bom, mas o senhor no pode deixar de pensar que existe algo mais do que o dinheiro... Algo mais alm desta vida, que  to curta...
- Sabe que nunca pensei a esse respeito? Nunca tive tempo. Sempre estudei muito para conseguir um diploma e ter um bom emprego, assim ganhar muito dinheiro.
- Conseguiu o que queria?
- Consegui. Hoje, tenho tudo com o que sonhei. Tenho um bom emprego e ganho o suficiente para viver muito bem. Moro em uma boa casa, tenho um bom carro e posso viajar 
para onde quiser... Isto , quando me sobra tempo.
- O senhor tem mulher e filhos?
Walther ficou em silncio antes de responder. Aps alguns segundos, disse:
- No... No tenho mulher e filhos, mas isso no me faz falta. Posso ter a mulher que desejar quando quiser. S que ainda no encontrei aquela que me fizesse acreditar 
que poderia viver ao seu lado para sempre.
- Entendo, mas ela deve estar em algum lugar. Todos temos a metade de nossa laranja.
Walther sorriu, dizendo:
- Se ela existe, no a encontrei at hoje...
- Talvez ela esteja aqui no Brasil!
- No acredito, minha me dizia que as mulheres brasileiras so tmidas, eu tambm sou, por isso vai ser quase impossvel eu me aproximar de uma. Alm do mais, vou 
ficar muito pouco tempo aqui, no terei oportunidade para me envolver com mulher alguma. Mas, diga uma coisa. Como  o meu tio? O senhor deve conhec-lo muito bem.
- Sim o conheo, j estou com ele h muito tempo.  um homem solitrio, viveu um grande drama e sofre muito por isso. Est muito bem de vida. Teve sorte quando trabalhou 
como garimpeiro em uma mina, encontrou vrias pedras, entre elas, uma enorme que lhe deu tambm muito dinheiro. Com esse dinheiro, se transformou em comprador e 
vendedor de pedras preciosas. Com isso, ganhou muito mais dinheiro. Comprava pedras que eram encontradas por garimpeiros e as revendia por um preo bem maior que 
o pago. J faz um bom tempo que parou com tudo. Est muito doente. Estou ao seu lado desde o incio. No o considero como meu patro, mas sim como um amigo.
- Sendo assim, deve saber o que aconteceu. Minha me nunca falou sobre ele, dizia que no tinha pais ou irmos. Tomei conhecimento desse tio h pouco tempo, para 
ser preciso, s um pouco antes da morte dela. Disse que, embora no fosse na realidade seu irmo, considerava o Paulo como nico parente. Nunca entendi muito por 
que.
- Muito tempo se passou desde que tudo aconteceu, s que no posso lhe adiantar nada, mas tenho certeza de que ele o chamou exatamente para lhe contar tudo.
- Espero que sim. Durante toda a minha vida, desde que comecei a tomar conhecimento das coisas, isso sempre me incomodou muito. Via meus amigos acompanhados de primos, 
tios e avs. Eu no tinha ningum. Quando perguntava  minha me como era sua vida aqui no Brasil, se tinha parentes, ela ficava com o olhar distante e dizia no 
possuir ningum, desconversava ou mudava de assunto.
- Talvez tivesse suas razes para agir assim. Acredita que ela era feliz?
- No sei... Sempre me pareceu muito bem. Tenho certeza de que me amava muito. J com papai, embora o amasse tambm, parecia que havia alguma coisa, no sei se um 
segredo, mas alguma coisa havia. Enquanto criana, no percebi, s com o passar do tempo fui notando que, muitas vezes, quando eu chegava, interrompiam o que estavam 
conversando ou mudavam de assunto.
Walther dizia aquilo com o pensamento longe, voltado para sua infncia e adolescncia. Isaas percebeu que ele, de repente, ficou distante. No disse mais nada. 
Ele tambm voltava o seu pensamento para o passado, para tudo o que havia acontecido e ele assistido. Esse moo ter grandes surpresas. Finalmente, chegou o dia 
em que as coisas sero colocadas em seus lugares. Deus ajude que aceite tudo sem revolta. Parece ser um bom rapaz... O carro continuava correndo. Aps vrias horas, 
Isaas saiu daquela estrada, entrou em outra menor. Aps algum tempo, parou o carro junto de uma estao de trem. Walther estranhou:
- Vamos tomar um trem?
- Sim, o carro ficar aqui at a nossa volta.
Walther pegou sua maleta, entraram no trem, que comeou a se mover vagarosamente. Comearam a subir uma serra alta. Tambm muito colorida. Havia, em toda sua extenso, 
flores coloridas, com matizes diferentes. Enquanto o trem subia, Walther ia observando tudo e se encantando com aquela beleza natural, que se mostrava para ele. 
Olhou para Isaas, dizendo:
- Este lugar  realmente muito bonito! No posso negar que a natureza aqui no poupou esforos para se mostrar. O clima tambm deve ser muito bom!
-  sim. Aqui existem muitas clnicas para o tratamento da tuberculose. O senhor deve saber como ela est se alastrando por todo o mundo.
- Sim,  uma doena muito cruel, mas, com certeza ser encontrada a sua cura. A Cincia esta evoluindo muito.
- Espero que a cura seja encontrada logo. Muitos amigos meus no resistiram...
- Ser encontrada, com certeza.
Enquanto o trem subia, Walther ia notando que as poucas casas existentes na serra eram feitas de madeira, no estilo da cidade em que morava.
- Sabe, senhor Isaas, parece que ainda estou nos Estados Unidos. As construes aqui so to parecidas com as de l!
- Nesta cidade, o clima  frio, por isso existe esse tipo de construo. Perceba que em quase todas as casas existem chamins. Todas elas possuem lareiras. No inverno, 
as pessoas ficam ao p delas, tomando vinho quente.
Walther ouvia, mas no conseguia desviar o olhar de tudo o que estava vendo. Finalmente, o trem parou na estao, desceram, Isaas pegou um txi e deu um endereo 
ao motorista. Aps alguns minutos, o txi parou em frente a uma casa muito grande. Isaas desceu, abriu a porta para que Walther descesse tambm:
- Chegamos.  aqui que seu tio est morando. Walther estranhou o tamanho da casa. Era enorme.
- Por que ele mora em uma casa to grande?
- Isto aqui no  uma casa, mas uma clnica. Seu tio est com tuberculose, em um estado muito avanado.
- Por que no me contou, em sua carta?
- Deve ter tido suas razes. Agora que chegamos, ele lhe contar tudo.
Walther ficou parado, olhando para aquela imensa casa. Isaas disse:
- Vamos entrar? Ele est ansioso para encontrar o senhor. Subiram alguns degraus, entraram em uma sala muito bem decorada. Havia um balco, onde uma moa sorriu 
ao v-los entrar:
- Ainda bem que esto aqui, ele est ligando a cada cinco minutos para ver se chegaram! Est realmente muito ansioso!
-        Tudo bem, Irene? Viemos o mais rpido possvel. Este  o senhor Walther. Tambm deve estar ansioso para conhecer o tio. Podemos ir at ao quarto?
- Claro que sim, mas, por favor, respeitem as regras. Ele no pode se emocionar, est muito fraco.
- Pode ficar tranqila. Conheo todas as regras e no vou deixar que se emocione.
Ela sorriu, entraram por uma porta onde havia um corredor com vrias portas. Isaas se dirigiu a uma delas, abriu e entrou. Walther o seguiu por todo o caminho. 
Assim que entraram no quarto, viu, sentado em uma cadeira de balano, um senhor muito magro, mas com boa aparncia, cabelos e bigodes brancos. Deveria ter mais ou 
menos cinqenta anos. Ao v-los entrar, o senhor levantou com dificuldades e foi ao encontro deles. De repente, parou, como se lembrasse de algo:
- Seja bem-vindo, Walther. Sinto muito, mas no posso abra-lo. Sabe que minha doena  contagiosa, mas estou muito feliz que tenha aceito meu convite. Deixe-me 
olh-lo, vejo que se tornou um belo rapaz!
Walther apenas sorriu sem saber o que dizer. Ficou olhando para aquele homem ali na sua frente. Era um parente seu, mas ao mesmo tempo, um estranho. Para ele, tudo 
era estranho, o tio, o lugar e at o pas. Disse:
- Estou feliz por ter aceitado o seu convite e por conhecer o senhor. Sinto muito por sua sade, mas tenho certeza de que logo vai se recuperar.
- No vou no, meu filho. Sei que em breve voltarei para o meu verdadeiro lar. Isso no me preocupa, pois este velho corpo j cumpriu a sua misso, s no poderia 
partir sem que voc conhecesse toda a verdade e como os fatos aconteceram. Seu pai, como est?
- Meu pai faleceu h dois anos. Sofreu um derrame, teve todo atendimento mdico necessrio, mas em uma manh, quando o enfermeiro entrou no quarto, percebeu que 
ele havia falecido. Feitos os exames, foi constatado que ele sofrera um enfarte fulminante.
- Sinto muito, era um bom homem! Mas esse  o destino final de todos ns. Mais cedo ou mais tarde, todos retornaremos para junto do Pai...
- Tambm senti muito, mas eleja estava distante desta vida h muito tempo. Desde que sofreu o derrame. Estou curioso, que verdade  essa que preciso conhecer?
- Vai saber de tudo, mas no agora. Deve estar cansado da viagem, Isaas vai te levar at o hotel, j tem um quarto reservado em seu nome. Descanse hoje, visite 
a cidade, ver como ela  bonita, e amanh bem cedo volte e a lhe contarei tudo.
- No posso simplesmente ir embora e esperar at amanh. Preciso saber de tudo logo. Estou intrigado! Nunca imaginei que houvesse uma histria em minha vida! No 
sabia nem que tinha um parente aqui no Brasil! O senhor vem agora pedir que eu espere at amanh?
- Isso mesmo. A histria que tenho para lhe contar  muito longa. Voc tem que estar bem para poder ouvi-la at o fim. Sei que est cansado da viagem. Por isso, 
faa o que eu disse. V, descanse e volte amanh bem cedo. Teremos o dia todo para conversar.
Walther percebeu que no adiantava argumentar. Seu tio estava disposto a adiar aquela conversa. Muito a contragosto se despediu e acompanhou Isaas rumo ao hotel. 
Assim que saiu, os olhos de Paulo se encheram de lgrimas. Falou em voz baixa:
- Marta, querida, finalmente, vou poder reparar todo o mal que fiz a voc e a esse rapaz. S assim poderei morrer em paz. Sei que, neste momento, esse  tambm o 
seu desejo. Espero que com esse meu ato possa ser perdoado, se  que tenho o direito a esse perdo...
Fechou os olhos e sentiu uma suave brisa o envolvendo. Por um minuto, ficou ali sentado, sentindo aquele bem-estar. Em seguida, apertou uma campainha, em breve, 
um enfermeiro entrou no quarto:
- O senhor chamou? Est precisando de ajuda?
- Sim, quero deitar, por favor, me ajude, estou muito cansado e sem foras para chegar at a cama.
- No deveria ter ficado tanto tempo sentado. Sabe que tem que seguir o tratamento e que precisa repousar.
- Sei disso, mas no podia permitir que ele me encontrasse no fundo de uma cama. Amanh, estarei livre para partir. Tudo ser revelado...
- O senhor sabe que no pode fazer muito esforo, nem se cansar. No pode falar muito.
- No se preocupe, sei que o meu fim aqui nesta terra est prximo, estou preparado. S preciso terminar tudo e partir. Vou encontrar meus entes queridos que foram 
na minha frente. Ser como uma viagem. Sei que vou ter que prestar contas, mas isso no h como evitar... Por isso, estou tentando, enquanto estou aqui, resgatar 
um dos muitos erros que pratiquei...
O enfermeiro ajeitou seu travesseiro, dizendo:
- Nunca vi algum com tanta certeza de que existe algo mais alm da morte e que no tenha medo dela!
Paulo, j acomodado na cama, sorriu, dizendo:
- Medo da morte? Por qu? Voc acredita nas mesmas coisas que eu, sabe que ela  um alvio, uma amiga para um corpo cansado e doente como o meu. Quanto a existir 
algo alm, deve existir. Deus no nos criaria para vivermos apenas alguns poucos anos. Deve ter outros planos para a humanidade. De qualquer maneira, se no existir 
nada, no tenho com o que me preocupar... No  mesmo? O enfermeiro sorriu:
- O senhor sempre tem razo. Tambm acredito que haja o outro lado. Se houver algum nos esperando, ser muito bom, mas se no houver, no saberemos... No teremos 
para quem reclamar, no  mesmo?
- Isso mesmo!
Paulo fechou os olhos, estava realmente cansado. Sua doena surgira h um ano, quando foi constatada, j estava em um estado muito adiantado. Sabia que no havia 
mais nada para ser feito. Internou-se naquela clnica para esperar a morte chegar. Quando soube da morte da me de Walther, sentiu-se livre do juramento que havia 
feito. Poderia, agora, finalmente contar tudo. Faltavam poucas horas. Tudo seria esclarecido e ele poderia morrer em paz. O enfermeiro percebeu que ele queria ficar 
s. Disse:
- Vou deixar o senhor sozinho, se precisar de alguma coisa, basta tocar a campainha, virei em seguida.
- Sei disso... Pode ir, fique tranqilo, ainda no vou morrer... No antes de contar tudo o que tenho guardado dentro do meu corao, durante todos estes anos. Esperei 
muito por este dia.
O enfermeiro olhou, sorriu e saiu. Enquanto isso. Walther chegava ao hotel acompanhado por Isaas. Pegou sua maleta que estava no porta-malas do carro, entrou. O 
hotel tinha uma bela aparncia, segundo Isaas era o melhor da cidade. J dentro do saguo, ele percebeu que realmente era luxuoso. Dirigiram-se at a recepo. 
Aps algumas palavras de Isaas, o gerente deu a ele duas chaves. Isaas entregou uma para Walther e os dois subiram juntos para o terceiro andar, onde ficavam os 
quartos'. Assim que entrou, Walther jogou a maleta em cima de um sof e atirou-se sobre cama. Estou realmente cansado, praticamente j no durmo h dois dias, mas 
no perdo meu tio por ter adiado a conversa que parecia ser to importante. Ficou ali deitado, tentando adivinhar o que de to importante havia acontecido. Cansado 
de pensar a respeito, levantou, foi para o banheiro, tomou um banho. Saiu do banheiro, vestiu a roupa, desceu para encontrar Isaas. Almoaram no restaurante do 
hotel. Aps o almoo, voltou para o quarto, deitou, no resistiu, adormeceu. Acordou, no sabia dizer por quanto tempo havia dormido. Olhou para o relgio, eram 
seis horas da tarde, s a percebeu que estava com fome. Resolveu sair para comer alguma coisa. Quando estava saindo do quarto, a porta do quarto ao lado do seu 
se abriu. Era Isaas que ia justamente cham-lo para o jantar. Ao ver Walther, disse:
- Estava indo para o seu quarto. Acredito que esteja na hora de comermos algo. No est com fome?
- Estou sim, estava saindo justamente para isso. Aonde poderemos ir?
- No almoo, sabia que estava cansado, por isso almoamos aqui no Hotel, mas agora, se quiser sair e ir a qualquer outro restaurante da cidade,  s falar.
- No quero ir a lugar algum. Ainda estou muito cansado. A viagem foi muito cansativa. Alm do mais, no estou com cabea para passear. Se no se importar, prefiro 
comer aqui mesmo. Amanh, aps conversar com meu tio, visitarei a cidade. Hoje  quinta-feira. Minha passagem de volta est marcada para a segunda-feira, terei muito 
tempo para visitar a cidade. Ela no me parece ser muito grande.
- Tem razo, posso lhe fazer uma confisso? S o convidei por educao, mas tambm estou cansado. J no sou mais um jovem. Amanh, vou levar voc a muitos lugares.
Dirigiram-se para o restaurante. Walther pegou o cardpio, fez o pedido, Isaas fez o mesmo. Enquanto esperavam pela comida, Walther disse:
- O senhor sabe o resto da histria que meu tio tem para me contar?
- Sei, fui companheiro dele quando trabalhvamos no garimpo. Vivi ao seu lado durante o drama todo.
- Drama? Drama? Ento algo muito grave deve ter acontecido! Eu fao parte desse drama?
- Faz sim, mas no posso lhe adiantar nada, no tenho esse direito. Ele, s ele, quer lhe contar tudo e contar. S posso lhe pedir que no faa um julgamento precipitado. 
Sei que talvez ser difcil aceitar o que aconteceu. Lembre-se, porm, de que aquele era um outro tempo. Por enquanto, vamos comer e descansar, amanh ser outro 
dia.
- Dizendo isso, faz com que a minha curiosidade fique cada vez mais aguada!
- No era essa a minha inteno. Por hoje, vamos descansar, amanh o sol vai raiar novamente, e com a ajuda de Deus, saber de tudo. Amanh, ser um novo dia.

A HISTRIA DE PAULO

Walther percebeu que no conseguiria saber nada atravs de Isaas. Mas aquelas ltimas palavras, fizeram com que ficasse ainda mais preocupado. Pensou: Por que minha 
me teve que esconder de meu pai que se correspondia com Paulo? Ser que existiu alguma coisa entre eles? Ser que foram mais que amigos? Se assim foi, e eu? Que 
papel fao nessa histria? Estava atordoado. Lembrava agora de algumas cenas de sua infncia: Muitas vezes, vi minha me chorando pelos cantos. Lembro-me de uma 
vez em que eu tive pneumonia, estava com muita febre e ela, pensando que eu estivesse dormindo, disse, chorando:
- Meu Deus do cu. No permita que o meu filho morra! Ele  tudo que tenho nesta vida. No o castigue por causa do meu pecado.
O garom trouxe a comida. Sua presena fez com que Walther voltasse dos seus pensamentos. Disse:
- Estou admirado com a quantidade de comida! Nunca vi tanta assim em outro restaurante qualquer!
Isaas apenas sorriu. Comearam a comer. Walther no se cansava de elogiar a comida. Aps terminarem o jantar, foram para seus quartos. Walther, deitado em sua cama, 
comeou a relembrar a sua vida: Que de to importante pode ter acontecido? Fui uma criana normal, minha famlia era ou parecia normal como todas as outras. Pensando 
bem, mame sempre me pareceu muito calada, principalmente na frente de papai. S agora estou pensando. Por que no tive irmos? Sempre que perguntava isso, mame 
desviava o assunto ou dizia que s eu lhe bastava, que no queria ter outros filhos. Bem, no adianta querer adivinhar, vou tentar dormir. Amanh saberei de tudo. 
Acomodou-se melhor na cama e, aos poucos, sem perceber, adormeceu. Sonhou que estava em uma casa muito grande, corria pelos corredores procurando algum. Via, ao 
longe, um vulto de mulher que lhe sorria e corria. Ele ia atrs, mas no conseguia alcan-la. De um pulo, acordou. Sentou na cama, lembrou-se nitidamente do sonho 
e da mulher, mas no do seu rosto. Apenas sabia que ela fugia dele. Ficou intrigado com aquele sonho, mas logo o cansao o dominou, ele tornou a deitar e dormiu 
novamente. Paulo, em seu quarto, na clnica, tambm dormia. Em seu rosto havia uma expresso rspida. Tambm sonhava. S que seu sono no era tranqilo. Sonhava 
que corria, corria, tambm tentava encontrar algum. Acordou suando frio. Sentou-se na cama, em seu pensamento surgiu aquele rosto de mulher que chorava muito. Essa 
cena o acompanhava h muito tempo: Amanh vou contar tudo e me livrar desse pesadelo. Aquela noite passou como todas as outras. Walther abriu os olhos, olhou para 
o relgio. No eram ainda seis horas. Um novo dia surgia. Levantou, foi at a janela, afastou a cortina, abriu a vidraa. Viu o sol que comeava a nascer e o dia 
clarear. Viu ao longe a montanha verde e colorida por flores com matizes diferentes. De onde estava, vendo tudo aquilo, no se conteve. Falou em voz alta:
- Este pas  realmente muito bonito! Aqui, vendo estas montanhas, parece que fao parte da natureza!
Foi para o banheiro, tomou um banho. Vestiu a primeira roupa que pegou na maleta. Voltou para a cama, precisava esperar Isaas vir cham-lo, pois haviam combinado 
que tomariam caf antes de irem para a clnica. Ele estava ansioso, sabia que finalmente tomaria conhecimento daquela histria que tanto o estava intrigando. Continuou 
deitado, tentando dormir novamente, mas foi em vo. No percebeu quanto tempo passou, at ouvir uma batida  porta. Levantou, abriu a porta. Era Isaas que, sorrindo 
disse:
- Bom dia! Dormiu bem?
- Bom dia, dormi muito bem, mas estou ansioso para conversar com meu tio.
- Entendo, vamos primeiro tomar caf, depois iremos. Ele tambm deve estar ansioso nos esperando.
Realmente, Paulo havia acordado, chamou o enfermeiro, pediu que o ajudasse a tomar um banho e lhe fizesse a barba. Aps fazer isso, pediu que o sentasse na cadeira.
- O senhor no deve ficar muito tempo sentado. Sabe que est muito fraco, sabe, tambm, que hoje sentir muita emoo. No seria melhor ficar deitado? Ficaria mais 
confortvel.
- No se preocupe, estou e vou ficar bem. Esperei muito tempo por este dia. Enquanto estiver conversando com o Walther, quero olhar em seus olhos. Quero ver sua 
reao enquanto estiver ouvindo tudo que tenho para lhe contar. Se eu estiver deitado, isso ser muito difcil.
- Est bem, mas ficarei atento a fora, qualquer coisa basta chamar. Estou muito preocupado com o senhor.
- Voc  um verdadeiro amigo. No se preocupe, ficarei bem.
Sentado em sua cadeira, Paulo ficou com os olhos presos  porta. Esperava ansioso por Isaas e Walther. Pensava: Assim que eles chegarem, vou tentar falar com a 
maior calma que conseguir, para isso preciso da ajuda espiritual. Senhor, permita que eu consiga contar tudo sem omitir fato algum. A porta abriu, por ela entraram 
Walther e Isaas. Paulo sorriu:
- Bom-dia, finalmente chegaram!
- Voc est muito ansioso, no so ainda nem oito horas!
- Acordei muito cedo. Hoje  um dia importante e esperado. E voc, Walther, como est? Dormiu bem?
- Estou bem, embora um pouco nervoso, mas mesmo assim dormi muito bem.
- No precisa ficar nervoso, sente-se aqui na minha frente. Isaas, sente-se tambm. Quero que permanea ao meu lado.
Os dois obedeceram, Walther puxou uma cadeira e sentou bem em frente a ele. Isaas fez o mesmo. Por alguns segundos, Paulo ficou calado, olhando para o rosto de 
Walther. Finalmente, disse:
- Meu filho, o que vai ouvir hoje talvez transforme a sua vida. Preciso que me responda algo. O que sabe sobre a sua famlia aqui no Brasil?
- No sei nada, minha me nunca quis falar a esse respeito. S sei que nasceu no Cear, aqui no Brasil, e que no tinha uma famlia. S soube que ela tinha um amigo 
que considerava como irmo, o senhor, um pouco antes da sua morte.
Paulo voltou ao passado e, olhando, bem dentro dos olhos de Walther, comeou a falar:
- Meu pai e meu tio, irmo dele, herdaram de meu av uma quantidade expressiva de terra no serto do Piau. Eles prprios foram nascidos e criados ali. Tanto meu 
pai quanto meu tio tinham muitos filhos. Para o sertanejo, ter muitos filhos era importante, pois teriam muitos braos para a lavoura. Eu tinha quatro primos e duas 
primas, trs irmos e quatro irms. Ao todo, ramos quatorze crianas. Morvamos todos juntos em uma mesma casa. Meu pai e meu tio, por estas coisas do destino, 
se casaram com duas irms. Eles as conheceram em uma festa, das muitas que havia na Vila. A casa em que morvamos, embora simples, era grande e aconchegante. Havia 
muitos quartos e janelas, que se abriam todas as manhs para receber os raios do sol. Vivamos em perfeita harmonia. As crianas eram todas mais ou menos da mesma 
idade. Nas terras, tnhamos plantao de feijo, milho, mandioca e muitas hortalias. Tnhamos tambm algumas cabeas de gado que nos forneciam leite, manteiga e 
queijo. Sua me, aos quinze anos, tornou-se uma mocinha linda com seus cabelos negros e compridos.
- Minha me? Mas ela sempre disse que no tinha famlia! Que nasceu no Cear!
- Tenha calma, logo entender tudo. Fomos todos crescendo juntos. Todos nos considervamos como irmos. A medida que amos tomando corpo, j ajudvamos na lavoura 
ou no gado.
Paulo falava sem parar, s que agora seus olhos estavam distantes. Parecia que contava a histria para si mesmo. De repente, voltou a olhar para Walther. Lembrou-se 
que ele estava ali. Continuou:
- Em uma manh, estvamos colhendo mandioca que se transformaria em farinha, uma parte serviria para nosso alimento e o restante seria vendido na Vila. Sua me estava 
tentando tirar uma mandioca, mas a raiz era muito grande e estava bem enterrada. Por mais fora que ela colocasse, no conseguia tirar, chamou um dos primos:
- Venha me ajudar! Esta mandioca  muito grande e no estou conseguindo tirar.
- O primo atendeu prontamente, e os dois comearam a tirar com as mos a terra que estava envolvendo a mandioca. De repente, as mos se tocaram, ambos sentiram como 
um arrepio passando por seus corpos. Um olhou nos olhos do outro, no entendiam o que estava acontecendo, mas notaram que aquilo que sentiram era estranho. Ficaram 
se olhando por alguns minutos. Sua me levantou e saiu correndo em direo  casa. O primo, ainda em estado de espanto, a acompanhou com os olhos. Ela entrou em 
casa, correndo. Estava vermelha. Minha me, ao v-la daquela maneira, perguntou:
- O que aconteceu, menina?
- Ela voltou a si, respondendo:
- No foi nada, s fiquei com vontade de voltar para casa, estou com dor de cabea. Vou para o quarto me deitar um pouco, logo vou ficar bem.
- Deve ser o sol, est muito quente. V deitar, vou lhe fazer um ch e levarei em seguida.
A prima foi para o quarto, sem dizer nada. Deitou e comeou a relembrar o acontecido. Que foi aquilo? Que significa tudo isso? Que vontade foi aquela que senti de 
me atirar nos braos dele e o beijar? Isso no pode ser!  meu primo!  como se fosse meu irmo... Ficou ali deitada, pensando na cena que havia vivido. O primo 
tambm no conseguia esquecer. Isso no pode estar acontecendo! Ela  minha prima, nunca poderemos nos casar, nossos pais no permitiro. Temos praticamente o mesmo 
sangue! Mas o que senti no tem explicao. Eu a estou desejando, sinto que o meu corpo quer o dela! Meu Deus! O que vou fazer? Ao meio-dia, todos voltaram para 
o almoo. Sua me continuava no quarto. Minha me lhe levara o ch que ela tomou, sem reclamar. O primo entrou em casa e a procurou. No a vendo perguntou para minha 
me:
- Onde est a prima?
- Est no quarto, mas por que est perguntando? Aconteceu alguma coisa?
- No! Nada! Ela saiu da lavoura correndo, fiquei preocupado.
- Ela disse que est com dor de cabea. J lhe dei um ch, deve estar melhor, vou ver se ela quer comer algo. 
Sua me continuava deitada, no sabia o que fazer ou como encarar o primo. Sentia que no poderia mais olhar aqueles olhos:
- Estou com medo de o encarar, no sei qual vai ser a minha reao, e a dele? Mas no posso ficar aqui, tenho que ir almoar com os outros.
Esperou mais um pouco, levantou, olhou para o espelho e pela primeira vez ficou com vontade de se arrumar, penteou os cabelos e os prendeu com uma fita. Foi para 
a sala onde todos j estavam sentados. Entrou, evitando olhar para o primo. Ele, ao contrrio, a olhava com admirao. Ela almoou junto com os outros, como se nada 
houvesse acontecido. A tarde, voltou para a lavoura, continuou evitando olhar para seu primo, mas no conseguia, seus olhos o procuravam. Ele tambm a evitava, mas 
assim, igual a ela, tambm no conseguia, era impossvel. De vez em quando, os olhos se cruzavam. Imediatamente, eles os desviavam. Isso durou muito tempo. Os dois 
procuravam se distanciar, pois ambos sabiam que se chegassem perto, no conseguiriam suportar e um se atiraria nos braos do outro. Por mais que tentassem, no conseguiram. 
Em uma tarde, quando ela voltava mais cedo da lavoura, encontrou seu primo que dirigia as vacas de volta para o curral, onde passariam a noite, aps terem estado 
o dia todo pastando. Quando se encontraram, ficaram se olhando. Sem perceber, foram se aproximando e logo um estava nos braos do outro. Ali naquele mesmo lugar, 
tendo o gado como testemunha, se entregaram ao amor. O amor entre os dois foi mais forte. Por isso, sempre que podiam, davam uma escapada e se encontravam. Sabiam 
que o casamento nunca seria abenoado por seus pais, mas nada importava. Eles se amavam, e muito. Esses encontros duraram por mais ou menos trs meses. Paulo parou 
de falar. Pediu a Isaas que lhe desse um pouco de gua. Assim que terminou de beber, continuou:
- J estava sem chover h dois anos. A seca comeou a assolar nossas terras. A lavoura foi secando. Estvamos comeando a passar por dificuldades. A famlia era 
muito grande, o alimento comeou a rarear. Sabamos que precisvamos fazer algo para mudar aquela situao, ou melhor, para sobreviver. Meu irmo mais velho que 
eu dois anos, o Luiz, chegou da Vila com uma novidade:
- Estive conversando com o Dinei. Ele disse que veio um homem l de Gois e que ele est procurando homens de qualquer idade para trabalhar em um garimpo. Estive 
pensando que ns, os mais velhos da famlia, poderamos ir. Parece que h chance de se ganhar muito dinheiro.
- Tanto minha me como minha tia levantaram e quase juntas disseram:
- Est louco? No queremos separar a nossa famlia! Sempre estivemos juntos e pretendemos que continue assim!
Meu irmo, sem perder a calma, disse:
- Esperem um pouco, no vamos nos separar para sempre. Ns vamos na frente. Vamos arrumar uma casa e em breve todos iro. O que a gente no pode  continuar aqui 
sem saber se vamos ter o que comer amanh!
Minha tia olhou para minha me. Falou:
- No sei, mas ao mesmo tempo em que no quero que a gente se separe, acho que ele tem razo...
-  isso que estou dizendo, me. A gente no sabe se vai chover, se vamos ter novamente a nossa lavoura bonita como antes. J que surgiu essa chance, acho que devia 
tentar. No sei o que os outros pensam, mas eu estou pronto para ir.
Todos se olharam, Walther. Os rapazes se entusiasmaram. Sua me olhou para o primo, que tambm a estava olhando. Ele no sabia o que fazer. Ela estava com medo que 
ele aceitasse aquela idia. Finalmente, aps algumas discusses, resolveram que os rapazes mais velhos iriam na frente. Assim que conseguissem uma casa, o resto 
da famlia os seguiria, desde que no chovesse. Se a chuva voltasse, teriam que retornar. A prima e o primo ficaram desesperados, no queriam se separar. Conseguiram 
conversar sem que os outros percebessem. Ele disse:
- Tenho que ir, preciso seguir os outros. No vou ter desculpa para no ir, mas no se preocupe, assim que conseguirmos a casa, todos iro. O que no podemos  ficar 
aqui, nos arriscando a morrer de fome. Se existe essa chance, a gente tem que tentar.
- Sei que voc tem razo, mas tenho muito medo que me esquea....
- Nunca vou esquecer voc. Amo voc! Tem que acreditar nisso! Vou trabalhar feito um louco para conseguir uma boa casa! Fique tranqila, vai estar em meus pensamentos 
todos os minutos da minha vida.
Ela sabia que no havia outro meio, s lhe restou concordar. Em uma manh, ns nos despedimos da famlia e partimos rumo  Vila. L, junto com outros rapazes, tomaramos 
um caminho que nos levaria at o garimpo. Fomos todos amontoados uns sobre os outros. A viagem foi demorada e sofrida, mas em cada corao, havia a esperana de 
dias melhores para todos. Aps alguns dias de viagem, finalmente chegamos  pequena cidade. Ficamos um dia l, tomamos banho, comemos alguma coisa e dormimos no 
prprio caminho. No dia seguinte, partimos para o garimpo. Quando chegamos, ficamos espantados com a quantidade de homens, que estavam com ps e picaretas cortando 
a montanha. Fomos apresentados a um feitor que nos deu uma p e uma picareta. Ensinou o trabalho e o lugar onde deveramos comear. O trabalho era pesado. Durante 
o dia todo, amos cortando a montanha. Quando era encontrada qualquer coisa que brilhasse, tnhamos que separar com as mos e colocar em um saco.  tarde deveramos 
lavar e passar na peneira aqueles torres de terra, separar tudo o que poderia ser precioso. Esse material era entregue a um americano que pesava e pagava aos garimpeiros. 
A noite, dormamos em barracas. Uma vez por semana, amos at a Vila. L existia um pequeno hotel. Em uma casa l perto, havia moas que estavam ali para servir 
sexualmente os garimpeiros. Com elas, eles gastavam quase todo o dinheiro que haviam recebido do americano, que, por sinal, tambm era o dono do hotel. Enquanto 
Paulo falava, Walther pensava: Essa histria no tem nada a ver com aquela que mame contava... Paulo, com os olhos perdidos no passado, continuava. A vida no garimpo 
no era fcil, o sol era sempre muito quente, o calor insuportvel. Trabalhvamos muito, mas raras vezes encontrvamos algo que valesse algum dinheiro. Estvamos 
j h quatro meses no garimpo, mas at agora no havamos conseguido dinheiro suficiente para alugarmos uma casa e assim trazermos o resto da famlia, que estava 
no Piau. Em um sbado, ao voltarmos para a Vila, recebemos uma carta que chegou durante a semana. A carta foi entregue a um dos meus primos, o nico que sabia ler. 
Todos ns o rodeamos para ver o que ela dizia. Ele leu o remetente, viu que ela vinha de casa. Abriu rapidamente e todos acompanhvamos ansiosos por notcias. Ela 
havia sido escrita por uma de nossas vizinhas, pois, em casa, ningum sabia ler ou escrever.

Queridos filhos e sobrinhos,

Pedi pro seu Jos da barbearia deixar a mulher dele escrever esta carta pra dizer que graas ao nosso bom Deus, a chuva chegou. Ela veio forte e hoje o rio e o aude 
esto cheios. J estamos plantando, mas precisamos de vocs pra ajudar a gente. Podem voltar, pois tudo vai voltar a ser como era antes. A gente vai poder viver 
bem de novo. Seu pai e seu tio, que muito os ama, Josildo.

- No sei como explicar a alegria que sentimos. Ns nos abraamos, danamos e rimos. Durante todo o tempo, estivemos sempre trabalhando muito, mas a nossa maior 
preocupao era com aqueles que ficaram naquela terra seca e triste. Sabamos, agora, que eles estavam bem novamente. Todos sentimos uma sensao de muita felicidade.
- Assim que terminou de ler a carta, e toda aquela nossa euforia passou, meu primo disse:
- No sei o que vocs vo fazer, mas eu estou arrumando as minhas coisas e vou voltar pra nossa casa. Esse foi o trato que a gente fez com nossos pais. Cada um faz 
o que quiser.
Todos seguiram o exemplo dele, e foram arrumar suas coisas, acertaram as contas com o americano. Alguns tinham dinheiro para receber, outros estavam devendo. Todo 
o dinheiro que havia foi dividido, as contas foram pagas, por isso estavam livres para voltar. Eu tambm participei com minha cota de dinheiro. Quando todos estavam 
prontos para ir, eu disse:
- No vou com vocs. Pretendo ficar aqui, pois tenho certeza que vou encontrar uma pedra grande, que vai me dar todo o dinheiro que preciso pra mudar a nossa vida 
e a gente no vai ficar mais dependendo do sol e da chuva.
Eles me olharam sem acreditar no que estavam ouvindo. Luiz, meu irmo, falou:
- Voc est bem certo dessa deciso?
- Estou. Vou ficar aqui e encontrar a pedra.
- Sabe muito bem que isso  quase impossvel. Mesmo que encontre essa pedra, o americano no vai lhe pagar o valor certo. L em casa, todos juntos e agora com gua, 
a gente pode viver com mais segurana.
- At quando, Luiz? Que a gente vai fazer quando a seca voltar? Ser que a gente vai ter outra chance de voltar pra c?
Todos me olhavam, pois no fundo sabiam que eu estava com razo. Eles sabiam que dependiam da natureza, do sol e da chuva. Ningum poderia ter certeza se no prximo 
ano choveria novamente ou no. Aquela regio em que morvamos era assim. Todos sabiam. Mas resolveram partir e tentar novamente. Ao menos estariam ao lado da famlia. 
Abracei e fui abraado por eles. Entenderam o meu pensamento e deixaram bem claro que eu poderia voltar a qualquer momento, pois me receberiam com muito carinho. 
Eu sabia disso. Amava aquela famlia. Eles foram embora. Eu, pela primeira vez, fiquei sozinho. Senti alguma insegurana, mas tinha a certeza de que encontraria 
aquela pedra enorme que nos daria a liberdade financeira, sabia que com ela poderia dar toda a felicidade que a minha famlia merecia. Entreguei-me ao trabalho com 
afinco. Usava toda a minha energia de jovem e ia loucamente cortando aquela montanha, pois eu sabia que em algum lugar aquela pedra estava esperando que eu a encontrasse. 
- Isaas, voc lembra desse tempo?
- Claro que sim, Paulo! Foi naquele tempo que nos conhecemos. Com a partida dos seus, voc ficou s. Depois de algum tempo, ns nos tomamos amigos. Preciso lhe confessar 
meu amigo: Sempre senti muito orgulho de sua amizade... Paulo sorriu, sem nada dizer.
Walther ouvia tudo com muita ateno. Ficava cada vez mais intrigado, pois aquele homem falava de sua famlia com muito amor, carinho e saudade. Ao contrrio de 
sua me, que dizia no ter famlia. Paulo recomeou a falar, mas uma tosse muito intensa o atacou. Ele levou o leno  boca, e uma mancha vermelha apareceu. Isaas 
se assustou, apertou a campainha e em poucos minutos o enfermeiro entrou, dizendo:
- Avisei ao senhor que no podia falar e ficar muito tempo sentado. Veja no que resultou sua teimosia. Agora, vai voltar para a cama, vou lhe aplicar uma injeo. 
Por hoje, no vai falar mais nada, vai ficar quieto. Suas visitas entendero.
Walther se frustrou, pois estava interessado no resto da histria. No entendia o motivo pelo qual sua me havia lhe ocultado tudo aquilo, mas teve que concordar 
com o enfermeiro. Seu tio realmente estava tendo uma crise e merecia cuidados. Atendendo a um sinal do enfermeiro, os dois se despediram de Paulo e saram. O enfermeiro 
acomodou Paulo na cama e sobre o protesto dele lhe aplicou uma injeo. Logo em seguida, a tosse passou e ele adormeceu. Ao seu lado, um vulto de mulher estendia 
as mos sobre todo o seu corpo e em especial na regio do pulmo. De suas mos saam pequenas luzes que o envolviam por inteiro. Ele, adormecido, comeou a sonhar. 
Estava naquele lugar novamente. Buscava algum, mas no encontrava. Corria por corredores, mas de nada adiantava. No encontrava. Seu corao comeou a bater muito 
rpido, o enfermeiro se assustou, chamou o mdico. O mdico entrou correndo, fez tudo para que Paulo acordasse, mas foi em vo. Aps tentar muito, finalmente disse:
- Pode parar. No adianta fazer mais nada, ele se foi. Preparem tudo e avisem a famlia.
O enfermeiro, embora acostumado com aquela cena, no conseguiu evitar duas lgrimas que insistiam em cair. Ele se acostumara com aquele paciente, que aos poucos 
foi se tornando seu amigo. Sabia que Walther e Isaas chegariam logo pela manh. Sabia tambm que teria que cumprir a misso que Paulo havia lhe deixado.

MUDANA DE PLANOS

Walther acordou cedo. Estava ansioso para voltar ao hospital e ouvir o resto da histria. Estava confuso com o que ouviu at ali. Enquanto se preparava para sair, 
pensava: Estranho, tudo que meu tio contou at agora est muito distante daquilo que eu sabia. Por que minha me mentiu a respeito da sua famlia? Que mistrio existe 
por trs de tudo isso? Levantou, tomou um banho. Estava terminando de se trocar, quando ouviu uma batida em sua porta. Abriu, era Isaas que j estava pronto:
- Bom-dia! Espero que tenha dormido bem, embora nesta noite o calor tenha sido insuportvel!
Walther sorriu, respondendo:
- Bom-dia. Se morasse em um pas frio igual ao meu, com certeza no reclamaria de um calor maravilhoso como este.
- Talvez tenha razo, mas j est pronto? Paulo deve estar ansioso nos esperando.
- Estou as duas coisas, pronto para ir e tambm ansioso.
- Ento, vamos?
Saram em direo ao restaurante do hotel. Aps tomar um caf rpido, pegaram um txi. Rumaram para a clnica. Assim que entraram, a recepcionista saiu de trs do 
balco e veio em direo aos dois:
- Senhor Isaas, antes de entrar no quarto, preciso conversar com os senhores. Podem, por favor, me acompanhar?
Os dois, intrigados, se entreolharam. Ela abriu uma porta e os fez sentar. Tentando disfarar o nervosismo, comeou falar:
- Infelizmente, o senhor Paulo teve uma crise muito forte e no resistiu...
Os dois se levantaram ao mesmo tempo Walther quase gritou:
- Como no resistiu? Que aconteceu?
- Por favor, senhor, se acalme. Sabamos que a situao dele no era boa. Estvamos esperando que a qualquer momento isso acontecesse.
Walther no se conformava:
- No poderia ser agora! Ele tinha muito para me contar! Estou cheio de dvidas! Ele no podia ter feito isso comigo! Isaas, o que vou fazer agora? Como saberei 
o resto da histria?
Isaas, com lgrimas nos olhos, respondeu:
- Deus sabe sempre o que faz, precisamos acreditar nessa sabedoria.
- Que sabedoria? Eu estava tranqilo, vivendo a minha vida! No tinha preocupao alguma com respeito  minha infncia! Hoje, estou cheio de dvidas! Ele no podia 
ter feito isso comigo! No podia!
Isaas o abraou, dizendo:
- Voc tem razo de estar revoltado, mas volto a lhe dizer, Deus  quem sabe de tudo. Se voc est aqui neste momento, algum motivo deve existir. No sabemos ainda 
qual , mas saberemos. O que precisamos agora  fazer uma orao para que a alma dele seja encaminhada para um bom lugar e cuidarmos para que seu corpo seja enterrado 
dignamente.
Walther, embora um pouco irritado, foi obrigado a concordar. Nada mais poderia ser feito alm disso. No disse nada, mas pensou: Vou enterr-lo, depois voltarei 
para o meu pas e continuarei a minha vida, fazendo de conta que nada disso aconteceu. Tudo o que ouvi no me acrescentou nada, a no ser uma srie de dvidas sobre 
aquilo que sabia at agora. Deveria ter continuado assim. Mas no vou me deixar envolver por isso. Tenho um trabalho me esperando. Tudo vai ser como era antes. S 
sinto no ter tido mais tempo para conversar com ele. Pareceu ser uma boa pessoa.  Isaas e Walther, acompanhados pela recepcionista, foram at o quarto, onde o 
corpo de Paulo ainda permanecia. Assim que entraram, encontraram o enfermeiro, que estava junto ao corpo de olhos fechados, rezando. Isaas entrou na frente, tocou 
no ombro dele, que voltou a cabea, e ao v-los levantou-se e se afastou. Os dois se aproximaram. Walther, embora conhecesse Paulo h to pouco tempo, sentiu uma 
enorme tristeza. Isaas colocou a mo sobre a cabea do amigo, dizendo:
- V, meu amigo, siga o seu caminho. No se preocupe com mais nada, daqui para a frente, s tem que encontrar a luz. Que Deus o ajude e o ilumine para que chegue 
logo ao seu lugar.
Walther ouvia aquelas palavras, no entendia a profundidade delas. Fora criado em um pas capitalista, onde o dinheiro e a posio tinham uma grande importncia. 
Nunca teve educao religiosa. Seu pai sempre fora preocupado com o trabalho, viajava muito, quase no o via. Sua me, embora se dissesse catlica, nunca lhe ensinou 
nada sobre a religio. Algumas vezes ia com ela  igreja, assistiam  missa, nada alm disso. Por isso no entendia nada daquilo, nem reconhecia essa sabedoria de 
Deus, de que Isaas lhe falara. Aps falar com Paulo, Isaas se voltou para Walther, dizendo:
- O melhor que tem a fazer  voltar para o hotel ou se preferir pode dar um passeio, conhecer a cidade. Pode deixar que eu cuido de tudo por aqui. Ele era meu amigo, 
quase um irmo.
Walther, embora ainda um pouco atordoado, concordou com a cabea. Queria sair dali o mais rpido possvel. Quando estava saindo, sentiu uma espcie de vertigem. 
Se o enfermeiro no o amparasse, teria cado:
- O senhor no est bem, acredito ser melhor que me acompanhe.
Walther olhou para ele, sentiu uma profunda confiana naquele desconhecido. Acompanhou-o sem relutar. Foi conduzido at uma lanchonete que havia ali. O enfermeiro 
pediu ao garom um suco de laranja, dizendo para Walther:
- O senhor deve ter tido uma queda de presso. O suco vai lhe fazer bem.
- Pode ter sido isso mesmo. No estou acostumado com ambiente de hospital, muito menos com mortos, nunca antes tinha visto um sem maquiagem e no caixo enfeitado 
com flores. Aquela palidez do seu rosto, parecendo no lhe restar nem um fio de sangue, me impressionou muito.
- Entendo, mas procure esquecer aquela cena. Ali s estava o corpo, seu esprito, se Deus quiser, j deve estar sendo encaminhado.
- Esprito? Encaminhado? No estou entendendo o que est dizendo!
- Quando morremos, deixamos tudo aqui na terra, inclusive o nosso corpo. Nosso esprito empreende um vo de volta para a nossa ptria verdadeira.
- Ptria verdadeira? Esprito? Continuo entendendo menos ainda!
- No se preocupe com isso, entendendo ou no, um dia todos retornaremos. Queira Deus que vitoriosos.
Walther no entendia, mas tambm no estava interessado naquela conversa. Estava ali conversando com um homem estranho, um enfermeiro que acabara de conhecer, mas 
que, com certeza, sabia muito a seu respeito, j que era amigo de seu tio. Disse:
- A nica coisa que quero neste momento  voltar para minha terra e recomear de onde parei. Esta viagem foi intil.
- Nada que acontece em nossa vida  intil. No pode negar que conheceu esta bela cidade e o pas onde nasceu.
- Nisso o senhor tem razo, mas sinto que no poderia viver aqui para sempre.
- O senhor no teve ainda tempo de conhecer este pas. Aqui existem muitos lugares bonitos. As pessoas so calorosas e afetuosas.
Walther sorriu:
- Sabe que estou gostando muito de conversar com o senhor! Estamos aqui conversando h tanto tempo e ainda no sabemos o nome um do outro. Meu nome  Walther, e 
o seu?
O enfermeiro tambm sorriu:
- Muito prazer, senhor Walther, mas eu j conhecia o seu nome. O senhor Paulo falava muito a seu respeito. Estava ansioso por sua visita. Meu nome  Olavo, a seu 
dispor!
- Agora ficou melhor! J que disse que o povo aqui  afetuoso, vamos deixar essa de senhor para l. Quero que me chame apenas de Walther.
Olavo sorriu, dizendo:
- Isso mesmo, vamos terminar com essa cerimnia. Conheci muito bem o seu tio. Ele conversava comigo sobre vrias coisas, inclusive muito a seu respeito.
- A meu respeito? O que ele dizia?
- Que no podia morrer sem lhe contar toda a verdade. Por isso ficou to feliz quando soube que chegaria. Parecia que estava esperando a sua chegada para se entregar 
 morte.
- Se ele tivesse esse poder, no teria morrido antes de me contar tudo!
- Talvez o seu poder no fosse tanto. Acredito que, na realidade, ele queria apenas lhe conhecer.
- Por que isso? Por que ele queria tanto me conhecer?
- Isso no sei. S sei que quando falava a seu respeito, era sempre com muita dor. Cada vez que falava sobre voc e sua me, seu rosto se crispava.
- Isso  o que est me intrigando. O pouco que contou no esclareceu nada, apenas levantou dvidas. A histria que me contou  totalmente diferente da que minha 
me contava. Um dos dois estava mentindo. No sei qual dos dois, ou por que!
- Tiveram com certeza seus motivos. O que lhe d certeza de que estavam mentindo? Talvez ambos estivessem dizendo a verdade...
- No sei... S sei que preciso voltar para o meu pas e o meu trabalho. Vou tentar esquecer tudo o que aconteceu aqui.
- O seu pas  este aqui!
- Talvez seja, por um motivo qualquer nasci aqui, mas no me sinto brasileiro, fui criado nos Estados Unidos. Minha casa, trabalho e amigos esto todos l. No sei 
se conseguiria viver aqui...
- O futuro a Deus pertence, tudo ser do modo como tiver que ser...
- Voc fala muito em Deus, eu ao contrrio, acredito em planejamento. Eu planejei a minha vida at aqui e assim ser sempre. Deus nunca teve e no tem nada a ver 
com isso.
- Voc se engana, meu filho, no planejamos nada, tudo acontece como tem que ser. Nossas vidas so planejadas sim, mas por uma fora maior, que nos leva para onde 
devemos ir. No  por acaso que veio para c, algum motivo deve ter, e logo ficar sabendo que motivo  esse...
Walther no conseguia acompanhar o raciocnio de Olavo. Sua educao havia sido diferente de tudo aquilo. Por isso, cada palavra dita era novidade. Seus pensamentos 
estavam confusos. Sua vida toda, para ele, agora, era um mistrio. Terminaram de tomar o suco. Olavo levantou, bateu de leve com a mo sobre o ombro de Walther, 
dizendo:
- Meu amigo, preciso voltar ao meu trabalho, o melhor que a fazer agora  voltar para o hotel ou dar umas voltas pela Tem razo, vou fazer isso, espero que tudo 
se resolva hoje, na segunda-feira preciso viajar, meu vo j est marcado.
- Vai viajar mesmo? 
- Claro que sim! Tenho que voltar ao meu trabalho!
- Faa o que achar melhor. At logo...
Walther saiu da clnica. Seus pensamentos estavam conturbados, no entendia o porqu de tudo aquilo. O dia estava lindo, o sol estava alto e brilhava de uma forma 
diferente da que sempre conhecera. A cidade no era muito grande, o hotel ficava a algumas quadras dali. Ele resolveu no pegar um txi, preferiu ir caminhando. 
Enquanto caminhava, olhava para as construes. Notou que em todos os jardins havia muitas flores com cores diferentes que enchiam seu corao de muita paz. Ficou 
admirando tudo o que via. Seu pensamento voava. Parou em um determinado lugar. Dali podia ver algumas casas que ficavam em uma espcie de vale. Ficou parado, olhando 
e pensando: Como tudo aqui  bonito! Em meu pas, devem existir lugares bonitos como este, s que nunca tive tempo para conhec-los. Sempre estudei e trabalhei muito. 
A nica coisa que meus pais queriam era que eu estudasse e me formasse. Queriam que eu me tornasse um homem independente financeiramente, mas mame sempre me dizia 
das belezas da natureza, s quais eu deveria prestar ateno. Continuou andando em direo ao hotel, pensando: Sinto que ainda terei muitas surpresas aqui. Meu tio 
no poderia ter morrido aps ter levantado expectativas diferentes sobre a minha vida. Por que ser que mame mentiu? Estava com fome. Seu tio havia morrido, mas 
na realidade ele no sentia nada. Para ele, esse tio era como um estranho, s sentia que, com a sua morte repentina, deixara de contar algo que talvez lhe interessasse, 
mas isso tambm no o preocupava mais. Restava s uma esperana: Talvez agora o Isaas me conte o resto da histria, engraado. Parece que meu tio no temia a morte. 
Mame, assim Que tomou conhecimento da sua doena, ficou com muito medo, mas logo aps comeou a se voltar para a religio. Foi a vrios lugares. Por muitas vezes 
a vi ajoelhada e rezando. Um dia, ela me chamou em sua casa. Assim que cheguei, disse:
- Sabemos que a minha doena no tem cura, meu filho. Procurei em vrias religies um modo de me curar, no queria morrer. Sou ainda muito jovem, queria voltar para 
o Brasil, rever toda aquela beleza da natureza que Deus nos presenteou. Procurei, mas percebi que apesar de toda a minha f e tratamento, estou ficando cada vez 
pior. Uma de minhas amigas me emprestou um livro.
- Que encontrou nesse livro que a deixou to animada? Por acaso a cura de sua doena?
- No! Ao contrrio, me ensinou que a morte no existe! Que apenas morremos aqui e nascemos ali. Mudamos de dimenso, assim como se fizssemos uma viagem, mas que 
um dia todos nos reencontraremos...
Ao ouvi-la dizendo aquilo, senti que estava sendo sincera. Notei um brilho estranho em seus olhos, agora no mais de medo, mas de esperana. No acreditei em uma 
palavra do que dizia, mas percebi que ela estava muito bem. Resolvi concordar:
- Que bom, mame, que esteja to confiante! Que livro  esse?
- O Evangelho.
- Mas, mame! Esse  o livro mais antigo do mundo! Quantas vezes j o leu?
- Muitas, mas desta vez entendi diferente.  explicado de uma outra maneira. Quem o explica  um francs, Allan Kardec. Por isso sei, que quando morrer, no estarei 
s, nem deixarei voc sozinho. Vou fazer apenas uma viagem, nada alm disso!
Ela estava muito diferente, parecia no se preocupar mais com a morte. Eu no quis mudar aquele estado de coisas. Coloquei meus braos sobre seus ombros, beijei 
seu rosto, dizendo:
- Que bom que esteja pensando assim. Mas no se preocupe, no vai morrer. Ainda encontraro uma cura para a sua doena.
- Isso no me preocupa mais. Agora sei que a morte no existe, vou fazer uma viagem! Quero e preciso acreditar nisso!
- Tudo bem, mame, se a faz feliz, desejo que continue lendo esse livro e se quiser lhe darei outros que tratem do mesmo assunto.
- Se fizer isso, ficarei muito contente, voc poderia tambm ler alguns deles. Sei que mudar totalmente o modo de ver a vida.
Pobre mame, acreditou em tudo que leu naqueles livros. Morreu tranqilamente e at o fim me dizia:
- Meu filho est indo embora, mas no esquea nunca que  apenas uma viagem, logo nos encontraremos, s estou indo na frente!
No soube o que dizer, ela me parecia to serena e confiante. Partiu com um sorriso nos lbios, dizendo que sua me estava ali, que viera busc-la. No sei por que 
ser que neste momento estou lembrando de tudo isso. Talvez seja por ter me deparado com a morte novamente. Por estar me sentindo s. Se ao menos o Steven estivesse 
aqui. Estranho, o que acontecer conosco aps a morte? Ser que mame tinha razo? Ser que ela realmente est em outra dimenso? Finalmente chegou ao hotel. Entrou, 
foi direto ao restaurante, pediu o almoo. Estava almoando, quando Isaas chegou e sentou-se ao seu lado:
- Parece que est gostando da comida!
- Ol, senhor Isaas! Estou sim,  uma comida muito boa, me faz lembrar a que minha me fazia.
-  muito bom nos lembrarmos daqueles que se foram, mas sempre dos bons momentos que passamos juntos. De onde ela estiver, deve estar contente por ter se lembrado 
dela neste momento, sem dor nem sofrimento.
- Est me dizendo que ela deve estar em algum lugar e me ouvindo?
- Claro que sim! A morte no existe, apenas mudamos de dimenso, mas continuamos os mesmos. Com as mesmas qualidades e defeitos.
- Ouvi minha me dizer essas mesmas palavras, mas nunca dei muita ateno. Isso tudo parece histria de carochinha. Confesso que, para ela, acreditar em tudo isso 
foi muito bom, mas eu no penso da mesma maneira. A nica coisa que sei  que nunca mais voltarei a v-la. Ela sempre me dizia que ia fazer apenas uma viagem, nada 
mais. Que logo nos encontraramos. Nunca tive coragem de lhe dizer que no era uma simples viagem, pois quando viajamos, temos endereo, telefone e podemos nos comunicar 
a qualquer momento. Com a morte no, isso no  possvel. Nunca mais teremos notcias um do outro. S resta em nosso corao esta imensa saudade.
- Acredita mesmo nisso que est dizendo? Acredita que tudo termina com a morte?
- Claro que sim. Assim como meu pai, minha me e o meu tio Paulo foram embora. Um dia, irei tambm. Nada mais. Esta  a lei da vida...
- Acredita em Deus?
- Claro que sim!
- Pois bem, se acredita em Deus, no o julga um tolo, no ?
- Claro que no! Aprendi desde cedo que Ele era o criador de tudo.
- Nesse tudo, com certeza, se inclui o ser humano, no ?
- Isso  lgico!
- Pois bem. Acredita que esse Deus colocaria o ser humano para viver na Terra por alguns poucos anos? Nada mais?
- No sei...
- Que acontece com o ser humano, quando morre?
- Vai para o cu, ou para o inferno...
- Na sua opinio, sua me est no cu, ou no inferno?
- Espero que no cu! Ela foi sempre uma pessoa muito boa. Dedicou toda sua vida a mim e a meu pai. Sempre nos sentimos protegidos e amados por ela.
- Dizendo isso, voc est afirmando que existe algo aps a morte!
Walther ficou calado por alguns segundos:
- Acredito que sim, nunca havia pensado nesses termos.
- Se existe algo aps a morte, sua me deve estar agora em algum lugar. Acredita que ela, nesse lugar onde est, se esqueceu de vocs?
- No! Se ela estiver em algum lugar, com certeza estar pensando em ns.
- Igual a voc que neste momento est pensando nela! Este  o intercmbio, a comunicao que existe entre os dois mundos.
- Est me dizendo que ela pode estar aqui? Agora? Neste momento? Ouvindo tudo isso que estamos conversando?
- Por que no?
- Isso seria maravilhoso! Difcil de acreditar, mas maravilhoso.
- Existem muitas coisas maravilhosas que no conhecemos. Mas tudo tem seu tempo certo. Na hora certa, tomaremos conhecimento de todas as coisas.
- No sei se terei tempo para aprender mais a esse respeito. Tenho j uma vida toda formada, sem nunca ter precisado de religio.
- No esteja to certo disso. A vida nos reserva surpresas nunca esperadas. Alm do mais, no estou falando de religio.
- Na minha vida, nunca houve, nem haver surpresas. Vou voltar para a minha terra, meu trabalho e a minha vida. Tudo normal como sempre foi.
- Talvez seus planos tenham que ser mudados...
- Por que est me dizendo isso? No posso mudar meus planos! Tenho responsabilidade com o meu trabalho!
- Estou aqui para lhe comunicar que, hoje,  tarde, o Paulo ser enterrado. J tomei todas as providncias necessrias.
- Vai ser enterrado aqui?
- Estou seguindo suas ordens. Pediu que seu corpo ficasse aqui, junto a esta serra de que tanto gostava.
- E o resto da famlia? No vai avisar?
- No, ele me proibiu. No queria que eles o vissem dessa maneira, fraco e doente.
- Mas... Eles pensaro da mesma maneira? Disse que eram muitos! Deveriam saber de sua real situao!
Paulo queria que se lembrassem dele do modo como era, cheio de vigor e vitalidade. Alis, nem era para eu estar aqui, s estou por sua chegada. As ordens que eu 
tinha, se essa fatalidade no houvesse acontecido, era que, aps a conversa que teria com voc e de acordo com a sua reao, eu o levasse de volta at o aeroporto 
ou a um hotel, at o dia da sua viagem. Depois, fosse para minha casa e no voltasse mais.
- No entendo o porqu disso?
- Ele aprendeu e acreditava que, assim que partisse, aqui s restaria o seu corpo. Sabia que este estava doente, mas que seu esprito estava cheio de sade. Bonito 
como antes.
- No entendo nada disso, mas deve fazer parte da cultura deste pas, tenho que respeitar. Tudo bem, que seja como ele queria. Aps o enterro, estarei livre e poderei 
ir embora.
- Sinto muito, mas no poder ir.
- Por que no? No tenho mais nada para fazer aqui!
- Se tivesse conversado com ele, poderia partir ou no, mas como ele morreu, ter que ficar aqui por mais algum tempo.
- Como terei de ficar? No posso! Tenho meus compromissos.
- O Paulo era um homem muito rico. Quando soube que possua uma doena de difcil cura, resolveu fazer um testamento. Fui sua testemunha. Tudo foi feito dentro da 
lei. Voc ter que ficar aqui, at que o testamento seja aberto.
- Testamento? Que tenho a ver com esse testamento? Ele tem famlia! No me conhecia, muito menos eu a ele!
- No sei, s sei que sem a sua presena, o testamento no ser aberto.
- Se eu no estivesse aqui?
- Teria que ser avisado onde estivesse. Como v, no h outra sada. Vai ter que mudar seus planos. No lhe disse que a vida nos reserva sempre surpresas inesperadas?
- Quanto tempo vai demorar? Preciso avisar na empresa o motivo do meu atraso.
- Aps o enterro, vou conversar com o advogado e procurar fazer com que tudo fique pronto o mais rpido possvel.
Walther ficou nervoso. Nunca havia deixado de cumprir seus compromissos. Sabia que a sua presena na empresa era importante, mas se viu sem sada. Teria mesmo que 
avisar e aguardar os acontecimentos. O velrio transcorreu em ordem, no havia muitas pessoas. Walther, acompanhado por Isaas e Olavo, cumpriu todas as formalidades. 
Embora Paulo no fosse na realidade seu parente, j que sua me o considerava como irmo, naquele momento era o mais prximo disso. Notou que Isaas permaneceu muito 
tempo ao lado da urna. Parecia que conversava com o amigo. Realmente, em pensamento, fazia isso: Meu amigo, no se preocupe com nada. Siga o seu caminho, farei com 
que tudo volte ao seu lugar. Em tempo aprendeu que a bondade de Deus  eterna. Que sua caminhada seja acompanhada de muita luz. Walther o observava, no via a hora 
de que tudo aquilo terminasse. Para ele, velrio com corpo presente era uma agresso aos parentes do morto. Em seu pas, era diferente. O morto ficava exposto apenas 
por algumas horas. Os parentes e amigos ficavam reunidos em casa, comendo, bebendo, conversando e lembrando do amigo que partira. Finalmente, a urna foi fechada 
e o corpo foi enterrado. Embora no conhecesse o tio, naquele momento sentiu um aperto no corao. Aps tudo ter terminado, Isaas se aproximou, dizendo:
- Bem, cumprimos a nossa parte. Agora, est tudo terminado. Podemos voltar para o hotel. Tenho uma notcia que, sei, no vai deixar voc muito feliz.
- Que notcia pode ser essa?
- Conversei com o advogado, seu escritrio fica em So Paulo e teremos que ir at l.
- Tudo bem, se no tem outra maneira, iremos...
- S que estamos em pleno fim de semana. Na segunda feira, ele nos atender na parte da manh. A tarde, ele precisa ir ao frum.
- Quer dizer que s poderei ir embora aps a segunda feira?
- No sei, depende do que o advogado nos disser. No posso esperar muito tempo! Tenho meus compromissos!
- Infelizmente, vai ter que esperar, mas lhe garanto que no vai se arrepender!
- Sei que o senhor sabe todo o resto da histria que meu tio comeou a contar e no conseguiu terminar.
- Sei de tudo, estive ao lado dele todo esse tempo, mas no poderia deixar essa coisa de senhor para l?
- Se  assim que deseja, no tenho nada contra.
- Fui amigo do Paulo, gostaria de ser seu tambm. Entre amigos no existem essas formalidades.
- Est bem. Mas j que  meu amigo, por que no me conta o que aconteceu na vida do meu tio que influenciou a minha? Confesso que estou atordoado com tudo o que 
ouvi!
- No posso lhe contar, mas tenho certeza de que tudo vai se esclarecer. Tenha calma.
- Estou calmo! S muito confuso. Ouvi duas histrias, uma diferente da outra. No sei quem falou a verdade!
- Tudo tem sua hora e seu tempo, mais ainda, tudo sempre acontece com a vontade de Deus e, para qualquer coisa, sempre existe um motivo.
- Quero aceitar o que est me dizendo, mas no consigo! O que Deus tem a ver com todas essas mentiras?
- A resposta para as suas perguntas, vir.
- Espero que tenha razo. Quero deixar de pensar em tudo isso, mas, por mais que tente, no consigo. Nunca pensei que ao receber aquela carta de meu tio, me convidando 
para visit-lo, tudo isso iria acontecer.
- Voc agora tem que descansar. Vamos para o hotel, amanh iremos para So Paulo. L conhecer uma metrpole que no deve nada a Nova York.
- Tem certeza do que est dizendo?
- Claro que tenho, ou voc pensa que vai encontrar cobras atravessando a rua?
Walther comeou a rir.
- Nunca pensei isso, mas acredito que voc est exagerando. Nova York  uma mega metrpole. L  o centro financeiro do mundo!
- Talvez eu tenha exagerado, mas So Paulo  o centro financeiro do Brasil!
Voltaram para o hotel. Cada um foi para seu quarto. Walther entrou, estava cansado. O fuso horrio, toda a expectativa por que passou, a frustrao ao descobrir 
que havia sido enganado a vida toda e finalmente a morte do tio, sem lhe ter contado o resto da histria. Foi para o banheiro. Ainda era cedo. Tomou um banho, resolveu 
que deitaria e dormiria at a hora do jantar. Fez isso. Deitou, fechou os olhos, mas no conseguia dormir, embora sentisse seu corpo cansado. De seu pensamento no 
saam os ltimos acontecimentos: Tudo est acontecendo to rpido. At poucos dias atrs eu no tinha problema algum, a no ser a morte de minha me e o meu divrcio. 
Sofri muito com essas perdas, mas j estava me recuperando, graas ao meu trabalho que toma quase todo o meu tempo. De repente estou aqui, deitado em uma cama de 
hotel, em um pas diferente de tudo o que conheci na vida. Tomei conhecimento de uma histria diferente da que conhecia. Descobri que minha me sempre mentiu ou 
ser meu tio quem estava mentindo? Mas por que ele faria isso? Olhou para a janela, as cortinas estavam abertas, e por elas o sol entrava. Ele no estava acostumado 
a dormir durante o dia, muito menos no claro. Levantou, fechou as cortinas. O quarto ficou na penumbra. Ele voltou a deitar. Fechou os olhos, tentando dormir. Mas 
seus pensamentos no permitiam. De repente abriu os olhos, percebeu que uma luz intensa invadia o quarto. A princpio ficou com medo. Pensou estar dormindo e sonhando, 
beliscou seu brao para ver se estava acordado. Sentiu dor no lugar em que beliscou. Percebeu ento que estava acordado. A luz foi ficando cada vez mais intensa. 
Sentou na cama e ficou olhando sem saber o que fazer ou falar. Sentia vontade de gritar ou sair correndo, mas no conseguia. Ficou como que paralisado, sem conseguir 
tirar os olhos daquela luz. Ali parado, notou que a luz tomava forma. Mais assustado ainda, no teve como desviar os olhos. A forma foi se modificando, diante dele 
surgiu uma linda mulher, que lhe sorria. Ela estendeu os braos em direo a ele. Sem saber como, ele sentiu que o medo havia passado, tambm sorriu. Ele a conhecia, 
no sabia de onde, mas tinha certeza que a conhecia. Ela, com voz suave, disse:
- No fique com medo, estou aqui para lhe mostrar que a vida no termina com a morte, e para lhe dizer que aceite tudo o que vai lhe acontecer. Sua vida vai mudar 
totalmente, mas tudo ser para o bem. Sempre estive e estarei ao seu lado. Que Jesus o abenoe.
Walther, ali parado, quis dizer algo, perguntar quem ela era, mas no conseguiu. A luz foi se apagando. Novamente, a penumbra voltou ao quarto. S a ele conseguiu 
se levantar. Estava tremendo e suando muito. Foi at o banheiro, abriu a torneira e molhou o rosto. Sabia que tudo aquilo havia acontecido, s no entendia. Sem 
saber o que fazer, voltou para a cama. No conseguia esquecer aquela mulher. Ela era loura, tinha os cabelos longos e olhos azuis muito brilhantes. Era de uma beleza 
nunca vista antes por ele. Deitou novamente. Sentiu um cansao imenso. Sem perceber, adormeceu. Seu sono era tranqilo. Estava correndo por um corredor, em uma casa 
muito grande, atrs da mulher com a qual havia sonhado antes. No era a mesma cujo rosto havia visto. Esta no era loura, mas sim morena. Embora no conseguisse 
ver seu rosto, deduziu isso ao ver seus cabelos pretos e longos. Ela sorria, se escondia e aparecia, ele sorrindo, a perseguia. Os dois riam muito, estavam felizes. 
Queriam se encontrar para se abraar, mas no conseguiam, cada vez que um chegava perto do outro, a ponto de se tocarem, uma fora que no sabiam de onde vinha os 
separava novamente. Mas, mesmo assim, eles continuavam sorrindo e felizes. Walther acordou. Olhou em volta, percebeu que estava no quarto do hotel. Lembrou-se nitidamente 
do sonho. Sentiu que aquela mulher existia e que o estava esperando em algum lugar, mas onde? Sempre ouvi dizer que todos sonhamos, eu quase nunca me lembro de ter 
sonhado, a no ser algumas vezes, mas este sonho foi diferente. Lembro-me de detalhes, do lugar, da casa com muitas janelas e, principalmente, daquela mulher. Estranho, 
nunca senti nada parecido com o que estou sentindo neste momento. Talvez seja tudo o que estou descobrindo desde que o avio pousou nesta terra. Descobri coisas 
nunca antes imaginadas. Meu inconsciente deve estar se revelando. Talvez seja este lugar, toda essa natureza... Continuou pensando, olhou para o relgio. Havia dormido 
muito, j estava escuro. Algum bateu  porta. Abriu, era Olavo, o enfermeiro de seu tio. 
- Ol, senhor Walther, estava dormindo?
- Ol, Olavo! Entre, por favor. Estou estranhando, no costumo dormir durante o dia, hoje, sem perceber, adormeci e acabei de acordar.
- No pode se esquecer que est no sul. Fora do seu fuso. Aqui, o calor realmente nos d muito sono.
Olavo entrou, como sempre, sorrindo. Trazia em suas mos uma caixa envolta em um papel azul. Walther lhe mostrou um sof, onde ele sentou. Olhou para ele e para 
a caixa. Disse:
- Estou curioso em saber o porqu da sua visita.
- Hoje, por causa da morte do senhor Paulo, que era meu amigo particular, tirei o dia livre para poder acompanhar seu enterro. Eu o conheci como um paciente, mas 
aos poucos fomos nos tornando amigos. Ele sempre falava muito sobre voc e sua me. Em uma dessas conversas, me entregou esta caixa, dizendo:
- Sei que no vou viver muito, vou fazer o possvel para que o Walther venha para c e eu possa lhe contar tudo, mas se no for possvel, estou entregando a voc 
esta caixa para que voc a entregue para ele. Esta caixa contm muito do que eu queria falar pessoalmente.
- Por isso estou aqui. Esta caixa lhe pertence, estou cumprindo a promessa que fiz ao meu amigo. No sei o que contm, nunca a abri. Cabe a voc fazer isso a hora 
em que sentir vontade. Presumo que a hora seja agora. Deve estar curioso!
Walther pegou a caixa. Olavo tinha razo, ele estava mesmo muito curioso. Ficou com a caixa nas mos, olhando para Olavo sem saber o que fazer ou falar. Ele, percebendo 
seu estado, disse:
- Vou embora para que possa fazer o que quiser. No sei o que tem dentro dessa caixa, mas s lhe peo uma coisa. No julgue nem condene. Nesta vida todos somos passveis 
de erros e de acertos. Perante Deus, todos somos culpados e inocentes. vida se encarrega de colocar tudo em seu lugar...
- Obrigado, meu amigo, por ter me entregue esta caixa. Sinto que nela encontrarei muitas respostas para minhas dvidas.
- Espero que isso seja verdade. No tem o que me agradecer, s estou cumprindo uma promessa feita a um amigo muito querido, que neste momento deve estar encontrando 
a sua verdade. S peo a Deus que seja protegido...
Walther no entendia muito bem o que Olavo dizia. S queria abrir e ver o que havia na caixa.
- No entendo o que est dizendo a respeito de Deus e de todas essas outras coisas. Neste momento, s quero abrir esta caixa.
- Est bem, entendi a mensagem, j estou indo embora...
- No entendeu nada! Quero realmente abrir a caixa, mas gostaria que ficasse ao meu lado, conheceu meu tio mais do que eu. Sinto que poder me ajudar. Quero e preciso 
que fique ao meu lado. Pode ser? Tem tempo para isso?
- Claro que tenho tempo e quero ficar. Para ser sincero, desde que seu tio me entregou essa caixa, por muitas vezes senti curiosidade em saber o que h nela!
- Pois ento vamos saber isso agora mesmo.
Walther comeou, com cuidado, a tirar o papel que envolvia a caixa. Quando estava quase terminando, ouviram uma batida na porta. Olharam-se. Walther parou o que 
estava fazendo, perguntando:
- Olavo, o que vamos fazer? Quem ser?
- O que deve fazer  abrir a porta e ver quem ! Walther, a contragosto, foi at a porta, abriu e se deparou com Isaas, que foi falando:
- J est tarde e como no desceu para o jantar, fiquei preocupado e vim ver se est sentindo alguma coisa. Ol, Olavo! Como est?
- Estou muito bem e o senhor?
- Na medida do possvel, estou bem, mas parece que estou interrompendo algo. Desculpem!
Walther, um pouco sem graa, ficou sem saber se o mandava entrar ou pedia que fosse embora. Olavo, ao notar a indeciso dele, disse:
- Estou aqui cumprindo uma misso. O senhor Paulo me encarregou de entregar esta caixa para o Walther, caso no tivesse tempo de conversar com ele. Estvamos agora 
abrindo a caixa para ver o que h nela. Como no acredito em coincidncias, creio que deva entrar e juntos tomarmos conhecimento do seu contedo. Que acha?
Isaas olhou para a caixa que estava sobre a cama.
- Se o Walther permitir, ficarei, mas posso lhes adiantar que sei o que h nela.
Os dois, admirados, se olharam. Walther, muito nervoso, perguntou:
- Sabe? O que ?
- A histria de uma vida. A histria de uma conscincia culpada...
Walther no suportou mais:
- Sendo assim, j que sabe do que se trata, o melhor que tem a fazer  entrar logo e vamos abrir essa caixa!
Isaas entrou. Walther pegou novamente a caixa, s que, agora, rasgou o papel com fria. Tirou a tampa e, espantado, arregalou os olhos. Dentro da caixa, havia apenas 
fotografias, foi tirando uma a uma. As fotos eram suas mesmo. Olhou a primeira. Nela, era ainda beb, atrs estava escrito com a letra de sua me: Aqui ele est 
com dois anos. No est lindo? Leu o que estava escrito. Olhou para os amigos e para a caixa. Foi tirando as fotos e colocando sobre a cama, umas ao lado das outras. 
Logo a cama ficou quase toda tomada pelas fotos. Ele ficou em p, olhando. Ali estava a sua vida toda, desde muito pequeno, na primeira escola, sua primeira professora, 
no ginsio, nadando, jogando basquete, recebendo medalha, na faculdade e at a sua foto de casamento. A partir de um certo momento, ele comeou a lembrar dos dias 
em que as fotos foram tiradas. Atrs de cada uma, sua me dizia de quando era. Ficou ali, olhando. Sua vida havia passado e ele nem havia notado. Quantos momentos 
felizes passou junto com sua me e seu pai. Viu-se novamente criana e crescendo. Seu corpo foi mudando, transformou-se naquele homem que era hoje. Foi pegando uma 
por uma e lia o que diziam. Sua me, praticamente atravs daquelas fotos, contava toda a sua vida. No havia cartas, apenas fotos. Olhou para Isaas e perguntou:
- O que significa isso, Isaas? Por que minha me mandava estas fotos para meu tio, sem nunca ter mandado uma carta? Por que no tem fotos dela, ou do meu pai? Por 
que o interesse dele s pela minha pessoa?
Isaas respondeu:
- A est faltando uma foto, deve estar dentro da caixa! Walther se abaixou para pegar a caixa que havia deixado cair, enquanto colocava as fotos em ordem sobre 
a cama. Olhou dentro dela, realmente tinha uma carta, pegou e notou que dentro das dobras havia uma foto. Desdobrou rapidamente, olhou para a foto. Era uma foto 
dele junto com sua me. Foi, na realidade, a ltima que tiraram juntos. Lembrou-se imediatamente do dia em que foi tirada. Olhou com muita saudade. Sentiu vontade 
de contar como ela havia sido tirada.
- Eu estava trabalhando, o telefone tocou, atendi, era a minha me, com a voz muito fraca pela doena, isso aconteceu alguns meses antes de ela morrer. Queria que 
eu fosse at a sua casa. Fiquei preocupado, pois ela no costumava telefonar para o meu trabalho. Era eu quem telefonava todas as noites. A noite, fui at l. Ela 
estava na sala, sentada em um sof. Estava sorrindo, bem penteada, maquiada. Fiquei encantado ao v-la daquela maneira. Assim que cheguei, ela disse:
- Sei que tenho pouco tempo de vida, isso no me preocupa, porque acredito ter cumprido a minha misso aqui nesta terra, mas como estou muito bem, gostaria que voc 
guardasse em sua lembrana este momento. E nunca, acontea o que acontecer, nunca duvide de que voc foi a coisa mais importante que aconteceu em minha vida...
A princpio, estranhei aquilo que ela dizia, mas sabendo da situao em que ela se encontrava, no me preocupei muito. Mas, hoje, estou preocupado. O que ser que 
ela escondia por de trs daquelas palavras? Naquele dia, eu simplesmente disse:
- Sendo assim,  para j. Vamos tirar essa fotografia!
Marita j estava com a mquina fotogrfica na mo. Sentei ao lado de minha me, abracei-a, Marita tirou a foto...  esta aqui... Seus olhos se voltaram com carinho 
para o rosto de sua me. No conseguiu evitar duas lgrimas que insistiam em cair. Em seguida, pegou a carta que estava junto com a foto e leu:

Paulo,

Estou lhe mandando esta foto, talvez seja a ltima que v receber, pois por ela pode ver que estou muito doente. Pode ver tambm que ele se transformou em um belo 
homem. Alm de bonito, tem muitas qualidades. E bom filho, honesto e muito trabalhador. Tem a sua vida sob controle. Vive muito bem. Sinto que, embora tenha dado 
a ele todo o amor e carinho que possua, roubei tambm algo muito importante. Esse sentimento de culpa tem me acompanhado durante a vida toda, muito mais agora em 
que sinto que vou ter que prestar contas dos meus atos. Ele no precisa de nada. Tem aqui tudo o que necessita para viver e ser feliz. Antes de morrer, vou lhe contar 
da sua existncia. Talvez ele queira conhec-lo ou voc a ele. Que Deus nos abenoe e perdoe, Geni.

Ao terminar de ler, Walther olhou para os amigos que o olhavam tambm:
- Um de vocs pode me dizer o que significa isto? Os dois conheceram muito bem o meu tio! Os dois dizem que eram amigos dele! Os dois dizem que ele confidenciava 
seus problemas! Por isso sei que sabem o que significam estas palavras! Sabem no que fui roubado? Devem saber o que aconteceu em minha vida!
Olavo, tambm intrigado com o que havia escutado, disse:
- Como voc, tambm estou intrigado. Ele sempre falou com muito carinho a seu respeito, mas nunca disse nada de roubo ou qualquer coisa parecida...
Isaas, mais calmo, demonstrando que sabia de tudo, disse:
- Walther, fique tranqilo, nada de ruim foi feito contra voc. Como j lhe disse, estive ao lado dele todo o tempo, at o fim. No deve se preocupar com nada. Na 
segunda-feira, iremos falar com o advogado e ali ficar sabendo de tudo. No posso lhe revelar nada. Prometi que nunca faria, e no o farei. Vamos, agora, jantar 
e dar um passeio pela cidade.
- Como no me preocupar, Isaas? Aps ter lido isso? Em que fui roubado? Que sentimento de culpa acompanhou minha me por toda a sua vida? Por que pediu perdo a 
Deus? Que meu tio tem a ver com tudo isso? Por que meu pai nunca soube que ela mandava essas fotografias ou ao menos se correspondia com ele? Por favor, me conte 
tudo! Acredita mesmo que poderei jantar ou passear pela cidade?
- Voc est nervoso e com muitas perguntas, mas no posso adiantar nada. At agora, voc no sabia nada, pode esperar mais um pouco, a hora certa vai chegar. Est 
perto de saber tudo.
- Eu no sabia nada e devia ter continuado assim! Nunca devia ter vindo para c! Vivia uma vida certa e tranqila! Sempre me considerei uma pessoa normal como todas 
as outras! Agora, vejo que durante toda a minha vida fui enganado, que nada estava bem! Que existe uma histria! Que desconheo tudo sobre a minha vida!
- Tudo est bem na sua vida. Voc mesmo diz que sempre teve uma vida normal como todas as outras. Agora, est passando por um momento que pode considerar difcil, 
mas, como tudo na vida, tambm passar. Nada fica escondido para sempre. Voc est agora prestes a conhecer algumas coisas a respeito da sua vida, mas no precisa 
ficar nervoso, pois no  nada que no possa compreender e aceitar. Lembre-se s de uma coisa: ningum  perfeito. Muitas vezes, erramos tentando acertar. Volto 
a dizer, a melhor coisa que temos a fazer no momento  jantar e sair andando pela cidade. Amanh cedo, iremos para So Paulo, conhecer a nossa mega metrpole. Na 
segunda-feira, aps conversar com o advogado, tomar conhecimento de tudo. Poder, ento, resolver a sua vida. Voltar ou ficar aqui para sempre.
- Ficar aqui para sempre? Est louco? Quero voltar o mais rpido possvel para o meu pas, para minha casa!
- Voc  um homem livre. Pode fazer da sua vida o que quiser, mas, por enquanto, vai ter que ter pacincia e esperar.
Walther voltou os olhos para a cama e para as fotos que lhe contavam sua vida. Ao menos a que ele conhecia. A sua cabea estava cheia de dvidas. No conseguia entender 
o que havia acontecido. Queria e precisava voltar para sua casa e seu trabalho. Ao mesmo tempo, precisava descobrir que segredo era aquele que existia entre sua 
me e seu tio. 
Isaas, notando o seu desespero, disse:
- Posso entender o que est sentindo, mas no adianta ficar assim. Tudo est perto de ser resolvido. Dentro de alguns dias, tomar conhecimento de tudo e poder 
escolher que rumo dar  sua vida.
Walther sentiu-se impotente. Sabia que Isaas estava dizendo a verdade. Ele no poderia agir at descobrir tudo. No poderia simplesmente voltar para seu pas e 
fazer de conta que nada daquilo havia acontecido.
- Est bem, vamos fazer como voc est dizendo. J que as coisas chegaram a este ponto, no me resta nada mais a fazer do que esperar e descobrir tudo. S assim 
poderei voltar e retomar a minha vida. Vamos jantar.
Olavo, que at a ouvia tudo calado, disse:
- Acredito que essa seja mesmo a melhor soluo. Infelizmente, no poderei jantar com vocs, minha esposa est me esperando, preciso ir para casa. Tenho certeza 
de que no final tudo vai acabar bem, pois temos um Deus que tudo sabe.
Isaas concordou com a cabea. Saram os trs do quarto. Olavo se despediu, dando um abrao caloroso em Walther:
- Talvez nunca mais nos encontremos, mas gostei muito de conhec-lo. Sei que est confuso, mas pode ficar tranqilo, pois tudo sempre est certo.
- Tem razo, no vamos mais nos encontrar, pois estarei indo para So Paulo amanh e na tera-feira  noite, estarei voltando para a minha terra. Espero que com 
todo esse mistrio resolvido.
- Desejo sinceramente que seja assim, que fique tudo esclarecido, mas nunca se esquea de que a sua terra  esta aqui!
Walther sorriu. Olavo foi embora. Os dois entraram no restaurante que havia no hotel. Walther estava cansado, queria que as horas passassem depressa para que pudesse 
ficar livre de toda aquela confuso, jantaram em silncio. Walther sabia que no conseguiria obter qualquer informao por meio de Isaas e este sabia que, mesmo 
que sentisse vontade, no poderia adiantar nada. No tinha esse direito. Aps o jantar, despediram-se, cada um foi para seu quarto. Isaas, ao entrar, deitou na 
cama com roupa e tudo, pensando: Que grandes surpresas esto reservadas para esse rapaz. Espero que entenda e perdoe. Walther, em seu quarto, percebeu que as fotos 
estavam ainda sobre a cama. Esquecera-se de guard-las. Pegou a caixa, foi pegando uma a uma, olhando e lembrando-se do dia em que foram tiradas. Tornou a ver a 
foto com sua me, tornou a ler a carta: Por que ela escondeu isso? Foi sempre uma me to dedicada, devia ter confiado e me contado tudo. Por pior que possa ter 
sido esse erro que a condenou a vida toda, eu saberia compreender, ela deveria saber disso! Guardou tudo na caixa, no conseguiu embrulhar no papel azul, pois o 
havia rasgado. Tomou um banho, deitou. Virou de um lado para outro, sem conseguir dormir. As fotos, a carta de sua me, a histria que Paulo comeou a contar e no 
terminou e que era bem diferente daquela que sua me havia contado. Tudo aquilo passava por sua cabea. Aps muito tempo, conseguiu, finalmente, dormir. Vrias vezes 
acordou e adormeceu novamente. Seu sono foi agitado. Por haver dormido tarde e mal, no acordou cedo. Dormia profundamente, quando ouviu uma batida  porta. Acordou 
assustado. No sabia bem onde estava. Sentou na cama, olhou  sua volta, lembrou que estava no quarto do hotel. Novamente, algum bateu  porta, agora com um pouco 
mais de fora. Levantou, abriu a porta. Era Isaas.
- Bom-dia, Walther! Perdeu a hora? Estamos atrasados. Temos mais de trs horas de viagem at chegarmos em casa! Pretendo almoar ali!
- Bom-dia! Desculpe, mas no dormi bem, acredito ter dormido s de manh. Estarei pronto em um minuto!
- No precisa se apressar. Estou brincando, no est to atrasado assim. Temos muito tempo. O trem s vai sair s dez horas.
Enquanto se apronta, vou para o restaurante tomar o caf. Estarei l, esperando voc. Isaas saiu. Walther foi para o banheiro, tomou um banho rpido. Arrumou suas 
roupas na maleta. Pegou a caixa, foi encontrar Isaas que j estava tomando caf. Sentou-se ao seu lado. Calados, tomaram o caf. Isaas j havia feito o pagamento 
do hotel. Pegaram um txi que estava parado na frente do hotel. s dez horas, estavam dentro do trem e iniciaram a viagem.

O PRECONCEITO

Novamente, aquela serra maravilhosa. Walther olhava tudo. Sentia que jamais esqueceria tal paisagem. O cu era de um azul profundo, com algumas nuvens brancas, contrastava 
com o verde da montanha, que estava colorida. As cores das flores iam do tom mais claro at o mais escuro, formando um belo degrade. Estava extasiado com tudo o 
que via. Os dois seguiam calados. Isaas percebeu que Walther prestava ateno  paisagem. Sabia, tambm, que o rapaz teria pela frente uma longa jornada. Lembrou-se 
de como tudo havia acontecido. Durante muitos anos, esteve ao lado de Paulo, presenciou todo o seu sofrimento e sua busca. Agora, ali, naquela estrada, tendo ao 
seu lado Walther, pensava: Por que ser que o Paulo foi morrer, logo agora que estava to perto de se libertar do seu sofrimento? Esteve doente por tanto tempo, 
poderia ter ficado mais um dia. A minha f me faz crer que tudo est sempre certo, mas confesso que, s vezes, isso  difcil de aceitar. Sei que para tudo h um 
motivo, uma razo, mas qual ser esse motivo? Qual ser essa razo? Em determinado momento, Walther disse:
- Sabe, Isaas, estou desapontado por no ter conhecido o resto da histria, mas, apesar de tudo o que est acontecendo desde que aqui cheguei, estou gostando muito 
de conhecer este pas. Jamais poderei esquecer essa serra toda florida. Sinto no ter trazido uma mquina fotogrfica para registrar o que estou vendo. Vou contar 
ao meu amigo Steven o que vi aqui, mas sinto que no conseguirei me expressar o suficiente para que ele sequer imagine.
- Realmente,  tudo muito bonito. Quanto a tirar fotos, no faltar oportunidade, poder voltar outras vezes para c.
- Talvez um dia eu volte. S que vai demorar, pois no sei quando poderei tirar outras frias no meu trabalho.
- O que voc tem l, alm do seu trabalho?
Walther ficou pensando. Lembrou-se de sua casa, da Eilen, de alguns amigos, inclusive de Steven, que esteve todo o tempo ao seu lado, quando sua me morreu.
- Tenho uma vida toda, amigos, casa e uma ex-esposa.
- Realmente, deve ter muitos amigos, enquanto que aqui no tem ningum, a no ser eu, que me considero seu amigo.
- Claro que  meu amigo. Um pouco urso, mas meu amigo.
Os dois riram. Isaas retrucou:
- Ver que no sou um amigo urso! S no posso contar um segredo que no  meu. Paulo foi um grande amigo. No posso tra-lo, agora que no est mais entre ns. 
Ainda mais sabendo que, logo, tudo ser esclarecido. Voc ter que esperar s mais alguns dias. 
Walther no argumentou, sabia que seria intil. Isaas no lhe contaria nada. Estava com muitas dvidas a respeito de sua me. Pensou: O que ter acontecido entre 
ela e o Paulo? Ser que ela traiu o meu pai? Ser que embora tenha ido para os Estados Unidos, deixou o Paulo aqui, seu amor? Que tenho a ver com toda essa histria? 
As perguntas eram muitas, as respostas poucas, mas j que Isaas dizia que logo ele saberia de tudo, resolveu que no adiantava mais ficar se torturando. S teria 
que esperar. Continuou olhando a paisagem. Finalmente, terminaram de descer a serra. Saram do trem e pegaram o carro de Isaas, que ficara ali estacionado. J na 
estrada reta, Walther voltou o olhar mais uma vez para a serra. No queria que aquela imagem sasse de sua mente. No carro, conversaram sobre vrios assuntos. Isaas 
queria saber como eram os Estados Unidos. Walther ia lhe contando:
-  um pas maravilhoso, seu clima  bem definido. Na primavera, as flores nascem, as rvores enchem-se de folhas e tudo fica muito verde. No vero, o calor  imenso, 
s vezes  difcil at respirar. No outono, ah! O outono. As folhas das rvores, antes de carem, mudam de cor. Ficam vermelhas, cor de vinho e amarelas.
- Acredito que voc no possa imaginar o quanto. Todas as folhas das rvores caem, os galhos ficam secos. Mas, por outro lado, tem neve. Branca, linda e fria! Muito 
fria. Adoro o inverno, pois  quando tiro alguns dias de folga no trabalho para poder ir esquiar, o meu esporte preferido.
- No tem medo de esquiar?
- No, aprendi quando era ainda uma criana.  maravilhoso.
- Parece que teve uma boa vida.
- Tive sim. Nunca me queixei, at agora.
- Por que acha que agora tenha motivo para se queixar?
- No sei... Estou sentindo que a minha vida foi toda uma mentira. Estou pensando que meus pais talvez no se amassem da maneira que eu imaginava.
- No faa julgamentos precipitados. Seus pais se amavam, e muito!
- Voc os conheceu tambm?
- Sim, j no lhe disse que acompanhei tudo?
- Tudo o qu?
- Tenha s um pouco mais de pacincia.
Novamente, Walther percebeu que a sua tentativa de descobrir o que havia acontecido seria intil. Voltou os olhos para a paisagem. Isaas notou que ele estava deprimido, 
resolveu continuar conversando para distra-lo:
- Disse que tem amigos, mas falou em um, que parece ser especial. O nome dele  Steven?
Walther no estava com vontade de conversar, mas percebeu que Isaas queria que ele ficasse bem. Respondeu:
- Sim, seu nome  Steven. Crescemos juntos. Ele  dois meses mais velho do que eu.
- Parece que gosta dele!
- Gosto muito. Ele esteve sempre ao meu lado, nos piores momentos e sempre que precisei.
- E nos melhores momentos? Esteve tambm?
- Sempre, somos inseparveis. Quando vim para c, foi ele quem me levou at o aeroporto.
- Como ele ?
Walther ficou por alguns segundos pensando em Steven. O rosto dele surgiu em sua memria. Deu um leve sorriso. Walther ficou por alguns segundos pensando em Steven. 
O rosto dele surgiu em sua memria. Deu um leve sorriso, enquanto respondia:
- Posso dizer que  um palhao, est sempre rindo e faz piada de tudo. Est sempre de bem com a vida.
- E a sua aparncia?
-  um homem bonito. Bem mais alto que eu, louro com olhos azuis. E americano mesmo, no misturado, como eu. Sua famlia est nos Estados Unidos desde a poca da 
colonizao, os primeiros eram ingleses. Steven, apesar de seu problema, sempre fez um grande sucesso com as mulheres.
- Que problema?
- Nasceu com um problema na perna direita. Quando criana, teve que fazer vrias operaes. No ficou perfeito, usa um aparelho e manca um pouco.
- No se revolta?
- No, ao contrrio, faz piada. Um dia em que eu estava com gripe, ele veio at em casa. Ao me ver deitado, ficou bravo:
- Que est fazendo nessa cama, Walther?
- Estou com febre e com dor de garganta.
- Isso  motivo para ficar na cama? Pode levantar!
- No teve jeito, enquanto no levantei, ele no sossegou. Minha me havia feito um lanche, estvamos na cozinha comendo, quando, no sei o porqu, perguntei:
- No se revolta por causa da sua perna?
- Ele me olhou... Olhou e disse:
- No, sabe por qu?
- Com a cabea, respondi que no. Ele continuou:
- Eu nasci com este defeito, mas o resto do meu corpo  perfeito. J pensou, se eu ficar aqui me lastimando e no viver? Quando eu chegar l do outro lado, Deus 
vai me perguntar por que no fiz nada na vida, por que fiquei o tempo todo s me lastimando e revoltado! Por que... Por que... Por causa da minha perna. E se Ele 
me olhar e disser: O que fez com o resto do seu corpo, que era perfeito? Que vou responder?
Isaas arregalou os olhos e perguntou:
- Ele disse isso?
- Sim,  uma pessoa maravilhosa. Ajuda a todos e est sempre disposto a ouvir. Trabalha na igreja como voluntrio, dando assistncia aos necessitados. No conheo 
outra pessoa melhor que ele.
- Qual  a profisso dele?
- Depois que lhe disse como ele , pode deduzir que s poderia ser professor. E professor de Histria, adora ensinar.
- Disse que ele o levou at o aeroporto. Se tem problema na perna, como consegue dirigir?
- Esqueceu que moro no primeiro mundo? L existem muitos, com problemas srios, por causa das guerras, por isso foram desenvolvidos vrios utenslios para facilitar 
a vida deles. Entre esses utenslios, fizeram um carro automtico que  dirigido com as mos.
-  mesmo? Que maravilha!
- Tambm acho. Por isso, sempre digo que adoro morar l e que nunca poderei morar aqui.
- Isso  outra histria. Vamos esperar e ver o que acontece.
- Conversamos, conversamos e voltamos ao ponto inicial. No vai mesmo me contar o que aconteceu, Isaas?
- J lhe disse que no posso, Walther.
Walther tentou mais uma vez, mas como das outras, percebeu que era intil. Ficou calado, olhando a paisagem. Aps algumas horas de viagem, finalmente entraram na 
cidade de So Paulo. Antes mesmo de entrar, Walther notou que a cidade era grande. De longe, via edifcios altos. J no centro da cidade, ele olhava tudo, admirado:
- Realmente, voc tem razo, esta  uma grande cidade! Nunca imaginei que tivesse tantos edifcios to altos!
Isaas, rindo, disse:
- Confesse! Pensou que o Brasil fosse uma floresta e que as cobras andavam pelas ruas!
Walther tambm riu:
- Quer realmente saber a verdade?
- Claro que sim!
- Minha me falava muito sobre a natureza, as florestas, o mar. Eu realmente pensava que aqui no existia outra coisa. Ao contrrio, estou vendo que existe uma cidade 
quase to grande como Nova Iorque!
- So Paulo  a maior cidade do Brasil. Aqui so feitos os maiores negcios. Voc deveria conhecer melhor o Rio de Janeiro.
Alm de ser a capital do pas,  tambm uma das mais belas cidades que pode existir neste mundo. L, sim, a Natureza  prdiga!
- Talvez um dia eu volte com tempo para ver todas essas maravilhas.
O carro correu mais uns quarenta minutos. Entrou em uma rua toda arborizada, com casas sem muros e portes. Isaas entrou com o carro em uma delas. Era uma casa 
grande, cercada por um lindo jardim com muitas flores. Isaas parou o carro em uma garagem que ficava nos fundos, ao lado da casa. Desceram do carro. Walther perguntou:
-  aqui que mora?
-  sim. Eu, minha famlia e o Paulo.
Entraram em casa. Uma senhora os veio receber. Estendeu a mo para Walther, que correspondeu:
- Meu nome e Ismnia, sou a esposa do Isaas. Estou muito feliz por receb-lo em nossa casa!
- J deve saber que meu nome  Walther. Tambm estou feliz por conhec-la, espero no lhe dar muito trabalho!
- Trabalho? Qual nada! Esta casa j teve muita gente! Agora, com a partida do patro, ficou mais vazia ainda. Entre.
Enquanto Walther entrava e sentava em um sof na sala, Isaas, dizia:
- No ligue para o que ela diz. Sente falta dos filhos. Temos dois, esto casados e, graas a Deus, muito bem. Paulo fez questo que eles estudassem, um  medico, 
o outro  advogado. Trabalham no que gostam. Esto muito bem. A Ismnia no entende que agora eles tm a prpria vida e no podem mais vir nos visitar todos os dias, 
mas sempre que possvel esto aqui.
- Parece que ele no gosta dos filhos!
- Adoro meus filhos, mas sempre soube que um dia eles nos deixariam, como um dia deixamos nossos pais. Walther, no acredita que eu esteja certo?
Ele ia responder, quando entrou correndo um menino de uns oito anos mais ou menos. Ao ver Walther, parou e ficou olhando. Isaas o pegou no colo, o abraou com muito 
carinho, enquanto dizia:
- Walther, este  o Leo, nosso filho! Leo, cumprimente o Walther!
O menino desceu do colo de Isaas, estendeu a mo para Walther, dizendo:
- Como vai, senhor?
Walther ficou olhando para aquele menino que lhe estendia a mo. Ficou sem saber o que dizer ou fazer. Olhou para Isaas e para Ismnia, que sorriam. Estendeu a 
mo, respondendo:
- Estou muito bem, obrigado.
O menino largou sua mo, entrou correndo para dentro da casa. Isaas, percebendo o espanto de Walther, disse:
- Percebeu que na realidade ele no  nosso filho. Mas  como se fosse, nasceu nesta casa. Leva o meu nome. Mais tarde lhe contarei a histria toda.
Walther esfregava a mo, querendo limp-la. Perguntou:
- Ser que posso usar o banheiro?
- Claro que sim, fica na segunda porta desse corredor. 
Walther entrou no banheiro, abriu a torneira e, com muito sabonete, ficou esfregando as mos, pensando: Como fui pegar na mo de um negro? Se um dos meus amigos 
soubesse disso, com certeza faria galhofas! Como vou tratar esse menino? Ainda bem que vou logo embora! Que pas  este em que os negros so aceitos por famlias 
brancas, como se fossem iguais? Saiu do banheiro um pouco encabulado. Ismnia, ao v-lo, disse:
- O almoo j est na mesa. Deve estar com fome aps a viagem.
- Estou, sim. Alis, estou adorando toda a comida que tenho saboreado, desde que cheguei. Espero que a sua seja boa tambm!
- Disso pode ter certeza. Desculpe a modstia, mas sou uma tima cozinheira! Vamos para a sala?
Walther a acompanhou. Sentia ainda que sua mo estava suja, mas tentou disfarar, esfregando-a. Mais assustado ficou, quando chegou  sala e viu, sentado e conversando 
alegremente com Isaas, aquele menino. Encabulado, mas, acima de tudo, educado, sentou, comeou a comer, mas no conseguia falar. Seus olhos, mesmo que no quisesse, 
faziam questo de olhar para o menino que comia, falava e ria muito. Isaas, embora conversasse com o filho, prestava ateno aos movimentos de Walther. Terminaram 
de almoar. Foram para a sala de visitas. Ismnia, em seguida, trouxe caf e serviu aos dois. Walther estranhou o caf, que era pouco e forte. Estava acostumado 
com muito caf e fraco, quase gua. No conseguiu tomar todo, embora, para ele, fosse pouco. Em seu pas, o caf era servido em abundncia. Isaas estranhou. Perguntou:
- No gosta de caf?
- Gosto, mas este est muito forte, em meu pas  diferente!
- Parece que muitas coisas so diferentes em seu pas!
- Por que est dizendo isso? Fiz alguma coisa para que pensasse assim?
- Embora eu no saiba quase nada de como  o seu pas, pois as notcias demoram muito para chegar, o Paulo sempre teve muita curiosidade. Por isso acompanhava tudo 
que se passava l. Desse modo, conversando com ele, tambm aprendi muito. Sei que l existe muito racismo! Sei que os negros vivem em lugares separados dos brancos. 
Que eles tm suas escolas, igrejas e comrcio separados. Que no podem andar nas mesmas caladas em que os brancos andam. Que s entram nas casas dos brancos pela 
porta dos fundos e para trabalhar como domsticos. Por isso notei que, embora tenha tentado disfarar, no conseguiu e mudou assim que viu o Leo sendo amado como 
nosso filho e sentado  nossa mesa.
Walther ficou encabulado. Gostava de Isaas e no queria, de forma alguma, perder essa amizade to recente, mas j to profunda. Olhou para ele e no soube o que 
dizer. Isaas continuou:
- No pense que o estou julgando ou condenando. Sei que foi criado assim com todo esse preconceito e por isso teve essa reao, mas nisso este pas  diferente, 
no vou dizer que no exista racismo. Aqui tambm existe, talvez um pouco mais velado, mas infelizmente existe. S que no existe segregao, vivemos juntos, misturados. 
Qualquer um pode ir a qualquer escola, igreja e entramos nas mesmas lojas e mercearias. A escravido terminou e, junto com ela, outras coisas mais. Sei que ainda 
falta muito para chegarmos  perfeio, talvez nunca cheguemos, mas estamos caminhando.
Walther ouviu calado. Sentia vergonha, mas realmente havia sido criado dessa maneira. Nunca teve proximidade alguma com negros. Em sua casa, eles s entravam para 
servir, nunca para conviver. Seu pai no permitiria.
- Isaas, por favor, me desculpe se o ofendi, no foi essa minha inteno...
- Sei disso, no precisa ficar preocupado. Paulo gostava muito do Leo, assim como todos ns. Sei que, se deixar de lado o preconceito, gostar dele tambm.  um 
menino especial, muito amoroso, carinhoso e esperto. J que estamos nesse assunto, devo lhe dizer que eu no o escolhi para ser meu filho. Ele me foi mandado por 
Deus, para ser o nosso companheiro, a nossa felicidade.
- Peo desculpas novamente. Mas se no o escolheu, como foi que ele chegou at voc?
-  uma longa histria, mas vou contar. Uma tarde, eu e o Paulo estvamos voltando do trabalho. Assim que virei o carro para entrar, vimos uma moa, sentada na calada, 
chorava muito. Paulo me fez parar e falar com ela. Desci do carro, me aproximei, toquei em seu ombro, perguntei:
- Voc est sentindo alguma coisa? Est doente?
- Ela levantou rapidamente. Olhou para o carro, viu Paulo que tambm a olhava. Ela, parecendo assustada, respondeu:
- Desculpe, senhor,  que estou andando o dia todo atrs de trabalho e no consegui nada. Estou com muita fome. Mas j estou indo embora.
- Assim que ela levantou, percebemos que, alm de estar com as roupas sujas, estava grvida. Paulo fez um sinal. Eu entendi, segurei em seu brao, dizendo:
- Espere! No precisa ir embora. Se est com fome, em nossa casa deve ter algo que possa comer, entre por esse corredor. Vou entrar com o carro e a levarei para 
falar com a minha esposa. Ela far algo para que coma.
- A moa me olhou, depois para Paulo, que com um sorriso concordou com a cabea. Ela pegou uma pequena sacola que estava no cho e foi caminhando pelo corredor. 
Eu entrei no carro e parei na garagem. Descemos, Paulo foi para seu quarto trocar de roupa para esperar o jantar. Fiz com que ela me acompanhasse. Entrei na cozinha, 
Ismnia estranhou a presena daquela moa. Notando sua surpresa, eu disse:
- Esta ... como  o seu nome? Meu nome  Lorena!
- Pois bem Ismnia, esta  a Lorena. Lorena, essa  a Ismnia, minha esposa.
- Muito prazer, senhora...
- Ismnia ficou me olhando, sem entender nada. Vendo aquela situao, eu perguntei:
- Ismnia, tem algo para comer? A Lorena est com fome.
- O jantar ainda no est pronto, vai demorar um pouco!
- Dona! A senhora no precisa se preocupar! Pode ser s um pedao de po...
- Ismnia olhou para a barriga que j estava bem grande.
Disse:
- Estou vendo que voc est mesmo com fome. Vou fritar um ovo e voc come, assim engana o estmago at o jantar ficar pronto. Tem alguma roupa nessa sacola?
- Sim, senhora. Por qu?
- Enquanto eu preparo o lanche, voc vai pegar essa sacola, entrar naquela porta e tomar um bom banho. Acredito que est precisando! Se no tiver uma toalha, existem 
muitas no armrio, pode pegar. Quando sair, o seu lanche estar pronto. Est bem assim?
- Est muito bom! Estou mesmo precisando de um banho! Muito obrigada, senhora!
- Ismnia no respondeu, apenas sorriu. Lorena, com sua sacola, entrou no banheiro. Enquanto fritava o ovo, Ismnia me perguntou:
- Onde encontrou essa moa, Isaas?
- Contei a ela, dizendo que foi o Paulo quem fez com que eu a fizesse entrar. Lorena no demorou muito no banho, parecia querer incomodar o menos possvel. Assim 
que saiu, com a roupa limpa e os cabelos molhados, nos olhou com vergonha pela situao. Ismnia fritou o ovo. Colocou em um prato, pegou po e um copo de leite. 
Mostrou uma cadeira para que ela sentasse. Lorena sentou e comeou a comer. Ela comia com tanta vontade, parecia que aquele po com ovo e leite era o manjar dos 
deuses. Paulo, depois de ter trocado de roupa, veio at a cozinha. Chegou quando ela pegava um pedao de po e limpava o prato. Ele ficou encostado na parede, olhando, 
sem nada dizer. Quando ela terminou de tomar o ltimo gole do leite, olhou para ns, que a olhvamos com muita dor no corao por ver aquela moa com tanta fome, 
triste e abandonada. Ao ver o Paulo, ela se levantou. De seus olhos caam lgrimas:
- Muito obrigada, senhor! Que Deus o abenoe! Que abenoe a todos...
- No precisa agradecer. Venha comigo e com o Isaas at a sala, enquanto a Ismnia termina de preparar o jantar. Vamos conversar um pouco?
- O senhor  quem sabe...
- Paulo me olhou e juntos fomos at a sala. L, ele mostrou a ela um sof para que se sentasse. Ela sentou e ficou com a cabea baixa. Aps alguns segundos, Paulo 
disse:
- Pode levantar a cabea, est no meio de amigos. Queremos ajudar voc, mas precisamos saber como. Por que est nessa situao? Que lhe aconteceu? Voc  ainda muito 
nova! Quantos anos tm?
Ela nos olhou. De seus olhos, lgrimas caam.
- Preciso de ajuda! Embora tenha errado, minha criana precisa nascer e com sade! A nica coisa que preciso  de um trabalho. Os senhores foram muito bons. Sem 
me conhecer, me deram o que comer. Nunca vou me esquecer disso. Acredito que, como gratido, preciso que saibam da minha histria. Por isso, vou contar.
- Ela estava nervosa, tremia muito. Paulo, sorrindo, disse:
- Fique calma. No precisa tremer. Se achar importante, conte a sua histria. Confesso que estou curioso.
- Ela, ao ver o sorriso dele, se acalmou um pouco e comeou a contar:
- Minha histria  como tantas outras que existem e, com certeza, continuaro a existir. Tenho dezenove anos. Morava no interior. Minha famlia estava passando por 
necessidade. Por isso, vim para a capital morar na casa de uma tia, assim poderia trabalhar e mandar algum dinheiro para meus pais. Assim que cheguei, fui trabalhar 
em uma casa de famlia. Dormia l e s voltava para casa da minha tia nos fins de semana. A casa era grande, eu trabalhava como arrumadeira e ajudante da cozinheira. 
Meus patres eram jovens, recm-casados e s estudavam. Saam quase todas as noites para teatros e cinemas. Os pais dos dois eram muito ricos e pagavam todas as 
despesas. Eu dormia em um quarto que ficava nos fundos da casa. Por mais que tentasse, eu no me acostumava a ficar longe da minha famlia e me sentia muito sozinha. 
Em uma manh, fui at o aougue. O aougueiro que sempre me atendia no estava l. Um rapaz muito bonito me atendeu. Pedi a carne. Ele sorriu. Fiquei olhando, enquanto 
ele cortava a carne. Era negro como eu, alto e tinha um lindo sorriso. Quando me entregou o pacote, fez questo de tocar em minha mo. Aquele toque mexeu comigo. 
Senti um calor intenso por todo o meu corpo. Fiquei sem saber o que fazer. Ele sorriu, dizendo:
- Volte outra vez. Prometo que vou escolher sempre as melhores carnes.
Sa dali tremendo. Nunca tinha sentido algo parecido com aquilo. Ao chegar em casa, entreguei a carne para Luzia, a cozinheira. Ela percebeu que havia acontecido 
alguma coisa, perguntou:
- Que aconteceu, Lorena? Voc est vermelha e tremendo!
- No aconteceu nada, devo ter vindo muito depressa. Daquele dia em diante, eu no consegui mais esquecer aqueles olhos e seu sorriso. Ficava ansiosa para que Luzia 
me mandasse ao aougue, pois assim eu poderia v-lo. Sempre que eu ia at l, meu corao batia mais forte. Ele sempre me recebia com aquele sorriso maravilhoso. 
Sempre que me entregava o pacote, segurava minha mo por alguns segundos. Isso durou algum tempo. Um dia, ao me dar o pacote, segurou minha mo com mais fora, dizendo:
- No estou suportando mais ficar s segurando em sua mo. Preciso ficar mais tempo com voc. Estou apaixonado, no a esqueo por um minuto que seja!
- Aquelas palavras fizeram com que meu corao batesse mais forte ainda. Fiquei calada, olhando para ele e sentindo que tambm queria estar ao seu lado para sempre. 
Respondi:
- No sei como isso possa acontecer! Trabalho e durmo no meu emprego, no sei como fazer para encontrar voc!
- Trabalha nos fins de semana?
- No, mas tenho que ir para a casa da minha tia. Se no for, ela vai desconfiar e contar para meus pais.
- Diz para ela que no sbado vai ter uma festa na casa da sua patroa e que ela pediu para voc ajudar. Quem sabe dar certo, a poderemos nos encontrar por alguns 
minutos.
- Vou tentar, mas no sei se vai dar certo.
- Tem que dar, preciso ficar com voc. Sa dali com o corao batendo e o corpo todo tremendo. Durante o caminho, fui imaginando como faria para mentir para minha 
tia. Eu no estava acostumada a mentir. No sabia se conseguiria, mas a vontade de ficar junto dele, conversando e sentindo aquela mo, me dava toda a fora de que 
precisava. Cheguei em casa, entreguei a carne para Luzia, fui para dentro da casa arrumar tudo. Enquanto ia arrumando, pensava o que dizer para minha tia. Depois 
de muito pensar, resolvi: ela no tinha telefone, mas eu precisava falar com ela. Terminei logo o meu trabalho, deixei tudo em ordem, fui at a cozinha, falei com 
a Luzia:
- Luzia, no sei por que, mas estou tendo um pressentimento ruim, sonhei com a minha tia, o sonho no foi muito bom. Ser que eu poderia dar um pulo at l para 
ver como ela est e se tudo est bem? Vou e volto bem depressa!
- No sei... Voc tem muito trabalho.
- J est tudo pronto. Vou e volto a tempo de ajudar voc no jantar.
- Est bem, v, mas volte logo. 
Sa correndo. Minha tia morava muito longe, era preciso tomar um nibus e ainda andar um bom pedao a p, mas nada daquilo me importava. Fiquei no ponto do nibus, 
esperando, e ele nunca demorou tanto para chegar. Finalmente, chegou. Aps uns quarenta minutos, estava no ponto em que deveria descer. Teria que andar mais uns 
dez minutos para chegar at a minha casa, mas nada daquilo me importava. Estava correndo atrs da minha felicidade. Finalmente cheguei em frente a casa. Entrei correndo, 
minha tia levou um susto ao me ver ali quela hora:
- Tia, sou eu, a Lorena!
- Lorena? Por que est aqui? Que aconteceu? Foi despedida do trabalho?
- Nada disso, tia. No aconteceu nada de grave, minha patroa vai dar uma festa no sbado, pediu que eu ficasse para ajudar. Disse a ela que s poderia ficar se a 
senhora concordasse. Ela permitiu que eu viesse aqui falar com a senhora.
- Ainda bem! Pensei que tivesse perdido o trabalho! Sabendo que vai ficar trabalhando, ficarei sossegada. Fez bem em vir me avisar. Vai ficar aqui hoje?
- No, tenho que voltar rpido para ajudar Luzia a fazer o jantar. Estou indo agora mesmo.
- Est bem, minha filha, vai com Deus.
- Sa dali correndo. Precisava voltar o mais rpido possvel, no podia despertar nenhuma suspeita em Luzia. Com tudo resolvido, fui correndo para o ponto do nibus. 
Ele no demorou muito e a caminhada tambm no pareceu to longa. Quando desci do nibus, antes de ir para casa, fui at o aougue. Ele estava l, lindo como sempre. 
Ao me ver, seus olhos brilharam. Emocionada, disse:
- Est tudo certo, no vou precisar voltar para casa no fim de semana.  Posso me encontrar com voc.
- Ele abriu um grande sorriso, dizendo:
- Isso  timo! Vamos fazer o seguinte, pego voc na casa da sua patroa e podemos tomar um sorvete ou ir ao cinema!
- No! Voc no pode aparecer. Vamos nos encontrar na praa? Ser melhor.
- Est bem, farei tudo o que quiser. Voc  quem manda.
- Sa dali sorrindo e correndo. Precisava chegar logo. Luzia, ao me ver chegar, perguntou:
- Como est a sua tia? Aconteceu alguma coisa?
- No. Foi bobagem minha. Ela est muito bem, mas foi bom eu ter ido l e visto com meus prprios olhos que ela est bem. Eu estava realmente muito preocupada.
- Bem, j que est tudo bem, vamos fazer o jantar. Logo, os patres chegaro, sabe que aps ter estudado o dia inteiro, eles chegam com muita fome.
- Comeamos a preparar o jantar. Eu estava muito feliz, era quinta-feira, o sbado estava chegando. Finalmente, eu poderia encontrar com o meu amor, mas, antes disso, 
precisava falar com a minha patroa e pedir permisso para ficar ali no fim de semana. Aps o jantar, quando fui levar o caf, parei diante dos dois, que conversavam:
-        Com licena. Dona Eliana, preciso falar com a senhora.
- Os dois me olharam, espantados, eu no costumava interromper quando estavam conversando. Mas ela, muito educada, disse:
- Pois no! Que aconteceu?
- A minha tia vai fazer uma viagem, eu no gostaria de ficar no fim de semana sozinha na casa dela. A senhora sabe, ela mora em um lugar muito afastado, queria pedir 
permisso para ficar aqui!
- Ah! E isso? Pensei que estava querendo pedir demisso.
- Nem pensar! Adoro trabalhar aqui!
- Voc quer ficar dormindo aqui? No h problema algum. Pode ficar este e quantos fins de semana quiser. S que vai ficar sozinha, a Luzia ,como sabe, vai todos 
os dias para casa. Alm disso, vamos viajar. Sairemos na sexta-feira  noite! Ficar sozinha do mesmo modo.
- Aqui no me importo de ficar sozinha. A casa tem toda segurana.
- Sendo assim, pode ficar. Eu mesma ficarei mais tranqila sabendo que a casa no ficar sozinha.
Pedi licena e sa vibrando por dentro. Tudo estava dando certo. Finalmente, poderia encontr-lo. Fiquei contando os dias e minutos que faltavam. Finalmente, o sbado 
chegou. Eu me arrumei da melhor maneira que consegui. No tinha muitas roupas, mas, mesmo assim, achei que estava bonita. Na hora marcada, eu estava na praa, sentada 
em um banco. Em seguida o vi chegando. Ele tambm estava bem arrumado e ainda mais bonito. Chegou, pegou minha mo, me levantou e me deu um abrao bem apertado. 
Senti todo o seu corpo junto ao meu. Comecei a tremer. Ele percebeu:
- No precisa ficar nervosa. Gosto muito de voc e no quero lhe fazer nenhum mal.
- Sei disso, no estou com medo, s emocionada.
- Tambm estou emocionado. Mas, antes, vamos nos apresentar? Meu nome  Nelson! E o seu?
- Lorena, meu nome  Lorena...
- Igual a voc, seu nome tambm  muito bonito. Que quer fazer? Ir ao cinema? Est passando um filme muito bom.
- Na realidade, eu nunca havia ido a um cinema, nem sabia como era. Na cidade em que morava, no havia nenhum, era muito pequena. No quis dizer isso a ele, por 
isso concordei. Ao entrar no cinema, fiquei encantada, nunca havia visto uma sala to grande como aquela. Todas aquelas cadeiras e a cortina vermelha. Ele foi me 
conduzindo, entramos em uma fileira, sentamos bem no meio. A sala estava iluminada, ouvi uma msica suave. De repente, a sala escureceu, me assustei, pois no estava 
esperando. A cortina se abriu e a tela se iluminou, imagens comearam a aparecer. Lembrando agora, parece brincadeira, mas realmente me emocionei. O filme comeou. 
Eu no conseguia tirar os olhos da tela. Nelson passou o brao por trs e o colocou sobre meus ombros, comeou a fazer carinho em meu rosto. Aquilo me fazia muito 
bem. Aos poucos, foi encostando sua cabea na minha. Eu parecia estar em outro mundo, era s felicidade. Delicado, com as mos, virou meu rosto para o dele e me 
beijou com paixo. A princpio, fiquei com medo, mas me entreguei. Ele me beijou vrias vezes, cada vez eu gostava mais. A sala voltou a se iluminar. O filme havia 
terminado. Ns nem notamos. Seguindo as outras pessoas, samos abraados. Na praa, ele disse:
- Estou apaixonado por voc, sinto que no poderei mais viver sem a sua companhia. Quero ficar com voc para sempre.
- Era exatamente o que eu sentia e queria ouvir. Apenas sorri, no sabia o que dizer. Ele perguntou:
- Como conseguiu arrumar uma maneira de me encontrar?
- Contei a ele tudo o que havia feito, o que falei com a minha tia e com a minha patroa. Quando terminei, ele, sorrindo, disse:
- Voc  mesmo muito espertai Quer dizer que no tem ningum em sua casa? Seus patres esto viajando?
- Esto, vo voltar s amanh  noite.
- Ento, podemos ir at l e ficar conversando em seu quarto?
- No! No podemos fazer isso!
- Por que no? Ns estamos apaixonados, isso voc no pode negar. Por que no ficarmos juntos? No vai acontecer nada de mal. Vamos apenas conversar e trocar alguns 
carinhos.
- Fiquei pensando. Era tudo o que eu queria, no vi mal algum e aceitei. Entramos pelo porto e nos dirigimos para o meu quarto. J l dentro ele me pegou por trs, 
comeou a beijar meu pescoo e meu ombro. Tentei resistir, mas no consegui. Em poucos minutos, estvamos deitados na minha cama. Ele me encheu de carinhos e beijos, 
aos poucos fui me entregando. Sabia que o que estava fazendo no era certo, mas estava me sentindo muito bem. Ficamos ali por muito tempo. Quando estava quase amanhecendo, 
ele levantou e foi embora. Fiquei ali sonhando e relembrando tudo o que havia acontecido. Estava muito feliz. No domingo, no nos encontramos. Fiquei em casa o dia 
todo, relembrando da noite maravilhosa que tive. Na segunda-feira, tudo voltou ao normal. Luzia chegou cedo, antes de os patres acordarem. Quando ela chegou, eu 
j estava com o caf coado e arrumando a mesa, pois eles, todos os dias, tomavam caf e saam correndo para a escola. Ela era dentista. Ia  faculdade pela manh 
e  tarde fazia estgio em um consultrio. Ele estudava o dia inteiro para ser engenheiro. Voltavam para o almoo e, depois, s a noite. Terminamos de arrumar a 
mesa para o caf. Os dois desceram e, como sempre, tomaram o caf rapidamente e saram quase correndo. Luzia percebeu que eu estava feliz. Perguntou:
- Que lhe aconteceu, Lorena? Est com um brilho diferente nos olhos.
Quis lhe contar o que havia acontecido, mas no tive coragem. No fundo embora estivesse feliz, sabia que havia feito algo de errado. Primeiro, ter deixado um estranho 
entrar na casa dos patres. Segundo, ter me entregado com tamanha facilidade. Respondi:
- No aconteceu nada. S estou me sentindo bem.
- No entendo. Ficou o fim de semana aqui em casa sozinha e me diz que est bem?
- Pois fique sabendo que fiquei muito bem. Ouvi msica no rdio. Fiquei em paz.
- Ainda bem, pois eu tive uma poro de problemas. Como sempre, meu marido voltou a beber e fez outro escndalo. Por isso, s fico bem enquanto estou trabalhando. 
Queria ser como voc, sozinha e sem compromisso algum.
- Sou mesmo muito feliz. Mas agora tenho que trabalhar. No esquea que os patres foram viajar, com certeza trouxeram muita roupa para ser lavada. Vou arrumar l 
em cima, depois ajudo voc com o almoo.
- Subi as escadas correndo. No queria continuar aquela conversa. Sentia medo de me trair e deixar escapar qualquer coisa. Queria ver o Nelson, mas no podia sair 
de casa sem que a Luzia pedisse.
Walther prestava ateno em tudo o que Isaas contava. Leo entrou na sala, dizendo:
- Papai, o sol est quente, no podamos ir at a piscina? Isaas olhou para Walther, perguntando:
- Gostaria de ir at a piscina? Como disse o Leo, o sol est quente.
Walther olhou para Leo, agora de uma maneira diferente. No que o seu preconceito houvesse terminado. Para ele, o menino continuava sendo um negro, portanto diferente 
dele, mas estava interessado em saber o resto daquela histria e como ele tinha se tornado filho de Isaas. Voltou seus olhos para Isaas, dizendo:
- Se no se incomodar, gostaria de continuar ouvindo essa histria que est me contando. Embora j esteja adivinhando o final, estou curioso para saber o que aconteceu.
Isaas olhou para seu filho, disse:
- Estou tendo uma conversa muito sria com a nossa visita. O sol est quente hoje e amanh continuar tambm quente. Se prometer ficar no lado raso e se sua me 
ficar olhando, voc pode ir para a piscina. Prometo que amanh iremos todos juntos. Est bem?
Ismnia, que havia entrado junto com o menino, sabia que Isaas estava contando ao Walther a histria do filho. Disse:
- Leo! Venha comigo! Voc pode nadar todo o tempo que quiser. O papai vai continuar conversando com o senhor Walther.
O menino correu para a me, se abraou a ela e, juntos, saram. Isaas se voltou novamente para Walther:
- J que est gostando da histria, vou continuar. Durante o dia todo, Lorena ficou ansiosa, esperando que Luzia a mandasse para a rua fazer alguma compra. Ela queria 
ver Nelson. Parecendo adivinhar o seu desejo, Luzia a chamou:
- Olhei na geladeira e percebi que est faltando tomate e cebola. V at a quitanda e compre, do contrrio no terei como preparar a salada.
- Lorena quase no conseguiu esconder a sua felicidade. Antes de sair, penteou os cabelos. Luzia estranhou, pois ela no costumava fazer isso:
- Menina! Por que isso?
- Isso o qu? 
- Se arrumar para ir at a quitanda?
- O que tem que ver? No preciso andar por a toda desarrumada! J estou indo!
- Saiu correndo. A quitanda ficava ao lado do aougue. Entrou. Ao v-la, Nelson sorriu, dizendo:
- Ainda bem que veio! No agentava mais de saudades! Quando vou poder encontrar voc novamente?
- No sei, mas vou dar um jeito!
- Vou ficar esperando, mas, por favor, no demore muito. Estou morrendo de saudades.
- Eu tambm. Pode deixar que vou encontrar um meio.
Saiu dali sorrindo. Seu corao estava cheio de alegria. Entrou na quitanda, comprou o tomate e a cebola e voltou feliz para casa. Passou o resto do dia pensando 
em um meio de ficar outra vez com Nelson. No podia mentir novamente para sua tia e sua patroa. Teria que inventar outra maneira. Estava descascando batatas, quando 
Luzia perguntou:
- Ser que eles vo vir jantar hoje, Lorena?
- Por que est perguntando isso, Luzia?
- A Dona Eliana no ligou at agora. Sabe que, s vezes, eles jantam fora.
- Quando isso acontece, ela sempre avisa. Se no avisou,  porque viro jantar.
- Pode ser, mas com certeza sairo  noite. No sei como eles conseguem sair quase todas as noites e levantar cedo todos os dias.
- So jovens e se amam, Luzia...
- Que voc entende de amor, Lorena?
- Nada, mas basta ver como eles se tratam.
Luzia ficou calada - continuou Isaas. Lorena comeou a pensar: Realmente, eles, quase todas as noites, vo a algum lugar. Voltam sempre muito tarde. Vou combinar 
com o Nelson. Assim que eles sarem, deixarei a luz da garagem acesa. Ele poder vir sem se preocupar. Pode ficar um pouco aqui comigo e ir embora antes que eles 
voltem. Em seu rosto surgiu um sorriso. Estava tudo certo, s faltava uma oportunidade para contar ao Nelson. No dia seguinte, acordou entusiasmada. Assim que terminaram 
de tirar a mesa do caf e os patres j haviam ido embora, Luzia, disse:
- Preciso que v at o aougue. Quero que me traga uma carne boa para ser assada. Traga um pedao sem muita gordura.
- Era tudo o que Lorena queria ouvir. Ali estava a oportunidade de contar seu plano para o Nelson. Dessa vez, para no chamar a ateno de Luzia, saiu rpido, sem 
se arrumar. Foi correndo. Seu corao batia s em pensar que encontraria novamente com o seu amor. Assim que entrou no aougue, teve que se conter. Nelson estava 
atendendo uma cliente. Ele olhou para ela e sorriu. Ela ficou esperando. Assim que a cliente saiu, ela disse:
- Consegui encontrar um modo de nos encontrarmos.
- Isso  timo! Como ser?
- Meus patres saem quase todas as noites. Gostam de ir ao teatro, cinema ou simplesmente danar.
- Que esta querendo dizer?
- Que poderemos nos encontrar sempre que eles sarem. Sempre que voc vir a luz da garagem acesa, ser o nosso sinal. Voc poder tocar a campainha, eu abrirei o 
porto e, assim, poderemos nos ver.
- Voc  mesmo inteligente.  Como teve essa idia?
- De uma conversa que ouvi da Luzia. Ns vamos nos encontrar durante a semana, nos fins de semana vou para a casa da minha tia e ningum descobrir nada.
- Isso no vai durar muito tempo, assim que acertar a minha vida, encontrarei uma casa e nos casaremos. Sabe o quanto amo voc.
O plano de Lorena deu certo, eles comearam a se encontrar sempre. At que, um dia, Lorena percebeu que estava grvida. Contou para o Nelson:
- Estou grvida. No sei como vai ser. Assim que minha tia descobrir, no vai aceitar e vai contar tudo aos meus pais. Talvez eu v perder o meu emprego.
Nelson pareceu feliz, disse:
- No estava pensando em um filho, mas no se preocupe, tudo vai ficar bem. Antes que algum descubra, encontrarei uma soluo.
Lorena voltou para casa com a carne. Estava radiante, pois alm de ter encontrado o homem de sua vida, estava tambm esperando um filho, que seria a sua felicidade 
total. Continuaram a se encontrar por mais algum tempo. Todas as noites, ele passava pela frente da casa e sempre que via a luz da garagem acesa, sabia que o terreno 
estava livre. Com o tempo, Lorena entregou a ele uma chave do porto. Ele, agora, entrava sem tocar a campainha. Em uma noite, ao passar, notou a luz acesa e como 
sempre fazia entrou. Lorena, tambm como sempre, o recebeu com toda felicidade. Sua barriga j comeava a aparecer, mas ela usava roupas largas e at aquele momento 
ningum havia notado. Estavam se amando descontrados, quando algum bateu  porta. Assustaram-se. O quarto era pequeno, no havia como Nelson se esconder. A voz 
do patro se fez ouvir:
- Lorena! Acorde, por favor! A Eliana no est passando bem, preciso que faa um ch para ela!
Lorena tremia, ela e Nelson estavam despidos. Ficou sem saber o que fazer. O patro, pensando que ela no o havia escutado, mexeu na maaneta da porta. Lorena no 
costumava trancar com a chave. Ele abriu e viu os dois ali, daquela maneira. Perguntou, furioso:
- Que est acontecendo aqui, Lorena? Quem  esse homem?
Ela, sem saber o que falar e com muita vergonha, comeou a chorar. O patro, nervoso, continuou:
- No quero explicao alguma! Vistam suas roupas, e agora mesmo, quero os dois na rua! Ela ainda tentou argumentar:
- Por favor, no faa isso, no tenho para onde ir...
- Mas deu a chave da minha casa para um estranho? V com ele! Ele que encontre um lugar para voc ficar! No quero voc aqui nem mais um minuto! Saiam!
- Por favor, senhor. Sei que errei, mas prometo que isso no vai mais se repetir...
- No vai mesmo! Voc vai sair daqui imediatamente!
Lorena, vendo que no havia como comover aquele homem e entendendo que ele tinha razo, se vestiu, pegou suas poucas coisas, colocou em uma sacola e saiu acompanhada 
por Nelson. J na rua, chorando, olhou para ele, perguntando:
- Nelson, que vamos fazer? Para onde iremos a esta hora da noite?
Ele estava muito sem graa, sentia que teria de contar a verdade, s no sabia como comear. Finalmente, tomou coragem:
- No sei o que fazer. Nunca lhe disse, mas sou casado, tenho dois filhos, no pretendo abandon-los.
- Casado? Esteve me enganando esse tempo todo?
- No a enganei, gosto mesmo de voc, mas nunca pensei em ter um filho. Continuaria com voc e com minha esposa, nada alm disso.
- Este filho que carrego  seu tambm!
- Sinto muito, mas no posso fazer nada. Acho melhor que me esquea. Amanh, no voltarei para o aougue. No posso me arriscar em perder a minha famlia. O melhor 
que tem a fazer  voltar para a casa da sua tia ou para a sua casa.
- No vou poder esconder essa barriga por muito tempo. Minha tia tem uma mentalidade muito antiga e o meu pai  pior ainda. Eles no vo aceitar! Que vou fazer, 
Nelson?
Ele foi se afastando, vagarosamente. Ela tentou segur-lo, mas foi intil. Ele foi embora e ela ficou ali, sozinha, no meio da noite, sem ter para onde ir. Chorando, 
dirigiu-se para a praa. Sentou em um banco, fazia muito frio. Encolheu as pernas e colocou o vestido por cima para se proteger do frio. Ficou ali chorando sem saber 
o que fazer. Quando acordou, o sol j raiava. Ao abrir os olhos, relembrou tudo o que havia acontecido e da situao em que se encontrava: Meu Deus! O que vou fazer? 
No posso voltar para minha casa, meu pai nunca vai aceitar esta criana. Vai me julgar uma perdida. Que vou fazer? Foi andando at a casa de sua tia, que, ao v-la, 
admirou-se, pois era meio de semana:
- Que est fazendo aqui, Lorena? Por que no est trabalhando?
Lorena, chorando, respondeu:
- Fui mandada embora. Estou sem emprego...
- Mandada embora? Por qu? Que voc fez?
Lorena ia contar, quando a tia a olhou mais atentamente e percebeu sua barriga. Com a pressa, ao sair, esqueceu de usar a cinta e o vestido largo que a escondia:
- O que significa essa barriga? O que voc fez, menina?
Lorena desabou a chorar. No sabia como explicar, no conseguia acreditar que havia sido enganada por Nelson. A tia, nervosa, gritando, continuou:
- No precisa contar nada! J sei como isso aconteceu! Envolveu-se com um homem! Quem  ele? Onde est?
- No sei. Ele foi embora. No sei onde mora!
- Sinto muito, mas voc no pode ficar aqui na minha casa! Esta  uma casa de famlia! Volte para junto dos seus pais, eles  que sabero o que fazer, eu no sei!
- Tia! A senhora sabe que meu pai no vai me aceitar! Ele vai dizer que estou perdida! A cidade onde moro  muito pequena, ningum vai me aceitar!  Todos vo comentar!
- Voc deveria ter pensado nisso antes de cometer essa bobagem! Sinto muito, mas aqui tambm no pode ficar! Pode voltar pelo mesmo caminho por que veio!
- No tenho para onde ir...
- No posso fazer nada! V para a casa do seu pai! Aqui no pode ficar!
Lorena pegou sua trouxa e saiu, desesperada. J na rua, ficou olhando para todos os lados, sem saber que direo tomar. Enxugava os olhos para poder enxergar, mas 
as lgrimas no paravam de cair. De seu peito, saam soluos profundos. Estava em total desespero. Ficou andando sem rumo. Anoiteceu. Estava com fome, no tinha 
onde dormir. Chegou, novamente,  praa, dormiu no mesmo banco. Acordou, saiu andando, procurando uma casa em que pudesse trabalhar, mas as pessoas, quando viam 
sua barriga, no a aceitavam. Em algumas casas, conseguiu comer alguma coisa, nada alm disso. Sabia que no adiantava voltar para a casa de seus pais. Ficou vrios 
dias perambulando atrs de um emprego, at que, naquela tarde, cansada de tanto andar, sentou em frente  nossa casa para descansar. Walther ouvia e por seu pensamento 
as imagens iam acompanhando a histria. Assim que Isaas terminou de falar, ele perguntou:
- Por que o meu tio permitiu que uma negra entrasse na sua casa?
- Porque ele no viu a negra, mas sim a sua barriga.
- No estou entendendo! O que tem a ver uma coisa com a outra?
- Isso  algo que s ele poderia responder, no sei. S sei que assim que Lorena terminou de contar a histria, Paulo levantou, ficou andando pela sala sem nada 
dizer. Depois de andar por um tempo, parou em frente a ela, perguntando:
- O que pensa fazer agora ?
- No sei... S quero que meu filho possa nascer e ser mais feliz que eu...
- Depois que ele nascer, vai fazer o qu?
- No sei o que vai acontecer, mas a nica coisa que quero  nunca me separar dele... Sinto que mesmo sem que eu quisesse, Deus me mandou esta criana. Ela vai nascer 
e eu vou am-la muito. Se Ele me deu este presente, com certeza vai me ajudar para que eu o tenha e possa ficar com ele.
- Deseja mesmo ter esse filho e cuidar dele?
- Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance. J amo muito esta criana.
- Sendo assim, a partir de agora, est sob a minha proteo, voc e a sua criana.
- No estou entendendo...
- Se Deus lhe deu esse presente, se voc veio parar em frente  minha casa,  porque Ele quer que eu tambm receba esse presente. Se quiser, pode ficar aqui, at 
que sua criana nasa. Aps ela nascer, voc vai decidir o que fazer. Que me responde?
Ela comeou a chorar. Levantou, pegou a mo de Paulo, tentou beijar, dizendo:
- Muito obrigada! O senhor  um santo! No sei como agradecer! Vou ficar aqui na sua casa, mas vou trabalhar, posso fazer qualquer trabalho.
- Paulo, antes que ela conseguisse beijar sua mo, retirou-a, dizendo:
- No precisa me agradecer. No sou nenhum santo. Aprendi que, como quase todas as pessoas, sou s um grande devedor. Tenho minhas contas para acertar. Fique aqui, 
trabalhe, ajudando a Ismnia, enquanto conseguir. Assim que a criana nascer, veremos o que ser feito. Por enquanto, Isaas, leve essa moa at a Ismnia, pea 
a ela para lhe preparar um quarto. Lorena, se quiser, pode ajudar a Ismnia com o jantar.
Ela levantou e, sorrindo, saiu correndo, dizendo:
- Obrigada, senhor! Vou agora mesmo ajudar a dona Ismnia!
Daquele dia em diante, Lorena ficou morando aqui. Era uma moa alegre e expansiva. Ismnia se deu muito bem com ela. Paulo deu todo o dinheiro necessrio para comprar 
o enxoval e tudo o que a criana iria precisar. Lorena ajudava no servio da casa. Aos poucos, foi nos conquistando. Todos nos considervamos pais daquela criana. 
Em uma tarde, trs meses aps, estvamos no escritrio, o telefone tocou, atendi:
- Isaas, sou eu, a Ismnia! A Lorena est com dores, precisa ser levada para a maternidade.
- Ismnia, fique calma, j estou indo para a, prepare tudo o que precisar ser levado para a maternidade.
- Paulo, ao ouvir aquilo, levantou da cadeira em que estava sentado:
- Que est acontecendo?
- No est acontecendo nada! A nossa criana vai nascer!
Ele pegou o palet e saiu, dizendo:
- Vamos logo!
Chegamos em casa. Ismnia estava muito nervosa. Lorena, embora com dores, sorria. Ao nos ver, disse:
- Finalmente, a nossa criana vai chegar. Est doendo muito, mas estou feliz.
- Ns a levamos para a maternidade. Paulo j havia telefonado para o mdico, que estava nos esperando. Assim que chegamos, Lorena foi levada para uma sala, onde 
o mdico a examinaria. Ns trs ficamos do lado de fora. Aps alguns minutos, o mdico voltou:
- Ela est muito bem. O trabalho da natureza j comeou, vai demorar mais ou menos umas quatro horas. Podero voltar para casa. Assim que a criana nascer, eu telefono, 
avisando.
- Ns nos olhamos, sem que um dissesse algo para o outro, nos sentamos. O mdico entendeu que no sairamos dali. 
Sorriu e voltou para dentro do quarto onde Lorena estava. Aps alguns minutos, ele voltou:
- Podem entrar por alguns instantes, ela quer falar com todos.
Entramos. Ela estava um pouco abatida, mas mesmo assim, sorria: Pedi ao mdico que os fizesse entrar, pois estou prestes a ter meu filho e isso devo a todos vocs, 
principalmente ao senhor, seu Paulo. Que Deus os abenoe. Espero que tudo corra bem, mas se alguma coisa me acontecer, tenho certeza que no vo abandonar a minha 
criana. Eu e Paulo estvamos emocionados demais, no sabamos o que dizer. Aprendemos a amar aquela menina. Ismnia foi a nica que respondeu:
- Fique bem calma, Lorena. No esquea que, por piores que sejam as dores, nada ser maior que a felicidade que vai sentir quando tiver a sua criana nos braos. 
No se preocupe, ela ter a ns todos para am-la!
Lorena sorrindo, disse:
- Sei disso, vocs so os anjos que Deus me enviou. Que esse mesmo Deus os abenoe.
Ia continuar falando, mas uma dor forte chegou, ela fez com o rosto uma expresso de muita dor. O mdico nos retirou do quarto, dizendo:
- Agora ela precisa ficar sozinha. J vi que no iro arredar o p daqui, mas, por favor, fiquem l fora. Assim que a criana nascer, vou avisar.
Samos, ficamos na sala de espera. Os minutos se transformaram em horas. Paulo andava de um lado para outro. Eu tambm estava muito nervoso. J havia passado por 
aquilo duas vezes, mas parecia ser a primeira. Ismnia, ao contrrio estava calma. Tirou da bolsa um pequeno rosrio e comeou a rezar. Em dado momento, falou:
- Vocs dois querem, por favor, parar de andar! Ela est bem! Logo a nossa criana vai nascer!
Ouvimos o que ela disse, mas no adiantou. Olhamos para ela, e continuamos andando. J eram quatro horas da tarde e no havamos comido nada. Ismnia sentiu fome, 
disse:
- No seria bom irmos at a lanchonete e comermos algo? Estou com fome!
S a percebemos que tambm estvamos com fome, mas tnhamos receio de sair e a criana nascer. Ismnia, continuou:
- No adianta ficarmos aqui. Nada vai adiantar ou atrasar a hora da criana nascer. Vamos comer, assim estaremos mais fortes para sentir a emoo de ver a criana.
- Concordamos, desde que fosse bem rpido. Ns fomos at a lanchonete que havia na prpria maternidade. Comemos, no, engolimos um lanche e tomamos um copo de leite. 
Voltamos para a sala. Quando estvamos chegando, a porta do quarto se abriu. O mdico saiu, sorridente!
- Nasceu!  um menino!
Nos abraamos, a nossa felicidade era to grande que contagiou o mdico e as pessoas que passavam por ali e outras que tambm esperavam a sua criana. Paulo tirou 
do bolso uma poro de charutos e comeou a distribuir. A alegria foi geral. Ismnia perguntou ao mdico:
- Podemos entrar?
- Agora, Lorena e a criana esto sendo cuidadas. Podem ir at o berrio, logo o menino ser levado para l. Vocs o vero atravs do vidro para evitar qualquer 
contgio. Ele at agora estava muito bem protegido. Tem que se acostumar com a sua nova vida. Por isso ficar por um tempo no berrio, sob total vigilncia para 
que nada acontea.
Entendemos e nos dirigimos para o andar de cima, onde ficava o berrio. Ficamos ali esperando. Agora, mais tranqilos, pois a nossa criana j havia nascido. Uma 
enfermeira veio at o vidro e nos mostrou o menino. Era a coisa mais linda. Foi assim que o Leo chegou em nossa casa e em nossas vidas. Isaas olhou para Ismnia 
que j h algum tempo estava ali, ouvindo o que seu marido falava. Walther seguiu o olhar dele e percebeu que Ismnia chorava. Preocupado, perguntou:
- Por que est chorando, Ismnia? Que aconteceu com Lorena?
Isaas segurou a mo da esposa, continuou:
- Ficamos felizes com o menino. Em casa, j estava tudo preparado, esperando a sua chegada. Samos dali e fomos para o quarto onde Lorena estava. Ela nos recebeu 
sorrindo:
- Viram o nosso menino? Ele no  lindo?
Paulo se aproximou, pegou a mo de Lorena e a beijou:
- Ele  muito lindo e ser muito feliz em nossa casa. A no ser que voc queira dar outro rumo para a sua vida.
- Nem pensar! S vou sair de sua casa, quando o senhor me mandar embora. Sei o quanto me ajudaram, sei o quanto esperaram o meu filho. Sei tambm que me consideram!
- Se  isso que quer, assim ser. Esse menino ter tudo o que precisar. Nada lhe faltar, nunca.
- Sei disso. Mas o mais importante  que ele ter muito, mas muito amor de todos ns.
Todos nos olhamos e sorrimos. Paulo continuou:
- Disso voc pode ter certeza. Agora, precisamos pensar no nome que lhe daremos. Tem alguma idia, Lorena?
- Nunca pensei nisso, mas gosto muito do nome Leonardo.
- Ento, que seja Leonardo.
Lorena sorriu.
- Muito obrigada...
- No tem nada que agradecer, ns  que estamos felizes por ter-nos dado esse lindo menino.
Uma sombra passou pelo rosto de Lorena. Todos notamos, Ismnia perguntou:
- Por que esse olhar de tristeza?  O que est pensando?
- Leonardo precisa de um registro de nascimento. S que no vai ter o nome do pai. No sei onde ele est.
- Isso no ser problema Embora eu prprio no saiba como  o procedimento nesses casos, mas deve existir uma maneira.
Eu disse:
- Registrei os meus dois filhos, no tive problema algum. Tambm no sei qual  o procedimento na falta do pai.
Novamente, Ismnia, com sua sabedoria, interrompeu a conversa.
- Vocs esto se preocupando  toa. Por mais que discutam, no chegaro a um acordo. O melhor a fazer  um de vocs ir amanh at ao cartrio e se informar.
Paulo disse:
- Iremos os dois. Amanh mesmo ele ter um registro.
Sorrimos. Ficamos ali conversando at oito horas da noite. Estvamos cansados. Lorena tambm, nos despedimos dela. Antes de sairmos, passamos pelo berrio para 
ver mais uma vez o nosso menino. Ismnia largou da mo do marido. Enxugou os olhos e serviu um caf. Isaas parou de falar para beber. Walther ficou pensando em 
tudo o que havia escutado at ali. Aps ter tomado o caf, Isaas continuou:
- Fomos para casa, estvamos cansados, aquele dia havia sido cheio de emoes. Eram sete horas da manh, estvamos tomando caf. Eu e Paulo iramos mais tarde at 
o cartrio para ver como seria feito o registro do menino. O telefone tocou. Ismnia foi atender. Era do hospital. Assim que desligou, ela estava branca como cera. 
S no caiu, porque eu corri e a segurei. Paulo tambm levantou, apressado:
- Que aconteceu? Por que est assim? Quem ligou?
Ismnia demorou alguns segundos para voltar ao normal. Finalmente, respondeu:
- Era do hospital. Pediram para que fossemos at l. Aconteceu uma complicao com a Lorena, ela no est bem...
Ficamos desesperados. Paulo falou alto:
- Que complicao? Ela estava muito bem!
- Tambm no sei. O que sei  que precisamos ir logo.
Ns nos apressamos, largamos o caf que estvamos tomando e, apreensivos, nos dirigimos ao hospital. L, encontramos o mdico que havia feito o parto de Lorena. 
Ele nos recebeu com o olhar triste.
- Sinto muito, mas durante a noite ela comeou a sofrer uma hemorragia, no houve maneira de controlar. Infelizmente, ela se foi...
Estvamos atnitos, no conseguamos acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Paulo, temeroso, disse:
- Se foi como? O que est querendo dizer?
- Ela no resistiu. Tentamos todas as maneiras conhecidas pela medicina, mas nada adiantou. Ela faleceu...
- Ns estvamos boquiabertos. Ismnia comeou a chorar. Paulo ficou branco, calado, sem saber o que dizer. Parecia que eu estava sonhando, no conseguia acreditar 
no que estava ouvindo. Paulo foi o primeiro a voltar  realidade, perguntou:
- Como isso aconteceu? Ontem, quando fomos embora, ela estava muito bem...
- Isso  difcil, mas s vezes acontece. A cincia no tem resposta para tudo. De repente, comeou a sangrar em demasia.
- No entendamos o que havia acontecido, alis nem o mdico tinha uma razo perfeita. Ele prprio no tinha resposta. Ismnia, chorando, perguntou:
- O menino, como est?
- Est muito bem graas a Deus. Ele nasceu forte. Logo poder ir embora.
- J que Lorena morreu, o que vai acontecer com o menino?
- Se no aparecer ningum da famlia, ser enviado para adoo.
Paulo, nervoso, disse;
- Adoo! Nunca! Ele  nosso! Ns o esperamos por trs meses! O senhor foi testemunha disso!
- Sei o quanto esperaram e o quanto gostavam da me dele. Posso dar uma sugesto?
- Claro que sim.
- No  muito comum que seja feito o que vou sugerir, mas no gosto de ter que enviar uma criana para adoo, principalmente uma como essa.
- Quer dizer um negro?
- Isso mesmo. Uma criana negra  muito difcil de ser adotada. Todos querem crianas louras e, de preferncia com os olhos azuis. Por isso, posso colocar em um 
papel que quem deu  luz foi a dona Ismnia e, com esse papel, ele poder ser registrado no seu nome, Isaas. Ser seu filho! Que acha da minha idia?
Olhei para Ismnia e Paulo, que tambm me olhavam. Pelos olhos dos dois, senti que gostaram da idia, como eu mesmo havia gostado, disse:
- No vejo problema algum, depende dos outros.
- No houve necessidade de palavras, eles me abraaram. Paulo disse:
- Doutor, ns amamos essa criana, como amvamos sua me. Se houver um jeito de ficarmos com ele, ficaremos, e prometo que ter tudo o que precisar, alm do nosso 
amor e carinho...
- Sei disso, por isso propus. J que esto de acordo, vou providenciar o papel.
Assim foi feito. Meus filhos eram menores, mas como ns, tambm gostavam muito de Lorena. Leo foi registrado em meu nome.  nosso filho como os outros dois. No 
existe diferena alguma. Meus filhos casaram-se, mas no ficamos sozinhos, temos essa presena bendita que nos enche de felicidade. Lorena, de onde estiver, deve 
estar feliz por ver seu filho, lindo e feliz. Por tudo isso que terminei de contar, foi que lhe disse que ele foi mandado como um presente de Deus. Walther terminou 
de ouvir, olhou para Isaas, dizendo:
- Aps tudo isso que contou, estou comeando a ver a vida diferente. Lorena, uma moa que no conheci, me inspirou muita ternura. Embora fosse uma negra, ela foi 
uma boa mulher...
Isaas ia responder, mas, nesse exato momento, Leo entrou novamente correndo na sala. Olhou para Walther, tornou a olhar, falou:
- Sabe de uma coisa, moo? Gosto muito do senhor.
Ao ouvir aquelas palavras, Walther emudeceu. Nunca em sua vida estivera to prximo de um negro. Sentiu vergonha do que havia dito momentos antes. Ficou sem palavras. 
Isaas, percebendo a emoo dele, disse:
- Meu filho, ele tambm gosta muito de voc.
Ismnia no tinha o mesmo conhecimento que Isaas sobre como era o racismo no pas de Walther, por isso no notou nada em sua atitude. Pensou que apenas estivesse 
emocionado com a histria que acabara de ouvir. Bateu palmas, dizendo:
- Ficaram conversando a tarde toda, nem notaram, j escureceu. O jantar est quase pronto. Walther, se quiser tomar banho antes do jantar, pode ir.
Walther, ainda um pouco confuso pela presena do menino, disse:
- Gostaria de tomar banho na hora em que fosse dormir. Est um calor to bom, preferia ficar l fora, olhando esse cu to bonito. Posso?
- Claro que sim. Fique  vontade. Vou para a cozinha terminar o jantar.
Isaas percebeu que ele estava confuso e que precisava ficar sozinho para pensar em tudo o que havia escutado. Walther saiu da casa. A noite estava chegando. Ainda 
alguns raios do sol se faziam presentes. Comeou a andar por todo o jardim. Seus pensamentos estavam realmente confusos desde o dia em que chegou ao Brasil. Pensou: 
Esta terra est to distante daquela em que me criei... Est me mostrando uma vida diferente. A histria de Lorena me mostrou que o negro e o branco so iguais em 
suas emoes. Por que, em meu pas, existe tanto preconceito? Por que minha me, embora tenha nascido e sido criada aqui, nunca me falou nada a esse respeito? Nunca 
me disse que no havia diferena entre as raas, permitiu que meu pai no me deixasse conviver com negros? Ao contrrio, sempre que podia, proibia veementemente 
a minha aproximao deles. Sei que no devia, mas estou gostando muito desse menino. Que estar acontecendo comigo? Que transformao ser essa? No estou conseguindo 
entender meus sentimentos. Isso est me preocupando. Sempre fui muito seguro em relao a qualquer atitude que deveria tomar, mas agora estou aqui, sem saber como 
agir... Continuou andando, chegou at  piscina. Ficou olhando, lembrou-se de Leo convidando-o para nadar. Continuou pensando: Nunca pensei, em minha vida, que algum 
dia estaria prestes a entrar em uma piscina ao lado de um negro. Mas por que no? Esse menino  muito querido nesta casa, como sua me o foi. A nica diferena  
a cor.
- O jantar est pronto. Ismnia s est esperando voc para servir!
Walther se voltou, olhou para Isaas, dizendo:
- Vamos entrar... S estou pensando em algumas coisas...
- Sei que deve ter muitas coisas para pensar. Sei tambm que est passando por conflitos.
- Isso mesmo, Isaas. Conflitos que no existiriam se eu no tivesse atendido ao chamado do meu tio.
- Tudo tem seu tempo e sua hora, Walther. No est aqui por um acaso. Est simplesmente cumprindo uma lei maior...
- Lei maior? Que lei?
- A lei da vida, do amor e de Deus...
- A cada minuto que passa fico cada vez mais confuso. Vejo a todo instante a minha vida toda passando por minha memria! Estou revendo e avaliando fatos acontecidos 
j h muito tempo.
- Isso j  muito bom. Se estivesse trabalhando, no teria esse tempo para pensar e reavaliar fatos. No final, talvez voltar para seu pas, se voltar, um homem 
diferente daquele que aqui chegou. Essa  a Lei que estava lhe dizendo...
Walther ficou calado, no conseguia entender o que estava acontecendo com ele. Isaas percebeu, tocou em seu brao e o encaminhou para dentro da casa. Assim que 
entraram, Ismnia os recebeu com um largo sorriso:
- Parece que no est com fome! Walther respondeu, tambm sorrindo:
- Ao contrrio. Estou com muita fome!
- Ento venha, sente aqui. Garanto que vai gostar da comida. Fiz com muito carinho.
- Acredito, a senhora tem sido muito gentil desde que cheguei.
- No fao por obrigao, alm de receber bem o sobrinho do Paulo, gostei muito da sua maneira.
- Obrigado por toda essa ateno.
A mesa estava colocada para quatro pessoas, em uma das cadeiras j estava sentado o menino. Walther olhou para Isaas. A cadeira que Ismnia havia lhe mostrado ficava 
ao lado da que Leo se encontrava. Isaas afastou-a e fez sinal com as mos para que Walther sentasse. Ele, sem outra alternativa, sentou. Ismnia comeou a servir. 
Walther foi agradecendo e comeou a comer. Por alguns instantes, ficaram calados. Quem quebrou o silncio foi o menino:
- Me! Esta comida est muito boa. No est, seu Walther? Ele olhou para o menino que lhe sorria e respondeu:
- Est sim, Leo! Sua me  uma tima cozinheira.
- O senhor j sabe que ela no  minha me?
Ele olhou para Ismnia e Isaas, que sorriam. Leo continuou:
- A minha verdadeira me teve que fazer uma viagem, ela foi encontrar Deus. Ele precisava muito que ela trabalhasse l com Ele. Mas antes dele levar ela, ele me 
deu de presente para eles.
Disse isso olhando com muito amor, ora para um, ora para outro. Walther novamente ficou sem saber que dizer. Isaas, sorrindo, disse:
- Walther, tudo isso que ele lhe disse  verdade. Deus nos deu esse presente maravilhoso e por ele agradecemos todos os dias, no  Ismnia?
- Claro que sim, mas, menino, pare de falar e coma toda a comida. J o conheo, no gosta de verdura, fica conversando para disfarar e deixar de comer. Pode comer! 
Est crescendo e precisa se alimentar bem.
Leo olhou para Walther e sorriu, num gesto de cumplicidade. Ele no suportou:
- Sabe de uma coisa, Leo? Tambm no gosto de verdura, mas aprendi com a minha me que precisava comer para ficar forte e saudvel como sou. No me acha forte?
- Acho. Se, comendo verdura, vou ficar do seu tamanho, me, pode me dar mais, vou comer tudo!
Ismnia, enquanto colocava mais verdura no prato do menino, disse:
- Walther, voc est conseguindo um milagre. Ele no come verdura de jeito algum.
- No comia, mame! No comia! Agora, vou comer todos os dias. Quero ser igualzinho ao seu Walther.
Novamente, Walther, sem querer, voltou ao seu passado. Lembrou-se da discriminao que havia em seu pais. Pensou: Por que toda aquela diferena? Esse menino  igual 
a outro qualquer na sua idade... Terminaram de jantar. Isaas o convidou para que fossem at a sala de estar. Ismnia, pedindo licena, foi para o seu quarto. Estava 
acompanhando uma novela pelo rdio. Leo foi tambm para seu quarto. Precisava dormir logo, no outro dia teria que ir cedo para a escola. Beijou o pai e a me. Antes 
que Walther percebesse, beijou-o tambm. Ele recebeu aquele beijo e tambm, sem perceber, beijou o rosto do menino. E sentiu uma felicidade inexplicvel. Isaas 
acompanhou toda aquela cena. Percebeu que Walther havia feito aquilo com sinceridade. No disse nada, apenas sorriu. Ismnia, antes de sair, deu a cada um deles 
um clice com licor que ela mesma fez. Assim que Walther tomou o primeiro gole, disse:
-  muito bom! Do que  feito?
- De jenipapo. A Ismnia  especialista em fazer licores, - respondeu Isaas.
- Ela  uma grande mulher e parece que se amam muito.
-  verdade, ela  uma grande mulher e ns nos amamos muito mesmo. Posso at lhe dizer que nascemos um para o outro.
Enquanto tomavam o licor, Isaas continuou:
- Finalmente o dia est findando. Assim que terminarmos de tomar o licor, seria bom que fssemos dormir. Amanh, teremos que acordar cedo. Marquei com o doutor Amadeu 
s nove horas. Aps tomar conhecimento do testamento, poder decidir o que vai fazer da sua vida...
- No tenho nada para decidir, Isaas. Assim que sairmos do advogado, vamos at o aeroporto, preciso ver se consigo trocar a minha passagem, mas acredito que terei 
que comprar outra:
- Uma coisa de cada vez, Walther, por enquanto, vamos nos deitar e dormir. Ter que ficar no quarto que foi do Paulo, espero que no se incomode.
- Claro que no! Vou apenas dormir. No vejo a hora de ter tudo isso resolvido. A nica coisa que sinto  no saber o resto da histria da minha famlia, que ele 
comeou a contar. Voc bem que Poderia me ajudar nisso...
- Bem que gostaria, mas se Deus permitiu que ele morresse sem lhe contar,  porque tem que ser assim. J lhe disse que a histria  dele, no posso trair a confiana 
do meu amigo. No se preocupe, continue a sua vida como antes.
- Minha vida jamais ser como antes. Muita coisa mudou. Meus pensamentos hoje esto tomando um rumo diferente de at ento.
- Sei disso. Est pensando nesse momento no Leo, no ? Nunca pensou em sequer se aproximar de um negro, muito menos receber um beijo e retribuir a esse beijo...
Walther olhou para ele e perguntou:
- Foi to visvel assim?
- No! Apenas eu notei, me desculpe, mas sabendo da educao que teve, estive o tempo todo observando a sua reao cada vez que ele se aproximava, mas parece que 
ele o conquistou tambm.
- Isso  incrvel! Na realidade, no sei qual  o sentimento que tenho em relao a ele.
- No tem nada de incrvel. Est apenas aprendendo que somos todos iguais, filhos do mesmo Deus. Que a cor da pele ou situao financeira no faz diferena. Deus 
nos criou e nos d sempre uma direo para a nossa evoluo. Isso  o que importa. Bem, vamos nos deitar? Vou acompanh-lo at o seu quarto.
- Antes, gostaria de tomar um banho.
- Tudo bem. O quarto fica ali e o banheiro logo em frente. Fique  vontade e procure dormir bem. Boa noite.
- Boa noite e obrigada por tudo.
Isaas apenas sorriu e se afastou em direo ao seu quarto. Walther entrou naquele que ele havia lhe mostrado e que havia sido de seu tio. Sua maleta estava ali, 
sobre uma poltrona. Por curiosidade, olhou em volta. No havia realmente conhecido o tio. Estava agora ali, no quarto em que ele havia dormido. Que tipo de homem 
ele era? Por tudo que vi e ouvi, ele foi um bom homem... Estava olhando e pensando, quando seus olhos pararam. Viu que sobre o criado-mudo, havia uma foto em um 
porta-retratos. Foi para mais perto, pegou o porta-retratos e ficou olhando. A foto j era bem antiga, mas nela aparecia uma jovem muito bonita. Os seus cabelos 
eram pretos, longos e cacheados. Possua um sorriso lindo. Curioso, virou o porta-retratos. No conseguia ver a foto por trs. Automaticamente, retirou os grampos 
que a prendiam. Com cuidado, para no danific-la tirou-a do porta-retratos. Virou, atrs havia uma dedicatria: Para meu grande e nico amor Marta. Walther ficou 
olhando aquela moa que ali aparecia e pensou: Ser que meu tio foi casado? Isaas no disse nada a respeito disso, nem eu perguntei, mas agora, diante desta foto, 
estou curioso. Quem ser essa moa? Pela dedicatria, deve ter sido o amor da vida de meu tio. Para estar em seu criado-mudo, provavelmente deve ter sido sua esposa. 
Colocou novamente, com muito cuidado, a foto no porta-retratos. Recolocou-o no lugar em que estava. Voltou seu olhar para a sua maleta. Pegou um pijama e com ele 
se dirigiu ao banheiro. Estou sem sono, ansioso demais para que o dia amanhea. Aps comparecer ao advogado, poderei finalmente voltar para minha casa e tudo voltar 
a ser como antes... Espero... Entrou no banheiro, tomou um banho. No eram ainda nem dez horas da noite, mas ele deitou e tentou dormir. Tentou, mas no conseguiu. 
Virou e revirou na cama: No consigo dormir. Muita coisa aconteceu desde que cheguei. Sei agora que existe um mistrio em minha vida. Por que tudo isso? Eu vivia 
to tranqilo... Continuou pensando. Virou e revirou na cama, at que, finalmente, adormeceu. 

A SURPRESA

Acordou, ouvindo uma leve batida na porta. Abriu os olhos, levou algum tempo para se lembrar de onde estava. Ouviu a voz de Isaas:
- Est na hora, precisa levantar, no podemos nos atrasar.
- J acordei! Estarei pronto em instantes.
- Precisamos tomar caf, antes de sairmos de casa...
- Irei em seguida...
Percebeu que Isaas se afastava da porta. Sentou na cama. Olhou novamente para o porta-retratos. A moa parecia que olhava para ele. Levantou e falou em voz alta:
- No sei quem voc , mas que  muito bonita, isso ! Trocou-se rapidamente:
Finalmente, chegou o dia. Espero poder voltar hoje mesmo. Voltarei com muitas dvidas, mas no vou parar a minha vida por isso. Vivi at hoje sem saber de nada e 
continuarei vivendo. Ser que vou conseguir? Chegou  sala das refeies. Estranhou, pois Isaas tomava caf sozinho:
- Onde esto os outros?
- Ismnia foi levar o Leo para a escola. J deve estar chegando.
- A escola comea cedo assim?
- No  a escola que comea cedo, ns  que estamos atrasados. Por isso  melhor se apressar.
- J estou pronto, vou tomar um caf rpido.
- O doutor Amadeu  muito ocupado. No podemos deix-lo nos esperando.
Walther se apressou realmente. Em poucos minutos, tomou o caf e comeu uma fruta. Iam saindo, quando Ismnia chegou:
- J esto indo?
- Sim, e atrasados.
- Isaas! Como sempre, voc est exagerando. Walther, espero que tudo d certo e que consiga voltar para a sua terra.
- A terra dele  aqui! Ele  brasileiro.
- Sei disso, mas tambm sei que tem uma vida toda l e que aqui no conhece ningum, alm de ns.
- Est bem, mas vamos embora?
- Sim, estou pronto.
Saram, entraram no carro. Por mais que Walther tentasse, no conseguia esconder a ansiedade e o nervosismo que estava sentindo. Isaas tambm dirigia calado. Enquanto 
o carro corria, Walther ia apreciando a paisagem. Um rio muito largo surgiu. O carro atravessou uma ponte que passava por cima dele.
- Que belo rio, Isaas. Ele fica dentro da cidade?
- Sim,  o rio Tiet. Ele atravessa quase todo o estado de So Paulo.
Chegaram ao centro da cidade. Isaas parou o carro em uma rua, desceram e andaram alguns metros. Entraram em um edifcio, o elevador era pequeno e apertado. Desceram 
no quinto andar. Isaas seguiu um corredor. Parou em frente a uma porta. Walther olhou o nmero, era cinqenta e seis. Isaas bateu na porta, um senhor de uns cinqenta 
anos abriu e sorrindo, disse:
- Bom dia! Chegaram pontualmente. Como vai, Isaas?
- Estou bem, apesar de tudo.
J dentro da sala e sentados, o advogado disse:
- Sinto muito pelo Paulo, tambm era meu amigo, mas tanto ns como ele, sabamos o quanto estava sofrendo. Deus  quem sabe das coisas. O nosso dia tambm chegar.
- Tem razo. Quero lhe apresentar Walther.
- Muito prazer. Ainda bem que est aqui no Brasil, se assim no fosse, nos daria um trabalho enorme para encontr-lo.
- Muito prazer, mas por que a minha presena  to importante?
O advogado tinha sobre a mesa quatro envelopes lacrados. Calmamente, abriu um dos envelopes, dizendo:
- No sei se o senhor sabe, mas o Paulo era um homem que possua muitos bens. Quando descobriu que estava doente, vendeu todos eles e veio  minha procura e fez 
este testamento. 
Abriu o envelope, tirou de dentro dele um papel:
- Por este papel o senhor  seu herdeiro universal. 
Walther levantou-se, perguntou alto:
- Herdeiro universal? Como? Por qu?
- No sei responder, s sei que  o seu nico herdeiro. O dinheiro que conseguiu com as vendas de todos os seus bens, est depositado em seu nome no Banco do Brasil.
Entregou o papel para Walther, que o pegou e leu. Realmente, ele era o herdeiro. Havia um nmero com muitos zeros. Ele, tremendo, disse:
- No estou acostumado com o dinheiro brasileiro. Estou vendo muitos zeros, poderia me dizer o valor disto em dlares?
- Perto de dois milhes de dlares, descontados os impostos.
- Dois milhes? No consigo imaginar o que representa isso! O advogado e Isaas riram. O advogado disse:
- Nem eu! O senhor  hoje um homem muito rico!
- Isaas! No pode ser! No entendo o que est acontecendo.
- No tem que entender nada, tem apenas que usufruir de tudo o que esse dinheiro pode lhe dar.
- No pode ser! Deve haver um engano!
- No h engano algum, eu sabia. Por isso lhe disse que teria muitas surpresas! Esse dinheiro  todo seu, e posso lhe garantir que o merece, muito mais do que imagina.
O advogado pegou outro envelope, abriu, tirando de dentro dele alguns papis, entregou-os para Isaas, dizendo:
- Realmente, Isaas, voc sabia que ele teria muitas surpresas, s no sabia disto.
Isaas, surpreso, pegou os papis. Comeou a ler o primeiro. Aps terminar, disse quase chorando:
- No acredito. Ele no pode ter feito isso. Walther, tremendo muito, mas curioso, perguntou:
- Fez o qu? O que ele fez?
Isaas estava to emocionado que no conseguia responder. Quem respondeu foi o advogado:
- Esse papel que o Isaas tem nas mos,  a escritura da casa em que mora. Seu tio a passou para ele. Isaas, tem mais este outro papel que tambm  seu.
Isaas pegou o outro papel e leu. Novamente, quase gritou:
- No pode ser! Aquele homem era um louco!
- Louco no, Isaas. Seu amigo. Ele o queria muito bem. E a toda a sua famlia, mas no terminou, tem mais! Leia este outro papel.
Outro papel, outra expresso de surpresa. Walther acompanhava tudo calado. Estava ainda um pouco atordoado por saber que agora estava rico. Isaas, finalmente, conseguiu 
falar:
- O Paulo era realmente um santo! Alm de me dar a casa, deixou tambm no Banco do Brasil, uma quantia muito grande para que eu possa viver o resto da minha vida, 
sem me preocupar com dinheiro. Este outro papel,  outra quantia que ele deixou em nome do Leo para que ele estude at a faculdade! Nunca esperei por isso. Sei que 
sempre fomos amigos, mas nunca pensei que chegasse a isso.
O advogado deu outro papel para Isaas. Era uma carta. Emocionado Isaas comeou ler em silncio. 

Querido amigo Isaas,

Neste momento, j deve saber que tem hoje tranqilidade para viver o resto da sua vida ao lado da querida Ismnia. Sabe tambm que o nosso pequeno Leo tem assegurada 
a sua educao acadmica. Sei que, se depender da educao que dar a ele, se tornar um homem de bem. Daremos a ele todas as oportunidades, queira Deus que ele 
as use bem. Deve estar pensando por que eu fiz isso. Ao saber que minha doena era difcil de ser curada, entendi que nada do que havia conquistado poderia levar 
comigo. Voc, durante todo esse tempo, esteve trabalhando ao meu lado. Resolvi que venderia todos os meus bens e os transformaria em dinheiro para dar ao Walther. 
No sei se com esse meu gesto poderei resgatar todo mal que fiz a ele e  sua me, mas sei que, assim fazendo, no o estarei prendendo aqui no Brasil. Ele poder 
tomar a deciso que acreditar ser a certa. E o que posso fazer. Voc, alm de ter trabalhado ao meu lado, em um pior momento da minha vida, me levou a conhecer essa 
doutrina que nos ensina que Deus  nosso pai infinito e por isso nos ama e nos d sempre novas oportunidades para aprendermos e evoluir espiritualmente que a morte 
no existe, que a vida ps-morte  bela e que ali  o nosso verdadeiro lugar. Aprendi a acreditar em tudo isso. Espero, amigo, que tudo seja realmente verdade, pois 
em breve irei conferir de perto. Continue sendo o homem que . Se o Walther vier at o Brasil, vai precisar muito da sua ajuda para compreender tudo o que se passou. 
Se tudo que aprendemos for realmente verdade, estarei esperando por voc do outro lado da vida. Espero que demore muito, pois tem sobre sua responsabilidade o Leo. 
Obrigado, amigo, por ter sido meu companheiro de jornada. Que Deus o abenoe. 

Um abrao, do seu amigo, Paulo.

Walther, sem saber o que estava escrito na carta, mas emocionado por ver a emoo de Isaas, disse:
- Voc disse que eu teria muitas surpresas, mas s posso lhe dizer que realmente estou surpreso, mas voc tambm no pode reclamar!
O advogado pegou outro papel e entregou para Walther:
- Ele transformou tudo o que tinha em dinheiro, com exceo da casa do Isaas. O resto  todo seu.
- Por que ele fez isso?
- No sei, talvez a resposta esteja nesta carta que est neste envelope. Ele pediu que eu a entregasse e que, se possvel, voc a lesse antes de voltar para os Estados 
Unidos.
Walther pegou uma quantidade considervel de papel, todos datilografados. Ficou com eles na mo, sem saber o que dizer. Isaas, mais calmo, disse:
- Eu lhe avisei que talvez no conseguisse voltar, sabia da herana e desta carta. Nela vai encontrar as respostas que procura. Quando terminar de ler, todo o mistrio 
estar resolvido. Que pretende fazer?
- No sei. Preciso voltar! Tenho compromissos, tenho meu trabalho.
O advogado continuou:
- Para levar este dinheiro para os Estados Unidos, tem uma certa burocracia. Levar alguns dias. Acredito que ter tempo para ler a carta.
- No sei... Parece que estou sonhando! Eu, rico? No pode ser! Preciso pensar...
- Voc  quem sabe o que vai fazer com a sua vida, mas enquanto no decide, vamos para casa. A Ismnia deve estar nos esperando com um belo almoo. Ela nem imagina 
que a casa agora  nossa! Preciso contar! Doutor, o senhor tem mais alguma surpresa?
- No, Isaas, s essas. Acredito que esteja mesmo ansioso para chegar em casa. Pode ir, mande minhas lembranas para dona Ismnia. Senhor Walther, preciso saber 
qual vai ser a sua deciso para providenciar a remessa do dinheiro.
- Eu ainda estou um pouco atordoado com os ltimos acontecimentos. Por favor, no faa nada at segunda ordem. Como disse o Isaas, vamos para casa contar a novidade 
para a dona Ismnia.
- Est bem, quero lhe adiantar que j recebi por todo o trabalho que fiz e que ainda farei por vocs. Paulo foi para comigo tambm muito generoso.
Walther e Isaas se despediram do advogado. J dentro do carro, perguntou:
- Como foi que meu tio conseguiu tanto dinheiro? Ele encontrou a tal pedra?
- Encontrou e, daquele dia em diante, a vida dele mudou. Tornou-se um comerciante de pedras preciosas e semi preciosas, exportando para o mundo todo. Foi assim que 
conseguiu a sua fortuna.
- Teve muita sorte, Isaas.
- Mas pagou um preo muito alto por isso.
- Que preo, Isaas? Que aconteceu?
- No posso lhe contar. Acredito que nessa carta que o advogado lhe deu, deve estar tudo explicado. Por favor, no me pergunte nada! No sei o que ele escreveu nessa 
carta. No posso dizer mais nada.
- Est bem! No precisa ficar nervoso. Ao menos, agora, vejo uma luz no fim do tnel. Acredito que com esta carta saberei o que aconteceu. Por que minha me mentiu 
e escondeu esse quase tio at quase na hora de sua morte?
- Quando terminar de ler e eu souber exatamente o que ele deixou escrito, poderemos conversar a respeito. Antes disso, sinto muito, mas no posso...
- Entendo a sua posio. Vamos passar pela agncia de viagem, para que eu possa ver o que pode se feito com a minha passagem?
- Faremos isso  tarde, agora preciso ir para casa. Ismnia vai ficar muito feliz com as novidades.
Assim que chegaram em casa, Ismnia veio encontr-los no jardim. Isaas a pegou no colo e comeou a rodar, rodou tanto que quase caram. Ismnia no entendeu o que 
estava acontecendo. Assim que ele a colocou no cho, ela, assustada, perguntou:
- Que est acontecendo, Isaas? Est louco?
- Eu no estou louco, no! Louco era o Paulo!
- Por que est dizendo isso? Que ele fez, alm de deixar todo o seu dinheiro para o Walther?
Walther a olhou, perguntando:
- A senhora sabia disso?
Ela, meio sem graa, olhou para Isaas, que respondeu:
- Ela sempre soube de tudo, Walther. Viveu ao meu lado toda a sua histria. Mas isso agora no tem mais importncia. Assim que terminar de ler a carta, com certeza 
saber de tudo. Ismnia, pode olhar  sua volta? O que v?
Ismnia foi se voltando, olhando tudo, mas no viu nada de diferente, respondeu:
- Estou vendo apenas a nossa casa.
- Isso mesmo, a nossa casa! Ela agora  nossa mesmo! O Paulo passou a escritura em meu nome! Ela agora  nossa!
- Est dizendo que no vamos precisar mudar de casa para entreg-la ao Walther?
- Isso mesmo. Ele deixou tudo para o Walther, menos a nossa casa e muito dinheiro para vivermos bem pelo resto de nossas vidas e dinheiro para que o Leo possa estudar 
at a faculdade.
- No estou acreditando no que est dizendo, Isaas! No pode ser!
- Pode acreditar. Olhe. Os papis esto aqui em minhas mos.
Ela olhou para as mos de Isaas, realmente ele estava com alguns envelopes nelas, comeou a chorar:
- Obrigada, meu Deus por ter colocado em nossas vidas um homem como o Paulo. Que ele esteja agora em um bom lugar, com muita luz e felicidade...
- Deve estar, minha velha. Deve estar...

A CARTA DE PAULO

Walther, calado e emocionado por ver a felicidade dos dois, entrou na sala, sentou em um sof. Enquanto Ismnia lia a escritura da casa, ele pensava: Meu tio foi 
realmente um homem muito bom e querido por seus amigos. Sinto mesmo no ter tido mais tempo para conhec-lo melhor! Mas por que isso no aconteceu?  Ismnia, parecendo 
ler os pensamentos dele, levantou os olhos dos papis que estava lendo e disse:
- Walther, o Paulo foi um homem muito bom, deve sempre se orgulhar dele.
- Estava pensando exatamente isso, dona Ismnia e sentindo muito por no ter tido tempo para conhec-lo melhor...
Ismnia, respirando fundo, secou uma lgrima e disse:
- O almoo j est pronto, s estava esperando por vocs...
- Vamos, sim, embora no esteja com fome. Aconteceram muitas coisas hoje, ainda estou um pouco atordoado.
- Entendo, meu filho. Nunca imaginou que houvesse algum aqui que se interessasse por voc.
-  isso mesmo, nem que, de um dia para o outro, eu me tornaria um milionrio!
- Disso no pode se queixar. Tem pessoas que, ao contrrio, perdem tudo o que tm de uma hora para outra.
Walther sorriu concordando com a cabea. Entraram, a mesa j estava posta. Ele estranhou que o lugar de Leo estivesse vazio e que no houvesse um prato colocado:
- O Leo no vem almoar?
- No! Ele estuda o dia inteiro, s chega  tarde.
Comearam a comer. Novamente, adorou a comida. Embora seu pai no gostasse, sua me, de vez em quando, fazia comida como aquela que estava comendo agora. Sentiu 
uma enorme saudade de sua me. Assim que terminaram de comer, Isaas perguntou: Quer ir at a agncia para saber o que fazer com a sua passagem?
- No, estive pensando. Vou ter que esperar at que o advogado resolva toda a burocracia. Desde que cheguei e conheci o meu tio, muitas dvidas surgiram em minha 
cabea. Cheguei a pensar que voltaria para o meu pas com todas essas dvidas, mas agora com essa carta que ele deixou, talvez eu consiga descobrir algo. Prefiro, 
se no se importar, ir para o quarto e ler a carta.
Isaas sorriu, dizendo:
- Sbia deciso! Faa isso, afinal, agora, no precisa voltar com tanta urgncia.  um homem rico!
- Posso ser um homem rico, mas tenho responsabilidade com o meu trabalho. Antes de ir para o quarto, preciso tentar telefonar para a empresa e avisar que vou me 
demorar um pouco mais do que o previsto.
- As ligaes para o exterior demoram muito. V ler a carta, eu ligo para a telefonista e peo uma ligao, assim que estiver pronta, eu aviso voc. Qual  o nmero?
Walther entregou a ele um papel, onde estava anotado o nmero. Pegou o envelope com a carta, que estava sobre um mvel e se dirigiu ao quarto. Entrou, olhou tudo. 
A moa do retrato parecia que lhe sorria. Tirou o palet e a gravata. Desabotoou a camisa, ajeitou o travesseiro, acomodou-se. Ficou olhando para o teto e pensando: 
Dois milhes... Dois milhes. O que significam realmente dois milhes? E muito dinheiro! Muito mais do que eu um dia pudesse imaginar. Lembrou-se de Steven: Quando 
lhe contar, no vai acreditar, se nem eu acredito! Mas sei que ficar contente. Preciso comear a pensar o que vou fazer com tanto dinheiro! Nunca imaginei que um 
dia teria tanto assim, por isso nunca tambm imaginei o que fazer. Tenho uma boa casa, um bom carro. Que mais preciso? Poderei viajar pelo mundo. Isso sim! Com tanto 
dinheiro, no precisarei mais trabalhar! Posso conhecer muitos lugares, quem sabe encontrar um amor verdadeiro. Sim, pois sozinho, no deve ser agradvel viajar. 
Se o Steven no estivesse casado, poderia me fazer companhia, no... Ele no abandonaria seus alunos. Gosta muito de ser professor. Tem verdadeira adorao por seu 
trabalho. Levantou, foi at a janela, abriu a cortina. O cu estava claro, no havia nuvens, apenas um sol brilhante. Ficou ali, olhando para o cu, voltou para 
a cama. Estava eufrico por saber que estava milionrio. Olhou para o envelope que o advogado havia lhe dado. Sabia que nele deviam conter as respostas para todas 
as suas perguntas:
- Por que ele me deixou tanto dinheiro? O que represento para ele? Estou com este envelope nas mos, mas, tambm, estou com medo de abri-lo. Ser que nele vou descobrir 
que minha me traiu o meu pai? Ser que vou descobrir que tenho algum parentesco com o Paulo? Ser que vou descobrir que sou seu filho?
Pegou o envelope, abriu, havia varias pginas e uma chave. Colocou a chave sobre a cama e comeou ler:

Prezado Walther,

Se estiver lendo esta carta,  porque devo estar prestando contas a Deus, dos meus atos. No consegui ver voc nem lhe contar tudo pessoalmente, o que era realmente 
o meu desejo. Temendo no ter essa oportunidade, resolvi lhe deixar esta carta. Com ela, todas as suas dvidas sero dissipadas. Walther continuou lendo, at o momento 
em que, na clnica, Paulo havia terminado de contar. No instante em que todos voltaram para o Piau e ele continuou no garimpo. A carta continuava: Eu no poderia 
voltar! Sabia que ia encontrar aquela pedra enorme, que me faria feliz e resolveria todos os nossos problemas. Os outros, vendo que eu no mudaria de idia, resolveram 
partir. Ao me abraar para se despedir, meu irmo disse:
- J que quer continuar neste inferno, fique. Sabe que essa sua sonhada pedra no existe e mesmo que a encontre, ter que vend-la para o americano, pelo preo que 
ele quiser pagar. Sabe muito bem onde  a sua casa e que pode voltar quando quiser. Estaremos esperando voc de braos abertos. Eu o abracei tambm:
- Mano, vou ficar e encontrarei a minha pedra. Quando a encontrar, vou mudar a vida de todos ns. Voc vai ver!
- Est bem, Deus ajude voc a realmente encontrar a sua pedra. Eu no acredito, por isso estou indo embora.

Estou revivendo agora, aquele momento em que subiram no caminho e ficaram abanando as mos, dando adeus. Senti uma forte solido. Nunca antes eu havia me separado 
da minha famlia. Embora no estivesse com meus pais, durante todo aquele tempo, estive ao lado de meu irmo e primos. Daquele dia em diante, eu estaria sozinho. 
Estava com vinte e um anos. Quase corri atrs deles, mas a certeza de que encontraria a pedra me fez ficar. Quando o caminho sumiu na estrada, olhei  minha volta. 
Outro caminho que ia levar os garimpeiros para o garimpo tambm estava saindo. Corri para alcan-lo. Assim que chegamos ao local, desci do caminho e comecei a 
cortar aquela montanha feito um louco, sem parar. Examinava os torres de terra, sempre na esperana de encontrar a pedra. O dia passou, eu nem percebi, to concentrado 
estava no trabalho. A noite, dormamos em barracas. Deitado em minha cama de campanha, comecei a pensar: Meu irmo tem razo, isto aqui  realmente um inferno! Mas 
e a nossa terra? Com toda aquela seca? Tambm ! L, o nico que posso conseguir ser plantar para comer. Nada alm disso. Aqui, tenho a chance de encontrar a pedra. 
Vou encontrar! No dia seguinte, logo cedo, eu comecei a trabalhar novamente. Durante o dia, tudo corria bem, mas  noite eu me sentia muito s. Outros homens e rapazes 
estavam na mesma situao. Tambm, como eu, por causa da seca, foram obrigados a abandonar suas famlias. Todos, como eu, se sentiam sozinhos. Todos, como eu, queriam 
encontrar uma pedra grande. Na rea do garimpo, havia um grande barraco feito de madeira. Dentro dele, tinha um fogo bem grande, que era mantido aceso por carvo. 
Quem o fornecia era tambm o americano. Bem mais velho que todos ns, ele tomava conta de tudo. As pedras e os cascalhos encontrados eram vendidas a ele, que nos 
fornecia o alimento e o carvo. Cada garimpeiro possua suas provises e faziam sua comida. Ficvamos no garimpo a semana inteira, s voltando para a pequena vila 
no sbado  tarde. Ali no hotel, que era um pouco de tudo. O garimpeiro podia comer, beber, dormir em uma cama de verdade e ter uma mulher. Normalmente era gasto 
no fim de semana todo o dinheiro que ele havia ganhado durante toda a semana. O americano ficava com tudo. Embora meu irmo houvesse dito que eu teria que vender 
a minha pedra para ele, essa no era a minha inteno. Quando a encontrasse, no contaria a ningum, iria embora do garimpo, dizendo que estava voltando para casa, 
mas, na realidade, eu iria para uma cidade grande, venderia a minha pedra por um preo justo. Fazia dois dias que meu irmo e primos haviam ido embora, quando um 
rapaz, meu conhecido, chegou da vila me procurando.
- Paulo! Voc tem que ir para o hotel!
- Por qu? Aconteceu alguma coisa com algum da minha famlia?
- No sei, o americano mandou chamar voc.
- Preocupado, subi no jipe em que ele estava e fui para a vila. Durante o caminho, no conseguia entender porqu daquilo de o americano mandar me chamar. Eu no 
havia feito nada que o desgostasse. Assim que entrei no pequeno saguo do hotel, fiquei parado, olhando, sem querer acreditar no que estava vendo. Em p, no sei 
se sorrindo ou chorando, estava Marta.
Walther parou de ler, olhou para o retrato da moa que lhe sorria. Sorriu, pensando: Sabia que voc fazia parte da vida dele! Olhe! Meu tio tinha bom gosto, voc 
 mesmo muito bonita! Voltou a ler:
- Ao v-la ali, corri para ela. Abracei-a. Aps um longo abrao, fiz com que se sentasse, perguntando:
- Marta! O que est fazendo aqui?
- Fui expulsa de casa! No sabia o que fazer. Vim aqui atrs de vocs, mas fiquei sabendo que os outros voltaram para casa, s restou voc.
- Expulsa? Por qu?
Ela colocou a mo na barriga. S a notei que ela estava esperando um filho. Ela agora chorava muito, disse:
- Eu no sabia que estava esperando criana, mas quando a minha barriga comeou a crescer o pai notou e no quis mais que eu ficasse em casa. Disse que eu era uma 
perdida e que na casa dele no podia ter uma perdida.
Ao ouvir aquilo, perguntei nervoso:
- Minha me e a tia? No falaram nada?
- Elas tentaram, mas ele no quis ouvir ningum, mandou que eu fizesse a minha mala e sasse da sua casa.
- Ele no podia ter feito isso, Marta. Voc  ainda uma menina!
- Mas fez, Paulo. Quando me vi na estrada, sem dinheiro e sem destino, lembrei que vocs estavam aqui no garimpo. Resolvi vir encontr-los, pois sabia que me ajudariam.
- Como chegou at aqui?
- J faz alguns dias que sa de casa. Aproveitei que alguns rapazes da cidade vinham para c, eles entenderam a minha situao, pagaram a passagem e eu vim junto 
com eles. Disse que assim que chegasse eu devolveria o dinheiro. Voc tem dinheiro para dar a eles?
- No se preocupe com isso, eu acerto tudo, mas continue...
Demorou muito, mas finalmente consegui chegar. Fiquei atordoado, Walther, sem saber o que fazer. Aquele no era um lugar para uma moa igual a ela. Disse:
- Voc no pode ficar aqui, Marta. Este lugar no  bom. Vou voltar com voc para casa, l farei com que seu pai entenda o que aconteceu e receba voc de volta.
- No adianta. Ele no vai me aceitar. Enquanto esperava voc, conversei com a Geni. Ela me contou que voc no foi embora, porque quer encontrar uma pedra grande.
-  verdade, mas agora tudo mudou. Vamos voltar.
- No! Ela me disse tambm que se eu quiser, posso ficar morando e trabalhando aqui como arrumadeira e ajudante de cozinha. Eu j aceitei o emprego. Se quiser, volte 
sozinho. Eu no vou voltar. Vou ficar aqui com voc, e a minha criana vai nascer aqui.
Walther voltou a olhar para o retrato, pensando: Eita mulher corajosa!
Estava olhando para a foto, quando ouviu uma batida na porta. Largou os papis sobre a cama, levantou. Era Isaas:
- Sinto interromper voc, mas a ligao que pediu est pronta.
- Obrigado, Isaas, vamos l! Preciso conversar com o meu chefe e voltar para a carta.
Enquanto se encaminhavam para a sala onde ficava o telefone, Isaas perguntou:
- Est gostando do que est lendo?
- At aqui sim, acabei de conhecer o grande amor da vida do meu tio. Marta. Voc a conheceu?
- Sim.
- Pela foto, ela era muito bonita.
- Coloque bonita nisso! Alm de bonita, era tambm muito corajosa!
- Era exatamente isso que estava pensando, quando voc bateu na porta.
Chegaram at a sala. Walther pegou o telefone e, em ingls, falou com algum do outro lado. Ismnia e Isaas no entenderam nada, mas sabiam do que se tratava. Parecia 
que a pessoa do outro lado da linha no queria aceitar o que Walther lhe dizia, pois este gesticulava com a mo e a cabea. Aps uns cinco minutos de conversa, finalmente 
desligou o telefone:
- At que enfim consegui convenc-lo a esperar mais alguns dias. Ele me ameaou com a demisso. Contei a respeito da morte do meu tio. A ele amoleceu.
- Contou sobre o dinheiro que herdou?
- No! Ainda no estou acreditando que isso realmente aconteceu. Nem sei o que farei com esse dinheiro.
- Termine de ler a carta, garanto que, no final, saber.
- A leitura est muito boa, estou na parte em que Marta chegou ao garimpo. Estou curioso para saber o que aconteceu.
Isaas sorriu. Walther continuou falando:
- Isaas, li na carta do meu tio que minha me trabalhava no hotel. Ela me contou essa histria, s que dizia ser um lindo hotel e Realmente, a Geni trabalhou no 
hotel e foi ali que conheceu o marido. Quanto ao hotel maravilhoso, talvez no quisesse lhe contar a verdade, sabe-se l por qual motivo.
- Podia me contar algo sobre esse tempo e como a conheceu?
- Termine de ler a carta. Acredito que o Paulo tenha escrito tudo, mas, se aps ler, restar alguma dvida, prometo que esclareo todas.
- Est bem, vou terminar de ler. Estou ansioso para conhecer o resto. Se me der licena, vou me retirar e voltar para a leitura.
- Claro que lhe dou licena, entendo a sua curiosidade. Walther se levantou e voltou para o quarto. Sobre a cama estavam os papis e, no porta-retratos, o rosto 
daquela moa, que agora comeava a conhecer. Ajeitou o travesseiro, acomodou-se, pegou os papis e continuou lendo.
- Quando Marta me falou sobre a Geni, olhei para o lado. Ela tambm estava nos olhando em p, no ltimo degrau da escada. De onde estava, podia ouvir a nossa conversa. 
Veio at ns, dizendo:
- Ela est dizendo a verdade, Paulo. Se quiser, pode ficar aqui trabalhando.
- Mas ela est esperando um filho!
- Que tem isso? Est esperando um filho, no est doente. Pode trabalhar e ganhar o seu sustento.
Perguntei nervoso:
- Marta, com quantos meses voc est?
Marta colocou a mo na barriga, respondeu:
- No sei. Nem sabia o que era essa barriga grande. Geni tocou na barriga de Marta, disse:
- Pelo tamanho da barriga, deve estar com uns cinco meses.
- Est vendo? Ela no vai poder trabalhar por muito tempo. O Alan no vai permitir!
- Deixe isso por minha conta. O Alan faz cara de ruim, mas no fundo  um timo homem.
Vendo que no havia outra alternativa, s me restava concordar.
O rosto das duas se iluminou. Dali para a frente, Marta comeou a trabalhar no hotel. Eu continuava no garimpo, mas agora no me sentia to s. Sabia que nos fins 
de semana ela estaria l me esperando. Durante a semana, eu trabalhava cada vez mais. Queria derrubar aquela montanha num minuto, mas sabia que era impossvel. Por 
mais que cavasse, no conseguia encontrar nada, alm de pequenos cascalhos. Com eles, eu conseguia ir sobrevivendo. Por vrias vezes cheguei a desanimar e conversar 
com a Marta:
- No adianta continuar aqui. Chego a pensar que no existe ouro, muito menos pedra preciosa. Vamos voltar para casa? L voc ter a criana com mais facilidade.
- Nada disso. Vamos ficar aqui. Voc vai encontrar a sua pedra e eu vou ter a minha criana. Quando tudo isso acontecer, seremos felizes. Voc no pode abandonar 
seus sonhos! Tem que continuar acreditando nessa pedra! Ela existe e est em algum lugar, esperando que voc a encontre! Voc vai encontrar!
A carta continuava. Marta era assim, cheia de vida e confiana. Era alegre e aos poucos foi conquistando a todos. A criana era esperada com muito carinho. At o 
americano, sempre srio, sorria ao v-la passar por entre as mesas, servindo aos garimpeiros. Ele estava feliz, porque finalmente sua esposa, a Geni, havia encontrado 
uma amiga. J no o incomodava tanto, querendo ir embora dali. Fazia trs meses que Marta estava no garimpo. Geni chegou para ela toda feliz, dizendo:
- Voc no imagina como estou feliz!
- Por qu?
- Estou tambm esperando um filho! Logo, logo, vai ter duas crianas correndo por entre as mesas. O Alan no se agenta de tanta felicidade.
Walther parou de ler, lembrou de sua me e de seu pai: Eles foram maravilhosos... Estiveram sempre ao meu lado, me dando tudo o que eu precisava. Por que ser que 
no tive outros irmos? Marta tambm foi muito corajosa, mas vou retornar para a carta, est muito interessante. Voltou seus olhos para a carta, nela Paulo continuava: 
Daquele dia em diante, as duas, alm de se preocuparem com o trabalho, preparavam com carinho as roupinhas das crianas que chegariam. Alan, o americano, assim que 
chegou no garimpo, conheceu Geni. Ela trabalhava no hotel. Alan era filho do dono do hotel e de todos os outros negcios que pertenciam  famlia. Seu pai veio para 
o Brasil, alguns anos antes e se dedicou ao trabalho nas minas. Conseguiu muito dinheiro, mas adoeceu, voltou para os Estados Unidos. Alan veio para tomar conta 
de tudo. Era um aventureiro, veio para Brasil em busca de aventura e de dinheiro,  claro. O amigo que vendera os negcio para o seu pai voltou para seu pas com 
muito dinheiro, mas j estava velho e cansado. Ofereceu seus negcios ao pai de Alan por um valor muito pequeno e sem prazo para pagar. Na poca em que Alan chegou, 
Geni trabalhava como arrumadeira no hotel. Ela preparou para ele o melhor quarto. Assim que ele a viu, se apaixonou. Ela, ao v-lo, tambm se entusiasmou. Aos poucos, 
essa primeira impresso foi ficando cada vez maior. Alan tentou morar com Geni, mas ela no aceitou. Disse a ele que s se entregaria quando casassem. No tendo 
outra maneira e querendo ficar com Geni, Alan terminou se casando. Os dois continuaram juntos cuidando de tudo. Por isso, quando Geni disse que Marta ficaria l, 
ela sabia o que estava dizendo. Os dias, semanas e meses foram passando. Eu, por mais que tentasse, no conseguia encontrar a minha to sonhada pedra, mas sabia 
que a encontraria. A barriga de Marta foi crescendo cada vez mais. Ela trabalhava muito. Quando, em alguma semana, eu no conseguia nenhum cascalho sequer, ela comprava 
as minhas provises. Todos os sbados  noite, havia um baile no hotel. De uma casa grande que tinha l perto, vinham moas para danar e agradar os garimpeiros. 
Eu no me sentia bem em ver Marta no meio daquelas moas, mas ela se colocava como simples garonete e no permitia gracinha de garimpeiro algum. Aos poucos, eles 
aprenderam a respeit-la. Ela passou a ser irm de todos. Em um desses sbados, o salo estava lotado, muita msica, dana e bebida. Marta andava entre as mesas, 
servindo. Eu estava sentado em uma mesa, acompanhado de alguns amigos, ficava observando a sua desenvoltura e o quanto era bonita. Percebi que ela se dirigiu at 
o caixa, onde a Geni estava. Falou com ela, por sua expresso, percebi que algo estava acontecendo. Geni chamou o Alan, ele ficou no caixa e as duas subiram. Ao 
ver toda aquela movimentao, fiquei preocupado, fui at o Alan e perguntei:
- Que est acontecendo? Por que as duas subiram justamente agora que tem tanto trabalho?
Ele, com seu portugus arrastado, disse:
- Estava olhando pelas mesas para ver se encontrava voc. Parece que a criana vai nascer. Voc precisa ir chamar a dona Custdia!
Fiquei apavorado. Parado, no conseguia me mexer. Alan gritou nervoso:
- Vai logo, homem! No demore muito!
Aps o espanto, sa correndo, indo atrs da dona Custdia. Ela era a parteira do lugar. Muitas crianas j haviam nascido por suas mos. Assim que me viu chegando 
espavorido, ela sorrindo, disse:
- J sei... J sei... Seu Paulo, a criana vai nascer... Eu, cansado de tanto correr, quase no conseguia falar.
Ela, calmamente, disse:
- Fique sossegado! Vai dar tudo certo. Isso no  assim, vai demorar um pouco.
Pegou uma pequena maleta, tocou a mo em meu ombro, dizendo:
- Vamos trazer ao mundo mais um brasileiro?
Eu no queria muita conversa, sa na frente, correndo. Ela me seguiu bem devagar. Cheguei ao hotel bem antes dela, precisava ver a Marta. Subi, fui para o quarto, 
ela estava deitada, tendo ao seu lado a Geni, que segurava suas mos. Assim que me viu, seus olhos brilharam:
- Paulo! Chegou a hora! Vai nascer!
Eu estava emocionado demais. No sabia o que dizer ou falar. Apenas me aproximei, beijei sua testa. Ela, sorrindo, disse:
- No precisa ficar nervoso. Vai dar tudo certo. Calado, sem poder articular uma palavra, fiquei l at que dona Custdia chegou. Entrou no quarto, olhou para mim 
e disse:
- Moo, quer fazer o favor de esperar l fora? Dona Geni, preciso de uma bacia e gua quente para lavar o bichinho quando ele chegar.
Geni pegou em meu brao, me conduzindo para fora e dizendo:
- Voc vai ficar calmo, Paulo,  melhor que v at l embaixo ajudar o Alan. Quando tudo terminar vou avisar voc. Est bem?
Eu no podia fazer mais nada. Nem rezar eu sabia, mas, mesmo assim, desci, fui para fora. No cu, no havia nuvem, s muitas estrelas e uma meia lua que iluminava 
a escurido. Olhei para aquele cu, pareceu que a lua falava comigo. Uma suave brisa me acariciava. Senti naquele momento uma enorme vontade de rezar, de acreditar 
que existia mesmo um Deus: Deus do cu! No sei se existe mesmo! As vezes, fico pensando que se existisse, no permitiria que tivesse tanta misria e que o sertanejo 
sofresse dessa maneira! Mas Deus! Se existir mesmo, ajude a Marta nesse momento... Mais uma criana est nascendo para este mundo de pobreza e sofrimento... Deus! 
Proteja os dois! Lgrimas caam dos meus olhos, estava com medo. Medo que algo acontecesse naquele lugar sem recurso algum. No sei se estava emocionado demais, 
s sei que apareceu uma luz me envolvendo todo. E no era a luz da lua nem das estrelas. Senti uma paz imensa, voltei para o salo. As pessoas, alheias a tudo o 
que estava acontecendo, continuavam rindo, danando, cantando e bebendo. Olhei para o alto. Senti vontade de subir, mas Alan me chamou:
- Paulo! Sem as duas aqui, preciso que me ajude a servir s mesas. Pode fazer isso?
Era a nica coisa que eu poderia fazer no momento. Comecei a atender as mesas e no percebi o tempo passar. No posso, na realidade, lhe dizer quanto tempo demorou. 
Vi a Geni aparecendo no alto da escada. Ela vinha descendo, me procurando. Assim que me viu, abriu um sorriso largo, veio em minha direo. Eu no sabia se ria ou 
chorava. Meu corao batia de uma forma louca. Geni chegou ao meu lado, dizendo, feliz:
- Paulo! Nasceu!  um lindo menino! No sei quanto pesa, mas  bem grande.
- E a Marta, como est?
- Est muito cansada, mas tambm muito feliz. Pode subir. Ela est esperando por voc.
Subi a escada de trs em trs degraus. No via a hora de encontrar a Marta e ver com meus prprios olhos ela e a criana. Assim que abri a porta, parei. Jamais vou 
esquecer a imagem que vi. Marta estava deitada, segurando, nos braos, seu filho, que parecia dormir. Dona Custdia terminava de fechar sua maleta. Marta, ao me 
ver, sorrindo, disse:
- Paulo! Venha ver como ele  lindo! E o menino mais bonito que j vi!
Caminhei em sua direo. Ela estava um pouco abatida, mas seus olhos brilhavam. Junto  cama, me debrucei sobre ela e a beijei na testa. Em seguida, olhei para o 
menino. Era um menino grande, com os cabelos negros, muito inchado. Confesso que no o achei bonito, mas no quis dizer isso a ela. O importante era que os dois 
estavam muito bem. Tudo havia terminado. Estava pensando nisso, quando percebi que nada havia terminado, estava apenas comeando. Enquanto eu olhava o menino, ela 
passava suavemente as mos sobre a cabecinha dele. Eu ia pensando: Que vou fazer agora? Ela, por um bom tempo, no vai poder trabalhar. Esse menino vai precisar 
de muita coisa... No encontrei a minha pedra. No vou poder dar tudo o que ele merece!
- Por que est to srio, Paulo? No achou o menino bonito?
Voltei  realidade:
- Claro que ele  o menino mais bonito do mundo, Marta! Estou muito feliz!
- Sei que est preocupado, mas no precisa ficar assim, tudo vai dar certo.
- Sei que vai dar tudo certo... Voc  que no tem que ficar preocupada. Logo estar de p. Tenho a certeza que, antes mesmo de levantar dessa cama, vou encontrar 
a minha pedra e tirar voc e o menino deste lugar. Ele nasceu para ser um rei, no para viver aqui.
- Isso tudo o que est dizendo  bobagem. O importante  que nasceu e est aqui, bem pertinho da gente. Como ele vai viver ou ser? No sei, s sei que estou muito 
feliz...
Ao notar que ela havia ficado triste, eu mudei de atitude:
- Voc tem razo. Ele est aqui e ser muito feliz. Falei aquilo, mas no ntimo sabia que no seria assim, ningum poderia ser feliz nascendo em um lugar como aquele, 
no meio de tanta pobreza e confuso. Aquele no era lugar para se criar uma criana. Fiquei com ela, olhando para o menino. Quando voltei meus olhos para ela, percebi 
que estava dormindo. Levantei e sa bem devagar. L embaixo, tudo continuava igual. Agora, a Geni estava de volta ao caixa. O Alan servia s mesas. Normalmente, 
quem ficava no caixa era ele, e ela servia, mas como sua barriga j estava aparecendo, ele quis poup-la. Caminhei at ela, que falou nervosa:
- Que est fazendo aqui, Paulo? Por que no est l com a Marta?
- Ela adormeceu. Achei melhor deix-la tranqila.
- Fez bem. Daqui a pouco volte para l e veja se ela e o menino esto bem.
Aps alguns minutos, no suportei e voltei. Ela continuava dormindo e o menino tambm. Via ali, na minha frente, aquelas duas criaturas que eram toda a minha famlia. 
Olhei para o menino, senti vontade de peg-lo, mas no tive coragem, pois ele era muito pequeno e fiquei com medo de acordar um dos dois. Geni entrou em seguida. 
Ao me ver ali parado, disse, baixinho:
- Vamos sair, Paulo, eles esto dormindo. Marta est muito cansada, o parto no foi fcil. Estou at com medo da minha hora.
Olhei para ela e sorrindo, disse tambm baixinho:
- Vai dar tudo certo. Tomara que voc tenha um menino, assim um far companhia para o outro.
Antes mesmo de terminar os quarenta dias de resguardo, Marta voltou ao trabalho. O menino crescia forte, cada vez mais bonito. Eu estava apaixonado por ele. Agora 
trabalhava com mais afinco. Precisava encontrar a minha pedra. Marta tinha muito leite, eu sabia que por enquanto no precisaria me preocupar com a alimentao dele, 
mas em breve ele iria necessitar de muitas outras coisas. Por isso eu precisava encontrar a pedra para poder dar a eles tudo o que precisavam e mereciam. Mas no 
adiantava, por mais que procurasse, eu no a encontrava. O tempo foi passando, Marta sempre trabalhando muito e me ajudando, tanto com dinheiro como me dizendo sempre:
- No desanime, Paulo, voc vai encontrar a pedra! Ela est a em algum lugar esperando por voc!
Ao ouvi-la, eu sentia uma nova energia e partia para a luta. No fundo, tambm acreditava que encontraria a minha pedra. O menino j estava com seis meses, engatinhava 
por entre as mesas, enquanto Marta e Geni ficavam de longe, cuidando dele. No garimpo, no havia cartrio, por isso ele ainda no havia sido registrado. Seu nome 
seria Joo Antnio, escolhido por Marta. Para registr-lo, seria preciso ir at a cidade vizinha, que ficava a quase duas horas do garimpo. Alm de no ter dinheiro, 
no tnhamos tempo, fomos adiando. Assim que a criana de Geni nascesse, seriam registradas juntas. Alan, alm de ter dinheiro, tinha um Jipe e tambm tempo para 
isso. Quando ele fosse registrar o seu filho, eu e Marta iramos juntos. Em um domingo pela manh, aps outra noitada daquelas, eu estava dormindo ainda, quando 
acordei com a batida de algum na porta. Levantei e a abri. Alan entrou no meu quarto, desesperado, dizendo:
- Paulo, a Geni est com dores, preciso ir chamar a dona Custdia.
- A Marta, onde est?
- Est l com Geni. Elas estavam juntas preparando o caf, quando a Geni comeou a sentir as dores.
Levantei-me e me vesti rapidamente. Sa com o Alan, ele no sabia onde dona Custdia morava. Quando retornamos, Geni estava em seu quarto, tendo ao lado Marta que 
com uma toalha, enxugava seu rosto. Assim que entramos, dona Custdia se aproximou de Geni, colocou a mo em sua cabea, olhou para ns, dizendo:
- Os dois podem sair agora. Dona Marta, preciso de gua quente e algumas toalhas.
Eu j havia passado por aquilo, sabia o que o Alan estava sentindo. Peguei em seu brao e o retirei do quarto. J fora do quarto, disse:
- Fique calmo, Alan, vai dar tudo certo. Voc no lembra como foi o dia em que o Joo nasceu? Fiquei nervoso como voc est agora e no final chegou aquele lindo 
menino! Vamos tomar um pouco de caf? Antes, preciso ver onde o Joo est. Com toda essa confuso me esqueci dele.
Samos correndo em direo ao quarto. O bero estava vazio, fiquei apavorado. Fomos correndo at a cozinha, procurando pelo menino. Assim que entramos, respiramos 
aliviados. Ele estava ali, com Ismnia. Ela estava dando a ele uma papa de po com caf e leite. Ele comia tranqilo. Assim que nos viu, ela disse:
- Ele est muito bem, cheguei aqui quando elas estavam fazendo o caf. Marta me entregou o menino e pediu que cuidasse dele, estou fazendo isso com muito prazer.
- Muito obrigado, Ismnia, no estou em condies de cuidar dele.
Alan completou:
- Nem eu! Mas o que veio fazer aqui, Ismnia?
- O Isaas pediu que eu trouxesse estes documentos para o senhor assinar.
Olhamos e sobre a mesa havia realmente alguns papis. Alan, por no saber falar bem a lngua e muito menos ler direito, contratou Isaas para que cuidasse de toda 
essa parte. Ele viajava para todos os lugares e vendia as pedras que Alan comprava dos garimpeiros. Eles moravam algumas casas alm do hotel. Eram recm-casados. 
At a, eu no os conhecia muito em, apenas de vista. Todos os garimpeiros sabiam que o Isaas era o homem de confiana do americano, nada alm disso. Ele era muito 
reservado, mas parecia ser um bom profissional. Eu e o Alan nos sentamos e comeamos a tomar caf. Ele no conseguia comer, estava apavorado, com muito medo. Pegou 
os papis e assinou. Ismnia terminou de dar a papa para o Joo. Disse:
- Preciso levar esses documentos para o Isaas. Estou pensando, sei que aqui hoje est muito complicado, por isso vou levar o menino comigo e cuidarei dele at que 
tudo fique bem. Posso?
Para ser sincero, fiquei aliviado. Sabia que ainda faltava muito tempo para tudo se resolver e sabia tambm que precisava ficar ao lado do Alan. Aps a chegada de 
Marta, com a amizade que nasceu entre ela e a Geni, tambm me tornei amigo dele e percebi que ele no era aquele monstro que os garimpeiros pensavam. Ele s era 
um pouco tmido, por causa da dificuldade que tinha em conversar. Por causa do idioma que falava. Para esconder essa timidez, se tornava antiptico. Ismnia saiu, 
terminamos de tomar o caf. Eu disse:
- Alan, vamos andar um pouco? Voc est muito nervoso, se ficar aqui, vai ser mais difcil. Andando, poderemos conversar e o tempo passar mais depressa.
Ele, meio a contra-gosto concordou. Sabia que dona Custdia no o deixaria entrar no quarto. Samos, andando por aquela rua de terra. Sendo domingo, havia muitas 
pessoas andando, fazendo compras para levar ao garimpo. Caminhvamos calados. No sabamos o que falar. Para anim-lo, eu disse:
- Sei tudo o que est passando. Quando o Joo estava para nascer, eu mesmo, sem saber, rezei pedindo ajuda a Deus.
Ele me olhou com os olhos arregalados:
- Por que acha que estou quieto? O que acha que estou fazendo? Eu amo a Geni e morro de medo que algo de mal possa acontecer. Neste lugar no temos recursos, se 
acontecer alguma coisa errada, no teremos tempo de socorr-la...
- Tambm pensei isso, mas no aconteceu nada! A dona Custdia parece ser muito experiente. Fique calmo, vai dar tudo certo.
Eu estava sendo sincero. Queria que tudo desse certo. Andamos um certo tempo, mas o Alan no suportou, quis voltar. Eu o acompanhei. Chegamos ao hotel. No sabia 
por quanto tempo havamos andado, mas l estava tudo calmo. Os empregados faziam a limpeza e colocavam as mesas e cadeiras em seus lugares. Alan se dirigiu ao bar, 
tomou uma dose de conhaque. Estava realmente nervoso, no queria falar, eu respeitei a sua vontade e, como ele, eu tambm comecei a rezar, pedindo a Deus que aquela 
criana viesse ao mundo com sade. Ela teria tudo o que o meu Joo jamais teria. Seria uma criana feliz. Estvamos sentados. Na frente do Alan, havia um copo com 
conhaque. O silncio era completo. Ningum dizia nada. Todos estvamos esperando a hora de ouvir o choro da criana. Comecei a ficar preocupado. J fazia muito tempo 
que a dona Custdia estava l. Estava demorando, muito mais do que demorou com a Marta. De repente, ouvimos um grito desesperado. Era Geni quem estava gritando. 
Alan levantou e correu para a escada. Eu o segurei, dizendo:
- Fique calmo, no adianta ir at l! Ela no vai deixar voc entrar. J deve estar perto da hora da criana nascer.
Ele voltou a sentar, ficamos com os olhos pregados na escada, esperando ouvir o choro da criana. Passaram-se mais alguns minutos, Marta apareceu no alto da escada. 
Corremos para ela. Em seu rosto, percebi que algo estava errado. Ela me olhou e disse para o Alan:
-  preciso que suba agora...
- Por qu? Que aconteceu?
- Venha comigo.
Eu estava pressentindo que algo de grave havia acontecido. Alan subiu as escadas correndo. No suportei e fui atrs. Assim que entrei no quarto, vi a Geni muito 
abatida e chorando. Ao lado dela, estava a dona Custdia, terminando de cobri-la. Alan se jogou com cuidado sobre Geni, dizendo:
- Meu amor. Ainda bem que voc est bem. Fiquei assustado quando ouvi o seu grito. Por que est chorando?
Ela no conseguiu responder, com a mo apontou para o outro lado. Eu e o Alan olhamos juntos. Dona Custdia estava com uma criana no colo, totalmente enrolada em 
uma toalha. Alan voltou a olhar para Geni:
- Que aconteceu? Por que a criana no est a ao seu lado?
Ela, chorando com mais fora, disse:
- Porque ela morreu, Alan! Ela morreu! Entendeu? Ela morreu!
Ele se levantou, foi ate a dona Custdia, pegou a criana no colo. Descobriu seu rostinho. Comeou a chorar, desesperado. Marta apertou meu brao, segurando-se para 
no chorar tambm. Ele olhou para dona Custdia, gritando:
- Que aconteceu? Por que deixou meu filho morrer? Ela, muito abatida, respondeu:
- No deixei seu filho morrer! Ele no estava na posio certa. Tentei tudo para acertar a posio, mas no consegui. Quando vi que se no o tirasse a dona Geni 
tambm corria risco de vida, eu o tirei com estes ferros. J fiz isso muitas vezes e sempre deu certo, mas ele no resistiu.
- E a Geni, como est?
- Est bem, s vai precisar ficar alguns dias de repouso. Ele se abraou novamente a Geni e os dois ficaram chorando muito.
Walther parou de ler a carta. Seu pensamento voltou para seus pais: Por que nunca me contaram isso? Nunca soube que eles tiveram outro filho... Voltou a ler novamente. 
Paulo continuava: Eu e Marta ficamos ali por algum tempo. Dona Custdia terminou de guardar suas coisas na maleta. Ela saiu e ns resolvemos sair tambm. Aquele 
momento deveria ser s deles. J l fora, Marta, chorando, disse:
- No consigo nem imaginar o que a Geni est pensando, Paulo. Ela esperava essa criana com tanto carinho. J imaginou se tivesse acontecido isso com o Joo? Acho 
que eu enlouqueceria...
- Nem pensar, Marta! Graas a Deus ele  um menino saudvel e muito querido.
Alan ficou muito tempo ao lado da Geni, at que ela, cansada, adormeceu. Ele desceu a escada e caminhou at ns. Estava com os olhos vermelhos de tanto chorar. No 
sabamos o que fazer para o consolar. Tambm estvamos tristes e abatidos. Assim que chegou ao nosso lado, Marta perguntou:
- Como ela est, Alan?
- Muito triste, inconsolvel, mas finalmente adormeceu.
- Estava dizendo exatamente isso ao Paulo. Consigo imaginar o que ela deve estar sentindo. Mas tudo passa, podero ter outros filhos...
- Venham aqui, precisamos conversar.
- Ns o acompanhamos at uma mesa e nos sentamos. Alan nos olhou, dizendo:
- Vocs sabem o quanto gosto da Geni. No suporto v-la sofrendo dessa maneira. Estivemos conversando e resolvemos fazer um pedido a vocs.
Estranhamos aquela conversa, mas perguntei:
- O que quer pedir, Alan?
- Escutem com ateno e por favor me deixem falar at o fim.
- Est bem, mas fale logo, est me deixando nervoso!
- Sei que voc vive procurando uma pedra grande que lhe daria a liberdade financeira para conseguir tudo o que quer, no , Paulo?
- Claro que sim, mas o que isso tem a ver com o seu pedido?
- Posso lhe dar muito mais que essa pedra, caso a ache algum dia.
- No estou entendendo. O que est querendo dizer? Me dar o qu? E por qu?
- Posso lhe dar este hotel, todos os meus clientes, enfim, tudo o que possuo aqui no Brasil.
- Estou entendendo menos ainda. Por que me daria isso tudo?
- Em troca do Joo...
Eu e Marta nos levantamos juntos. Marta gritou:
- Est louco? Est querendo comprar o meu filho? Alan continuou, calmo e frio:
- Vocs sabem que nunca podero dar uma vida decente esse menino. Sabem que ele, como vocs, viver sempre na misria. Ao contrrio, se viver do nosso lado, ter 
tudo, inclusive uma nova ptria...
Marta no se conteve:
- No estou ouvindo o que est dizendo, Alan! Talvez ele no tenha tudo o que voc pode lhe dar, mas ter o nosso amor! Ele no precisa de outra ptria, j tem a 
sua! Nunca vou lhe dar o meu filho! Entendeu? Nunca!
- Amor, ns tambm daremos a ele, e muito mais. Boa comida, educao. Ao nosso lado ele tem a chance que nunca ter se continuar vivendo aqui. Se continuar aqui, 
ele ser um garimpeiro, se voc voltar para a sua cidade, depender da seca e da chuva para sobreviver. Se pensar bem, ver que ser muito melhor para ele viver 
ao nosso lado. Se o amar realmente, vai nos dar o Joo.
- Nunca! Nunca! Nunca! Sofri muito para ter esse menino. Fui expulsa da minha casa! Vivi e vivo todo esse tempo aqui nesta cidade, longe da minha famlia, dando 
meu sangue para que no falte nada para ele.
Eu estava meio tonto com tudo aquilo. No estava entendendo muito bem. Alan continuou:
- Vocs sabem o amor que a Geni tem pelo Joo. Ela est sofrendo muito. No suporto v-la sofrendo assim! Farei qualquer coisa para que volte a sorrir, Marta...
- E eu? Como vou ficar? Ele  meu filho! Podero ter outros filhos!
- Geni se recusa, tem medo de perder novamente. Ela ama o Joo como se fosse dela, Marta.
- Mas no ! Ele  meu! Tambm o amo, e muito!
Alan parou de falar com Marta, voltou-se para o meu lado, que ainda no estava entendendo muito bem o que ele estava pretendendo:
- Paulo, fale com ela! Faa-a entender que esse menino  a pedra que voc esteve todo o tempo procurando. Com tudo que vou dar por ele, ter muito mais que qualquer 
pedra lhe daria!
- No posso fazer isso. Esse menino  tudo em nossa vida! Como a Marta disse, podero ter outros filhos! No sei... No sei o que fazer...
- Pensem at amanh. Vou ter que enterrar o meu filho. Para isso, preciso ir at a cidade, no cartrio. Isso s poder ser feito amanh bem cedo. Vocs tero tempo 
para pensar e decidir o que for melhor para o Joo.
Saiu e nos deixou ali, parados. Marta estava possessa. Eu, ao contrrio, via na minha frente o que poderia conseguir tomando conta de tudo que pertencia ao Alan. 
Confesso que naquele momento, eu estava realmente pensando no bem do Joo, mas muito tambm, no nosso prprio bem. Por isso, me deixei dominar pela ganncia. As 
palavras do Alan no saam da minha cabea:
- Esse menino vale mais que a pedra que tenho procurado h tanto tempo.
Marta saiu correndo, me deixou sozinho, foi at a casa de Ismnia buscar o Joo. Eu fiquei ali, pensando: O Alan tem razo em tudo que falou. Que tenho para oferecer 
a este menino a no ser misria e esse meu sonho de encontrar essa pedra que no existe? Ser que temos esse direito? De tirar a chance de ele ser um menino feliz, 
bem educado e de barriga cheia? Estava ali pensando, quando Marta entrou, trazendo Joo nos braos. Subiu a escada correndo, e segurando o menino com muita fora. 
Eu a segui. J havia tomado a minha deciso. Entrei no quarto. Ela estava deitada na cama ao lado do menino, meio adormecido. Sentei ao seu lado. Passei a mo sobre 
seus cabelos, dizendo:
- Precisamos conversar. Temos que tomar uma deciso.
- No temos que tomar deciso alguma, Paulo. Essa proposta que ele fez  uma loucura.
- No  to louca assim, Marta. Poder nos render dinheiro para o resto da nossa vida.
- No estou acreditando no que estou ouvindo, Paulo. Voc tambm est louco? Ele  nosso filho! Como pode pensar em d-lo em troca de qualquer coisa!?!
- Qualquer coisa, no, Marta! E muito dinheiro e, tambm, voc tem que concordar que para ele ser melhor viver com eles, poder ter uma vida muito boa, diferente 
da nossa.
- No me importo com a vida que ele vai ter. Seja qual for, ser ao meu lado. Voc vai encontrar a pedra e poderemos dar tudo a ele, Paulo!
- Pare de sonhar, Marta! Essa pedra no existe! Eu e voc estamos tentando nos enganar, mas ambos sabemos que ela no existe! Sabemos que nunca teremos dinheiro 
nessa vida! Sabemos que nosso filho tambm nunca ter! Como ns, no aprender a ler, escrever e talvez como voc, s conseguir assinar o prprio nome, nada alm 
disso. Sabe muito bem que para gente como ns, no existe futuro! Isso tudo pensei quando vi voc aqui pela primeira vez e olhei para sua barriga. Tornei a sentir 
naquela noite em que ele nasceu. No temos e nunca teremos nada para dar a ele... Ao contrrio, com o dinheiro que o Alan vai nos dar, poderemos nos casar. J sabemos 
que no h problema algum em sermos primos e termos o mesmo sangue. Poderemos ter outros filhos...
- Outros filhos? No quero ouvir nada disso que est dizendo, Paulo. Voc no est preocupado com ele, est pensando no muito que vai ganhar! Vou dizer s mais uma 
coisa e nunca mais voltaremos a este assunto. Ele  meu filho e eu o amo. Ficar ao meu lado para sempre. Se insistir nessa loucura, amanh mesmo vou embora e deixarei 
voc. Pensei que me amasse, e ao nosso filho, como eu amava voc... Mas estou vendo que no gosta de ningum, nem mesmo de voc...
- Claro que amo voc, Marta! Por a amar muito e a ele,  que quero fazer essa troca! Com o dinheiro, seremos felizes, e ele, tambm ser!
- Saia do meu quarto, Paulo! Vou embora! No quero ver voc nunca mais na minha frente.
- Vai embora? Posso saber com que dinheiro? Eu amo voc, e amo tambm o nosso filho. No precisa ir embora, eu no saberia viver sem voc. Direi ao Alan que a idia 
dele est descartada. Eu amo voc, Marta...
Com os olhos cheios de lgrimas, ela me abraou, dizendo:
- Ainda bem que voltou  razo... Vamos ficar juntos ns trs... Voc vai encontrar a pedra... Tenha f... Deus est ao nosso lado...
Eu a abracei e com muito carinho me deitei ao seu lado. Ela colocou o Joo no bero que ficava ao lado da nossa cama. No dia seguinte bem cedo, eu e o Alan pegamos 
o corpinho da criana e fomos, juntos, para a cidade. L ele teria que ser examinado por um mdico para que fosse providenciado o registro de nascimento e, em seguida, 
o atestado de bito. Eu aproveitaria para registrar o Joo. Geni e Marta queriam ir tambm, mas uma estava precisando de repouso e a outra precisava tomar conta 
de tudo na nossa ausncia. Assim que chegamos  cidade, fomos para a delegacia, mostramos o menino ao delegado e contamos o que havia acontecido. Ele j estava acostumado, 
pois muitas crianas morriam no garimpo. Deu toda a orientao e, juntos, enterramos o menino. Voltamos para casa. Geni estava inconsolvel Marta dava a ela toda 
ateno. Assim que chegamos, me perguntou:
- Onde est o registro do Joo, Paulo?
- Sabe como  uma cidade pequena, alis nem assim se pode chamar aquilo. No passa de uma pequena Vila. Deixei todos os nossos dados, o homem do cartrio disse que 
vai levar uns dez dias para ficar pronto.
- Estranho... Pensei que ficasse pronto na hora.
- Tambm pensei, mas no  assim, no se preocupe, daqui a alguns dias, eu volto l para buscar.
- Est bem, mas preciso voltar ao meu trabalho. Sorri, ela se afastou. Tudo corria bem. Aps alguns dias, Alan chegou, dizendo:
- Preciso ir para o Rio de Janeiro resolver um assunto com um cliente.
Marta disse:
- Pode ir tranqilo, no se preocupe com nada, tomarei conta da Geni e tudo vai ficar bem.
- Ele foi. Eu continuava no garimpo, tentando, desesperado encontrar a minha pedra. Sentia que a qualquer momento a encontraria e seria a minha salvao. Alan ficou 
no Rio por uma semana. Voltou, dizendo:
- Est tudo certo. Consegui resolver o meu problema. Geni o recebeu com muito carinho. Eles se amavam realmente. Tudo voltou ao normal. Naquela semana, trabalhei 
mais do que nunca, precisava encontrar a pedra, mas novamente foi em vo. No sbado, voltei para o hotel. Fazia um pouco mais de um ms que a Geni havia dado  luz. 
Embora muito triste, ela reagia, mas ainda continuava deitada, sem vontade de levantar. No sbado, iria novamente haver a festa dos garimpeiros, as moas viriam. 
Marta trabalhou muito para que tudo estivesse pronto para a festa. Desde aquele dia em que o menino da Geni nasceu, aos sbados, a Ismnia levava Joo para a sua 
casa. Marta decidiu que seria melhor, pois o barulho era muito grande. Ele dormia l e, pela manh, um de ns ia busc-lo. Como todos os sbados, a festa foi at 
as quatro horas da manh. Cansados e sabendo que no dia seguinte teramos muito trabalho, fomos todos nos deitar logo em seguida. Eu no conseguia pregar os olhos. 
Marta, muito cansada, adormeceu assim que se deitou. No dia seguinte, eram onze horas, quando ela acordou. Ficou preocupada por ter dormido tanto. Eu continuava 
dormindo. Ela foi depressa para a casa do Isaas buscar o Joo. Ismnia estranhou ao v-la entrar:
- Que voc veio fazer aqui? Aconteceu alguma coisa com o Joo?
- Que est dizendo, Ismnia? Ele no est aqui?
- No! O Paulo veio busc-lo ontem  noite.
- Como busc-lo? Para qu? Por que no me disse nada? Ismnia no entendia o que estava acontecendo:
- No sei o que aconteceu, Marta. Ele me disse que voc mandou busc-lo, por isso o entreguei.
Marta chegou ao hotel correndo, foi direto para o quarto. Eu, por ter demorado muito para dormir, no havia ainda acordado, e no percebi quando ela saiu, nem quando 
voltou. Ela, furiosa, comeou a me sacudir para que eu acordasse:
- Paulo! Acorde! Onde est o meu filho?
Acordei assustado, sabia que aquele momento ia chegar. Sabia, tambm, que teria muita dificuldade para contar a Marta o que eu havia feito. Sentei na cama. Ela gritou:
- Onde est o meu filho, Paulo? O que fez com ele? Tentei abra-la, mas ela se esquivou:
- No quero saber de abraos, quero saber do meu filho, o que fez com ele?
- Fique calma. Vou lhe contar tudo.
Ela tremia muito. No ntimo, sabia o que eu havia feito, mas no queria acreditar.
- Por favor, no venha me contar que voc fez o que estou pensando?
Fiquei olhando. Ela j havia adivinhado. Abaixei a cabea, sem coragem de olh-la. Senti naquele momento a extenso do que havia feito. Ela comeou a me bater na 
cabea, no rosto, onde conseguia pegar. Estava alucinada:
- Como teve coragem de vender o nosso filho, Paulo? O meu filho? Voc  um monstro! Odeio voc! Onde ele est?
Fiquei calado, no tinha o que dizer. Sabia que havia feito algo terrvel, mas j estava feito.
- Fale alguma coisa! Vou atrs do meu filho!
Sem que eu esperasse, ela saiu, desceu as escadas e, como uma louca, saiu correndo para a rua. Corri atrs dela. Ela correu, correu muito, at que, cansada, parou 
e se ajoelhou. Cheguei perto. Ao me ver, quis se levantar e correr novamente. Eu a segurei, dizendo:
- No adianta, Marta! Eles j esto muito longe! Saram, quando fomos dormir.
- Voc sabia? Voc concordou? Voc vendeu meu filho? Voc  um monstro! Vou a p, de caminho, de qualquer maneira, mas vou encontrar o meu filho.
- No adianta, no vai encontr-los e, mesmo que encontre, no poder fazer mais nada. Nosso filho no existe mais, est enterrado.
Ela arregalou os olhos, perguntando:
- O que est dizendo? Enterrado? Como?
- Tente se acalmar para que eu possa lhe contar tudo. Quando eu terminar, vai ver que fiz o melhor para ele.
- Melhor para ele, Paulo? Fez o melhor para voc! Voc  um monstro! Nada que me disser vai poder me fazer mudar de idia. Vou atrs do meu filho e vou encontrar 
ele! Voc nem ningum vai me impedir.
- Espere, Marta! Fique calma. Voc no vai encontr-los, eles esto indo para os Estados Unidos.
- O qu? Como?
- Voc precisa me deixar explicar. Quando tomar conhecimento de tudo, ver que no foi to ruim assim.
Ela sentou no meio da rua. Ficou me olhando de uma maneira que jamais esquecerei. Em seus olhos, eu via muito dio, mesclado com dor. Naquele momento, entendi o 
que havia feito e tambm que a tinha perdido para sempre. Ela ficou calada, me olhando, esperando que eu lhe contasse tudo. Sentei ao seu lado, no me atrevi a tocar 
nela. Comecei a falar:
- Voc se lembra daquela noite em que conversamos sobre a proposta do Alan? Voc pode no acreditar, mas eu havia pensado muito. Ele tinha razo, jamais nosso filho 
teria ao nosso lado uma vida decente. Sem dinheiro, seria criado como ns fomos, sem instruo e at sem comida. Por isso tomei a deciso. Assim que voc adormeceu, 
eu fui at o quarto deles. Bati  porta, Alan abriu:
- Preciso falar com vocs. S que a Marta no pode saber at que tudo acontea.
Alan fez com que eu entrasse. Entrei, a Geni estava ansiosa, querendo saber o que eu tinha para dizer. Ela sabia que, se eu estava ali, era porque havia aceitado 
a proposta do Alan. Sentei em uma cadeira, dizendo:
- Aceito a sua proposta. Sei que para a Marta vai ser difcil, mas arrumarei um jeito de falar com ela. Alan, voc tem razo. No tenho nada para oferecer ao meu 
filho. Se voc me passar todas as suas pedras e os seus negcios, sei que ganharei muito dinheiro e poderei dar tudo para os outros filhos que teremos.
Ao me ouvir dizer aquilo, Marta pegou em meu rosto com muita fora e gritou, olhando em meus olhos:
- Outros filhos? Com voc? Nunca mais! Nunca mais vai se atrever a me tocar! At agora no disse o que fez com o meu filho! Continue, mas, por favor, seja breve. 
Estou ficando cada vez mais nervosa.
Alan e Geni, ao me ouvirem dizer aquilo, ficaram cheios de felicidade. Foi a que combinamos como tudo seria feito. No dia seguinte pela manh, teramos que ir at 
a cidade para fazer o enterro do menino e o registro do Joo. Combinamos tudo. Por isso a Geni se sentiu muito mal, o que obrigou voc a ficar com ela. Ao chegarmos 
 cidade, fomos direto  delegacia. Disse ao delegado que o meu filho havia nascido morto e que precisava enterr-lo. Ele nos instruiu que precisvamos de um atestado 
de bito e que ele mesmo chamaria um mdico para obt-lo. Tudo seria rpido, desde que se pagasse. O Alan se prontificou a pagar. O menino precisava tambm de um 
registro de nascimento. Combinamos que, enquanto ele providenciasse o mdico, ns iramos at o cartrio. Assim fizemos. No cartrio, Alan registrou o Joo em seu 
nome e eu registrei o menino deles em meu nome.
- O qu? Voc deu o nosso filho para eles de papel passado e tudo? Voc  bem pior do que eu pensava!
- Fiz isso, sim. Por isso tive que inventar aquela histria, quando me pediu para ver o registro do Joo. Achei que estava fazendo o melhor por nosso filho! Ele 
teria uma vida boa!
- O que o Alan lhe deu em troca?
- Aps registrarmos as crianas, fomos at um advogado. Ele preparou um documento no qual passava para o meu nome o hotel e todos os negcios do Alan, aqui no Brasil. 
Hoje, somos donos de tudo, Marta! Vamos ter muito dinheiro! Muito mais do que eu conseguiria, caso achasse a pedra!
- Voc transformou meu filho em uma "pedra"! Voc o vendeu em troca de um sonho! Eu te odeio e vou odiar voc pelo resto da minha vida!
Eu sabia que ela estava com razo, mas tinha esperana de que conseguiria convenc-la. Por isso, deixei que falasse o que quisesse. Assim que terminou de me xingar, 
ficou me olhando, esperando a continuao. Prossegui:
- Quando o Alan foi para o Rio de Janeiro, dizendo que ia atender a um cliente, na realidade, ele foi providenciar os passaportes e as passagens para os trs. Nosso 
filho hoje se chama Walther Soares Brown e vai viver nos Estados Unidos.
Ao ler aquilo, Walther se levantou, tomado de susto. Saiu correndo do quarto, chamando por Isaas. Este estava sentado na sala, ao lado de Ismnia, ouvindo msica 
no rdio. Walther entrou correndo e, muito aflito, com os papis nas mos, perguntou:
- Isaas! Voc sabia disso? Voc sabia que eu no era filho da Geni e do Alan? Vocs sabiam que fui vendido?
Ismnia e Isaas estavam esperando por aquele momento. Isaas calmamente, disse:
- Sabamos, sim, presenciamos todos os fatos.
- No fizeram nada para impedir uma loucura dessa?
- S ficamos sabendo quando tudo j havia acontecido, mas, mesmo que soubssemos antes, no poderamos fazer nada.
- Aquele retrato que est no quarto  da minha me verdadeira?
- Sim, ele esteve ali por todo o sempre.
- E ela onde est? Morreu?
- Pelo visto, voc no terminou de ler a carta.
- No terminei nem vou terminar! Agora s me interessa saber da minha me! Quanto deve ter sofrido por um inconseqente como ele!
- No vou tirar a sua razo, mas, por favor, termine de ler a carta. Tem ainda muito para saber. Ele deixou tudo escrito, leia e no julgue. Apenas leia. Aparte 
mais difcil voc j leu, veja agora as conseqncias de tudo isso.
- S quero saber se minha me ainda vive!
- Leia e saber. Se eu lhe responder essa pergunta agora, talvez no queira mais ler, e  importante que leia at o fim. Confie na providncia. Deus est em todos 
os lugares e em todos os momentos das nossas vidas, no nos abandona nunca e nada acontece por acaso. Leia tudo at o fim...
- Vem me falar de Deus em uma hora como esta? Onde estava Deus quando esse louco fez uma monstruosidade dessa? Onde est a minha me?
- Deus, com certeza, estava ao lado deles, como est agora ao nosso lado. Por favor, leia a carta at o fim.
Walther percebeu que seria intil continuar insistindo. Isaas no diria nada. Voltou para o quarto, pegou o retrato em suas mos e comeou a olhar aquele rosto 
que parecia sorrir para ele. Prestou ateno nos cabelos, rosto e, principalmente, em seus olhos, pensou: Ela era realmente muito bonita e quanto deve ter sofrido... 
No sei o que estou sentindo neste momento... Fui criado com tudo e com muito amor, no posso me queixar da vida que tive... Amei meus pais, mas nunca poderia imaginar 
que no era filho deles. Descubro, agora, que a minha vida toda foi uma mentira. Descubro, agora, que fui tirado dos braos de uma mulher que me amava... Como pode 
ser isso? Como pode existir tanta maldade no mundo? Colocou novamente o retrato sobre o criado-mudo, voltou a se acomodar na cama e recomeou a ler a carta. Assim 
que Marta ouviu o novo nome do nosso filho, levantou-se e foi caminhando, calada, em direo ao hotel. Eu a acompanhei  distncia. No me atrevia a dizer mais nada. 
Sabia que ela precisava de tempo para pensar e eu daria a ela todo o tempo que fosse preciso. Eu a amava muito. Sabia, agora, que embora eu houvesse lhe tirado o 
filho, poderia lhe dar tudo o que sempre sonhei e outros filhos, tantos quantos ela quisesse. Ao chegar ao hotel, ela foi direto para o quarto, eu a segui. Assim 
que entrou no quarto, pegou a mesma maleta com que chegou e foi colocando dentro dela algumas peas de roupas. Eu tentei evitar, ela apenas me olhou, sem dizer nada, 
mas entendi o seu olhar. Sabia que ela no ia mudar de idia. Estava, naquele momento, me abandonando. Eu no podia permitir. Desesperado, falei:
- Espere, Marta, no faa isso! Eu amo voc! Agora, poderemos ter tudo com o que sempre sonhamos! No poderei viver sem voc! Precisa me perdoar. Sei, agora, o grande 
erro que cometi, mas me perdoe! Viverei para fazer voc feliz! Teremos outros filhos!
Ela no disse nada, nem sequer se voltou para me olhar. Terminou de arrumar a mala, saiu do quarto. Fui atrs, implorei, chorei, mas no adiantou. Perguntei:
- Para onde voc vai? O que pretende fazer? Ela no respondeu, continuou andando. Eu insisti:
- Voc no tem para onde ir, Marta!
Ela no disse uma palavra. Continuou andando. Percebi que no adiantava. Ela estava determinada a me deixar e nada a faria mudar de idia. Ela saiu para a rua e 
foi caminhando pela pequena estrada de terra. Eu a vi se afastando. Embora desesperado, eu sabia que no conseguiria nada naquele momento. Fiquei olhando at que 
ela desaparecesse no fim da estrada. Estava ali, parado, olhando, quando ouvi uma voz atrs, nas minhas costas:
- E agora, o que vai fazer, Paulo?
Era Isaas. Olhei para ele, fiquei sem saber o que responder. Ele, percebendo que eu estava desesperado, me fez entrar, dizendo:
- Venha, vamos entrar, nos sentar e conversar. No quer me contar o que est acontecendo? 
Eu mal o conhecia. Sabia que ele trabalhava para o Alan, mais nada. Mas, naquele momento, eu precisava conversar com algum, desabafar, contar a enorme asneira que 
havia praticado. Ele pegou em meu brao e me conduziu de volta para o hotel. Ns nos sentamos. Olhei em seus olhos, notei que havia neles uma luz que me transmitia 
confiana. Contei tudo. Ele me ouviu, sem interromper. Quando terminei de falar, lgrimas corriam por meus olhos. Estava sofrendo muito, eu amava Marta e nunca pensei 
que um dia ficaria sem ela. Ele olhou bem dentro dos meus olhos, dizendo:
- O que o senhor fez foi muito grave. Eu no sabia de nada, mas agora entendo por que Alan, um dia, me chamou e disse:
- O Paulo vai passar por momentos difceis. Quero que continue ao lado dele e o ajude em tudo o que precisar.
- Perguntei o que era, mas ele no disse. Sei que, alm do dinheiro e de tudo o mais que recebeu, o senhor, sinceramente, pensou que seria melhor para o seu filho. 
No sei se ser ou no, mas est feito. Sigo j h muito tempo uma Doutrina que nos ensina que nada acontece por acaso e que nunca estamos ss. Temos o livre-arbtrio 
para decidir o que  certo ou errado. O que  bom para ns ou ruim. O senhor usou do seu livre-arbtrio, s que foi para decidir a vida de outras pessoas. Vai carregar 
isso para sempre, mas est feito. Talvez consiga, um dia, remediar tudo o que foi feito hoje. Tenha f...
Isaas ficou em silncio por alguns minutos, s me olhando. Eu no conseguia dizer nada, apenas chorava. Ele perguntou:
- Para onde acha que ela foi, Paulo?
- No sei, Isaas! Nem sei se ela tem dinheiro. Ela no me disse...
- Ela trabalhou durante muito tempo, deve ter algum dinheiro. No estar indo de volta para casa?
- No sei. Acredito que no. No sei o que fazer...
- Se no sabe o que fazer, no faa nada, Paulo. Confie em um Deus que tudo sabe e que tudo perdoa. Tudo ser como tem que ser. No final, tudo est sempre certo.
- No est nada certo, Isaas! Estou s, sem meu filho e sem a mulher que amo...
- Esse  o preo que ter de pagar pelo uso do seu livre-arbtrio.
- Isso que est dizendo no faz sentido! No entendo nada disso! No tenho religio alguma! Nem sei se Deus realmente existe!
- Claro que existe. Olhe  sua volta, tudo isso que v. Esse sol brilhando, as matas, as montanhas cheias de pedras preciosas, ns mesmos, as plantas, os animais. 
Ele existe, est em todos os lugares e com todas as pessoas, Paulo.
- s vezes, quero acreditar que Ele exista, mas ao ver tanta misria e fome, chego a pensar que no existe nada. A nica coisa que realmente conta neste mundo  
a quantidade de dinheiro que possumos. Com ele, sim, podemos ter tudo o que queremos.
Hoje, o senhor tem uma boa quantidade de dinheiro, mas tem tudo o que quer? Alis, ningum tem nada. Tudo o que temos ou conseguimos, um dia, teremos de deixar aqui 
mesmo.
- No estou entendendo.
- Um dia, todos voltaremos para Deus e no levaremos nada, a no ser o que aprendemos, fizemos de bem e as oraes dos amigos que conquistamos. O resto ficar aqui, 
inclusive o nosso corpo. No  mesmo?
Era muito jovem para entender o que o Isaas estava dizendo. O que me importava, realmente, era tudo o que eu poderia adquirir, com todo o dinheiro que agora possua. 
Respondi:
- Quer saber de uma coisa, Isaas? No sei para onde ela foi, mas sei que pensar e entender que fiz o melhor para o nosso filho e para ns mesmos. Aps pensar 
bastante, ela voltar. Sei que tambm me ama. Enquanto isso, vou ficar aqui trabalhando e esperando. Falando nisso, voc vai continuar ao meu lado, fazendo o mesmo 
trabalho que fazia para o Alan?
- Se me quiser, ficarei.
Daquele dia em diante, comeamos uma longa amizade que perdura at hoje. Ns nos entregamos ao trabalho. O Isaas cuidava de toda a parte burocrtica; eu, dos garimpeiros. 
Ele e a Ismnia se mudaram para o hotel. Ela comeou a trabalhar no lugar antes ocupado pela Geni. Eu, embora fosse dono de tudo aquilo, no era feliz. Todas as 
noites, ficava pensando em Marta e em voc. Sabia que, um dia, ela voltaria. O tempo passava, j fazia dois meses que tudo havia acontecido, mas at agora, nada. 
No tinha notcias da Marta. Em uma manh, acordei muito nervoso, precisava fazer alguma coisa. No conseguia parar, andava de um lado para outro. Desde que Alan 
foi embora, nunca mais eu havia voltado ao garimpo, mas, naquele dia, senti uma vontade imensa de ir at l. Resolvi que iria, pois pensava, que, cortando aquela 
montanha, poderia extravasar toda a raiva que estava sentindo. Esquecer de tudo o que havia feito, mas, muito mais, da incompreenso da Marta. Fui at  montanha, 
peguei a picareta e comecei a cavar com muita fora. Precisava colocar a minha ira naquela picareta. Eu cavava, cavava sem prestar muita ateno nos torres que 
iam caindo. Ouvi um garimpeiro gritando:
- Olhe a! Olhe o tamanho desta pedra!
Olhei para o lugar que ele apontava e vi, estarrecido, ali, sob os meus ps, envolta em muita terra, uma enorme pedra verde. Fiquei parado, olhando, sem coragem 
de me abaixar e tocar naquilo que era o meu sonho h muito tempo. Aps alguns segundos, me abaixei, peguei o torro e comecei a tirar a terra que a envolvia. Ela 
era realmente grande, muito mais do que eu havia imaginado. Comecei a gritar feito um louco:
- Encontrei! Encontrei a minha pedra!
Todos os garimpeiros se aproximaram para ver aquela beleza que eu tinha em minhas mos. Eu pulava e gritava feito um louco. Ela estava ali! Finalmente a encontrei, 
sabia que a encontraria, Marta sempre me dizia que ela s estava esperando que eu a encontrasse. S a me lembrei da Marta. Ali, naquele momento, dei-me conta mais 
ainda da imensa loucura que havia feito. S agora eu entendia que aquela pedra no representava mais nada em minha vida. Ela chegou muito tarde. Eu havia perdido 
meu filho e a mulher que amava. Comecei a chorar sem parar. Os garimpeiros acreditavam ser de emoo, felicidade, mas no era verdade, eu chorava de desespero, por 
ver como a vida era injusta. Peguei a pedra, voltei para o hotel. Fui com ela at o escritrio, onde Isaas trabalhava. Chorando, coloquei a pedra em cima da mesa, 
dizendo:
- Eu a encontrei! Ela est aqui! A pedra que tanto procurei!
Isaas pegou a pedra em suas mos:
- Que beleza de pedra, Paulo! Nunca vi uma igual em todo o tempo que trabalho aqui! Ela  linda e deve valer muito dinheiro!
- Sei disso, e  por isso que estou chorando...
- No entendo! Deveria estar feliz! Todo garimpeiro sonha com uma pedra como esta!
- Ela chegou tarde! Muito tarde...
Isaas entendeu o que eu dizia. Saiu de trs da mesa, colocou a pedra sobre ela, me abraou:
- Sei o que est sentindo. Devemos continuar acreditando na sabedoria Divina. Se encontrou esta pedra,  porque tem muito o que fazer nesta terra. Acredito que a 
primeira coisa que deveria fazer, agora, seria voltar para a sua casa, talvez a Marta esteja l. J passou um bom tempo. Ela deve ter pensado muito. V ate l, meu 
amigo. D a voc mesmo uma chance de remediar o mal que sem inteno fez. Se ela no estiver l, ao menos rever a sua famlia e agora poder ajud-los. Vou guardar 
muito bem esta pedra at conseguir um bom comprador.
- Tem razo, farei isso, mas levarei a pedra comigo. Se a Marta estiver l, quero que a veja.
-  muito perigoso viajar com uma fortuna desta. No sei se essa  uma boa idia.
- Da maneira como ela chegou s minhas mos,  porque ela  minha, e ningum vai tir-la! O importante  que a Marta a veja e compreenda que tudo o que fiz foi pensando 
no bem-estar do nosso filho e dos futuros que viriam e que viro, se Deus quiser!
- Tem razo. Deve fazer isso mesmo. Ao menos, j est falando em Deus. Isso  um bom comeo. Acredite que Ele est ao seu lado e que tudo ser resolvido da melhor 
forma.
- Estou comeando a acreditar, mas Ele podia ter me dado essa pedra antes que tudo aquilo acontecesse. Receio que agora seja tarde demais...
- Tudo tem sua hora e momento. Tudo ser como tem que ser. No imagine o que vai acontecer. Apenas v, no mnimo, deixar a sua famlia muito feliz...
No dia seguinte bem cedo, sa no jipe, que antes pertencia ao Alan e que agora era meu. Durante a viagem, ia pensando: O Isaas tem razo. Se a Marta no estiver 
l, ao menos vou rever a minha famlia. Farei com que se mudem daquele lugar. Agora, eles podero viver na cidade, sem depender da chuva para sobreviver. Tenho dinheiro 
suficiente para que todos possam viver muito bem. Espero, de todo o meu corao, encontrar a Marta e conseguir convenc-la a voltar comigo. Parei,  noite, em um 
pequeno hotel na estrada. Estava cansado, havia dirigido o dia inteiro, parando apenas para abastecer o jipe e comer um pequeno lanche. Senti que no conseguiria 
dirigir durante a noite. No dia seguinte, reiniciaria a viagem. A pedra seguiria colada ao meu corpo. Vestia-me simplesmente, como todos, ningum poderia imaginar 
que eu carregava comigo uma fortuna como aquela. Entrei no hotel, dirigi-me at o bar, perguntei se havia algo para comer. Eu queria comer comida mesmo. O lanche 
que comi na estrada no me satisfez, precisava de algo com muita sustncia. O dono do bar me prometeu que a comida seria muito boa e que jamais a esqueceria. Realmente, 
era boa mesmo. Aps jantar, fui logo para o quarto. Estava cansado e a viagem ainda seria muito longa. No dia seguinte logo cedo, levantei, tomei um caf rpido 
e ca na estrada. Durante a viagem, ia olhando aquela estrada; quanta pobreza existia ali. As poucas casas existentes eram feitas de barro e cobertas com folhas. 
Ali, sozinho, vendo no horizonte a estrada que continuava e parecia no ter fim, eu me lembrei do Deus de que Isaas falava: Ser que Ele existe mesmo? Se Ele existe, 
por que permite que haja tanta pobreza neste mundo? Como pode permitir que essas pessoas vivam dessa maneira? Que futuro tem essa gente? Que sonhos? Continuei dirigindo. 
Finalmente, avistei, ao longe, a minha casa. Levava comigo muita esperana de reencontrar Marta e conseguir convenc-la a voltar e viver ao meu lado. Eu, agora, 
era um homem rico e tinha tambm encontrado a minha pedra. Cheguei nos limites da propriedade, parei o jipe e fiquei olhando. Ainda restava algum verde, mas, com 
certeza, a seca, em breve, chegaria e tudo aquilo se transformaria em terra, pura terra, como tinha acontecido durante toda a minha vida. Acelerei, entrei. De longe, 
vi, na varanda, uma mulher que correu para dentro da casa, assim que viu o jipe entrar na estradinha. Da distncia em que eu estava, no conseguia reconhecer quem 
era, mas, pelos cabelos negros, s podia ser ela, Marta. Meu corao disparou. Acelerei mais, a pequena estrada era de terra e com muitos buracos, mas nada daquilo 
importava. Estava chegando junto da mulher que amava mais que tudo, mais at do que a minha to sonhada pedra. Em seguida, vi a mulher voltando, acompanhada por 
um homem. No havia como no o reconhecer: era meu pai. Sua altura e o modo de usar o chapu eram inconfundveis. Caminhei em direo a eles, que me reconheceram 
e eu os reconheci. Comearam a gritar e a abanar as mos. Eu fazia o mesmo. Com uma mo no volante e a outra abanando. Percebi que a mulher no era a Marta, mas 
minha prima Nalva, irm dela. Mesmo assim, eu estava feliz, voltava para casa e, como havia prometido, com a minha pedra, que tiraria todos daquele lugar. Com os 
gritos, os demais membros da famlia tambm vieram, alguns correram ao meu encontro. Ns nos abraamos com muita emoo e saudades. Entrei em casa, tudo continuava 
como sempre fora. Nada mudara. Vi todos, menos ela. Sem esconder a minha emoo perguntei:
- Onde est a Marta?
Eles me olharam com ar de surpresa. Meu pai perguntou:
- Ela no est com voc?
- No! Ela me abandonou h mais de dois meses, pensei que estivesse aqui!
- Abandonou? Por qu, Paulo? E a criana? Ela teve a criana, no teve?
-  uma longa histria, pai, mas se ela no est aqui, onde estar?
Minha tia, me de Marta, foi quem falou:
- Desde que o pai a expulsou daqui, quando soube que ela estava esperando criana, e o pior, que essa criana era sua, do prprio primo, nunca mais tivemos notcias. 
Eu fiquei desesperada ao ver minha filha partindo daquela maneira, mas voc sabe como seu tio era, no consegui evitar!
- Era? O que est me dizendo? Onde est o meu tio?
- Ele morreu dois meses aps a ida dela. No fundo, no se conformou por ter feito aquilo. Morreu de repente, foi tomar caf na cozinha, caiu, quando chegamos perto, 
ele j estava morto. Embora preocupada com a minha filha, sempre tive a esperana que ela tivesse encontrado voc, que estivessem juntos.
Fiquei desolado com a notcia da morte do meu tio, mas muito mais preocupado com a Marta. Onde ela estaria? O Brasil  muito grande, embora eu agora tivesse dinheiro, 
no sabia por onde comear. Pensei: Ser que ela foi para os Estados Unidos atrs do filho? No! Ela no conseguiria. Por mais dinheiro que tenha guardado, no conseguiria, 
em to pouco tempo, juntar o necessrio para pagar a passagem. Alm do mais, no sabia ler. No! Ela est no Brasil e eu vou encontr-la. Logo estava rodeado por 
toda a minha famlia. Meus pais, irmos e primos. Todos estavam l, felizes, e eu, apesar de tudo, estava feliz tambm. Eu os amava. Luiz, o irmo que trabalhou 
ao meu lado no garimpo e que no quis continuar ali, perguntou:
- E a mano velho! Disse que s voltaria quando encontrasse a pedra grande! Voc a encontrou?
Eu desabotoei a camisa, tirei a pedra que estava embrulhada em um pano preto e colada ao meu corpo com esparadrapos, coloquei em cima da mesa. Todos se aproximaram 
e se espantaram com o tamanho e o brilho. Sorrindo, disse:
- Encontrei, mano... Encontrei... A est ela...
Ele, como os outros, tambm se admirou, mas percebeu que eu no estava bem. Afastou-me dos outros, perguntando:
- Que aconteceu? Parece no estar feliz por ter encontrado a pedra! Por ter realizado o seu sonho!
- Claro que fiquei e estou feliz, s que paguei um preo muito alto por ela...
- No estou entendendo! Que preo?
- O amor da Marta, receio t-la perdido para sempre. O meu filho est distante, talvez nunca mais volte a v-lo...
- Que est dizendo, no estou entendendo, Paulo!
- Vou lhe contar, vamos sair, quero andar por a e ver tudo. Ver o que mudou aps eu ter sado daqui.
- Vamos, sim! Quero que me conte tudo. Quanto ao lugar, continua como antes, nada mudou.
- Eu sei, j percebi quando cheguei, mas, mesmo assim, quero rever tudo.
Samos e comeamos a andar. Contei a ele em detalhes tudo o que havia acontecido. Ele me ouviu sem acreditar, mas no me interrompeu. Quando terminei, lhe disse:
- Foi tudo isso que aconteceu. Encontrei a pedra, tenho hoje muito dinheiro, mas perdi a Marta e o meu filho...
- Por tudo o que me disse, pode ter perdido a Marta, mas algum dia ela poder reaparecer. Quanto ao seu filho, sabe onde ele est e poder ir at l e traz-lo de 
volta!
- No posso fazer isso! Para todos os efeitos, meu filho est enterrado. Eu deixei que o americano o registrasse em seu nome. No posso nunca reclamar os meus direitos. 
No posso provar que aquele menino  meu filho! No posso fazer nada, a no ser continuar procurando pela Marta. Sei que vou encontr-la.
- Espero que consiga. Eu vou ajudar na procura.
- Obrigado, mano, s podia esperar isso de voc, mas voltei tambm para cumprir a minha promessa. Vou tirar vocs todos daqui! Vou comprar uma casa grande na cidade. 
Mandarei dinheiro todos os meses. Todos estudaro e vivero tranqilos, sem o medo da seca. Nunca mais sofrero!
- Isso vai ser muito bom, desde que consiga convencer a todos. Sabe o quanto os velhos gostam daqui. Vamos ver? Falar com eles?
- Vamos, sim, sei que vou convenc-los. Por mais que gostem daqui, sabem que vivero melhor na cidade.
Entramos, abraados, em casa. Todos ainda continuavam olhando a pedra. Ela passava de mo em mo. Sorri ao ver a felicidade no rosto deles. Peguei a pedra que estava 
na mo da minha prima, e disse:
- Esta pedra vai nos dar a todos maior conforto. Uma vida melhor! Vou comprar uma casa na cidade! Todos mudaro para l. Todos podero estudar e sonhar com o futuro! 
No vamos mais ter medo da seca, pois ela nunca mais nos atingir! Estamos livres!
Os mais jovens se empolgaram. Gritaram e danaram de alegria, mas, como previsto por meu irmo, os mais velhos ficaram calados, um olhando para o outro. Aos poucos, 
todos foram notando o silncio deles. Eu me aproximei do meu pai e perguntei:
- Que foi, meu pai? No ficou feliz com a pedra e com tudo o que ela pode nos dar?
- Fiquei! Vocs vo conseguir mudar de vida, vo ter a oportunidade de estudar e sonhar com um futuro melhor, mas ns estamos velhos. Crescemos aqui nesta terra, 
ns a amamos e no vamos sair. Eu, ao menos, no vou. Quem quiser, pode ir, tem a minha bno, mas eu no. Vou continuar aqui, onde  o meu lugar.
No acreditei no que estava ouvindo:
- Meu pai! No diga isso! Sei que gosta daqui, mas durante toda sua vida sofreu muito, esperando a chuva que no vinha, vendo sua roa e animais morrendo! No precisa 
mais disso!
- Voc tem razo, meu filho! Sempre esperei a chuva chegar e ela sempre chegou. No vou saber viver em outro lugar.
Minha me e minha tia se aproximaram. Minha me disse:
- Meu filho, estou feliz por ter encontrado um caminho melhor para sua vida. Sei que seus irmos e primos tambm esto felizes. Eles vo ter a oportunidade de alcanar 
tudo com o que sonharam, mas seu pai tem razo, ns estamos velhos. Vamos continuar aqui, cuidando de tudo. Tem razo quando diz que no precisamos mais nos preocupar 
com a chuva. Quando a seca chegar, vamos ter um lugar na cidade para esperar que ela v embora, mas retornaremos junto com a chuva para recomear tudo. Nossa vida 
tem sido assim e assim ser para sempre. Voc no pode tirar a nossa felicidade, se sairmos daqui, com certeza, seremos infelizes.
- No entendo o porqu de tanto amor por esta terra que s nos trouxe tristeza e sofrimento, me!
- Voc jamais vai entender, mas tem que respeitar a nossa vontade. Pode ajudar aos jovens e a ns tambm, deixando-nos aqui. Agora, no estamos na seca. Nossa roa 
est verde e produzindo. Continuaremos aqui. Assim que ela chegar, lhe prometo que no passaremos dificuldades. Iremos para a cidade e ficaremos na casa que voc 
comprar, mas, enquanto esse dia no chegar, nos deixe aqui, vivendo da maneira que sempre vivemos.
Percebi que no havia um modo de faz-los mudar de idia. No entendi, mas tive que dizer:
- Est bem, me, se  assim que querem, assim ser, mas vo me prometer que no passaro mais necessidades. Comprarei a casa. Os jovens vo estudar e assim podero 
se livrar de toda esta misria.
Fiz exatamente isso. Junto com meu irmo, compramos a casa bem no centro da cidade. Os jovens mudaram e comearam a estudar. Hoje esto todos muito bem. As moas 
estudaram, casaram e tm filhos. Meu irmo mais velho, agora,  um bom advogado. Temos, em nossa famlia, advogados, engenheiros, professores e alguns nem sei em 
que se formaram. Alguns continuaram morando no Piau, outros se espalharam por este Brasil. Tenho sempre notcias deles. Combinei com meu irmo que, todos os meses, 
seria depositado, no banco, uma quantia para que eles no se preocupassem com nada. Queria apenas que os velhos tivessem toda assistncia e os jovens estudassem. 
Aps ter cumprido a promessa feita, que ao encontrar a minha pedra, eu deixaria todos bem, a minha misso ali naquele momento terminou. Precisava voltar para o garimpo 
e tentar encontrar a Marta. Fiquei l por uma semana, no poderia ficar mais. Embora soubesse que o Isaas estava cuidando de tudo, eu tinha responsabilidades no 
garimpo. Me despedi de todos, prometendo e recebendo promessas de que amos nos corresponder todos os meses. Entrei no jipe e, abanando as mo, reiniciei o caminho 
de volta. Voltava feliz por ter  deixado todos bem, mas muito triste por no encontrar Marta. Assim que cheguei ao garimpo, fui recebido por Isaas:
- Senhor Paulo! Ainda bem que chegou! Est tudo bem com a sua famlia? Encontrou a Marta?
- Com a minha famlia est tudo bem. Quanto  Marta, no a encontrei e ningum sabe dela...
- Sinto muito, mas no se desespere, tudo tem hora certa para acontecer!
- Queria ter essa esperana, mas, por mais que queira ser otimista, acredito ser difcil, ou quase impossvel, encontr-la.
- Nada  impossvel para Deus! Tenha f! Tudo caminha da mesma maneira que ns prprios estamos caminhando, sempre para o melhor. No sei se est disposto ou muito 
cansado, mas precisamos conversar sobre alguns pedidos que recebemos. Preciso que assine alguns papis para que eu possa enviar.
- Est bem, vou acreditar nesse seu Deus e continuar a minha vida, mas vou colocar alguns anncios em jornais do pas, fazer um comunicado nas rdios que existam 
aqui por perto. Quem sabe receba alguma notcia.
- Boa idia, faa isso! S no pode desanimar! Agora, tem em suas mos um negcio muito grande! Precisa tomar a frente de tudo!
- Seu otimismo me contagia. Vou trocar de roupa, descansar e comer um pouco, depois, conversaremos.
- Est bem. Estarei no escritrio esperando pelo senhor. 
Entrei no hotel, fui para o meu quarto. Assim que entrei, vi esse retrato que est agora em meu criado-mudo. Se no o viu, sugiro que pea ao Isaas para lhe mostrar. 
E o retrato de Marta, sua me. Olhei para o retrato, lembrei-me dos momentos bons que tivemos juntos. Novamente, uma enorme saudade me envolveu. Tomei um banho, 
me deitei. Estava cansado, adormeci em seguida. Quando acordei, j era noite. Levantei, fui para o salo. Era meio da semana, tudo ali estava calmo. Ismnia estava 
na cozinha, conversando com a cozinheira. Fui at ela. Ao me ver, abriu um sorriso:
- Que bom que o senhor voltou! Estvamos preocupados!
- Sei que demorei mais do que esperava, mas tinha muitas coisas para resolver. Como est tudo aqui, Ismnia?
- Aqui est tudo bem, mas e o senhor, como est? O Isaas j me contou tudo! No desanime, vai encontr-la!
- Espero que sim!
- O Isaas pediu que eu o avisasse, quando o senhor acordasse. Se quiser falar com ele, est l no escritrio.
- Obrigado, irei agora mesmo.
Conversei com Isaas. Ele me contou todas as novidades do garimpo. Disse que haviam sido encontradas muitas pedras e que vrios pedidos chegaram. Terminou, dizendo:
- O senhor tem muita sorte. Os negcios para o americano no estavam muito bons. Fazia j algum tempo que no eram encontradas pedras de um bom tamanho. Aps encontrar 
a sua, muitas outras surgiram, mas nenhuma com o tamanho da sua. Se continuar assim, vai ganhar muito dinheiro! Preciso que assine estes papis.
Assinei os papis que ele me deu. Samos do escritrio e nos dirigimos  sala para jantar. Conversamos sobre muitas coisas. Contei a ele tudo o que havia feito na 
viagem e como deixei a minha famlia. Ele me contou o que fez na minha ausncia. Fomos dormir. No dia seguinte, mandei um dos garimpeiros at a cidade, colocar anncios 
procurando por Marta nos jornais e nas rdios das cidades vizinhas. Os dias foram passando, entrei na rotina do trabalho, mas como no chegava notcia alguma, aos 
poucos fui me desesperando. Uma manh, acordei muito nervoso e desalentado. No via mais motivo para continuar vivendo. Levantava todos os dias muito cedo, mas, 
naquele dia, no tive vontade de me levantar. Fiquei ali na cama, pensando: O que me adianta ter tudo hoje? Para que serve o dinheiro? O que fazer com ele, se no 
tenho ao meu lado aqueles a quem amo? E tudo por minha culpa! No garimpo, existiam pessoas de toda espcie, boas e aventureiras, que vinham ou para descobrir o lugar 
onde as pedras ficavam guardadas, ou ver quem as encontrava para, depois, segui-los e roub-los. Por isso, todos andavam armados, inclusive eu. Levava sempre na 
cintura um revlver. Todos sabiam que eu atirava muito bem. A noite, quando ia dormir, colocava o revlver sobre uma cmoda. J h alguns dias eu vinha pensando 
na inutilidade da minha vida. Levantei, olhei para o revlver. Uma idia passou pela minha cabea. Peguei-o, segurei em minhas mos. Pensei um pouco, o coloquei 
em minha cintura, resolvi descer. L embaixo, procurei por Isaas. Ismnia me informou que ele havia ido bem cedo at o armazm. Perguntou:
- O senhor est bem?
- Estou... Por qu?
- Demorou muito para descer e no me parece bem. Est sentindo alguma dor? Est doente?
- No, no estou doente nem sentindo dor, s no dormi muito bem esta noite.
Ela se retirou, eu entrei no escritrio. Sentei na cadeira e comecei a mexer nos papis que estavam sobre a mesa. Olhava para eles, via nmeros, mas no conseguia 
me concentrar. Aquela idia voltou  minha cabea. Tirei o revlver da cintura, fiquei segurando em minha mo e pensando: Do que adianta continuar vivendo? Antes, 
quando tentava encontrar a pedra, tinha um sonho; hoje, tenho a pedra e muito mais do que sonhei, para qu? Minha famlia est toda bem, mas a Marta sumiu e com 
certeza no voltar mais... Meu filho est perdido para sempre... Estou sozinho nesse mundo... Para que trabalhar? Para que viver? Estou cansado e desiludido desta 
vida...o melhor  morrer e acabar com tudo... Quando terminei de pensar, peguei o revlver e o levei at o meu ouvido. Sabia que um tiro, naquele local seria fatal 
e rpido, eu nem sentiria. Estava assim, quase apertando o gatilho, quando Isaas entrou. Ao me ver naquela situao, parou na porta e falou:
- Por favor, no faa isso! Esse no  o caminho nem a soluo para nenhum problema...
Eu, ainda com o revlver no ouvido, respondi:
- Pode no ser o caminho, mas  a nica soluo para a minha vida! No agento mais! Tenho tudo e ao mesmo tempo no tenho nada! Se morrer, tudo terminar!
- Est enganado! Nada terminar! A vida continua apos a morte... Se chegar do outro lado atravs do suicdio, ter um sofrimento ainda maior... Pelo amor de Deus, 
no faa isso.
Percebi que lgrimas caam de seus olhos enquanto falava. No acreditava no que ele dizia, mas sabia que ele acreditava, e muito, em tudo aquilo. Tambm no podia 
me matar na sua frente. Ele era um bom homem, no merecia assistir a uma cena como aquela. Baixei a mo, coloquei o revlver sobre a mesa. Ele andou at onde eu 
estava e, chorando, me abraou.
- Obrigada, senhor, por ter desistido de fazer essa loucura. Esse no  o caminho. Deus existe! No est no cu, no. Ele est aqui, neste momento, ao nosso lado, 
ou melhor, dentro de cada um de ns! O senhor tem que acreditar nisso!
Abraado a ele, chorei muito. No conseguia me conter. Os soluos saam altos de minha garganta. Depois de algum tempo, fui me acalmando. Olhei em seus olhos, dizendo:
- Obrigado, amigo... Aps tudo o que aconteceu aqui, por favor, no me chame mais de senhor. No sou o patro, nem voc  meu empregado. Voc  meu amigo. E um amigo 
no chama o outro de senhor.
Ele no respondeu, apenas sorriu. Continuei falando:
- Sei que acredita nesse Deus, mas como pode acreditar, se voc mesmo veio para c, fugindo da seca, da misria? Que Deus  esse que permite tanto sofrimento a pessoas 
inocentes, que s querem ter um pedao de terra para sobreviver? Que Deus  esse?
- O mesmo Deus que o fez encontrar a pedra, que lhe deu dinheiro para ter tudo o que quiser! Que fez com que pudesse ajudar sua famlia!
- Em troca do qu? Em troca da distncia dos que amo? Alis, disso Ele no teve culpa, o nico culpado sou eu mesmo. Fui eu quem os afastei, s eu! Sou o nico culpado 
de tudo. Por isso, no tenho mais nada para fazer... Prefiro morrer a continuar vivendo com essa culpa...
- Deus  bom e generoso, perdoa-nos sempre e, para Ele, no existem culpados ou inocentes, somos todos caminhantes rumo  perfeio. 
- Como no existem culpados? Eu sou culpado e sei disso! 
- Nem voc nem eu sabemos nada. Entrei correndo aqui, porque o carteiro me entregou esta carta que chegou para voc!
- Carta? Quem mandou?
- No sei, mas acredito que tenha sido Deus!
Peguei o envelope de suas mos. Olhei o remetente. Era da Geni. Olhei para Isaas, dizendo:
- Voc sabe que no  de Deus, j deve ter lido o remetente e viu que  da Geni.
-  da Geni, mas chegou pelas mos de Deus na hora certa! Abra logo, veja o que ela diz!
Abri, havia uma carta e um retrato seu. Olhei o retrato, voc estava lindo! Olhei atrs e estava escrito: Este  o Walther. No est lindo? Com lgrimas, entreguei 
o retrato para que Isaas pudesse ver. Comecei a ler a carta em voz alta: 

Estimado Paulo,

Espero que a esteja tudo bem e que tenha convencido a Marta, que o que fez foi o melhor para o menino. Como pode ver na foto, ele est forte e bonito. Estou lhe 
mandando este retrato e mandarei muitos outros para que possam acompanhar o seu crescimento. Estamos muito bem e felizes. Como lhe prometi, vou ensin-lo a falar, 
ler e escrever em portugus para que, se um dia quiser voltar para o Brasil, no encontre problemas com a lngua. Voc prometeu que nunca tentaria entrar em contato 
conosco e que ele nunca saberia no ser o nosso filho. Espero que cumpra essa promessa para o bem de todos ns e, principalmente, dele. Prometo-lhe que, quando achar 
que chegou a hora, avisarei voc. Vou falar com o Walther, contar tudo e pedir que procure vocs. Espero e desejo de corao que estejam bem e felizes. Por favor, 
embora tenha no remetente o meu endereo, no escreva. O Alan me proibiu de manter correspondncia com vocs. Ele tem medo de que, com o dinheiro, vocs possam se 
arrepender e queiram tentar recuperar o menino. Pea perdo a Marta por no ter dito nada a ela e por tudo ter sido feito de uma maneira no muito leal, mas eu os 
amo muito.

Com carinho Geni.

Assim que terminei de ler, olhei para Isaas. Ele estava de olhos fechados e posso at dizer que rezava. Ele abriu os olhos, dizendo:
- No disse, Paulo, que Deus  poderoso e que nos ama e  perdoa sempre? Essa carta chegou no momento exato para impedi-lo de fazer uma loucura!
- Voc pode at ter razo nisso, Isaas, mas ainda no me conformo com as diferenas deste mundo, com a pobreza das pessoas...
- Vou lhe dar um livro para que leia.
- No gosto de ler, alis nem sei ler direito.
- Este voc vai ler, aquilo que no entender, me pergunte, responderei tudo o que puder e souber. Posso lhe garantir que assim que terminar de ler, entender muitas 
coisas desse nosso Deus e como Ele  maravilhoso!
Ele me deu "O Evangelho segundo o Espiritismo". Comecei a ler. Confesso que foi muito difcil entender, mas Isaas foi me ensinando, respondendo as minhas perguntas. 
Depois, ele me deu "O Livro dos Espritos". Discutimos muito a respeito de tudo. Com o passar do tempo, fui entendendo que Deus nos d sempre uma nova chance atravs 
da reencarnao. Vivemos muitas vidas e ainda viveremos tantas outras quantas forem necessrias para a nossa evoluo. Nada acontece por acaso. Tudo tem sempre um 
motivo. No sei qual foi o motivo que me separou de voc e de sua me, mas sei que deve existir algum. Aps ler aqueles livros, li muitos mais. Em cada um eu encontrava 
mais ensinamentos do grande amor de Deus por ns, seus filhos. Aprendi que, durante a vida, temos que fazer muitas escolhas, nem sempre fazemos as escolhas certas, 
mas o importante  que as faamos. Se for a escolha certa, tudo bem, mas se porventura, fizermos a escolha errada, pacincia, aps feita, no h como mudar. Se der 
para se arrumar o estrago, tudo bem, mas se no der, no adianta ficarmos para o resto da vida nos culpando. Erramos aqui, acertamos ali, assim vamos evoluindo. 
Outra coisa que aprendi foi que devemos aceitar nossos companheiros de caminhada como so.  Cada um est em um estgio da estrada. No somos melhores nem piores 
que qualquer um. Somos todos caminhantes e aprendizes do bem. No devemos guardar dio nem mgoa em nossos coraes. Jesus veio para a Terra s para nos ensinar 
que o perdo  o caminho para se chegar at Deus. Por isso, agora que estou voltando para o Pai, volto tranqilo. Sei que errei, mas sei tambm que foi tentando 
acertar. Sei que voc hoje  um homem de bem, instrudo e pronto para a vida. Sei tambm que amou e foi muito amado pelo Alan e pela Geni. Walther largou a carta 
sobre o colo e ficou pensando: Que homem foi esse? No sei se o odeio ou admiro! Ser que isso que escreveu sobre Deus  verdadeiro? Reencarnao? Minha me, antes 
de morrer, falou qualquer coisa a respeito disso, no dei muita ateno. Hoje, sinto que deveria ter me interessado mais pelo assunto. Agora, preciso terminar de 
ler a carta, vamos ver o que mais tem para me contar. Pegou a carta e continuou lendo. Aquela carta me deu um novo nimo. Sabia que voc estava bem e que dali para 
frente teria sempre notcias suas. Sabia que embora fosse por retratos eu iria acompanhar o seu crescimento e, quando encontrasse Marta, mostraria para ela a carta 
e os retratos. Ela veria que voc estava bem. Daquele dia em diante, a minha vida mudou. Continuei procurando sua me, no a encontrava, mas como o sonho da minha 
pedra, tinha certeza que um dia eu a encontraria, do mesmo modo como encontrei a pedra. Geni cumpriu a sua promessa. Durante todos estes anos, tem me mandado seus 
retratos. Nunca escrevi, atendendo a seu pedido. Queria evitar qualquer coisa que pudesse lhe causar problemas. Como o Isaas disse, sou um homem de sorte. Os negcios 
prosperaram. Ganhei muito dinheiro. Trabalhei, sempre, pensando que um dia tudo seria seu. Essa foi a forma que encontrei de lhe pedir perdo. A esta altura dos 
acontecimentos, j deve saber da quantia que tem hoje em dinheiro. Espero que esse dinheiro lhe traga muita felicidade. J deve saber, tambm, que me desfiz de tudo 
o que tinha e transformei em dinheiro para que possa decidir o que fazer com a sua vida. Quero lhe dizer, tambm, que a casa de nossa famlia no Piau esta no mesmo 
lugar. Ali ainda moram minha me, meu pai e minha tia. Eles continuam na sua vida de sempre. J esto bem velhos, mas, mesmo assim, insistem, at hoje, em viver 
naquele lugar, onde nasceram e tiveram seus momentos de tristeza e felicidade. Se os quiser conhecer, esto l e l ficaro at que resolvam sair. Meu irmo mais 
velho cuidou deles esse tempo todo e ainda continua fazendo isso. Gostaria muito que, se puder e sentir vontade, fosse at l para conhec-los. O Isaas tem o endereo. 
Quanto a sua me, embora a tenha procurado durante toda a minha vida, no a encontrei. Sinto muito, no sei se ela est viva ou morta. Alis, quando estiver lendo 
esta carta, eu j saberei. Essa pequena chave que est com voc  de uma caixa de segurana no banco. Com ela, poder pegar a minha pedra! Sim! Eu no a vendi! Sempre 
tive a esperana de encontrar a sua me e poder mostrar-lhe que a havia achado. Queria que ela a pegasse em suas mos, sentisse o seu peso e visse o seu brilho. 
Agora, ela  sua. Faa com ela o que quiser. Um dia, eu troquei voc como se fosse uma pedra. Hoje, devolvo-lhe esta pedra. Vou terminar esta, pedindo-lhe, se for 
possvel, que me perdoe. Como todo ser humano, no sou perfeito, mas pode ter certeza de que sempre o amei mesmo  distncia. Continuarei amando voc do outro lado 
da vida. Que Jesus o proteja e o ajude a fazer as escolhas certas e a me perdoar. Um beijo do fundo do meu corao.    Seu pai, Paulo.

Walther, com aquela carta na mo, sentia que flutuava, estava confuso e indeciso. No sabia o que pensar daquele homem e da sua prpria vida. No posso dizer que 
ele tenha sido bom ou mau. Neste momento, percebo que minha vida toda foi uma mentira. Ao me lembrar da minha criao, no tenho o que me queixar, sempre tive tudo 
o que um ser humano precisa para ser feliz... Nunca me faltou nada em termos materiais, muito menos carinho e amor, tanto por meu pai, como por minha me. Eles sempre 
me trataram como um pequeno rei. Mas e a minha verdadeira me? Quanto deve ter sofrido e, quem sabe, at hoje ainda sofra? Onde ela estar? Ser que ainda est viva? 
Ser que se eu a encontrar, sentirei algo por ela? Pegou o retrato que sabia agora ser de sua me, a doce Marta. Falou em voz alta:
- Minha me... Sei que abandonou tudo por minha causa... Sei que, cruelmente, fomos separados, mas onde a senhora estar agora? Desde que cheguei a esta terra, tenho 
notado minha vida mudar a cada minuto. No sei o que fazer... Nunca fui pobre, mas hoje tenho muito mais dinheiro do que um dia pudesse imaginar... No sei o que 
fazer com todo esse dinheiro... J no tinha mais sonhos, pois pensava e ainda penso que tenho tudo para ser feliz... Com ele poderei comprar uma casa melhor do 
que a que tenho, talvez um carro melhor, mas e da? Essas coisas no me fazem falta. Descubro que, ao me levarem desta terra, me transformaram em um americano... 
Descubro que sou um brasileiro, pois tenho razes aqui... Sempre pensei que no tinha mais ningum no mundo, descubro hoje que tenho uma famlia imensa! Descubro 
que tenho ainda avs, tios e primos. No sei o que fazer. No sei se volto agora, ou se procuro por todos eles, inclusive pela senhora...
Ficou ali no quarto com o retrato de Marta nas mos. Olhou para aquele rosto e imaginou o quanto ela havia sofrido por ele, sem que ele mesmo soubesse. Olhava para 
aquele rosto que parecia lhe sorrir. Sabia que havia sido amado muito por Paulo, mesmo  distncia. Ouviu uma batida na porta. Disse:
- Entre.
A porta se abriu e por ela entrou Isaas. Ao ver Walther com o retrato nas mos, perguntou:
- Terminou de ler a carta?
- Sim...
- Quer falar a respeito?
- Pode imaginar que sim, Isaas. Estou em estado de choque...
- Sei disso, mas no seria melhor irmos para fora, est j ha muito tempo neste quarto.
- Acho que tem razo. L fora, respirando ar puro, talvez consiga colocar meus pensamentos em ordem.
- Isso mesmo, vamos?
Walther acompanhou Isaas, levando em suas mos o retrato de Marta..

A DECISO

Saram do quarto. Passaram por Ismnia, que estava na sala, sentada em um sof. Isaas olhou para ela. Pela expresso do rosto de Walther, ela percebeu que ele no 
estava bem. No disse nada, apenas os acompanhou com o olhar. J l fora, sentaram em um banco perto da piscina. Isaas foi o primeiro a falar:
- O que est pensando a respeito de tudo o que leu?
- No sei... Estou ainda muito confuso... Sinceramente, no sei...
- No se preocupe, acredite sempre que Deus  nosso Pai, e que Ele guia nossos caminhos e no final sempre h uma soluo.
Walther voltou a olhar para o retrato, dizendo:
- Ser que a Marta, minha me, pensa dessa mesma maneira? Ser que ela entendeu por que fomos separados? Ser que esse Deus de que voc fala foi justo com ela? E 
muito difcil acreditar em um Deus que no hesita em permitir que coisas como essas aconteam!
- Tudo est certo sobre o cu e a terra. A folha de uma arvore no cai sem a permisso de Deus.
- No acredito nisso. Esse Deus est muito distante, l no cu, mas ns estamos aqui, na Terra. Minha me verdadeira sofreu e, ainda, se estiver viva, deve estar 
sofrendo muito pela atitude deles trs! No sei nem se ela est viva ou morta!
- Deus no est l no cu! Ele est aqui neste momento! Ele est dentro de cada um. Ele est fazendo sempre o melhor para o nosso bem.
- Fazendo tudo para o nosso bem, Isaas? Acredita mesmo nisso? Acredita que Ele queria que eu fosse afastado de minha me, me amava?
- Esse afastamento no foi to ruim assim. Voc foi bem educado e bem criado. Pelo que sei, nunca lhe faltou nada, nem mesmo amor. Agora  um homem muito rico, talvez 
no se tenha dado conta do quanto.
- Sei de tudo isso. Sei tambm que sou um homem muito rico. Muito mais do que um dia sequer pensei. Mas, e a minha me, onde est?
- Isso no posso lhe responder, pois Paulo a procurou a vida toda. Colocou anncios em jornais e rdios. Contratou pessoas para que tentassem encontr-la, mas foi 
tudo intil.
- Ser que ela est morta, Isaas?
- Paulo nunca quis aceitar essa idia, mas lhe confesso que h muito tempo j acreditei nessa hiptese.
- Est vendo? Como posso acreditar nesse seu Deus? Como posso perdoar esse homem que diz ser meu pai? Ele no s me afastou da minha me, mas de toda uma famlia! 
Fui criado com tudo, como voc diz, mas sempre sozinho. Sem irmos ou parentes. Como posso acreditar e perdoar?
- Fique calmo. Sei o que est sentindo a respeito de tudo isso. Sei o que est pensando do Paulo, mas ele pagou muito caro pelo erro que cometeu, embora acreditasse 
que lhe estivesse fazendo um bem. Levou o resto da sua vida procurando por Marta. Nunca se casou, sempre na esperana de encontr-la. Fui at o seu quarto para lhe 
dizer que o jantar est pronto. Apesar de tudo o que est sentindo, no pode deixar de se alimentar. Agora, com todo o dinheiro que tem, pode ter tempo de pensar 
no que vai fazer com a sua vida. Se quiser, pode continuar aqui no Brasil, no precisa mais voltar.
- Ficar aqui? Nem pense nisso! A minha vida est toda l! Minha casa, meu trabalho e meus amigos.
- Voc tem razo, mas agora precisa se alimentar. Dormira e amanh ser outro dia. Como todos os dias, o sol vai nascer novamente e, com ele, novos pensamentos e 
oportunidades. Deixe por conta desse meu Deus, como voc diz. Ele sabe de tudo e encaminha nossos passos. Vamos jantar?
Walther estava com fome. Havia ficado muito tempo dentro daquele quarto. Olhou para Isaas e disse:
- Vamos, sim. Estou com fome. Tenho muito para pensar e pouco tempo para decidir. Estou confuso, mas a minha vida no pode parar. Tenho que decidir rpido o que 
vou fazer...
- Isso mesmo! Assim  que se fala! Voc tem muitas maneiras de tocar a sua vida daqui para a frente. No ter mais problemas com dinheiro.
Saram do quarto, foram para a sala de jantar. Ismnia j estava com a mesa colocada. Ela estava agora na cozinha. Leo estava sentado no cho, tentando montar um 
quebra-cabeas com pequenas peas. Enquanto Isaas foi at a cozinha avisar Ismnia de que j estavam prontos para o jantar, Leo viu Walther entrando. Falou:
- Seu Walther, no quer me ajudar a montar? No estou encontrando uma pea que caiba aqui neste lugar.
Walther olhou para o menino que lhe sorria. Ele ainda no se sentia  vontade na presena daquele garoto, embora soubesse que era uma criana alegre, feliz e muito 
amado por Isaas e Ismnia. Para ele, ainda era um negro. Mas no conseguiu dizer no diante daquele sorriso de criana. Sentou ao lado de Leo e ficou olhando para 
o quebra-cabea. Era a paisagem de uma montanha com rvores e neve. Aquela paisagem era muito conhecida. Havia crescido com a neve e com o frio que ela produzia. 
Sentiu muita saudade da sua casa, dos amigos e daquele pas que havia aprendido a amar como se fosse seu. Enquanto procurava com Leo a pea que precisava, ia pensando: 
No posso deixar de voltar. Estou aqui neste pas que me  totalmente estranho. Quem diria que, um dia, estaria assim, ao lado de um negro...
- Achei!  esta aqui!
Walther voltou o olhar para Leo. Ele, feliz, lhe mostrava com suas pequenas mos uma pea do quebra-cabea. Iam coloc-la no lugar, quando as mos se encontraram. 
Novamente, Walther sentiu aquele contato. Novamente, retirou a mo com rapidez. Leo no percebeu e, rindo muito, colocou a pea no lugar:
- Viu,  ela mesma! Agora, precisamos encontrar as outras que faltam!
- Voc no vai encontrar mais nada agora! Vai lavar as suas mos para o jantar.
Leo e Walther se voltaram, era Ismnia quem falava. Os dois se levantaram.  Leo entrou para o corredor que o levaria at o banheiro. Walther olhou para Ismnia, 
que lhe perguntou:
- Ele no  uma criana adorvel?
-  sim, pena que ele seja um...
Walther parou de falar. Ismnia no entendeu. Nervosa, perguntou:
- Um o qu?
Walther ficou sem saber o que responder, percebeu que havia comeado a dizer algo que faria Ismnia ficar muito triste.
- Um rfo, Walther, no foi isso que quis dizer? Walther se voltou. Olhou, agradecido, para Isaas que acabava de entrar na sala e respondeu a pergunta de Ismnia. 
Um pouco desajeitado, respondeu:
- Isso mesmo, Isaas. Pena que ele seja um rfo! Ismnia respirou aliviada e disse:
- Ora, Walther, no se preocupe com isso! Ele  um rfo, mas muito amado!
Isaas, percebendo a situao em que Walther se encontrava, disse:
- Vamos jantar antes que a comida esfrie?
- Vamos, sim!
Sentaram-se. Leo fez questo de sentar ao lado de Walther, que no se sentia muito bem na presena do menino, mas no teve como no permitir. Comearam a jantar. 
Em dado momento, Ismnia perguntou:
- Walther, terminou de ler a carta?
- Sim...
- Como est? Entendeu e perdoou o que Paulo fez?
- No sei se ele tinha o direito de fazer o que fez, mas, ao mesmo tempo, tive uma infncia muito boa. Talvez, se tivesse permanecido aqui, no teria sido da mesma 
maneira... S penso, com muita dor, na minha verdadeira me e no quanto deve ter sofrido...
- Nisso voc tem razo. Para ela, foi muito difcil. Sentia tanta dor que sumiu e ningum mais a encontrou.
- O que me preocupa  no saber o que aconteceu com ela. Ser que ainda est viva?
- No posso lhe responder. S sei que o Paulo passou a vida toda procurando por ela.
- Isaas me disse a mesma coisa, mas, mesmo assim, no sei o que fazer. Em alguns momentos, penso em procur-la, mas se Paulo no conseguiu.  Se ele, que conhecia 
todo este pas, no conseguiu encontr-la, como eu conseguiria? No conheo nada!  quase impossvel... Seja no estiver morta...
- J lhe disse, Walther, deixe por conta do nosso Pai maior, Ele nos encaminhar sempre para o caminho certo.
- Isaas tem razo. Entregue tudo nas mos de Deus. Ele  justo e magnnimo, se tiver que a encontrar, com certeza isso acontecer...
- A senhora tambm pensa igual ao Isaas?
- Claro que sim, vivemos um ao lado do outro h um longo tempo. J vimos muitas coisas acontecerem, onde Deus mostrou a sua presena...
Isaas, sorrindo, continuou:
- Uma delas foi a Lorena ter parado aquele dia bem em frente  nossa casa para que o Leo pudesse nascer e nos trazer tanta felicidade...
Walther olhou para ambos e, depois, para Leo, que lhe sorria:
-  isso mesmo, seu Walther. A minha me foi uma mulher muito bonita e corajosa!
Novamente, Walther olhou para Ismnia e Isaas. Ela continuou:
- No se preocupe, ele sabe de tudo o que aconteceu com a me dele. Foi preciso, pois assim que comeou a ir  escola, notou que as crianas brancas tinham pais 
brancos. As negras tinham pais negros e que s ele era diferente. Por isso, contamos toda a histria. Dissemos, tambm, que ele nos tinha sido enviado por Deus para 
que fssemos felizes.
Walther ficou sem saber o que dizer. Estava um pouco envergonhado por sentir dentro de si aquele preconceito, mas aprendera que o negro era e sempre seria diferente 
do branco. Calou-se. Terminaram de jantar. Ismnia foi para o quarto ouvir sua novela no rdio. Leo voltou para seu quebra-cabea. Walther disse Para Isaas:
- Vai me desculpar, Isaas, mas hoje foi outro dia de muitas emoes. Eu j devia estar acostumado, pois desde que cheguei a este pas, estou tendo uma emoo atrs 
de outra, mas confesso que no consigo. Est difcil acompanhar as mudanas que esto acontecendo. Por isso, se me der licena, gostaria de voltar para o quarto. 
Estou cansado e quero ver se durmo cedo. Isaas, sorrindo, respondeu:
- Fique  vontade, Walther. A casa  sua. Entendo que tem muito para pensar e muito mais para decidir. Boa-noite e procure dormir bem.
- Obrigado e boa noite.
Walther se afastou. Isaas ficou olhando para ele. Assim que a porta do quarto foi fechada, Isaas fechou os olhos, pensando: Meu Deus, que esse moo seja iluminado 
para que encontre o melhor caminho a seguir. Que o meu amigo Paulo possa estar, neste momento, em um lugar feliz. Que a nossa casa seja iluminada por sua Luz Divina. 
Dentro do quarto, Walther olhou para os papis que estavam sobre a cama. Olhou para o retrato de Marta que estava em suas mos. Olhava, ora para um, ora para outro, 
enquanto pensava: Como gostaria de acreditar nesse Deus de que o Isaas e a Ismnia tanto falam. Mas como acreditar? Ele permitiu que eu fosse afastado da minha 
verdadeira me. No sei onde ela est e gostaria muito de t-la conhecido... Retirou os papis de cima da cama, colocou o retrato de volta ao criado-mudo. Ajeitou 
a cama e o travesseiro, deitou. Ficou ali olhando para o teto. Estava mesmo muito confuso. Comeou a pensar novamente: Meu Deus! Se  que realmente existe, assim 
como eles dizem... Se realmente  justo e conhecedor de todas as verdades... Nesta hora confusa em que estou vivendo sem saber o que fazer, mostre-me um caminho 
a seguir e o que devo fazer com a minha vida e com todo esse dinheiro que recebi... Adormeceu, mas seu sono no durou muito. Acordou assustado, parecia que caa. 
Sonhou com algo. Sentou na cama, por mais que tentasse no conseguia se lembrar do sonho que o assustara tanto, nem de onde havia cado. Levantou, foi at a cozinha, 
tomou um pouco de gua. Na sala, olhou por entre as cortinas, o cu estava claro, havia muitas estrelas. Sentiu um aperto no corao, no sabia se era de admirao 
por ver aquele cu to lindo, ou pela solido e tristeza que sentia. Por mais que tentasse, no conseguia esquecer tudo o que havia lido e acontecido em sua vida. 
Sua cabea rodava, sentiu necessidade de sentar. Sentou em um sof, abriu a cortina, ficou olhando o cu e pensando: Este belo cu pertence ao Brasil, minha terra 
natal, mas, que no fundo, no a reconheo como tal. No adianta eu ficar aqui, no vou encontrar a minha me... Se o Paulo no a encontrou e teve todas as condies, 
como eu vou encontrar? J decidi, assim que o dinheiro for liberado, de acordo com o advogado no vai demorar muito, vou embora. Com todo esse dinheiro, poderei 
ter uma vida muito melhor do que aquela que tinha. Encontrarei uma mulher que ame e, desta vez, terei tempo de me dedicar a ela. Ser diferente do que aconteceu 
com a Eilen. Com todo esse dinheiro, muitas portas se abriro, talvez eu entre em algum negcio s meu... Tenho muito tempo ainda para viver... Agora tudo ser mais 
fcil. Quer saber de uma coisa? Est decidido, vou dormir e amanh bem cedo ligo para o advogado e verifico quanto tempo vai demorar para que todo o dinheiro seja 
transformado em dlares. A eu poderei ir embora. Vou esquecer tudo o que descobri a respeito da minha histria de vida. Ela no tem importncia alguma, no vai 
mudar em nada o que sou. No perteno a este lugar. Sou americano e me orgulho muito disso. Como diz o Isaas, se Deus assim o quis, assim seja... Levantou, voltou 
para o quarto, tornou a deitar. No conseguia dormir, por mais que tentasse, o rosto de Marta no saa do seu pensamento. Nervoso, virou o porta-retratos de cabea 
para baixo, assim no veria mais aqueles olhos ou aquele sorriso. Preciso me esquecer dela e de tudo que descobri. Meu pai foi um canalha. Com sua atitude descabida, 
mudou a minha vida, mas no posso negar que sempre fui uma criana feliz. Tudo foi feito e nada poder ser mudado. A nica coisa que vai mudar  a minha vida com 
todo esse dinheiro. Vou voltar para o meu pas, meus amigos e tudo com que me acostumei durante a vida. Sou americano! Ficou pensando, pensando, at que, finalmente, 
sem perceber, adormeceu. Sonhou que estava chegando a algum lugar. Ao longe, via uma casa muito grande, com muitas janelas. Assim que se aproximou, viu em uma delas 
uma mulher, que balanava muito os braos. Parecia que gritava. Correu at ela. Assim que chegou, viu que a mulher era Marta. Percebeu que ela estava chorando. Comeou 
a bater na janela para que ela o visse, mas foi em vo. Ela olhava, mas parecia no o ver. Ele batia cada vez com mais fora. Ela no o enxergava, mas estava chorando. 
Ele batia, batia, batia... Acordou mais uma vez, assustado, mas desta vez lembrava perfeitamente o que havia sonhado. Via aquela mulher chorando, desesperada, por 
trs da janela. Olhou para a foto e pensou: Tenho certeza de que era ela, no esqueceria este rosto nunca. Que sonho estranho! Desviou seus olhos para o relgio. 
Ele marcava nove horas e quarenta minutos. No aceitou: Ser que esse relgio est certo? Nunca dormi at to tarde! Por que o Isaas ou a Ismnia no vieram me 
acordar? Vestiu-se rapidamente, saiu em direo  sala. Isaas lia tranqilamente um livro, Ismnia devia estar na cozinha, a mesa do caf estava colocada para uma 
pessoa. Assim que chegou  porta da sala, Isaas lhe perguntou:
- Bom dia, Walther! Ento? Dormiu bem?
- Bom dia, Isaas! Nunca dormi tanto como hoje, no me lembro de um dia sequer da minha vida em que tenha dormido tanto, mas por que no me acordou?
- Percebi que voc perambulou pela casa quase a noite toda. Deduzi que no dormiu at muito tarde, por isso no fui acord-lo. Pode sentar, vou avisar a Ismnia 
que acordou, ela lhe trar um caf bem quente.
- No precisa! Voc percebeu que eu andei pela casa? Procurei no fazer barulho.
- S percebi porque eu mesmo no estava conseguindo dormir, tinha tambm muito para pensar. No levantei, porque sabia que voc precisava pensar muito e decidir 
o que vai fazer com a sua vida. Decidiu alguma coisa?
- Durante a noite, realmente, eu pensei muito e decidi que iria hoje telefonar para o advogado e perguntar quando o meu dinheiro estaria livre para que eu pudesse 
ir embora. Para que eu pudesse voltar, mas...
- Mas o qu?
- Tive um sonho muito estranho. Esse sonho talvez me faa mudar de idia.
- Nossa! Que sonho foi esse?
Walther contou em detalhes o que havia sonhado. Assim que terminou, Isaas lhe disse:
- No deve se preocupar com isso. Esse sonho no foi nada mais do que reflexo de tudo o que ficou sabendo.
- Pode ser, mas me pareceu to real, Isaas. Ela estava ali! Chorava muito e parecia no me ver!
- Voc no deve se impressionar com um sonho, embora eu saiba que, quando dormimos, nosso esprito se liberta do corpo e vai para muitos lugares. Talvez at tenha 
ido a algum lugar, mas tambm pode ter sido apenas reflexo do que descobriu. No sei nada mais o que dizer a respeito.
- Se o que disse a respeito do sonho for verdade, pode ser que eu tenha estado com a minha me?
- No sei... talvez...
- Sabe que no acredito em nada disso, mas o sonho foi muito real. No preciso mais ir embora. Na carta, Paulo dizia que tenho avs, tios e primos espalhados pelo 
Brasil.
- Sim, isso  verdade. Tem uma famlia muito grande.
- Por isso, resolvi, vou at o Piau visitar meus avs e conhecer a casa em que eles moram. Quem sabe ela seja a casa do meu sonho. E se for a mesma casa,  porque 
a minha me tambm est l. Vou para saber.
- No sei se  uma boa idia, mas, se quiser, poder ir. E s comprar uma passagem de avio.
- No... J que este pas  meu, quero conhec-lo. Vou viajar de carro, percorrer todos os caminhos, conhecer tudo.
- De carro?  muito longe! Eu nunca estive l, nem imagino como so as estradas.
- Prefiro andar de carro, quero lhe confessar que odeio andar de avio.
- Mas viajou muitas horas at chegar aqui!
- Foi uma exceo. Confesso, tambm, que no gostei da viagem, mas o que desejo mesmo  conhecer os meus familiares, ao menos todos os que morem no Piau.
- Est bem, se assim quiser, posso acompanh-lo. Gosto muito de viajar!
- Agradeo, mas voc tem seus compromissos. Prefiro ir sozinho para poder pensar.
- No sei se vo receb-lo bem, no sabemos se eles sabem da sua existncia.
- Paulo no falou com eles a meu respeito?
- No. Quando viu que sua me no estava l, resolveu no tocar no assunto.
- Ento, se minha me estiver l, ela nem imagina que eu esteja aqui?
- Isso  verdade...
- Pois bem, irei at l.
- E a sua passagem de volta para os Estados Unidos?
- Por favor, veja o que d para fazer. Se conseguir suspend-la at a minha volta, tudo bem, mas se no conseguir, no tem importncia! Afinal, no sou um homem 
rico? Posso comprar outra quando chegar a hora. Nada vai me impedir de conhecer a minha famlia e talvez encontrar a minha me.
- Voc  quem sabe, mas talvez a viagem seja perigosa. -No se preocupe, fui criado nos Estados Unidos e l tambm existe violncia. Vou viajar s durante o dia. 
 noite, encontrarei um lugar para dormir. Fique tranqilo, voltarei logo e em perfeitas condies de sade. Ser que tenho algum dinheiro livre?
- Claro que tem, est todo no banco. Por qu?
- Quero comprar um carro novo, no quero ter problemas durante a viagem.
- Tem o do Paulo, ele  seu tambm e est em perfeitas condies.
- Sei que  meu, mas prefiro outro. Esse pode ficar para voc. O do Paulo  muito grande. Como no sabemos em que condies esto as estradas, acredito que seria 
melhor um jipe. Que acha?
- Voc  quem sabe. Vamos ligar para o advogado e ver como pode ser feito.
- Isso mesmo, pretendo sair amanh bem cedo. Voc tem um mapa rodovirio?
- Deve ter um na biblioteca, mas isso quem sabe  a Ismnia. Vou perguntar.
- Pergunte, se no houver um, teremos que comprar. Preciso de um para chegar ate l, como voc diz,  bem longe, no ?
-  sim... Muito longe... Continuo dizendo que no deveria ir sozinho...
- No se preocupe, no vai me acontecer nada. Vai ser uma aventura, alm do mais, eu adoro dirigir...
Ismnia, ao ouvir vozes, entrou na sala:
- Bom dia Walther! Dormiu bem?
- Bom dia, dona Ismnia, no dormi muito bem, mas acordei com uma deciso e muita disposio para enfrentar uma aventura!
- No estou entendendo.
- No se preocupe, minha velha, isso so coisas da juventude. Nosso jovem vai para o Piau, ele quer conhecer sua famlia.
- Faz muito bem, meu filho. No sabemos com certeza para onde vamos, mas de onde viemos  importante saber. Conhecer as nossas razes. Quando vocs iro partir?
- No, dona Ismnia, o Isaas no vai junto. Pretendo ir sozinho.
- Sozinho? Mas  muito longe. Voc no conhece nada por aqui.
- Por isso mesmo  que quero ir sozinho. O Isaas tem obrigaes com a senhora e com o Leo. Eu, ao contrrio, agora que sou um homem rico, tenho muito tempo e muito 
para aprender desta terra. Vou ao encontro dos meus avs que moram no Piau, talvez conhea meus tios e primos. Cresci sozinho, pensando no ter famlia, agora sei 
que eles existem, quero e preciso conhec-los. O mais importante, tenho quase a certeza de que vou encontrar a minha me.
- Fico feliz que tenha essa vontade de conhecer os seus parentes, mas, quanto a encontrar sua me, acredito que seja uma misso quase impossvel.
- Se no a encontrar, ao menos terei tentado. No poderei voltar para minha casa sem fazer isso. Vou conhecer esta terra que me parece ser muito bonita.
- S posso abeno-lo e dizer: que Deus o acompanhe e abenoe o seu caminho.
- Obrigado, dona Ismnia. Sabia que a senhora ia me apoiar. As vezes, penso que perteno a esta casa e a vocs, parece que j s conheo h muito tempo...
- Pode ter certeza que isso  verdade, ns nos conhecemos h muito tempo...
-  verdade, vocs me conheceram quando eu ainda era criana.
- Tem razo, conhecemos voc quando era muito pequeno, mas essa nossa amizade vem de muito longe, muito antes disso.
- L vem a senhora com essa conversa de religio, de reencarnao.
- Pode no acreditar, Walther, mas nada acontece por acaso. Estamos sempre juntos na mesma caminhada. Se acredita ou no, isso no tem importncia. Acreditando, 
ou no, vamos vivendo, cada um seguindo o seu caminho, mas sempre nos encontrando com amigos e, s vezes, com inimigos, mas tudo faz parte da vontade de Deus.
- Pensando bem, j encontrei em meu caminho vrias pessoas assim, umas amigas, outras porm... Me fizeram muito mal...
- Essa  a vida. Para isso estamos aqui, Deus nos manda os amigos para nos apoiarmos mutuamente. Os inimigos, quando aparecem em nossas vidas, so somente para que 
possamos nos perdoar. A Lei de Deus  justa e sbia!
- Tudo isso que est dizendo  um pouco complicado para eu entender, mas talvez tenha razo. Aprendi com minha me que conseguimos tudo na vida, basta querer e ser 
honesto, mas acredito, hoje, que no  bem assim, acho que temos sobre a nossa vida um relativo controle, mas no a controlamos inteiramente. A prova do que estou 
dizendo  a minha prpria vida. Em poucos dias, percebi que tudo o que era no  mais... Que tudo o que fui at agora, hoje no sou mais. Que minha vida foi uma 
mentira...
- Est certo no que diz, mas nada est errado. Tudo est certo entre o cu e a terra. Seguimos um caminho, este caminho pode sofrer desvios, mas a qualquer momento 
voltamos ao nosso rumo. A Lei  divina e poderosa. No duvide nunca disso. Faa o que seu corao mandar. Siga o caminho que acreditar ser o melhor para voc. Se 
for o certo, muito bem, mas se for o errado,  ruim, porm tambm ser uma forma de aprendizado. O que no deve e nunca se arrepender do que fez de certo ou errado. 
Porque nada e certo ou errado,  apenas uma caminhada.
- Que coisas bonitas acabou de dizer. Onde aprendeu tudo isso?
- Com a vida e acreditando em um Deus que  um pai maravilhoso, que nos ama e por isso nos d todas as oportunidades para caminharmos em sua direo.
- Queria acreditar em um Deus como o seu...
- Ele no  s meu,  de toda a humanidade. Para Ele, no existe religio ou crena. Para Ele, somos todos seus filhos, independente de raa, cor ou religio.
- Da maneira como fala, Ele parece mesmo ser maravilhoso. Sempre acreditei que o dinheiro, sim,  que era o meu Deus. Atravs da minha vida, vi muitas pessoas comprarem 
tudo com o dinheiro. Confesso que muitas vezes invejei essas pessoas e me perguntei: por que eu tambm no tenho tanto dinheiro assim? Sempre tive uma boa vida, 
nunca me faltou nada, mas sempre quis ter muito mais.
- Deus atendeu seus desejos, hoje voc tem muito.
- S que para ter esse dinheiro, foi preciso eu conhecer que a minha vida foi uma mentira.
- Ela no foi uma mentira. Foi como devia ser. J lhe disse que nada acontece por acaso, tudo tem seu motivo. Tudo est certo entre o cu e a terra. Tudo est sobre 
o domnio de uma Lei Divina. Acredite nisso e siga seu corao. O que vai acontecer? Nem voc, nem eu sabemos, mas acontecer o que for preciso para o seu aperfeioamento.
- No sei... Talvez tenha razo, vou pagar para ver. Vou sozinho para o Piau. Vou em busca do meu passado, conhecer as pessoas que o viveram. Talvez encontrar a 
minha me.
- Se  isso que o seu corao pede, faa. No devemos nunca nos arrepender do que fizemos, mas sim do que deixamos de fazer. V, meu filho, e que Deus o acompanhe 
e o ajude a encontrar a sua famlia, ou ao menos a voc mesmo...
- Sabe que eu estou mesmo perdido? Sem identidade?
- Sei... Ou ao menos imagino... V, meu filho... Siga seu destino... Ele est a lhe chamando... Confie, que tudo dar certo.
Walther se levantou, foi at ela e a beijou na testa, dizendo:
- Gostaria muito de ter tido a senhora como minha me!  uma pessoa maravilhosa!
Ismnia, um pouco sem graa, ficou sem saber o que responder. Isaas veio em seu auxlio:
- Minha velha, no precisa ficar envergonhada, est cansada de me ouvir dizer que voc  uma pessoa maravilhosa e que amo muito voc...
Ela pegou no avental, enrolou nas mos e saiu da sala, enquanto Walther e Isaas a seguiam com os olhos. Antes que ela chegasse  porta que a levaria at a cozinha, 
Isaas a chamou:
- Espere, Ismnia.
Ela se voltou e olhou para ele:
- Precisa de alguma coisa, Isaas?
- Sim, Ismnia, sabe se tem algum mapa rodovirio aqui em casa?
- Tem sim, l na biblioteca, vou pegar.
- Obrigado. O Walther vai precisar dele.
Ela entrou na biblioteca, Walther olhou para Isaas, dizendo:
- Ela  realmente uma mulher maravilhosa.
-  sim, e eu a amo muito, no consigo imaginar o que teria sido da minha vida sem ela!
- Acredito. D para notar que vocs se amam muito, no ?
- Sim... Muito...
- Que bom, j fui casado, mas nunca senti um amor como esse que vejo em vocs...
- Porque no era o verdadeiro amor, como se diz, no era a sua outra metade da laranja. Quando a encontrar, ver como  maravilhoso.
- No acredito nisso. Tudo  muito bonito antes do casamento, mas, aps isso, logo se entra na rotina e o amor no ocupa mais o primeiro lugar. Aparecem outras prioridades, 
no meu caso, foi o trabalho. Queria dar a ela todo bem material, para isso precisava trabalhar muito. Ela no entendeu e me abandonou.
- Gostava muito dela?
- A princpio, sim, mas, com o passar do tempo, notei que aquele amor intenso havia passado. Sentia que faltava algo, mas no sabia o qu!
- Volto a dizer que no era a sua outra metade. Quando a encontramos, como encontrei a Ismnia, nada disso acontece. O amor vai ficando cada vez maior. Ns realmente 
nos amamos, somos a metade da laranja do outro.
Os dois comearam a rir, Ismnia entrou na sala, trazendo em suas mos um mapa. Entregou ao Isaas e saiu em direo  cozinha. Isaas o abriu sobre a mesa e com 
um lpis comeou a traar o caminho que Walther deveria seguir. Walther acompanhava com os olhos. Quando Isaas terminou, ele disse:
-  realmente muito longe, Isaas. O Brasil  grande mesmo!
- No lhe disse que a viagem seria muito longa? Olhe, aqui est a cidade que vai procurar, fica bem no meio do serto. Por tudo que Paulo sempre disse a respeito 
dela,  uma cidade muito pequena e com poucos moradores, mas veja, assim que sair da estrada principal, segue por esta. Acredito que vai ter que perguntar, mas no 
Nordeste brasileiro, segundo o Paulo, o sobrenome  muito respeitado. Ele dizia que as famlias eram todas conhecidas. Se conseguir chegar aqui, acredito que no 
ser difcil encontr-los. No vai ser fcil essa viagem, vai passar por lugares totalmente desconhecidos.
- J pensei em tudo isso, mas preciso faz-la, no viveria em paz, se no a fizesse, preciso conhecer as pessoas que fizeram parte da minha vida. S de conhecer 
meus avs, j ser uma felicidade. Talvez no entenda, mas me criei acreditando ser s, nunca pensei em avs, tios ou primos. Isso sempre me entristeceu, muitas 
vezes perguntei a minha me:
- Por que no tenho um irmo ou irm? Ela sempre respondia:
- No sei, talvez foi porque Deus queria que eu me dedicasse s a voc!
- Eu aceitava aquela resposta, mas sempre ficava muito triste. Ela dizia que nascera no Cear, que era tambm filha nica e por isso sabia o que eu sentia.
- A Geni no mentiu. Realmente, nasceu no Cear e era filha nica. Seus pais morreram quando ela era ainda muito pequena. No sei muito da vida dela, s sei que 
quando chegou no garimpo, era uma linda mocinha. O americano, quando a viu, se apaixonou, no houve outra maneira para t-la. Foi obrigado a se casar, mas Parece 
que realmente eles se amavam.
- Tambm acredito nisso. Eram muito apaixonados, s me lembro deles sempre se abraando ou se beijando. Quando papai morreu de uma maneira estpida, sem que esperssemos, 
ela ficou muito triste, acredito at que perdeu a vontade de viver.
- Do que ele morreu?
- Saiu de casa para trabalhar, caiu no meio da rua com um derrame cerebral. No houve nada que pudesse ser feito para evitar Ele estava muito gordo e gostava de 
beber cerveja. O mdico j o havia prevenido, mas ele no deu ateno. Mame ficou muito triste e foi murchando. Parecia que ele era tudo para ela. Nessa poca, 
eu estava casado, talvez no tenha dado a ela toda a ateno que precisava.
- No pense assim. No tenha sentimento de culpa. Eles morreram porque chegou a hora. J haviam cumprido a misso deles aqui na Terra. Como a Ismnia disse, tudo 
est certo entre o cu e a terra.
- Espero que seja assim mesmo...
- Se eles estivessem vivos, voc estaria hoje aqui?
- Acredito que no...
- Est vendo? Tudo teria que ter acontecido como aconteceu. Voc precisava tomar conhecimento do que aconteceu na sua vida, era um direito seu.
- Sinto que tem razo, mas eu poderia tomar conhecimento sem que para isso eles precisassem morrer...
- Eles nunca contariam a voc. Tinham medo de perd-lo ou que no entendesse o que fizeram. Tambm no morreram por sua causa. Morreram porque chegou a hora.
- Realmente, no entendo. Eles foram cruis ao me tirarem da minha me verdadeira... Tem razo, talvez, se eu soubesse antes, no lhes perdoasse.
- E agora, j lhes perdoou?
- No sei, Isaas. No suporto a idia de ter sido roubado, ou melhor, vendido. No suporto a idia de saber o quanto minha verdadeira me sofreu e, se estiver viva, 
deve estar sofrendo at hoje, inocentemente. No mesmo instante quero entender e perdoar, sinto muita raiva deles e, principalmente, do Paulo, que foi o maior responsvel 
por tudo que aconteceu.
- No vou querer desculpar o erro dele, Walther, mas embora tenha trocado voc por dinheiro, pensou mesmo que seria melhor para voc. Naquele tempo, no era fcil 
viver. A pobreza era muito grande. Ele no tinha como o educar e at lhe dar uma boa alimentao.
- Mas ele encontrou a pedra que nos daria tudo!
- S que, quando a encontrou, j era tarde. Voc j havia ido embora e a Marta tambm. Por isso, ele nunca a vendeu. Queria que voc e a Marta, um dia, a vissem, 
assim saberiam que ele tinha razo, quando dizia que um dia a encontraria.
- No sei o que lhe dizer, Isaas. Estou tentando entender e aceitar, mas no condigo, por isso vou encontrar minha famlia e, quem sabe, at minha me. Se a encontrar, 
darei a ela todo o meu carinho e amor para recompensar o muito que sofreu.
- Deus ilumine o seu caminho, Walther. Se a encontrar, faa isso mesmo. Ela merece.
- Vou fazer, Isaas... Vou fazer... Pode ter certeza disso...
- Bem, j que decidiu, vamos falar com o advogado e comprar o seu Jipe?
Walther sorriu, levantou-se, foi at a cozinha. Ismnia estava junto ao fogo, terminando de preparar o almoo. Ele se aproximou, pedindo um pouco de gua. Ela, 
sorrindo, lhe entregou. Enquanto tomava a gua, perguntou:
- Dona Ismnia, conheceu bem a minha me?
- Sim, conheci.
- Como ela era, alm de bonita?
- Ela era muito bonita, sim, e tinha uma vontade imensa de viver. Quando voc nasceu, dizia que voc seria um grande homem e que a faria muito feliz. Ela no largava 
voc um minuto. Enquanto trabalhava, voc ficava em um cercado, ou no bero, dormindo, mas ela estava sempre de olho em voc. Ela o amava muito. Era corajosa e nunca 
deixou que o Paulo perdesse a esperana de encontrar a pedra.
- Mesmo assim, ele a traiu. Mesmo sabendo o quanto ela me amava, ele me roubou.
- Ele fez o que achou ser melhor para todos.
- Inclusive para ele mesmo.
- Talvez tenha pensado isso, mas ele sabia tambm que o seu futuro seria melhor longe daquele lugar. Eu gostava muito da Marta e sempre que lembro ter, mesmo sem 
saber, ajudado para que o roubassem, sinto um aperto no meu corao. Vi o quanto ela sofreu. Vi o desespero em que ficou, mas eu no podia fazer nada. Quando descobrimos, 
j era tarde. Ela ficou desesperada, foi embora e nunca mais perdoou ao Paulo. Ele sofreu por isso durante a vida toda, muito mais quando encontrou a sua pedra.
- A ele entendeu que no precisava ter feito o que fez?
- Isso mesmo, por isso passou o resto da vida procurando por ela, mas no conseguiu. Chego a pensar que ela morreu...
- No sei se ela morreu, mas se estiver viva, juro que a vou encontrar. Nunca tive dinheiro mais que o suficiente para viver. Por isso no estou acostumado com a 
riqueza, gosto do meu trabalho, sei que sou um bom profissional, por isso gastarei at o ltimo centavo que vou receber do Paulo para encontr-la. Vou virar este 
Brasil do avesso, mas vou encontr-la!
Ismnia ficou olhando para ele de um modo estranho. Ele notou:
- Por que est me olhando assim?
Por um momento, parecia ver o Paulo, quando dizia que ia encontrar a sua pedra. Seus olhos pareciam os dele. O modo de falar tambm. S agora noto como so parecidos, 
quando ele tinha a sua idade. Vocs so mesmo muito parecidos, no s na forma fsica, mas tambm no temperamento. Estou quase acreditando que vai realmente encontrar 
a Marta. Deus o encaminhar, meu filho. Estou muito feliz por t-lo conhecido e ver que, apesar de tudo, em uma coisa o Paulo tinha razo, voc se tornou uma pessoa 
muito boa. Walther, ao ouvir aquelas palavras, se emocionou. Foi para junto dela, abraou-a e beijou sua testa com muito carinho. Isaas entrou justamente nesse 
instante, perguntou, surpreso:
- Posso saber o que est acontecendo aqui?
Os dois se soltaram e olharam para ele. Ismnia, com lgrimas nos olhos, respondeu:
- Eu estava dizendo como ele se parece com o Paulo, quando ele tinha a sua idade. No  verdade, Isaas?
Isaas ficou olhando de longe. Olhou Walther de cima a baixo:
- No  que voc tem razo, minha velha? Eles se parecem mesmo!
Walther, tambm emocionado, disse:
- No sei se devo sentir orgulho disso. Ele foi muito cruel para minha me, foi um canalha, Isaas.
- No diga isso, Walther. J lhe disse que ele pensou estar fazendo o melhor. Hoje, eleja est do outro lado da vida prestando contas a Deus dos atos que aqui praticou. 
Voc est aqui, jovem e rico, pode fazer o que quiser com a sua vida. No guarde dio nem rancor do Paulo, ele j pagou o que fez, com muito sofrimento. Vamos rezar 
para que esteja em um bom lugar, cercado de amigos...
- s vezes, chego at a perdoar o que ele fez, mas quando me lembro do muito que minha me sofreu, sinto muito dio.
- A mgoa, o dio no fazem bem a ningum. Quem somos ns para julgar? Jesus disse: Aquele que no tiver pecado, atire a primeira pedra. Com isso, quis dizer que 
ningum  perfeito. Todos temos a nossa parte de culpa em tudo que nos acontece.
- Est dizendo que eu e minha me tambm tivemos culpa?
- Quem sabe, Walther?
- Eu era apenas uma criana, Isaas! Como poderia ter alguma culpa?
- Voc era criana como ser humano, mas no como esprito...
- L vem voc novamente com essa histria de reencarnao. Isso  besteira. Mesmo que acreditasse nisso, que culpa tenho eu hoje por algo que fiz em outra vida? 
Ainda mais no lembrando de nada! Tudo isso  sonho. E iluso e uma desculpa para se fazer o que quiser e colocar a culpa em outra encarnao. No aceito isso e 
nunca vou aceitar. Isso no existe, Isaas!
- Est bem, Walther, no precisa ficar nervoso. J decidiu que vai em busca das suas razes, no ? Pois bem, v... Isso s poder lhe fazer muito bem...
- Preciso fazer isso, no viveria em paz, se assim no agisse.
- Est bem... Siga seu corao ou seu instinto, v em busca da sua felicidade e libertao.
- Vou fazer isso, assim, quando voltar para o meu pas, irei com paz no meu corao.
- Ento, aps o almoo, iremos at o advogado, depois compraremos o seu carro e, juntos, planejaremos a viagem.
Walther sorriu. Em poucos dias, aprendeu a gostar daquela famlia. At do Leo, embora ainda sentisse um pequeno mal-estar, mas aquilo tambm j estava passando. 
Fizeram exatamente isso. Aps o almoo, foram at o advogado. Ele disse que o dinheiro j estava no Banco do Brasil, bastava apenas que Walther se identificasse 
atravs de documentos e poderia retirar a quantia que quisesse. Walther sorriu, no havia ainda conseguido entender o que representavam dois milhes de dlares. 
Sabia que era muito dinheiro, mas ainda no havia pensado seriamente no que faria com ele. Sua prioridade, no momento, seria conhecer sua famlia, encontrar aquela 
casa com muitas janelas e, o mais importante, encontrar a me. Ao chegar ao banco, foi recebido pelo gerente com um sorriso:
- Tenho muito prazer em conhec-lo. Eu era um grande amigo do Paulo. O doutor Amadeu falou comigo. J est tudo pronto, o dinheiro est todo a, pode retirar quanto 
quiser.
Walther no conhecia o valor do dinheiro brasileiro. Perguntou para Isaas:
- Quanto custa um jipe, Isaas? De quanto vou precisar para comprar um e fazer a viagem?
- Eu e o gerente vamos fazer algumas contas e logo saberemos. Pensando bem, acredito ser melhor irmos a uma agncia de automveis e ver o carro que vai querer escolher. 
Quanto  viagem, precisa levar uma boa quantia, pois no sabe o que vai encontrar pelo caminho...
- Vamos fazer isso. Senhor gerente, voltaremos logo, obrigado pela sua ateno.
- Ora! Isso no foi nada! O prazer foi todo meu! Walther sorriu, enquanto pensava:
- Todos os gerentes do mundo inteiro so iguais. Se ele no soubesse a quantia que tenho no banco, com certeza no estaria sendo to gentil, mas enfim, fazer o qu?
Saram dali. Foram at a Praa da Repblica, onde havia uma agncia de carros. Walther escolheu um jipe que ele j conhecia e sabia ser potente. O vendedor da loja 
ligou para o banco, falou com o gerente. Tudo combinado, foram at o banco. Walther assinou alguns documentos, pegou uma quantia que Isaas achou ser necessria 
para a viagem. Voltaram para a agncia. Walther saiu dali dirigindo o seu jipe novo, acompanhando Isaas que ia na frente. No havia muitos carros nas ruas. Eram 
poucas as pessoas que os possuam. Walther estava muito feliz por estar em um jipe como aquele. Enquanto dirigia, pensava: No sei o que estou sentindo, dirigindo 
este jipe. Acredito que s agora estou entendendo o que o dinheiro pode fazer. Ate agora, eu ainda no estava acreditando muito que possua todo esse dinheiro, nem 
o seu valor, mas agora, me vendo dentro deste automvel maravilhoso, sinto que no haver limites para a minha felicidade! Isaas, pelo retrovisor, podia ver o rosto 
de Walther. Percebeu que ele estava feliz. Por isso, sorria e pensava: Estou feliz por ver a felicidade estampada no rosto desse meu recm amigo. Continuaram rodando 
por muito tempo. Isaas o levou at o museu do Ipiranga. No entraram, pois j era muito tarde. Chegaram a casa quase s sete horas da noite. Ismnia estava preocupada, 
pois haviam sado logo aps o almoo e no telefonaram. Ao v-los chegando, cada um em um carro, sorriu e disse:
- Eu aqui toda preocupada, ainda bem que chegaram. Walther! Que carro bonito!
- Gostou? Eu tambm gostei muito. Mas no  um carro.  um jipe. Estou s agora entendendo o que o dinheiro pode fazer!
- Pode mesmo! No entendo nada a respeito de nomes de carros, mas sinto que agora voc comear a ser realmente feliz e que todos os seus desejos sero realizados.
- Estou comeando a acreditar nisso, dona Ismnia.
Leo, ao ouvi-los, saiu correndo de dentro da casa. Ao ver o jipe de Walther, parou e ficou olhando de longe. Seus olhos brilhavam. Walther, vendo aquela expresso 
no rosto do menino, perguntou:
- Leo! Quer dar uma volta no meu jipe novo?
- O senhor deixa?
- Claro que sim, venha. A senhora? No quer vir tambm, dona Ismnia?
Ela olhou para Isaas que, sorrindo, disse:
- Tambm estou com vontade de andar nessa beleza, vamos todos juntos?
Entraram no jipe. Estavam felizes. Leo no escondia sua satisfao. Walther estava se sentindo como se fizesse parte daquela famlia. Ele, a princpio, foi devagar, 
no estava acostumado com a potncia do jipe. Aos poucos, comeou a aumentar a velocidade. Leo ia na frente, junto com ele, adorou e pedia que corresse mais. Walther, 
atravs do retrovisor, olhou para Isaas que fez com a cabea que no. Ele obedeceu, seguiram em uma velocidade normal. Andaram durante meia hora e voltaram para 
casa. Durante o jantar, conversaram sobre a viagem que Walther iniciaria na manh seguinte. No possua data certa para voltar, pois no sabia quantos dias levaria 
para chegar at o Piau, nem o que encontraria por l. Prometeu que mandaria telegramas e, se possvel telefonaria. Sabiam que no havia telefone, pois a casa ficava 
em um lugar muito pobre. Paulo conversava sempre com o irmo que morava na capital. Terminaram de jantar. Walther foi se deitar logo, pois na manh seguinte teria 
que levantar muito cedo. Queria partir antes do amanhecer para aproveitar o dia. No pretendia viajar  noite. Assim que se deitou, pegou o retrato de Marta em suas 
mos, dizendo com voz calma: Minha me... Vou tentar encontr-la... Sei o quanto sofreu por minha causa, enquanto eu vivia uma vida feliz e tranqila. Espero que 
no tenha morrido, para poder abra-la e lhe mostrar o homem em que me tornei. Sei que no vai se decepcionar. Adormeceu, abraado ao porta-retratos.

REAVALIANDO CONCEITOS

Na manh seguinte, assim que levantou, pegou o porta-retratos, a caixa com as fotografias e a carta de Paulo, colocou tudo dentro da maleta Eleja havia guardado 
as roupas na noite anterior. Tomou um banho e foi para a sala. Isaas j o esperava. Os dois se dirigiram at  mesa e sentaram. Ismnia terminou de servir, sentou, 
e os trs tomaram caf juntos. Ficaram calados, cada um preso em seus pensamentos. Isaas e Ismnia, preocupados com a viagem de Walther, no entendiam por que insistira 
em viajar sozinho. No sabiam o que ele encontraria quando chegasse ao seu destino. Walther, nervoso e ansioso por chegar e conhecer a sua famlia. Assim que terminaram 
de tomar o caf, Walther disse:
- Bem, est na hora de iniciar a minha viagem. Vou com o meu corao feliz por saber que tenho uma famlia, mas com medo de no encontrar a minha me, embora, aps 
o sonho que tive, tenho certeza de que ela est l naquela casa com muitas janelas me esperando.
Ismnia o abraou e beijou seu rosto, dizendo:
- Que Deus o acompanhe nessa viagem. Espero, de corao, que encontre a Marta, se isso acontecer, sei que finalmente ela ser feliz. Mas no esquea que Deus  o 
nosso guia e que para Ele nada  impossvel. Deus o abenoe...
Walther retribuiu o abrao e o beijo:
- Obrigado, dona Ismnia, uma coisa eu sei, chegarei l. Sinto realmente que minha me estar l tambm. Obrigado pelo modo como me recebeu. Quando voltar, trarei 
um presente para cada um de vocs e tambm boas notcias, quem sabe voltarei com a minha me!
- Quem sabe. Se depender da minha vontade, voltarei a ver a minha amiga.
Ele respondeu que sim. Logo depois, ouviu uma leve batida  porta. Levantou, abriu, uma senhora lhe sorria e entrou no quarto com um carrinho, onde estava uma bandeja 
com o caf da manh. Colocou sobre uma pequena mesa que havia no canto do quarto. Walther acompanhou seus movimentos sem nada dizer. Ela saiu, mas, antes, ele lhe 
deu algum dinheiro, agradecendo. Assim que ela saiu, ele olhou para a bandeja, ficou encantado com tudo o que viu. Havia no s o caf, mas leite, frutas, manteiga, 
queijos e biscoitos de vrias qualidades. Disse em voz alta e admirado:
- Puxa! Aqui, o hspede  muito bem tratado!
Sentou em uma cadeira, comeou a comer. Deliciou-se com as frutas. Comeu tudo o que havia na bandeja. No sabia como seria o resto da viagem, sabia que aquele caf 
serviria quase como um almoo. Terminou de tomar o caf, desceu em direo  recepo. Pagou a conta, pediu instruo de como sair da cidade e seguir viagem rumo 
ao Piau. O rapaz lhe ensinou de uma maneira que no conseguiria errar. Assim que saiu do hotel,  sua frente estava o mar que havia visto  noite pela janela. No 
alto do morro, encontrava-se o Cristo Redentor, o qual j havia visto quando ali chegara. Do outro lado, muitas casas, umas sobre as outras, no morro. Pensou: Essas 
devem ser as favelas, no entendo como as pessoas conseguem viver dessa maneira, mas elas so uma realidade aqui no Rio de Janeiro. Ao dar algumas voltas pela cidade, 
foi apreciando tudo o que via. No eram ainda oito horas da manh, mas j havia movimento, pessoas iam e vinham, nibus lotados. Lembrou-se de Nova Iorque, onde 
havia sido criado. A cidade era totalmente diferente, mas as pessoas pareciam iguais, todas correndo em busca dos seus sonhos. Embora o rapaz da recepo do hotel 
houvesse lhe ensinado muito bem como sair da cidade, ele se perdeu vrias vezes, at conseguir, finalmente, chegar  estrada. Novamente, entrou na estrada cheio 
de confiana, sabendo que conseguiria encontrar sua me, quando chegasse quela casa com muitas janelas. Foi dirigindo e apreciando a paisagem, viu muitos morros, 
algumas plantaes, algumas vacas que pastavam calmamente. Cada vez que parava para abastecer, olhava o mapa para ver onde estava e quanto faltava para chegar ao 
seu destino. Por mais que corresse, parecia que o seu destino estava cada vez mais longe e que nunca chegaria. Percebeu que j ia anoitecer novamente, parou na primeira 
cidade que encontrou. Era muito diferente do Rio de Janeiro, uma cidade pequena, talvez at uma pequena vila. Na rua, que lhe parecia ser a principal, perguntou 
se havia algum hotel. Indicaram-lhe uma casa onde uma mulher alugava quartos por uma noite. Dirigiu-se at l. Bateu  porta e uma senhora negra o atendeu. Ele levou 
um susto, pois embora houvesse convivido alguns dias ao lado do Leo, ainda sentia um certo constrangimento na frente de um negro, mas sabia que no havia outra alternativa. 
Perguntou:
- Boa noite, a senhora tem algum quarto vago para que eu possa dormir esta noite?
A senhora o olhou de cima a baixo. Perguntou:
- De onde o senhor vem? Para onde vai?
- Estou vindo de So Paulo e pretendo ir at o Piau.
- Esse carro que est a na frente  seu?
- Sim, estou viajando nele...
- Est bem, pode entrar.
Walther, um pouco acanhado com a secura da mulher, entrou em uma pequena sala. Notou que, apesar de pequena, era muito limpa. A senhora disse:
- Vai dormir s esta noite?
- Sim, pretendo sair amanh bem cedo, tenho ainda uma longa viagem...
- Est com fome?
- No, vim comendo alguma coisa durante a viagem.
- Alguma coisa no  comida. Estou terminando o jantar, o senhor vai comer junto comigo...
- No precisa se preocupar, senhora, s preciso dormir e acordar cedo...
- No estou preocupada, mas parece que alm de cansado, est com fome. Vamos jantar juntos, garanto que no vai se arrepender. No se preocupe com o dinheiro, o 
preo do quarto  o mesmo com comida ou sem. Ali naquela porta fica o banheiro, se quiser tomar um banho, fique  vontade. No armrio, tem vrias toalhas, pode usar 
sem medo, elas so muito bem lavadas e passadas. Enquanto toma o seu banho, vou terminar o jantar.
Ele no conseguiu dizer no para aquela senhora que poderia ser sua av e que falava com tal firmeza. No encontrou alternativa. Entrou no banheiro e novamente percebeu 
que, embora fosse pequeno, como a sala, tambm estava muito limpo. Tomou um banho. Estava mesmo muito cansado, tudo aquilo para ele estava sendo uma aventura, mas 
cansativa. Quando saiu do banheiro, a mesa j estava colocada. Sobre ela havia duas panelas, sentou em uma cadeira que a mulher lhe mostrou. Em uma panela, havia 
feijo, na outra, arroz e, em uma travessa de loua, carne ensopada com batatas. Walther no estava acostumado a comer em uma mesa com panelas sobre ela. Sua me, 
s vezes, preparava arroz e feijo, mas carne com batatas, ele nunca havia comido. A senhora sentou  sua frente e, com um sorriso, disse:
- Pode comer, meu filho. A comida  simples, mas feita com muito carinho, vai lhe fazer muito bem. Como  o seu nome?
- Meu nome  Walther. E o da senhora?
- Zulmira, mas todos me chamam de v Zu. Prefiro que tambm me chame assim.
- Est bem, v Zu! No estou resistindo ao aroma da sua comida, posso comer?
- Claro que sim, fiz para ns dois!
Comeou a comer em silncio. Enquanto comia, pensava: Em meu pas, isto jamais aconteceria, um branco sentado e comendo ao lado de uma negra... Ela me parece to 
doce... Por que l existe tanto preconceito contra os negros?
- Em que est pensando, meu filho?
Ele voltou de seus pensamentos e respondeu:
- Em como a sua comida est mesmo muito boa! Ela sorriu:
- No lhe disse que foi feita com carinho? Diga uma coisa, por que est indo para o Piau?  muito longe...
Walther olhou para ela. Havia passado o dia todo calado, s com seus pensamentos, agora estava diante de uma negra que lhe tratava como se fosse um filho. Sentiu 
vontade de falar. Contou a ela tudo o que havia acontecido desde que chegara ao Brasil. S no contou da herana e do dinheiro que possua. Ela ouviu em silncio. 
Quando ele terminou de falar, ela disse:
- A sua histria  muito triste, mas no  diferente da de muitas pessoas que vivem no Nordeste brasileiro. Muitas famlias so obrigadas pela seca a se separar. 
Muitas mulheres so obrigadas a se afastar de seus maridos que vo em busca de trabalho em outros lugares. Muitos filhos so doados ou, simplesmente, abandonados. 
O Brasil  um pas imenso e rico, mas muito mal conduzido por seus polticos. Como voc disse, seu pai trocou voc por muito dinheiro. Outras crianas so dadas 
s para ter algum que lhes d comida. Est indo em busca da sua famlia e da sua me. Talvez os encontre, talvez no, mas de uma forma ou outra, muito vai encontrar 
nesta viagem.
- No entendo. O que est querendo dizer?
- Estou lhe dizendo que todos os caminhos nos levam a Deus, ao nosso autoconhecimento.
- Se no encontrar a minha me, vou voltar para o meu pas e vou continuar a minha vida como antes.
- Vai poder voltar, mas no vai ser nunca mais o mesmo. Sinto que durante essa viagem vai aprender muito sobre a vida e sobre voc mesmo. Tudo est sempre certo 
entre o cu e a terra.
- A senhora me fez lembrar agora de outras pessoas que me disseram essas mesmas palavras...
- Essas pessoas que lhe disseram isso devem ter muito conhecimento da vida e de Deus.
- Se tudo est certo entre o cu e a terra, por que fui separado da minha me? Embora, durante todo esse tempo, no sofri, ao contrrio, fui muito bem tratado e 
muito amado, mas, minha me? Como viveu?
- Quero completar o que as pessoas talvez no tenham lhe dito. No existem vtimas ou agressores, todos colhemos aquilo que plantamos... Todos, mais cedo ou mais 
tarde, respondemos por nosso livre-arbtrio.
Walther, ao ouvir aquilo, ficou furioso:
- Eu era apenas uma criana! Minha me, apenas uma jovem! Como eu poderia exercer o livre-arbtrio, ou ela? No teve chance! Foi enganada!
- Para Deus, no existem crianas ou jovens, todos so espritos muito antigos, que esto sempre caminhando... Ns no conhecemos os nossos erros anteriores.
- J percebi que a senhora tem a mesma religio de outras pessoas que encontrei aqui. Ser que todo brasileiro pensa assim?
- No... Nem todos, alis, so muito poucos, mas, acreditando ou no, todos estamos na mesma estrada. Voc diz que no entende por que tantas pessoas lhe disseram 
as mesmas coisas? Deve ser porque neste momento  o que voc esta precisando ouvir. J pensou por que voc, nessa sua viagem, veio parar justamente na minha casa? 
E ouvir essas coisas?
- Porque era a nica que possua um quarto para que eu pudesse dormir.
- Poderia ter parado em uma cidade mais atrs, ou em outra mais  frente. Por que parou justamente nesta cidade e em minha casa?
- No sei... Tenho ouvido muito a respeito de reencarnao e outras coisas, mas me  difcil entender e aceitar tudo o que me falam e o que aconteceu com a minha 
vida...
- Acredita em Deus?
- No sei se acredito. s vezes, penso que Ele no existe. No tenho ainda, com certeza, uma opinio formada...
- Muito bem, continue a sua viagem, s posso desejar que Deus o acompanhe e que consiga encontrar a sua me e o seu destino.
Sorrindo e se sentindo muito bem com aquela senhora, disse:
- Gostei muito de conversar com a senhora, mas no me contou nada sobre a sua vida. Mora aqui sozinha?
- Moro... Meu marido morreu j h dez anos, tenho dois filhos, mas moram na capital. Uma ou duas vezes por ano eles vm me visitar. Esto casados, tenho trs netos, 
as crianas estudam, por isso no podem vir mais vezes, mas me mandam dinheiro todos os meses, fora o que recebo de penso do meu marido. D para viver muito bem.
- Por que no vai morar com um deles?
- No! Eu no quero sair da minha casa, sabe como , morar com noras sempre causa problemas. Gosto daqui.
- Por tudo isso que me contou, no aluga os quartos por que precisa de dinheiro?
- No  pelo dinheiro. Gosto de conhecer pessoas novas, aprendi muito com as que por aqui passaram e quase todas se tornaram minhas amigas. Sempre que esto por 
perto, passam por aqui, nem que seja apenas para conversar. Outros mandam cartas. Nem imagina quantos amigos eu tenho por todo esse Brasil. Walther sorriu:
- A senhora  mesmo muito agradvel,  difcil no se tornar seu amigo. J estou me considerando um tambm! Quando voltar, vou passar por aqui e vai conhecer a minha 
me!
- Tem mesmo certeza que a vai encontrar, no ?
- Aps o sonho que tive, sei que, quando encontrar aquela casa com muitas janelas, eu a encontrarei.
- Mesmo que no a encontre, no fique triste. Deus sabe o porqu das coisas.
- Gostei mesmo muito da senhora. Nem imagina o que significa para uma pessoa como eu ouvir isso.
- Estou feliz por ter gostado e por t-lo conhecido. Agora, v dormir, amanh ser um longo dia e que Deus o acompanhe, mostrando-lhe o caminho que deve seguir...
Walther, sorrindo, dirigiu-se ao quarto. A cama estava bem arrumada. Retirou o lenol e o cobertor que estavam sobre o travesseiro, abriu a maleta, pegou o porta-retratos, 
sorriu e o colocou sobre o criado-mudo. Aquilo j havia se tornado uma rotina, desde que conheceu toda a verdade e descobriu que aquela linda moa era sua me. Conhecia 
todos os contornos do seu rosto. Ficou olhando para ela por algum tempo, mas, cansado da viagem, adormeceu. Acordou com o reflexo do sol entrando atravs da cortina. 
Lembrou-se de onde estava e que deveria seguir viagem. Levantou, saiu do quarto. A casa estava em silncio. Pensou: Ela ainda deve estar dormindo, no vou fazer 
barulho, vou deixar o dinheiro sobre a mesa. Entrou no banheiro, fazendo o mnimo de barulho. Tomou um banho rpido. No sabia se encontraria outro lugar igual quele, 
por isso no dispensou o banho. Saiu do banheiro, voltou para o quarto. Vestiu-se, pegou a maleta. Assim que abriu a porta do quarto, pde sentir o cheiro de caf 
que vinha da cozinha. Sorriu e se dirigiu para l.
- Bom dia, v Zu! Pensei que estivesse dormindo! Ia deixar o dinheiro sobre a mesa, antes de sair.
- Achou que eu ia deixar voc partir antes de tomar caf?
Fui at l fora no galinheiro pegar alguns ovos. A viagem vai ser longa, precisa se alimentar bem.
- Muito obrigado. A senhora  mesmo uma bela pessoa.
- Fiquei,  noite, pensando na histria que me contou. Sei que para voc  difcil entender, mas, quem sabe, tendo vindo para esta terra que tambm  sua, no aprenda 
outras coisas.
- Que coisas?
- Ontem, quando me disse que para uma pessoa como voc, era muito difcil dizer que havia gostado de algum como eu. Percebi sobre o que dizia. Gosto muito de ler 
jornal e ouvir rdio. As notcias demoram a chegar, mas chegam. Sei que, em seu pas, o preconceito racial  muito grande, por isso entendo o seu conflito. Aqui, 
conhecer muitos negros e mulatos. Talvez at voc seja um descendente deles. No Brasil todo, eles existem, principalmente no Nordeste para onde est indo. Ver 
que eles no so diferentes em nada dos brancos. Como acontece com qualquer branco, poder encontrar alguns negros ruins e sem carter, mas a maioria,  gente muito 
boa.
- Desculpe-me, no quis ofend-la!
- No ofendeu! Estou feliz por me considerar sua amiga. Mais feliz ainda por saber que, embora no encontrando sua me, est reavaliando os seus valores e tudo o 
que aprendeu durante toda a sua vida. Sem perceber, est sendo orientado e ajudado por Deus. Esse mesmo Deus que voc no sabe se existe.
Walther sentou em uma cadeira junto  mesa. Ela terminava de preparar os ovos e passar o caf em um coador de tecido. Ficou olhando para os cabelos brancos daquela 
mulher que, mesmo sem o conhecer, havia-o recebido com tanto carinho e tinha tanta sabedoria. Enquanto olhava, pensava: Por que fui ensinado a ficar longe dos negros? 
Esta mulher  maravilhosa! Ela sentou do outro lado da mesa e comearam a tomar caf juntos. Quando terminaram, ele levantou, foi at ao jipe, voltou trazendo o 
mapa. Estendeu sobre a mesa e olhou o caminho que deveria tomar e o quanto faltava. Ela acompanhava seu dedo que corria sobre o mapa. Disse:
- Ainda est muito longe, no?
- Est sim, nem imagino quantos dias demorarei para chegar.
- No se preocupe com o tempo, ele no existe, apenas passa.
- No entendi o que disse!
- Estou dizendo que o tempo passa com a nossa vontade, ou sem ela. Estou dizendo que tudo tem hora certa para acontecer. Por isso, no se preocupe com o tempo, chegar 
na hora exata em que tiver que chegar.
Ele no resistiu. Deu a volta, pegou aquele rosto negro e enrugado em suas mos e beijou sua testa com muito carinho. A velha senhora se emocionou, deixou cair uma 
lgrima:
- Muito obrigada, meu filho. V em paz e que Deus o acompanhe, que consiga realizar todos os seus desejos. No esquea de passar por aqui na volta.
- No esquecerei, pode ter certeza... No a esquecerei nunca enquanto viver e, como os outros que por aqui passaram, mesmo estando longe daqui, vou escrever sempre 
para saber como est.
Ela o acompanhou at o jipe, ele entrou, sorriu. Ela disse:
- V com Deus!
Ele abanou a mo e saiu dirigindo. Sentia-se muito bem: Gostei realmente dessa senhora... Alis, desde que aqui cheguei s encontrei pessoas hospitaleiras e alegres, 
at essa senhora com toda humildade em que vive... Seguiu viagem por vrios dias. Dormiu e comeu mal. Notou que a paisagem havia mudado. Agora, via poucas rvores, 
a vegetao era baixa, mas tudo estava muito verde. Em alguns lugares, no havia vegetao. S agora entendia, quando lhe disseram sobre a seca. Aquele lugar mais 
parecia um deserto, igual aos que conhecia nos Estados Unidos. Mas nada importava, sabia que, assim que encontrasse aquela casa com muitas janelas, encontraria sua 
me, e toda a sua famlia de cuja existncia nunca soubera. Sempre que ficava cansado e at desanimado lembrava-se disso e recuperava seu nimo. Sabia, tambm, que 
se no os encontrasse, no conseguiria mais viver em paz. Continuava sempre, com a certeza de que, como disse a v Zu, ele chegaria.

A CASA COM MUITAS JANELAS

Estava parado em um posto de gasolina. Pela placa que havia visto na estrada, sabia que no faltava muito para -s chegar. Suas roupas estavam sujas, pois fora trocando-as 
e no trouxera muitas. Perguntou ao rapaz que estava colocando a gasolina:
- Conhece a famlia Almeida?
- Conheo! Eles so muito antigos aqui na regio.
- Sabe como posso chegar at eles?
- Na prxima sada, o senhor vira  esquerda e entra em uma estrada de terra, vai andar uns cinco quilmetros, assim que avistar uma casa toda branca com muitas 
janelas,  ali!
Ao ouvir aquilo, Walther sentiu seu corao disparar. Agradeceu ao rapaz, deu-lhe uma boa gorjeta, entrou rpido no carro e saiu em disparada. Olhou para o relgio, 
eram duas horas da tarde. Agora estou perto, a casa com muitas janelas existe mesmo! Acredito que vou encontrar a minha me, foi ela que me apareceu em sonhos. Ela 
est me esperando, finalmente vou poder fazer a felicidade dela e a minha. Assim que a vir, antes de dizer alguma coisa, vou abra-la e beij-la muito. Depois, 
vou lev-la comigo para os Estados Unidos. L, ela ter tudo o que no teve aqui. Vou recompens-la por tudo o que sofreu. A estrada de terra chegou, era estreita 
e com muitos buracos. Mas Walther no se importou, havia comprado um jipe, justamente para enfrentar estradas ruins. Queria, mesmo, era chegar o mais rpido possvel. 
Desviava de alguns buracos, de outros no. Quando entrou naquela estrada, olhou para o marcador. Por seus clculos, os cinco quilmetros j haviam passado e at 
agora no via a casa com muitas janelas. A estrada estava deserta, no passou por ningum. Preocupado, pensou: Ser que estou no caminho certo? Ser que aquele rapaz 
sabia mesmo de quem eu estava falando? Parou o carro, pegou o mapa, seguiu a linha que Isaas havia traado. Por este mapa estou no caminho certo, mas onde est 
a casa?  Continuou rodando, s que agora prestando mais ateno em tudo. J estava h muito tempo naquela estrada, quando viu ao longe a casa. Seu corao comeou 
a bater com mais fora. Essa mesma fora ele colocou no acelerador, precisava chegar logo. A casa estava ficando cada vez prxima. Encontrou uma pequena estrada 
que o levaria at onde ela estava. Devagar e com cuidado, virou o carro  direita. Entrou na estrada. Dirigiu com cuidado, porque a estrada possua muitos buracos, 
teve que desviar vrias vezes, mas no parou por um minuto. Sabia que estava chegando. Quanto mais se aproximava, mais certeza tinha de que era a casa dos seus sonhos. 
Finalmente, cheguei. Minha me deve estar a me esperando. Que vou dizer a ela? Como vai me receber? Estava desviando de um buraco, quando percebeu que um cavaleiro 
se aproximava. Continuou sem parar. O cavaleiro parou o cavalo em frente ao jipe, fazendo com que Walther freasse. O cavaleiro perguntou:
- Onde o moo est indo? Aqui  uma propriedade particular. Walther saiu do jipe, respondendo:
- Meu nome  Walther. Estou aqui para conhecer a minha famlia.
- Que est dizendo? - o cavaleiro perguntou, intrigado.
- Sou filho do Paulo e da Marta.
- Nunca soube que eles tivessem um filho...
- No duvido disso, pois eu prprio fiquei sabendo s agora. Mas tenho aqui comigo uma carta que pode explicar tudo.
- Est bem, me acompanhe, vamos at em casa. L poder contar essa histria.
O cavaleiro se voltou e comeou a andar devagar. Walther o seguiu, pensando: Quem ser esse rapaz? Deve ser algum parente... Chegaram. Walther parou o jipe ao lado 
do cavalo e desceu. Assim que chegaram, uma porta se abriu e por ela saiu uma senhora com cabelos muito brancos. O cavaleiro disse:
- Vov, este moo disse que  filho do tio Paulo!
A senhora ficou olhando para Walther, que um pouco desajeitado, disse:
-  isso mesmo, senhora, sou filho dele e da Marta... A senhora quem ?
Ela ficou olhando, de seus olhos comearam a cair lgrimas. O cavaleiro correu para a amparar. Walther fez o mesmo. Calados, entraram na casa. L dentro, Walther 
encontrou outra senhora e um senhor, que ao verem aquele estranho e a senhora chorando, se assustaram. O homem perguntou:
- Que est acontecendo? Branca, por que est chorando? A senhora olhou para ele, respondendo:
- Esse moo  o filho do Paulo com a Marta...
Os dois tambm levaram um susto. Sentaram em um sof. A outra senhora disse:
- Que est dizendo? No pode ser. O Paulo nunca disse nada a respeito de um filho.
Walther se aproximou do senhor e da senhora que estavam sentados, pegou na mo de cada um. Com os olhos cheios de lgrimas, disse:
- Sou, realmente, filho deles, no estranho e entendo o que esto sentindo, pois eu mesmo s tomei conhecimento disso h pouco tempo. Fiquem calmos, vou contar tudo. 
Tenho aqui uma carta que o Paulo me deixou.
- Sente a nesse outro sof e conte tudo. Faz muito tempo que o Paulo no escreve. Ele est bem?
Walther percebeu que eles at agora no sabiam que Paulo havia morrido. Lembrou-se de tudo o que Isaas havia lhe dito sobre a vida aps a morte. Respondeu:
- Ele est muito bem, no se preocupe.
- Por que no veio com o senhor?
- Por favor, senhora, no me chame de senhor. Mas desde que nos encontramos l fora, no sei quem a senhora ! Sei que deve ser me do Paulo ou da Marta. De qual 
deles  a me?
- Tem razo, no me apresentei. Eu sou Branca, me do Paulo. Esta  Maria, minha irm e me da Marta e este  o Antnio, pai do Paulo. Como deve saber, somos todos 
parentes.
Walther cumprimentou a todos. Olhou para o cavaleiro, antes que perguntasse seu nome ele estendeu a mo, dizendo:
- Meu nome  Lula, alis, Luiz, sou filho do irmo mais velho do tio Paulo. No sei se sabe, o nome dele tambm  Luiz.
- Muito prazer, sei o nome dele sim, li na carta. Ento, somos primos?
- Isso mesmo! Bem, gente, no precisam ficar tristes. Vamos receber com carinho esse nosso parente que a gente no conhecia.
Walther se abaixou, pegou a mo de Maria e a beijou, dizendo:
- Sua bno, minha av, estou muito feliz por estar aqui e poder conhecer a todos.
- Deus o abenoe, no se incomode com nossas lgrimas. Gente velha  assim mesmo, chora  toa.
Walther sorriu e fez o mesmo com os outros avs, que tambm o abenoaram e lhe deram as boas-vindas. Estava realmente feliz por encontrar aquelas pessoas, que embora 
fossem estranhos para ele, naquele momento o levavam para bem perto de todo o seu passado. Olhou para uma porta, tentando ver se sua me saa por ela, mas no saiu 
ningum. Lula disse:
- Eu moro aqui com nossos avs. Eles se recusam a sair daqui e, para ser sincero, gostei muito disso. Por isso, no fao sacrifcio algum, no gosto da vida da cidade. 
Mas, seja bem-vindo. Acredito que vai ficar aqui ao menos alguns dias. No trouxe bagagem?
Walther sorriu, fazendo com a cabea que sim. Acompanhado por Lula, foi at o jipe, tirou a maleta, entrou novamente na casa. Abriu-a, pegou o porta-retratos e a 
carta, entregou  sua av Branca, me de Paulo. Ela olhou para aquele rosto. Walther percebeu que ela ficou muito emocionada. Aps olhar por alguns instantes, passou 
para Maria que, ao ver o rosto da filha, recomeou a chorar. O av tambm se emocionou. Walther ficou sem saber o que dizer, mais uma vez Lula veio em seu auxlio:
- Eles esto assim, porque faz muito tempo que no tm notcias da tia Marta.
- Ela no est aqui?
Foi Maria quem respondeu:
- No, meu filho, desde aquele dia que o pai a expulsou, nunca mais tivemos notcias dela. O Paulo veio aqui em busca dela, mas no falou nada a seu respeito.
Walther sentiu uma desiluso imensa. No conseguiu evitar a expresso de tristeza. Aps alguns instantes, disse:
- Vim at aqui na esperana de encontrar minha me, mas, infelizmente, isso no vai acontecer.
- No fique triste, meu primo. No encontrou sua me, mas encontrou seus avs, eu, e logo vai conhecer outros parentes que moram na cidade. No sei se sabe, mas 
sua famlia  muito grande.
Walther sorriu novamente.
- , meu primo, voc tem razo. Estou muito feliz por saber que no estou s nessa vida. Essa carta que est nas mos do nosso av explica tudo.
Antnio, o av, entregou-a para Lula dizendo:
- A gente no sabe ler. Lula quer ler para a gente?
Lula pegou a carta, assim que passou os olhos, percebeu que era uma carta de despedida. Percebeu que, para que ela estivesse nas mos de Walther, era porque Paulo 
havia morrido. Emocionado, disse:
- Mais tarde vou ler, porm, agora, est muito calor e o primo deve estar cansado. Por suas roupas, percebo que est precisando de um banho e de roupas limpas. Na 
estrada, tem muita poeira.
Walther entendeu que ele no quis dizer aos avs que Paulo havia morrido. Disse:
- Lula, voc tem razo. Estou mesmo cansado e precisando de um bom banho. Se permitir, vou fazer isso agora, s que no tenho roupas limpas. Todas esto sujas.
- No se preocupe, primo, temos o mesmo corpo, acho que as minhas iro servir em voc. Venha comigo, vou lhe mostrar o banheiro e onde dormir. Vou tambm lhe dar 
algumas roupas, depois a Leda vai lavar e passar as suas.
Walther agradeceu ao primo em pensamento. Queria sair dali naquele momento. Sabia que teria que contar tudo, mas no estava preparado. Eles eram muito velhos, teriam 
que ser preparados para receber a notcia. Acompanhou Lula, que o levou at o banheiro. No corredor, Walther notou que havia muitos quartos, por isso a casa possua 
tantas janelas. Sentiu novamente um aperto no corao. Lembrou-se do sonho. Pensou: Tinha tanta esperana de encontrar minha me. Infelizmente, no aconteceu. Ao 
menos, encontrei uma famlia. Este meu primo parece ser uma pessoa de bem. E muito gentil. Eu, por minha vez, gostei dele. Nem parece que nos conhecemos s agora... 
Lula abriu a porta de um quarto. Enquanto entravam, ia dizendo:
- Nesta casa, j moraram muitas pessoas, a famlia era muito grande. Quando o tio Paulo voltou, estava muito feliz, disse que encontrou a pedra e que mudaria a vida 
de todos. Eu ainda no era nascido, mas nossos avs sempre contam a histria. Nossos tios foram embora, alguns estudaram e hoje esto muito bem. Meu pai se casou, 
mudou para a cidade, mas sempre ficou ao lado dos pais, nunca deixando faltar nada.
- Por que voc est aqui? Do modo como fala, parece ser uma pessoa com instruo?
- Quando criana, vinha passar as frias aqui e adorava. Meu pai, com o dinheiro que tio Paulo mandou, estudou e se tornou advogado. Sempre acreditou que todos os 
seus filhos deveriam estudar. Fiz a vontade dele, me formei, sou advogado, mas nunca me senti como tal. Nunca suportei a idia de ficar de palet e gravata o dia 
inteiro. Entreguei o diploma para meu pai dizendo:
- Agora, j sou um doutor, s que vou para o stio dos meus avs. Quero viver l para sempre!
- Meu pai no entendeu o porqu daquilo, mas, diante da minha atitude e percebendo que eu j havia decidido, s lhe restou aceitar. Foi assim que vim para c e nunca 
mais quis ir embora. Cuido de tudo e estou perto dos meus avs, cuidando deles. J deu para voc notar que eles continuam aqui de teimosos.
- Realmente, j esto muito velhos. Sem voc por perto, seria difcil continuarem aqui.
- Por isso estou aqui, dou a eles tudo aquilo de que precisam, alm disso, gosto muito deles. Para ser sincero, consegui unir o til ao agradvel.
Walther colocou a maleta sobre um sof, ficou olhando por todo o quarto. Havia uma cama de casal, um guarda roupa, uma cmoda, e no canto, um sof. Aps olhar por 
alguns segundos, disse:
- Talvez no v acreditar no que vou lhe dizer, mas eu sonhei com esta casa.
- Acredito, sim. Quando dormimos, nosso esprito sai para passear. Vai a muitos lugares.
Ao ouvir aquilo, Walther quase gritou:
- No! Voc tambm, no!
Lula no entendeu a reao de Walther.
- Eu tambm no o qu?
- Voc tambm vem com essa histria de esprito? Parece que todos com quem converso pensam da mesma maneira! Neste pas, todos acreditam nessas coisas?
Lula comeou a rir:
- Quer dizer que j ouviu falar sobre isso?
- Com todas as pessoas que conversei por mais de dez minutos. Todos aqui acreditam mesmo nisso?
- No! Nem todos! Alis, a maioria acredita que espritos so coisas do diabo. E quem estuda sobre isso  o prprio diabo! Este pas  muito catlico, principalmente 
aqui no Nordeste. Essa doutrina ainda  muito nova. Nem todos aceitam. Eu aceitei e acredito fielmente, mas agora no  hora de falarmos sobre isso. Vamos at o 
meu quarto, vou pegar algumas roupas para que use at as suas serem lavadas.
Saram do quarto, Lula abriu uma porta que ficava ao lado, entraram. Como o outro quarto, este tambm era muito simples. Enquanto Lula pegava algumas roupas no armrio, 
Walther notou que no criado-mudo havia um porta-retratos com uma foto de uma moa muito bonita. No resistiu  curiosidade. Perguntou:
- Quem  a moa da fotografia?
Lula pegou o porta-retratos nas mos, olhou, sorriu, dizendo:
- Esta  Nomia, foi minha esposa, se foi, mas  meu eterno amor...
- No entendi, se  seu eterno amor, por que o abandonou?
- No disse que ela me abandonou.
- Voc disse que ela foi a sua esposa, mas que se foi!
- No nos separamos, ela partiu para junto de Deus...
- Morreu? Voc diz isso com toda essa calma? No a amava de verdade?
- Eu a amava muito mais do que possa imaginar, mas sei que ela cumpriu o seu tempo aqui na Terra e que est agora me esperando, pois a qualquer momento tambm irei, 
alis, todos iremos um dia.
- Por mais que me esforce, no consigo acreditar no que est dizendo. Voc no a amava? No consigo aceitar a morte com essa facilidade.
- Isso  porque no acredita que exista vida aps a morte, mas eu acredito. Acredito na sabedoria Divina, acredito que Nomia veio apenas por um tempo. Viveu o tempo 
necessrio para me fazer feliz e entender essa nova doutrina. Sim, foi por ela que comecei a conhecer e aceitar a espiritualidade.
- No entendo, mas preciso respeitar a sua opinio. Se  feliz assim, que posso dizer, no ?
Lula recolocou o porta-retratos no criado-mudo dizendo: 
- No precisa entender nem dizer nada. Precisa apenas tomar banho e trocar de roupas, venha.
Saram do quarto, Lula acompanhou Walther at o fim do corredor, parou em frente a uma porta, dizendo:
- Aqui  o banheiro. Graas a Deus, faz muito tempo que no temos seca, por isso tem gua  vontade para que possa tomar o seu banho.
Walther pegou as roupas, uma toalha, entrou no banheiro. Como todo o resto da casa, o banheiro tambm era muito simples. Viu um chuveiro e uma torneira, havia tambm 
uma pia. Na parede sobre ela, havia um espelho e, sobre a pia, uma navalha e um pincel de barbear. Pegou o pincel, passou em um sabonete e com a navalha fez a barba, 
que j estava bem crescida. Tirou a roupa, abriu a torneira do chuveiro e uma gua morna comeou a cair sobre seu corpo. Aquela gua era como um blsamo. Enquanto 
se lavava, ia pensando em tudo o que Lula havia lhe dito. Pensou naquelas pessoas que o aceitaram sem querer ver documentos ou provas de quem era e se o que estava 
dizendo era realmente verdade. Se eu estivesse mentindo? Eles me aceitaram assim que me viram. Como  estranho esse meu primo. Que  isso que est acontecendo? Parece 
que no so estranhos... Parece que j os conheo h muito tempo... Terminou de tomar banho, agora j se sentia outro. Vestiu a cala e a camisa que Lula lhe deu. 
Coube direito: Como o Lula disse, temos o mesmo corpo. No sei como vou contar a eles que o Paulo morreu. A carta ficou com o Lula, talvez de tenha um modo de falar, 
conhece os velhos bem mais que eu. Saiu do banheiro, percebeu que a porta do quarto do primo estava aberta. Foi at l. Ele estava recostado na cama, lendo a carta. 
Bateu suavemente  porta. Lula olhou, sorriu. Walther perguntou:
- Posso entrar?
- Claro que pode, foi por isso que deixei a porta aberta. Queria falar com voc a respeito desta carta. J li um pouco. Ento, o tio Paulo morreu?
Ele se aproximou, dizendo:
- Sim, mas eu o encontrei ainda vivo. Tentou me contar o que havia acontecido, mas no conseguiu, morreu antes disso.
- Por que no nos avisaram? Nem sabamos que estava doente.
- Ele no quis, tinha a mesma crena que a sua, disse que queria ser lembrado como sempre fora. Com a doena, ficou muito magro e abatido. Foi sepultado em Campos 
do Jordo, uma cidade muito bonita, junto a uma montanha muito colorida. Um lugar que ele adorava.
- Voc acompanhou seu sepultamento?
- Sim, ele morreu um dia aps a minha chegada ao Brasil.
- De onde? Por que veio?
- Vim dos Estados Unidos, vivi l toda a minha vida. Vim porque ele me chamou atravs de uma carta. At h pouco tempo no sabia de sua existncia.
- Como assim? O que aconteceu?
- Est tudo nessa carta. Ele, com medo que no tivesse tempo de me contar, deixou tudo escrito.
-  uma carta bem longa.
- Se quiser posso lhe adiantar tudo. Ele simplesmente me vendeu. Roubou-me de minha me.
- Agora no. Mas j estou entendendo mais ou menos o que aconteceu. Vou ler mais tarde, agora vamos at a sala, no esquea que nossos avs esto nos esperando. 
Eles devem ter muitas perguntas.
- Acredito que sim, vou procurar responder a todas. S no sei como dizer que o Paulo morreu...
- Por que se refere a ele como Paulo e no como pai?
- Porque, na realidade, no o considero como pai, fui criado outro homem que julgava ser meu pai, a quem muito amei. Ainda no me acostumei com essa minha nova situao.
- Entendo... Esta carta deve mesmo conter uma longa histria.
- Sim! Muito longa e mudou a minha vida. Vamos l para a sala?
Foram para a sala. Assim que chegaram, Walther percebeu que a mesa estava posta com muita comida. Uma senhora que ele ainda no conhecia colocava a comida sobre 
a mesa. Os avs continuavam sentados no sof. Lula, ao ver o espanto de Walther, disse:
- No interior  assim, acordamos muito cedo, antes de o sol nascer e por isso o jantar tambm  servido antes de o sol se pr. Deve estar com fome. Quero lhe apresentar 
a Leda, est conosco h muito tempo. Cuida da casa e de todos ns.
Walther olhou para Leda que lhe sorria. Estendeu a mo, dizendo:
- Muito prazer, meu nome  Walther, sou o mais novo neto da casa.
- O prazer  todo meu, seja bem-vindo! Lula se  dirigiu aos avs, dizendo:
- Gente. Vamos comer? Vamos mostrar a esse primo o que  uma boa comida?
Rindo, os velhos se levantaram e se dirigiram  mesa. Walther esperou que todos se sentassem para depois sentar. Leda comeou a colocar arroz, feijo e carne de 
sol nos pratos dos velhos. Walther seguia seus movimentos e percebeu com que carinho ela fazia aquilo. Lula, colocando a sua prpria comida, olhou para Walther e 
disse:
- Vamos, primo. Pode se servir! A comida da Leda  muito boa, tenho certeza de que vai gostar.
- Vou sim! J h alguns dias venho comendo a comida feita aqui no Brasil. Parece que a mulher brasileira tem um dom especial para cozinhar. Minha me tambm cozinhava 
muito bem, mas nunca igual s coisas que comi por aqui.
Comeram, conversando e rindo muito. Dona Maria, me de Marta, no tirava os olhos de Walther. Ele percebeu, mas fez de conta que no estava notando. Imaginava o 
que estava passando Pela cabea daquela senhora ao ver diante de si o neto que um dia Permitiu que seu marido expulsasse de casa. Sentiu um certo rancor por ela. 
Enquanto comia diante daquela mesa imensa, tentou imagin-la cercada por muitas crianas. Lembrou-se de Paulo contando como viviam. Estava com seu pensamento distante, 
quando ouviu seu av pai de Paulo, dizendo:
- O senhor est gostando da comida? Walther se admirou com a pergunta:
- Estou gostando muito, mas, por favor, no me chame de senhor. Sou seu neto. Filho do Paulo e da Marta!
Lula percebeu que Walther estava nervoso por ver que o av no havia entendido ainda quem ele era:
- Vov, este moo  meu primo e seu neto. Lembra do filho da tia Marta?
O velho ficou calado, parecia no entender. Lula olhou para Walther, fez um sinal que entendeu e no continuou a conversa. Terminaram de comer. Levantaram e foram 
para a sala ao lado. Sentaram-se todos em sofs. Maria, a me de Marta, disse:
- Meu cunhado j h algum tempo est perdendo a conscincia de tudo. Esqueceu muitas coisas. O mdico disse que  esclerose, mas eu me lembro muito bem de tudo o 
que aconteceu. Se  filho da Marta, por que nunca apareceu aqui? Onde ela est? No vou morrer enquanto no a ver novamente. Preciso lhe pedir perdo por no t-la 
ajudado quando precisou.
Walther olhou para todos, principalmente para Lula, que parecia aflito, mas no podia esconder mais o que estava sentindo:
- Enquanto eu comia, pensava justamente nisso. Por que no impediu que seu marido a expulsasse daquela maneira?
Maria tentou secar uma lgrima que escorria por seus olhos:
- Eu tentei, mas os homens em nossa famlia tinham sempre a ltima palavra. Meu marido era muito bom e muito honesto, por isso no admitiu o erro dela.
- Pois com esse gesto feito por ele, a minha me ficou sozinha neste mundo, foi enganada e me separaram dela. Fui criado em outro pas, com outros pais. Nunca soube 
disso at h bem pouco tempo. Pergunta-me onde ela est? Tambm no sei. Vim at aqui na esperana de encontr-la. Mas, infelizmente, isso no aconteceu. Estou feliz 
por conhecer a todos, por saber que tenho famlia, mas muito triste por no saber se minha me est viva ou morta.
- Sinto muito por tudo isso. Estou aqui nesta casa e vou ficar at o dia em que ela voltar, ou at quando Deus me levar. Tenho sonhado muito com ela, por isso sei 
que est viva. Ela no morreu. Acredite nisso. Agradeo a Deus por este momento, por ver que voc se transformou em um homem muito bonito.
Branca, a me de Paulo, continuou:
- Isso mesmo, Maria. Ele no parece o meu Paulo, quando tinha a sua idade?
- Parece mesmo. O mesmo porte e at o mesmo modo de falar.
- Sabe, meu neto, seu pai sempre sonhou muito e correu atrs dos sonhos. Sabia que ia encontrar uma pedra e a encontrou. Se for igual a ele, vai encontrar sua me. 
Como a Maria disse, no acredito que ela esteja morta. Sinto que a vai encontrar quando menos esperar.
- Este  hoje o meu maior desejo, mas no sei como ou onde procurar.
- Vai encontr-la, meu neto, sinto isso e, quando a encontrar, se eu no estiver mais aqui neste mundo, pea perdo por ns. Diga que nunca a esquecemos, que sempre 
estivemos aqui esperando a sua volta. Por isso no fomos embora para a cidade. O nosso medo era que ela voltasse e no encontrasse a gente.
Walther ouviu sua av Branca dizer aquelas palavras. Olhou para ela, sentiu uma estranha ternura por aquela velhinha que falava de Marta com tanto amor e saudade. 
Sem perceber, aproximou-se e a abraou com um carinho sincero:
- Vou lhe prometer, minha av, vou procurar minha me por todo este Brasil e assim que a encontrar vou traz-la at aqui. Como a senhora diz, ela tem que estar viva 
em algum lugar e eu vou encontrar esse lugar.
A av tambm o abraou e, chorando, disse:
- Deus o abenoe e ilumine o seu caminho.
Lula percebeu que aquela conversa estava ficando muito triste e os interrompeu:
- Nada sabemos sobre o nosso futuro, ele a Deus pertence, mas podemos mudar algumas coisas. Por exemplo, eu e o meu primo vamos sair um pouco e andar por a, antes 
que o sol desaparea e surja a noite. Ainda poderemos ver um bom pedao da propriedade. Que tal, primo? Aceita o meu convite?
Walther percebeu a inteno do primo. Com a cabea, aceitou Saram. J fora da casa, Lula disse:
- Apesar de ter nascido aqui, voc viveu fora deste pas. Por isso no entende algumas coisas que aqui acontecem.
- Por que diz isso, Lula?
- Notei que voc julgou e condenou nossos avs por tudo o que aconteceu em sua vida.
- Claro que sim. Eles foram os responsveis. Se tivessem abrigado a minha me, eu teria nascido aqui e seria hoje como voc. No teria sido vendido como se fosse 
uma "pedra" ou um escravo. Minha me no teria sofrido tanto como sofreu. Hoje, ela estaria aqui ou em qualquer outro lugar, mas eu saberia que lugar era esse.
- Voc tem razo em algumas coisas, mas no conhece a nossa cultura. Hoje, j  um pouco diferente, mas no mudou muito.
- No estou entendendo o que est querendo me dizer.
- Assim como no conhece a nossa cultura, no conheo a sua. No pas em que foi criado, talvez tudo seja diferente, mas aqui a honra sempre foi, e ainda  em alguns 
lugares, muito importante. Naquele tempo, era mais rgida ainda. Para um sertanejo, a honra est acima de tudo. Percebeu que nossos avs so analfabetos, no entendem 
nada de leis, s conhecem uma. A honra. Quando souberam que sua me havia ficado grvida e que o pai era o prprio primo, houve um atentado contra a honra deles. 
Como a v Maria disse, os homens dominavam e continuam dominando tudo. Ela, mesmo que quisesse, no poderia fazer nada.
- Mas no devia ser assim, Lula! Com essa ignorncia, mudaram a minha vida, provavelmente destruram a de minha me!
- Concordo com voc, mas nada pode ser mudado. S posso lhe dizer que nada acontece nesta Terra, sem um motivo ou vontade de Deus. Sua lei  justa e verdadeira.
-  muito fcil para voc dizer isso! Foi criado por seu pai e por sua me, nunca foi afastado deles. Mas eu no aceito! - Walther disse nervoso.
- Aceitando ou no, no poder mudar o passado. Tudo aconteceu do modo que foi planejado.
- No estou entendendo. Quem planejou?
- Poderia explicar-lhe, mas, com certeza, no acreditaria, por isso s posso lhe dizer que siga seu corao, sua intuio. Se tiver que encontrar sua me, isso acontecer, 
do contrrio, no adianta se atormentar.
- Voc fala de uma maneira como se fosse tudo certo e natural.
- Por tudo que aprendi e acredito, realmente tudo  certo e natural. Acredito que esta vida no  nada diante de uma eternidade. Acredito que estamos neste planeta 
por muito pouco tempo, que nosso verdadeiro lar no  aqui.
- L vem voc novamente com essa de religio.  muito fcil acreditar e aceitar em nome de uma religio qualquer, mas a realidade  outra. Fui vendido! No sei se 
minha me est viva ou morta!
- Fique calmo. No se trata de religio,  a certeza de que, se existe um Deus, Ele s pode ser bom, generoso e justo e no tem filhos preferidos. Ama a todos ns 
da mesma maneira. No permitiria que uma injustia fosse feita. Eu acredito nesse Deus.
- Acredita tanto que no se importou com a morte de sua mulher?
- Claro que me importei. Ficamos casados por dois anos e foi o tempo mais feliz de minha vida. Eu a amava e era amado.
- Como, ento, aceita com tanta naturalidade a sua morte? Por que no questiona esse seu Deus? No acredita que Ele foi injusto com vocs?
- Quando Nomia morreu, eu sofri muito. Senti saudades, mas havia aprendido com ela mesma que a morte no existia. O esprito continua. Sei que ela est em algum 
lugar, em outra dimenso, me esperando. Isso me faz sentir que devo continuar a minha vida, at o momento que possa retornar e a encontrar novamente.
- Algumas vezes, chego at a acreditar que a religio  realmente o pio do povo. Essa crena em Deus faz com que as Pessoas no lutem por aquilo que acreditam. 
Por isso, continua a ignorncia e a pobreza neste mundo.
- Por tudo isso que h no mundo e por acreditar em Deus  que tenho a certeza de que somos um esprito e que ele vai e volta muitas vezes, sempre se aperfeioando, 
sempre aprendendo.
- No consigo entender isso que est dizendo, Lula. No consigo aceitar ter sido vendido e afastado de minha me.
- No sabemos de nada. No sabemos quais foram os motivos.
- Sei muito bem qual foi o motivo! O Paulo quis ter dinheiro!
- No estou falando do motivo que levou o tio Paulo a fazer aquilo. Estou falando do motivo que a vida lhe deu para agir daquela maneira.
- Que vida? Que motivo? Foi s ganncia, nada mais que isso!
- No sei, no. Acredito que exista uma fora maior que nos conduz...
- Quer dizer que a minha me precisava passar por tudo isso? Foi isso que aprendeu com a sua religio?
- Foi isso sim que aprendi, mas aprendi tambm que todos temos o livre-arbtrio e que podemos, atravs de nossas escolhas, mudar tudo.
- Cada vez o entendo menos.
-  mesmo um pouco complicado, mas por tudo que aprendi e acredito, por um motivo qualquer, que no sei qual seja, sua me precisava viver separada de voc e do 
tio Paulo. O tio Paulo poderia ter usado do seu livre-arbtrio e ter mudado tudo, mas no usou. Por qu? Por dinheiro? Por acreditar que assim fazendo poderia lhe 
dar uma vida diferente?
Walther ficou calado, no sabia o que responder. Lula continuou:
- Se ele soubesse que iria encontrar a pedra, teria feito aquilo? Por que, assim que voc foi embora, logo em seguida a encontrou? Ainda assim no acredita que existe 
uma fora maior que conduz a tudo e a todos?
Walther permanecia calado, tentando responder aquelas perguntas. O primo falava com tanta firmeza e sinceridade que o deixou confuso.
- No sei... No sei o que pensar ou responder. Tudo  muito estranho.
- Sei disso, no se preocupe, tudo tem sua hora. Falando em hora, j est anoitecendo, precisamos dormir. Amanh, vou lev-lo at a cidade, que fica a trinta quilmetros 
daqui. Vai conhecer meus pais e todo o resto da famlia que vive aqui. Voc quer?
-  o que mais quero. Sabe que, apesar de tudo, estou feliz ter uma famlia grande e, o melhor de tudo, ter conhecido voc.
- Tambm estou feliz. Voc  um bom homem, um pouco perdido, mas vai encontrar o seu caminho. Vamos entrar?
- Vamos sim, mas, antes, me responda, voc leu toda a carta do Paulo?
- No, no deu tempo, li s at quando ele comeou a contar que tinha trocado voc por dinheiro e encontrado a pedra. A voc terminou de tomar banho e veio para 
o meu quarto.
- Est bem, continue lendo, garanto-lhe que vai ter muitas surpresas.
Entraram. Os avs estavam tomando ch. Lula disse:
- Eles fazem isso todas as noites antes de dormir. Tomam o ch e se despedem.
Ele ia continuar, mas a av Branca disse:
- Est na hora da gente se deitar. Podem ficar conversando aqui, mas no se esqueam de tomar o ch. Com ele, vo dormir melhor. Boa noite!
Os trs se aproximaram e beijaram Lula e Walther, que, espantado, retribuiu os beijos.
- Boa noite... Durmam bem...
- Voc tambm, meu neto, durma bem. Esta casa  sua.
- Obrigado...
Walther e Lula seguiram com os olhos at que eles se afastaram. Assim que entraram em seus quartos, Walther disse:
- No sei por que, mas me sinto estranho na presena deles. Estou feliz por t-los encontrado, mas no consigo esquecer que eles um dia me expulsaram desta casa.
- Eles no o expulsaram, Walther, mas sim a honra ferida! Hoje, esto velhos e j sofreram muito por isso. No devemos julgar ningum, pois no sabemos de nada. 
Vamos tambm nos deitar? Amanh, voc ter um dia de muitos encontros. Sei que a sua presena vai trazer muita felicidade para todos. Principalmente para  meu pai, 
que era muito amigo do tio Paulo. Ele, como todos os outros, ajudaram a procurar por sua me, mas ela no quis ser encontrada.
- Ou morreu quando voltava, desiludida e triste, para esta casa.
- Talvez, mas agora precisamos dormir, vou acompanh-lo ate a porta do seu quarto. Aqui faz muito calor, a Leda deve ter deixado um short sobre a sua cama, no conseguir 
usar nada alm disso. Vamos?
Walther acompanhou Lula. Deu boa noite e entrou naquele que seria o seu quarto. Lula tinha razo, sobre a cama havia um short, uma camiseta e uma toalha de banho. 
Olhou para sua maleta foi pegar a fotografia da me, mas no a encontrou. Lembrou-se que a havia entregado  sua av. Ela no me devolveu. Mas no posso deixar com 
ela. Antes de ir embora, vou pedir de volta. Deitou-se e imaginou: Talvez, neste quarto, minha me dormiu um dia. Sinto que algum me observa. Levantou, foi at 
a janela e verificou se estava bem fechada. Fez o mesmo com porta. Aps ter certeza de que tudo estava bem trancado, voltou a se deitar. Fechou os olhos, tentando 
dormir. A imagem de Paulo, Lula e os avs passavam por sua cabea. Quem poderia imaginar que estes bondosos velhinhos, um dia, fizeram uma maldade como aquela? Lula 
diz que  a cultura, mas no consigo aceitar. Em meu pas, ser dessa mesma maneira? No sei, nunca soube de uma moa que houvesse tido um filho solteira... No 
sei... Nunca prestei ateno a isso. Quando penso que todos so meus parentes, fico emocionado... Com o Lula principalmente... Me sinto muito bem conversando com 
ele. Essa sua crena, ser verdadeira? Ele me parece bem seguro a respeito... Acredita realmente que haja outra vida aps a morte, que haja mesmo um Deus que comanda 
a tudo e a todos. Ser verdade? No, no  verdade! Quantas guerras hoje esto sendo travadas por este mundo? Sem propsito, s pelo poder! Quantos no esto morrendo 
por nada! Onde est esse Deus que permite que isso acontea? Se perguntar ao Lula, saber me responder? Com certeza, inventar uma desculpa qualquer e dir que tudo 
 vontade de Deus... Ficou pensando, mas estava cansado, no s por sua viagem que havia sido longa, mas por todas as emoes que havia passado. Desde que cheguei 
aqui, sinto que minha vida est mudando cada vez mais rpido... Alm de descobrir que sou um homem muito rico, conheci pessoas que me receberam com muito carinho, 
descobri no estou s no mundo... Alm dessas idias em que o Lula e os outros acreditam. S no encontrei minha me... Queria tanto que acontecesse, s assim poderia 
voltar com tranqilidade... Pensou muito, virou-se, ajeitou o corpo e adormeceu. Sonhou estava novamente diante daquela casa com muitas janelas. Via Marta por trs 
da janela. Correu para perto dela, mas acordou. Com os olhos abertos, viu-se novamente no quarto em que dormia. Olhou para a janela, percebeu que o dia j estava 
nascendo. Virou-se, tentando dormir novamente, mas no conseguiu. Sentiu sede, levantou-se e foi at a cozinha beber gua. Assim que entrou, percebeu que Leda estava 
junto ao fogo, esperando que a gua fervesse para fazer o caf. Assim que ele entrou, ela se assustou. No esperava que algum aparecesse. Walther, ao ver que a 
havia assustado sem querer, disse:
- Desculpe! No quis assustar voc, s vim at aqui para beber um pouco de gua.
- No tem importncia. Assustei-me, mas j passou. Perdeu o sono?
- Ontem fui dormir muito cedo, no estou acostumado. Tive um sonho estranho, acordei sentindo muita sede.
- Vou lhe dar gua, mas se quiser esperar um pouco, logo vai sair um caf fresco.
- Vou esperar sim, no sinto nem um pouco de sono.
- Isso  bom, assim a gente pode conversar. Desculpe-me, sou s a empregada da casa, mas j vivo aqui h muitos anos. Ouo diariamente seus avs falarem da sua me. 
Eles no se esqueceram dela e carregam at hoje a culpa do que fizeram. Principalmente sua av Maria. Ela se culpa por no ter lutado contra o marido e impedido 
que ele fizesse aquilo. O que mais a atormenta  no saber o que aconteceu com a filha. Diz que vai ficar aqui at que ela volte. Como j percebeu, eles no precisariam 
estar mais aqui. Poderiam viver tranqilos na cidade, junto com os outros filhos ou em uma casa prpria, mas no saem daqui, dizendo que, se a Marta voltar, no 
os vai encontrar e no saber onde eles esto. Esperam por ela o tempo todo. Enquanto o senhor passeava ontem com o Lula, disseram-me o quanto estavam felizes com 
a sua chegada. Para eles, foi como um perdo de Deus. So pessoas simples. Percebeu que eles no sabem falar muito bem e que so analfabetos, mas tm bons aprenderam. 
Quando jovens, trabalharam muito para criar os filhos Est vendo esta terra, que hoje est verde e bonita? De repente tudo isso pode se transformar em terra pura. 
Quantas vezes eles viram sua plantao secar e seus animais morrerem por falta de gua, mas nunca desistiram, esperavam a chuva voltar e comeavam tudo novamente. 
So uns heris! Uns vencedores!
Walther ouviu tudo, calado. Seguia com seu pensamento tudo o que ela estava dizendo. Imaginava seus avs moos e cuidando de todas aquelas crianas. Lembrou-se do 
Isaas quando lhe disse: "No devemos julgar ningum, no sabemos de nada". Leda parou de falar. Ele ficou olhando para aquela senhora que no tinha mais de quarenta 
anos, mas que falava com tanta sinceridade e defendia seus patres com muito ardor. Aps alguns instantes, disse:
- Parece que gosta muito deles!
- Gosto, e muito, foram mais que meus pais. Quando cheguei aqui, tambm havia sido expulsa de minha casa e trazia uma barriga. Tinha quinze anos e fui abandonada 
pelo homem a quem amei. Isso aconteceu logo aps a vinda do senhor Paulo, quando encontrou a pedra e veio procurar a Marta. Eles me receberam como se eu fosse a 
filha que abandonaram. J haviam entendido que no agiram certo com ela, mas no sabiam como a encontrar. Minha filha nasceu e foi criada aqui nesta casa. O senhor 
Paulo tambm me ajudou. Ela se formou, hoje est casada e tenho trs netos. Sou uma mulher feliz e devo toda essa felicidade a esta famlia. Vou ficar com eles enquanto 
precisarem, esta  a forma que encontrei para agradecer tudo o que fizeram por mim.
- Nunca mais se casou?
- No... Aqui, uma moa solteira, com filho, dificilmente encontra um homem que a queira como esposa. Mas isso no me preocupou nunca. Sofri muito com o meu primeiro 
amor, fiquei com medo de ter que passar por tudo aquilo novamente.
- Obrigado por ter me contado tudo isso, Leda. Estou comeando a entender a atitude deles. No aceito, mas entendo. A nica coisa que quero agora  encontrar a minha 
me, mas me parece ser impossvel. O Paulo tentou, no conseguiu. Acredito que se e no voltou para c foi porque morreu. No havia outro lugar para Segundo Paulo, 
ela saiu do garimpo com pouco dinheiro.
- No conheci a sua me, mas sei que foi muito amada pelo senhor Paulo e por todos aqui. Foi a ignorncia que os separou.
- Dos meus avs pode ter sido a ignorncia, mas do Paulo foi a ganncia.
- Percebo que sente um certo rancor por ele...
- Para lhe ser sincero, no sei se rancor, dio ou pena. Ouvi algumas idias desde que cheguei neste pas que esto me fazendo pensar muito.
- J sei, conversou com o Lula sobre religio?
- No s com ele, mas com muitas pessoas, chego at a pensar que aqui todos acreditam nisso! Voc tambm pertence a essa religio?
- Deus me livre! Isso  coisa do demo! Mas gosto muito do Lula. Quando ele casou com a menina Nomia, sabia que ela estava doente e que no viveria muito, mas mesmo 
assim se casou. Viveram aqui por dois anos, foi o tempo que tiveram. Eles viveram esses dois anos com muita intensidade. Nos ltimos dias, quando ela ficou bem mal, 
ele ficou ao seu lado, cuidando e lhe fazendo carinho. Ela era muito doce e acreditava que no iria morrer, que s ia para outra dimenso. Eu no entendia muito 
o que ela dizia, mas ele parecia que entendia e concordava com ela, dizendo:
- Isso mesmo, voc no vai morrer, estar para sempre em meu corao e me esperando, logo mais vou ao seu encontro!
- Ele pensava em suicdio?
- No! Quando lhe perguntei o que queria dizer com aquelas palavras, me respondeu:
- Por que o espanto? Um dia, todos ns no vamos morrer? Ela foi na frente, porque era um anjo que passou rpido pela Terra; eu, ao contrrio, devo ter algo para 
fazer. No se preocupe, no vou fazer loucura alguma. Vou viver e esperar a minha hora. Nessa hora, eu a encontrarei novamente. Temos toda a eternidade para nos 
amar...
- Ele me pareceu muito feliz e tranqilo. Nunca pensei que Poderia ter passado por um drama como esse!
- Ele no s parece, como  feliz e tranqilo. Adora tudo aqui. Levanto mais cedo, porque logo mais chegaro alguns homens que o ajudam na plantao e a cuidar dos 
animais. Assim que chegarem, tero caf e bolo para comerem antes de comear o trabalho. Lula o ajuda, plantando e cuidando dos animais. Vive em cima do cavalo, 
indo de um lado para outro. Est sempre rindo e feliz.
- No acha que essa reao no est certa?
- Por que pergunta isso?
- Depois de tudo que me contou, ele deveria ser uma pessoa triste e infeliz. Eu, ao menos, seria.
- Ele acredita nessa religio, por isso est vivendo a vida com felicidade. Tambm no entendo muito bem, mas  verdade. Ele no est mentindo, vive realmente feliz.
- Quantos anos ele tem?
- Uns vinte e cinco ou vinte e seis, no sei bem. Casou assim que se formou e veio para c. No sei se o senhor sabe, mas ele  advogado.
- Sei sim, isso ele me contou.
- Bom dia! Que  isso, primo? Caiu da cama?
- Bom dia, Lula. Ontem fui dormir muito cedo, acordei com sede, vim at a cozinha, encontrei a Leda, ficamos aqui conversando.
-  bom que j esteja acordado. Assim que os empregados chegarem e aps tomarmos o nosso caf, se quiser, poderemos ir conhecer o resto da famlia que est na cidade.
- Quero sim. Preciso voltar para casa, por isso no poderei ficar aqui muitos dias.
- Terminei de ler a carta do tio Paulo. Sei agora o que quis dizer com as surpresas que eu teria. Sei que hoje  um homem muito rico, nunca pensei que ele no havia 
vendido a pedra e que ela existe at hoje.
-  verdade, ele queria que eu a mostrasse para minha me, quando a encontrasse.
- Mesmo assim, com tanto dinheiro, ainda quer voltar para os Estados Unidos?
- Quero, pois embora eu tenha nascido aqui, no me sinto brasileiro. Tudo me  estranho e diferente. Fui criado de uma outra maneira, com outra cultura. Tenho l 
minha casa e meus amigos, alm do meu trabalho.
- Entendo o que sente, mas com todo esse dinheiro que herdou, poder vir para c sempre que quiser. Ser sempre bem vindo a esta casa e a nossa famlia!
- Sei disso, voltarei muitas vezes. Apesar de no me sentir brasileiro, estou gostando muito deste pas, principalmente das pessoas. So todas muito afetuosas. Gostam 
de abraar e beijar. Mo estou acostumado com essa forma de ateno. Em meu pas, s as pessoas muito chegadas e algumas, tm esse comportamento. Aqui no, todos 
se abraam e se beijam.
Lula no respondeu, apenas sorriu. Leda os interrompeu:
- Se quiserem, j podem tomar o caf. Est pronto e fiz um bolo de fub que vo adorar.
Lula se aproximou dela, beijou sua testa, dizendo:
- Toda a comida que voc faz  muito boa, porque coloca nela muito carinho e faz de boa vontade. Sabe, Walther, essa mulher est nesta casa h muito tempo. Eu a 
adoro! Faz uma das melhores comidas deste mundo.
- Nisso voc tem razo. Adoro cozinhar e fazer pratos diferentes. Nem imaginam o que vou preparar para o almoo.
- Prepare com carinho e sirva meus avs. Eu e o Walther vamos para a cidade, no sei quando voltaremos, pois todos vo querer conhec-lo.
- Se ele for em todas as casas, Lula,voltaro s daqui a quinze dias.
- No posso ficar tanto tempo.
- No se preocupe, meu primo. Voltar quando quiser. Iremos para a casa do meu pai e avisaremos aos outros que voc est aqui. Quem quiser, vir visit-lo.
Sentaram-se. Walther experimentou o bolo de fub e realmente gostou muito. Estavam comendo, quando apareceram na porta cinco homens. Assim que Lula os viu, disse:
- Entrem, sentem e tomem caf. Quero que conheam o meu primo, ele est nos visitando. Seu nome  Walther.
Walther se levantou, estendeu a mo para aqueles homens simples e se apresentou. Eles, com um pouco de vergonha, prprio do homem nascido no interior, tambm estenderam 
as mos e disseram seu nome. Depois, entraram e se sentaram ao lado de Lula. Leda os serviu. Walther ficou vendo aquela cena, pensando: Nunca eu veria em minha casa 
uma cena como esta. Meu Pai jamais permitiria que um empregado se sentasse  mesa junto conosco. Este povo  realmente muito estranho... Lula, sem perceber o que 
Walther estava pensando, disse:
- Josias, eu e meu primo vamos, daqui a pouco, para a cidade Vou lev-lo para conhecer o resto da famlia. Vou deixar tudo nas mos de vocs. Sei que cuidaro muito 
bem de qualquer problema que surgir.
Josias balanou a cabea. Leda disse:
- Pode ir tranqilo, no vai acontecer nada, mas, se acontecer mando cham-lo.
Lula sorriu. Walther terminou de tomar seu caf. Olhou para ele, dizendo:
- Estou pronto, Lula, se quiser, poderemos ir agora mesmo. Mas, e meus avs, no vo tomar caf? Preciso me despedir deles.
- Eles acordam mais tarde, sabe como , velho demora muito para dormir  noite e por isso acorda tarde. Vamos embora, a viagem no  muito longa, mas voc tem muito 
para ver e pouco tempo. Eles sabem que vamos para a cidade. No se preocupe com as despedidas. Vai ainda ficar por aqui alguns dias. Ter tempo para isso.
Saram, acompanhados pelos empregados. Lula deu as ltimas instrues e entrou no jipe de Walther. Aps se acomodar ao seu lado, enquanto Walther ligava o motor 
e saa, ele disse:
- Este jipe  mesmo uma beleza, Walther! Um dia, ainda teremos, aqui no Brasil, indstrias automobilsticas com carros iguais a este.
- Acredito nisso, Lula, mas penso ainda estar longe esse dia. De So Paulo at aqui, a viagem foi muito longa, passei por vrios estados, vi muitas cidades, umas 
grandes, outras menores, mas vi tambm muita pobreza e terras sem plantao. Acredito que este pas tem um grande futuro, s dependendo dos homens que o governarem, 
pois seu povo  muito bom e afetuoso.
- Trabalhador tambm! Por isso, sei que ainda seremos uma grande nao! Pelo menos, espero.
Walther dirigia com cuidado, dizendo:
- Quando vi l de longe a casa com muitas janelas, fiquei to ansioso que nem percebi que havia tantos buracos. Pensava encontrar minha me por detrs de uma das 
janelas, como no meu sonho. Agora, j mais calmo, sabendo que ela no est aqui, a ansiedade passou. Por isso, estou vendo os buracos da estrada com mais clareza. 
Sua me no est aqui, mas voc me conheceu. Sabe, agora, que tem muito do seu sangue espalhado por aqui. Conheceu seus avs...
- Tem razo e, para ser sincero, estou muito feliz por t-lo conhecido. Nem parece que nos conhecemos s ontem. Assim que o vi, pensei j t-lo visto em algum lugar, 
mas isto  impossvel.
- Para voc pode ser impossvel, mas eu acredito piamente que j nos encontramos vrias vezes.
- Impossvel. Cheguei ao Brasil h poucos dias.
- No estou falando desta vida, mas de outras. Antes que me contradiga, no me contou sobre o sonho que teve. Pode contar?
Walther pensou por um instante. Respondeu:
- Posso lhe contar, mas no foi um sonho, foram dois.
- Conte, estou curioso.
Contou os sonhos que tivera e nas condies em que estava quando sonhou. Lula ouviu, sem interromper. Quando ele terminou de contar, Lula disse:
- Foram dois sonhos incrveis, Walther. Foram como um aviso. Ou pode ter sido somente resultado de tudo o que estava vivendo. De tudo o que havia descoberto.
- O Isaas tambm me disse isso, mas foi muito real. Foi por causa deles que resolvi vir at aqui para encontrar a minha me.
- Quem sabe a encontre. A viagem ainda no terminou.
- No acredito mais, perdi as esperanas. Mas, como dizem na sua religio, Deus  quem sabe, no ?
Lula soltou uma gargalhada. Disse:
- Est aprendendo, primo! Est aprendendo...

O CONFRONTO

Chegaram  estrada principal que os levaria at a cidade. A estrada era asfaltada, o que deu mais tranqilidade para que Walther dirigisse. Assim que entraram na 
estrada, Lula continuou a conversa:
- Ser que veio para c s por esse motivo, Walther? S por causa do sonho?
- Claro que foi. Quando terminei de ler a carta do Paulo, s pensei em ir embora. Estava muito chocado com tudo o que descobri. No pode imaginar o que senti, ao 
ver que a minha vida toda havia sido uma mentira. Mas por que est perguntando isso?
- No sei, mas acredito que esse no tenha sido o verdadeiro motivo. Voc no encontrou sua me.
- Tem razo, mas ao menos poderei voltar sem peso na conscincia, eu a procurei. Vou deixar o Isaas, amigo do Paulo, encarregado de contratar algum para que faa 
isso. Se ela estiver viva, eu a encontrarei, mas no adianta eu continuar aqui. Esse trabalho tem que ser feito por uma pessoa que entenda muito bem. No sou investigador. 
Meu trabalho,  s com os nmeros.
- Nisso voc est certo.
A viagem continuou, foram conversando sobre outras coisas. Lula mostrava para ele a paisagem e falava sobre ela. Walther notava que havia casas simples, perdidas 
no meio de pequenas plantaes. Outras eram grandes e pareciam pertencer a fazendas. Respondia s perguntas de Lula, mas seu pensamento estava muito distante dali. 
No estou entendendo como, de repente, a minha vida mudou. Eu, que vivia tranqilo, sem saber de nada, apenas vivendo uma vida normal como tantas outras, hoje estou 
aqui em um lugar to longe da minha terra, conhecendo pessoas que ao mesmo tempo em que sei serem meus parentes, so tambm completos estranhos. No entendo como 
o Lula pode viver em uma situao to simples, sendo advogado e podendo ler uma vida melhor. Vive aqui no meio do nada e parece muito feliz, perdeu a esposa ainda 
jovem, mas parece no sentir essa perda. No se lastima nem reclama... Chegaram  cidade. Como todas as outras cidades grandes que eleja havia conhecido, tinha muito 
movimento de pessoas indo e vindo. Lula foi mostrando o caminho que Walther deveria seguir. Durante esse caminho, ele abanava as mos para algumas pessoas que passavam. 
Fez com que Walther parasse o jipe em frente a uma casa. Walther olhou a placa que estava na parede e que dizia: Dr. Luiz de Almeida. Advogado. Desceram do jipe, 
entraram na casa. Entraram em uma sala, decorada de modo austero, mas confortvel. Lula olhou para uma porta que estava fechada. Disse:
- Meu pai deve estar com algum cliente. Quando aquela porta est fechada,  sinal de que ele no deve ser interrompido. Vamos nos sentar aqui e esperar at que fique 
livre.
Sentaram. Walther ficou olhando tudo  sua volta. Em um quadro, pendurado na parede, viu uma foto com muitas pessoas. Perguntou a Lula:
- Quem so aqueles?
- So todos os nossos tios e avs. Essa foto foi tirada por tio Paulo, quando voltou aps ter encontrado a pedra.
Walther se levantou e foi para mais perto. Ficou olhando o rosto de cada um, querendo reconhec-los. Reconheceu apenas seus avs, os outros eram totalmente estranhos. 
A porta se abriu, um senhor saiu da sala, acompanhado por um outro senhor. Luiz, enquanto acompanhava o seu cliente, ia dizendo:
- Ficamos assim, vou entrar com toda a papelada e assim que houver uma novidade eu mando avis-lo.
- Est bem, doutor, estarei esperando notcias.
Assim que o cliente saiu, Luiz se voltou para o filho, dizendo:
- Bom dia, meu filho. A que devo esta visita to cedo? Aconteceu alguma coisa com seus avs? Est me trazendo um cliente?
Lula se aproximou do pai e o beijou, dizendo:
- Bom dia, pai, no aconteceu nada com meus avs e no estou lhe trazendo um cliente. Este  o Walther, filho do tio Paulo Luiz olhou para Walther, ficou branco, 
quase caiu. Aquilo assustou os jovens. Lula ajudou seu pai a sentar-se, dizendo:
- Que aconteceu papai? Por que ficou assim?
Luiz ficou sem falar, apenas olhava para Walther. Aps alguns segundos, se recomps, respondendo:
- Muito prazer, meu sobrinho. Desculpe a minha reao, mas sei que a sua presena aqui significa que meu irmo morreu...
Lula no entendeu. Olhou para Walther e depois para o pai:
- Como sabe? Por que meu tio estaria morto?
Luiz se levantou, aproximou-se de Walther, abriu os braos. Um pouco desajeitado, abraou-se ao tio. Este comeou a chorar compulsivamente. Os jovens estavam preocupados 
com aquela reao. Luiz se acalmou e pediu que sentassem. Sentaram, olhando para ele com curiosidade. Lula perguntou:
- Papai! Que aconteceu? Por que ficou e est to nervoso?
- Recebi, h dois meses, uma carta do meu irmo Paulo. Nela ele pedia que eu fosse visit-lo. Estava em uma clnica. Pedia tambm que eu no comentasse com ningum. 
No entendi, mas fiz o que me pedia. Encontrei-o muito magro e abatido. Assim que me viu, sorrindo, disse:
- Ol, meu irmo! Estou feliz que tenha atendido ao meu pedido. Como pode notar por meu aspecto, j percebeu que no estou bem e que logo voltarei para o Pai.
- No queria admitir, mas sabia que ele estava com a razo:
- Que aconteceu com voc, meu irmo?
- No sei... Estava bem, mas, de repente, comecei a tossir sem parar. O mdico pediu alguns exames e foi constatado que tenho tuberculose. Ela est em um estgio 
muito adiantado. Embora os mdicos queiram me enganar, sei que no h como det-la, mas isso no me preocupa, j h muito tempo sinto que no existe mais nada para 
fazer neste mundo.
- Que bobagem est dizendo, mano? Voc ainda  jovem e tem muito para fazer.
- No, no tenho. Encontrei a minha pedra, tenho muito dinheiro, mas a minha conscincia no me deixa em paz. No consigo esquecer o mal que cometi contra a Marta. 
Sei que meu filho est muito bem, tendo uma vida normal, mas e a Marta? O que fiz com ela?  Onde estar?
- No deve se atormentar com isso. Talvez tenha errado, mas j resgatou seus erros. Ajudou-nos a todos ns! Hoje, a nossa famlia vive totalmente diferente daquela 
maneira que vivamos. Nossos filhos e sobrinhos esto todos muito bem de vida, com seus diplomas, e tudo graas a voc.
- Era o mnimo que poderia fazer. Estou feliz por eles e por todos ns. Vou partir em breve, no quero que comente nada com a famlia. Quero que pensem que estou 
muito bem e que a qualquer momento aparecerei. Principalmente com os velhos. No quero que venham me visitar. Prefiro que guardem na lembrana aquele Paulo cheio 
de sade e alegria, no este em que me tornei. Estou nestes ltimos dias pensando em algo. Preciso da sua opinio.
- Pode falar, mano. Vou fazer tudo o que me pedir.
- Recebi uma carta do Walther.
- Seu filho? O que ele queria?
- Nada, apenas me comunicar que a Geni morreu e que ela pediu que ele me contasse.
- Ser que ela contou tudo a ele?
- Acredito que no. Na carta, ele foi muito educado, mas no muito longo. Apenas me comunicou o acontecido.
- O que pretende fazer?
- J sei que a minha vida aqui na Terra vai terminar em breve e que o meu filho est s. Vou mandar uma carta, pedindo que venha. Quero eu mesmo contar tudo, como 
e por que aconteceu. Voc sabe, possuo hoje uma enorme fortuna e tudo dele. Vou pedir perdo. S assim poderei partir em paz...
- Acredita mesmo que a sua doena no tem mais cura?
- Acredito, tenho visto muitas pessoas morrerem desde que aqui cheguei. Quando descobri, j estava muito adiantada.
- No sei o que lhe dizer, mas voc foi sempre muito obstinado em tudo que queria. Por isso, conseguiu realizar o seu sonho. Encontrou a sua pedra e fez fortuna. 
No quis nos acompanhar quando voltamos para casa. Acreditou que encontraria a pedra e realmente a encontrou.
- Tem razo, consegui tudo com o que sonhei, s que  para isso fiquei afastado da mulher que amava e ainda amo e do meu nico filho. Procurei por ela durante todos 
estes anos mas foi em vo. Sei que meu filho teve uma vida normal, que cresceu sendo muito amado e feliz, mas e a Marta? Que aconteceu com ela? Estar viva ou morta? 
Estas dvidas no saem da minha cabea. Queria tanto encontr-la para pedir que me perdoasse.
- Meu irmo, no deve se preocupar com isso. No acredito que v morrer. Esta clnica me parece ser muito boa, eles encontraro um meio de cur-lo.
- No se engane. Conheo o meu corpo, sei que ele est cansado, mas no  a minha morte que me preocupa. Tenho conhecimento dos meus erros e acertos, sei que terei 
que prestar contas. Estou preparado, pois hoje sei, tambm, que existe um Deus que  bom e generoso, que nos d sempre novas chances e que perdoa sempre.
- No sei no, mano, mas acho que o meu filho Lula acredita nessas mesmas coisas. Perdeu a esposa que amava muito, mas at hoje nunca se desesperou, diz que vai 
encontr-la, que ela no morreu, apenas vive em outra dimenso.
-  isso mesmo, meu irmo. No vou morrer, o que vai morrer  este meu corpo velho e cansado, mas meu esprito, se preferir, a minha alma, estar viva em algum lugar.
- Tem certeza do que est dizendo?
- De todo o meu corao. Por isso, preciso conhecer o meu filho e vou escrever-lhe pedindo que venha. Se eu no conseguir pessoalmente contar tudo a ele, deixarei 
uma carta, mas preferia eu mesmo contar.
- Voc  quem sabe como deve agir. Ns, a famlia, estaremos sempre ao seu lado, devemos muito a voc e o amamos.
- Pois bem, se, um dia, meu filho for sozinho at o Piau, ser o sinal de que no estarei mais neste mundo. Caso contrrio, irei com ele. Quero que o receba com 
muito amor e carinho. Se ele quiser encontrar a me, ajude no que for preciso.
- Jamais deixaria de atender a um pedido seu. Muito menos um to simples como esse, mas acredito que voc ir com ele, cheio de sade!
Enquanto Luiz ia falando, Walther lembrava de Paulo sentado naquele sof, tentando lhe contar tudo. Aquele homem estava ali tentando me contar seu crime e querendo 
o meu perdo. Hoje, talvez eu at possa lhe perdoar, aps ter conhecido tantas pessoas que s falam bem dele, mas se me tivesse contado pessoalmente, no imagino 
qual teria sido a minha reao... Luiz continuava falando:
- Por isso, meus filhos, quando os vi chegarem, sabia que meu irmo havia morrido. Senti um aperto no corao. Walther, meu sobrinho, o Paulo pode ter errado na 
sua vida, como todos ns erramos, mas se redimiu o mximo que pde e sofreu muito, procurando a sua me, por isso lhe peo que o perdoe e no guarde ressentimento.
Walther ficou olhando para aquele estranho que, na realidade, no era to estranho assim, era seu tio, irmo de seu pai. Para ele, tudo aquilo era novo. No conseguia 
se situar muito bem com tudo o que estava acontecendo. Lula, percebendo que o primo estava confuso, disse:
- Meu pai, devemos entender a situao do primo. Ele, at h pouco tempo, no sabia nada disso. Nunca imaginou que no era filho legtimo do casal que o criou. Em 
poucos dias, est tomando conhecimento de uma realidade nunca pensada. Vamos dar tempo ao tempo. No podemos exigir que ele entenda e perdoe tudo assim, de repente. 
Esse perdo ter que nascer de dentro do seu corao. Nosso Pai Divino vai fazer com que esse dia chegue na hora certa e, quando isso acontecer, ser um perdo profundo 
e sincero, l do fundo do corao.
- Tem razo, meu filho. Por enquanto, vamos embora, sua me vai ficar feliz em receb-lo na nossa casa. Ela est me esperando para o almoo. Vai ter uma surpresa 
enorme! Vamos?
Walther permanecia calado o tempo todo, s pensava e no sabia o que dizer. Lula pegou em seu brao, dizendo:
- Vamos, sim, meu pai. O primo vai comer uma comida deliciosa que s minha me sabe fazer.
Walther sorriu para o primo. No entendia como gostava dele daquela maneira. Conhecera-o no dia anterior, mas parecia que o conhecia h muito tempo. Os trs saram. 
Luiz pegou no brao de Walther, dizendo: 
- A nossa casa  aqui perto, por isso vamos a p. Ser bom porque poder apreciar a cidade que deve ser bem diferente daquela em que foi criado.
- O senhor tem razo, este pas  totalmente diferente do meu, no s nas suas construes, como tambm em seu povo. So todos muito afetuosos e no precisam ser 
da famlia. Conheci uma senhora, v Zu, que no sabia quem eu era, mas, mesmo assim, me tratou com muito carinho. O senhor vai me desculpar se estou um pouco desajustado, 
como o Lula disse,  tudo muito novo. Estou tentando entender.
- No se preocupe com isso. Aps o almoo, no poderei sair com voc, porque tenho alguns clientes para atender, mas o Lula vai lev-lo para conhecer o resto da 
famlia que vive aqui. Ver como ficaro felizes em ver e conhecer o filho do Paulo. Todos foram ajudados por ele. Mas, mesmo que no o tivessem sido, receberiam-no 
com o mesmo carinho. A nossa famlia  muito unida. Os que esto longe sempre escrevem para dar e receber notcias.
Walther apenas os acompanhou. Ia prestando ateno nas pessoas que passavam por ele. Como toda a cidade grande, havia muitas lojas de comrcio. Lula e o pai iam 
conversando com ele, mas s respondia com sim ou no. Fingiram no prestar ateno, sabiam que ele estava com pensamentos e conflitos. Em dado momento, Luiz parou 
em frente a uma padaria, entrou e saiu com um pacote que continha po. Seguiram caminhando. Andaram por uns quinze minutos. Luiz, tentando agradar ao sobrinho, disse:
- Walther, voc est entendendo por que tenho essa boa sade?
- No! Por qu?
- Fao esta caminhada quatro vezes ao dia. Alm de rever meus amigos, caminhando, fao com que meu corao ande bem.
- O senhor tem razo. Faz uma atividade fsica sem que seja difcil. Eu, ao contrrio, nunca tenho tempo para isso, vivo correndo e sempre ando de carro.
Chegaram em frente a uma casa, no muito grande, mas que possua uma boa aparncia e um jardim muito bem tratado. Lula tocou a campainha e foram entrando. Uma senhora 
saiu, sorrindo, da casa. Vinha acompanhada por mais duas moas e um rapaz. Disse:
- Lula, meu filho! Assim que ouvi a campainha, sabia que era voc me visitando.
Ao ver Walther, parou de falar. Lula abriu os braos, sorrindo:
- Foi por isso que toquei a campainha, precisava anunciar a chegada do seu filho preferido!
Os irmos fizeram uma cara de deboche. Ele continuou:
- No adianta vocs ficarem com essa cara, sabem que sou o preferido mesmo!
Uma das moas respondeu:
-  por que no vive sempre aqui, s vem como visita.
- Ora, Neuza. No precisa ficar com cime! Sabe que, no corao da nossa me tem lugar para todos.
Percebendo que eles estavam curiosos para saber quem era aquele estranho, continuou:
- Quero lhes apresentar o Walther, nosso primo, filho do tio Paulo!
Walther no conseguiu evitar de ficar feliz ao ver a alegria que a sua presena causou. Por momentos, esqueceu os pensamentos que o confundiam e foi abraando a 
todos. Luiz, de longe, ia notando a alegria da esposa, filhos e do prprio Walther, que parecia muito com Paulo. Sentiu uma saudade imensa do irmo. Meu irmo querido. 
Ao menos um dos seus desejos est se cumprindo. Seu filho est conhecendo os primos e toda a famlia. Est comeando a se tornar um de ns. Descanse em paz. Por 
aqui, tudo est muito bem. Assim, abraados, os jovens entraram em casa. Dona Cinira, esposa de Luiz, aproximou-se dele um pouco mais atrs, perguntando:
- Aconteceu o que estou pensando? O Paulo morreu?
- Sim. Mas, antes de morrer, conseguiu conhecer o filho. No estranhe as atitudes desse moo. Ele est confuso com tudo o que est acontecendo em sua vida!
- Fique tranqilo. Em breve, passar este momento e ficar feliz por saber que tem uma famlia imensa.
- Espero que assim seja, Cinira, mas vamos entrar? Tem comida para todos?
- Claro que sim.
Entraram, os jovens estavam sentados. Enquanto Cinira terminava de preparar o almoo, Neuza colocou na vitrola um disco de baio. Walther ficou encantado com o ritmo 
mais tocado naquele momento. Enquanto Luiz Gonzaga cantava, todos danavam Ele no sabia danar, ficou s olhando. Neuza o pegou pela mo e comeou a lhe ensinar 
os passos da dana. A princpio, ele no conseguia, mas logo aprendeu e comeou tambm a danar, ora com um ora com outro. Naquele momento, esqueceu completamente 
seus sentimentos. Cinira saiu da cozinha e se aproximou do marido que acompanhava a alegria dos jovens. Luiz disse:
- No demorou muito para ele no negar o sangue. Olhe como j esta danando bem.
- Tem razo, Luiz, parece que j faz parte da famlia h muito tempo.
Ela se dirigiu at a vitrola, abaixou o volume, dizendo:
- A msica e a dana esto muito boas, mas a comida j est pronta. Vamos almoar, depois podero danar.
Sob protestos, os jovens a seguiram em direo  cozinha. A mesa era imensa. Todos sentaram. Lula, sorrindo, disse:
- Walther, meu primo, voc agora vai conhecer a melhor comida do mundo. A da minha me! Ningum cozinha como ela.
- Desde que cheguei j ouvi essa frase muitas vezes! Parece que todas as mulheres cozinham muito bem.
- Mas nenhuma igual a ela. Voc vai ver. Comearam a comer. Todos falavam, enquanto comiam.
Walther demorou para pegar a comida. Sentia muita fome. No sabia se era por causa da terra, ou por estar junto com aquelas pessoas alegres e felizes. J havia se 
acostumado com o arroz e feijo. Sabia, agora, que aquela era a comida preferida de todos. Comeu com apetite e sentiu o sabor, que realmente estava muito bom. Da 
carne assada saa um aroma sem igual. Terminaram de comer. Cinira trouxe em seguida um pudim feito com milho verde. Walther comeu e se deliciou. Assim que terminaram 
o almoo, as moas ajudaram a me com a loua, os rapazes e Luiz voltaram para a sala. O primo Jeremias perguntou:
- Quer dizer que voc foi criado nos Estados Unidos?
- Fui sim.
- Como  l? Igual aqui?
- No, existem muitas diferenas, estamos um pouco mais adiantados na tecnologia. Passei pelo Rio de Janeiro, vi muitos barracos pendurados nos morros. L, isso 
seria impossvel. As construes so diferentes, porque temos neve, os telhados tm que ter uma inclinao maior para que a neve possa cair. Se no fosse assim, 
o telhado no suportaria o peso.
- A neve  muito bonita! Deve ser lindo ver tudo branco!
-  muito bonita, mas tambm muito fria e perigosa.
-  muito fria mesmo?
- Muito! No se pode andar sem estar muito bem agasalhado.
- Gostaria muito de conhecer a neve.
- Poder conhecer quando quiser. Moro l e, quando quiser, terei muito prazer em receb-lo na minha casa.
- Est falando srio?
- Claro que sim. Se estou sendo to bem recebido por todos aqui, qual seria a razo de no os receber da mesma forma? Sero todos muito bem-vindos.
As moas terminaram de arrumar a cozinha, voltaram para a sala. Neuza se dirigiu para a vitrola, ia aumentar o volume, quando Luiz falou:
- Walther, como lhe disse, no vou poder acompanh-lo nas visitas que far hoje  tarde. Preciso voltar para o escritrio, tenho hora marcada com alguns clientes, 
mas, assim que terminar, voltarei. Temos muito para conversar.
- No se preocupe. Cumpra suas obrigaes. Estou muito bem acompanhado. Seus filhos so muito gentis.
- No se iluda, logo estaro brigando. Pode no acreditar, mas brigam por qualquer coisa. Um porque o outro pegou sua roupa ou livro. Se no fosse a Cinira aqui 
para colocar ordem, isso viraria um campo de batalha.
- Em todas as casas onde existem muitos irmos deve ser assim. Eu cresci sozinho, por isso nunca passei por uma experincia dessa.
- Pois aqui isso tem e muito. Olhando para os filhos disse:
- Espero que se comportem na frente do primo. Ele tem que levar uma boa impresso de todos.
Os filhos riram, aproximaram-se do pai e o beijaram. Walther ficou prestando ateno. Pensou em seu pai, o Alan. Ele era muito atencioso, mas nunca permitiu uma 
aproximao fsica dessa maneira. S quando eu era criana, mas depois que cresci, nunca mais me beijou ou simplesmente me abraou. Aps a sada de Luiz, todos se 
prepararam e saram para levar Walther para conhecer os parentes. Alguns moravam perto por isso foram caminhando. Em todas as casas por que passou, foi sempre muito 
bem recebido, parecia uma festa. Ele foi tratado como se fosse algum que todos conheciam. Durante todo o tempo, s ouviu elogios ao Paulo. Ele pensava: Como ele 
conseguiu agradar a todos, aps ter cometido aquele crime, separando-me da minha me? Claro. Comprou a todos com dinheiro, assim como est tentando fazer agora comigo, 
deixando-me aquela fortuna. Ser que, sinceramente, eu poderei um dia perdoar-lhe? Embora pensasse assim, no podia deixar de admirar a todos, pois o recebiam com 
muito carinho, sentia que estavam sendo sinceros. Visitou vrias casas. Conheceu tios e primos, conversou e respondeu a muitas perguntas. Queriam saber como era 
o pas em que ele havia sido criado. Ele respondia, mas no conseguia fazer uma comparao com o Brasil:
- Ali  muito bom para se viver. As pessoas se preocupam com suas casas e famlias. As crianas vo para a escola, os pais trabalham e as mes tomam conta da casa.
Um dos primos, irmo de Lula, perguntou:
-  igual aqui?
- Acredito que sim. Como em todas as casas do mundo. A nica coisa ruim  o clima. Nos estados do Centro, Norte e Nordeste, no inverno faz muito frio, cai neve e 
congela tudo. No vero, o calor  intenso. L, as estaes do ano so bem definidas. Mas, de qualquer maneira, cresci ali e adoro o meu pas. Estou gostando muito 
do Brasil. Aqui a natureza  prdiga. J vi muitos lugares maravilhosos, o povo  agradvel e, apesar da pobreza, me pareceu muito feliz. Porm no consigo me ver 
morando aqui para sempre.
Lula, ao perceber a tristeza no rosto do irmo que havia perguntado, disse:
- Geraldo, no precisa ficar triste. O importante foi conhecer Walther. Agora, ele e ns, sabemos que somos primos. Ele poder voltar quando quiser e ns poderemos 
visit-lo, no , Walther?
Walther, um pouco desconcertado, respondeu:
- Claro que sim. Quando quiserem.
- Bem, est quase anoitecendo, papai j deve estar em casa nos esperando para o jantar. Walther, voc vai ficar aqui por mais alguns dias, no vai?
- Infelizmente, no. Preciso voltar para o meu pas, alis, hoje j deveria estar l. Tenho compromissos.
- Sendo assim, vamos para casa. Esta noite dormiremos aqui e amanh bem cedo voltaremos para o stio. Voc se despedir dos nossos avs e poder partir quando desejar. 
Todos sentiremos muitas saudades.
- Tambm sentirei. Encontrei uma famlia imensa e sou obrigado a confessar que so maravilhosos.
Voltaram caminhando, conversavam muito. Walther notou que Neuza era uma moa muito bonita. Ao passarem por um armazm, ele percebeu que ela olhou e sorriu de um 
modo especial para um rapaz que estava abaixando a porta, e que foi por ele correspondido. Lula no notou, ou fingiu no ter notado. Continuaram caminhando. Walther 
estava feliz, acompanhando todos aqueles jovens. Era o mais velho deles, mas sentia-se como se tivesse a mesma idade. Ao chegarem a sua casa, Luiz j havia voltado 
h muito tempo. Estava sentado em um sof na sala, ouvindo rdio e lendo um livro. Assim que ouviu as vozes, saiu da sala e, da porta, ficou feliz ao ver os jovens 
chegando. Percebeu a felicidade estampada em seus rostos. Vinham brincando e sorrindo. Viu Walther no meio deles e mais uma vez pensou ver seu irmo chegando. Tristemente, 
pensou: Meu irmo, sinto muito por voc no ter conseguido viver ao lado desse seu filho. Ele  um bom rapaz. Sentiria muito orgulho dele, assim como sinto do meu 
Lula. Os jovens entraram como um furaco. Todos queriam falar a mesmo tempo, contar ao pai como haviam sido recebidos pelos Parentes, principalmente o Walther. 
Ao ouvir aquele alarido, Cinira saiu da cozinha para ver o que estava acontecendo. Ao ver os filhos alegres, sorriu e voltou novamente aos seus afazeres. Estava 
terminando de preparar o jantar. Enquanto mexia com as panelas pensando: Conheci muito pouco o Paulo. Eu morava aqui quando eles moravam no stio. S quando o Luiz 
voltou da capital, aps ter se formado, foi que nos conhecemos. Paulo veio algumas vezes, mas sempre com muita pressa, visitava os pais e ia embora Almoou e jantou 
algumas vezes aqui, mas nunca tivemos oportunidade de conversar sozinhos. S sei que fez muito por esta famlia. Gostaria de t-lo conhecido melhor. Gostei do seu 
filho assim que o vi. Espero que ele tambm tenha gostado d todos ns... Na sala, Neuza j havia ligado a vitrola e colocado o disco. Walther se aproximou de Luiz, 
dizendo:
- Sua famlia  muito bonita. Estou, hoje, sentindo que a minha vida teria sido diferente, se tivesse sido criado com mais irmos. Existe tanta alegria. Fui criado 
sozinho, s com meus pensamentos. Meu pai no mantinha comigo dilogo. S falava o necessrio. Minha me, embora me tratasse com muito carinho, s vezes ficava calada, 
olhando-me sem me ver. Parecia que seu pensamento estava muito distante. Aquilo me preocupava, mas hoje entendo e sei no que ela pensava...
- Talvez tenha razo. Nesses momentos, devia estar pensando no distante Brasil e no que havia acontecido com sua verdadeira me. Sinto que ela sempre teve um sentimento 
de culpa muito grande em relao  Marta...
- Entendo, hoje, o que sentia, seus pensamentos e sentimentos, pois desde que tomei conhecimento de toda essa histria, no consigo deixar de pensar na minha me 
Marta e no quanto sofreu. Por isso vou fazer o possvel e o impossvel para encontr-la. Quanto ao Paulo, guardo um sentimento de mgoa muito grande.
- Sei que para voc est sendo muito difcil assimilar tudo, mas deve ter notado que todos da famlia gostavam muito dele.
- Isso no  difcil de entender. Ele comprou com seu dinheiro esse amor. Como est tentando fazer agora comigo. Deve ter acreditado que com o dinheiro que me deixou 
compraria o meu perdo.
Luiz ficou nervoso ao ouvir aquelas palavras:
- No repita nem pense uma coisa dessas! Nossa famlia foi sempre unida e nem sempre tivemos dinheiro! Quando houve necessidade de nos separarmos para evitar a fome 
que a seca nos trazia foi muito doloroso! Assim que as chuvas voltaram, retornamos para junto dos nossos!
- Menos o Paulo! Ele no voltou.
- No voltou porque tinha um sonho e foi atrs dele. Admiro muito o meu irmo por isso. Voc no sabe nada da vida! Hoje, se  quem , foi porque ele tomou a deciso 
de afast-lo da misria em que vivia! Mas ele se tornou um milionrio! Eu poderia ter sido criado aqui e ser feliz como meus primos! Poderia ter tido outros irmos! 
Poderia estar ao lado da minha me! Ela no precisava ter sofrido tanto!
- Realmente se tornou milionrio, mas e se isso no houvesse acontecido? Como teria sido? Quem seria voc hoje? Mais um sertanejo envelhecido aos trinta anos? Desesperado, 
sem saber como conseguir dinheiro para alimentar seus filhos? Meu irmo Paulo tomou a deciso que lhe pareceu ser a certa. Jesus disse: "Quem no tiver pecado, atire 
a primeira pedra!"
- Com isso, Ele quis dizer que ningum  perfeito! Por isso, no devemos julgar ningum!
- J ouvi essas palavras muitas vezes, mas quem est sem me? Sou eu! Quem no sabe se ela est viva ou morta? Sou eu!
Lula  distancia via, mas no ouvia o que estavam conversando, mas pela expresso dos rostos, percebeu que a conversa no estava sendo agradvel. Aproximou-se, dizendo:
- Papai, estou muito triste!
Luiz se voltou para o filho, agradecendo intimamente aquela interrupo:
- Por qu, meu filho?
- O primo disse que vai embora amanh. Gostaria que ele ficasse mais tempo!
- Tambm gostaria, mas ele deve ter os seus motivos. No Podemos impedir. No sabemos o que pensa a respeito de nossa famlia. Talvez tenha tido uma impresso errada. 
Ele disse que todos o receberam bem e falaram muito bem do Paulo, por causa do dinheiro que ele nos deu. Disse que todos fomos comprados!
Lula percebeu com que tristeza seu pai repetia aquelas palavras. Olhou para Walther, que parecia desconsertado:
- Papai, no deve dar ateno. Essas palavras foram ditas sem pensar. Na verdade, o Walther  uma pessoa que foi criada em um mundo diferente do nosso. O dinheiro, 
para ele, talvez no tenha o mesmo valor que para ns. Ele me disse que est feliz por saber que tem uma famlia grande.
- Disse isso s para agradar, mas, no fundo, pensa que somos todos uns comprados.
Walther percebeu que havia ofendido muito aquele homem que o tinha recebido com tanto carinho. Olhou para Lula, depois para o tio, dizendo:
- Por favor, senhor, me perdoe. No sabia o que estava dizendo. Como o Lula disse, estou feliz por conhecer todos. Quando minha me morreu l nos Estados Unidos, 
pensei estar s na vida, mas hoje sei que tenho famlia e isso me faz muito feliz mesmo.
- Acredita mesmo, do fundo do seu corao, que somos sua famlia?
- Claro que sim.
- Ento, por que at agora me chamou de senhor? No sou para voc um senhor! Sou seu tio! Irmo de seu pai!
Walther, mais uma vez, ficou sem saber o que dizer ou fazer. Lula interferiu novamente:
- Papai, fique calmo. Precisa entender que, para o primo, tudo est ainda muito recente. Ele precisa de um tempo para entender e aceitar tudo o que se passou com 
ele. No adianta querermos obrig-lo a nos chamar de tios ou primos. Ele poder, daqui para a frente, somente para nos agradar, fazer isso, mas no fundo no sente. 
Deixemos o tempo passar, um dia ele chegar e o chamar de tio. Nesse dia, ser com sinceridade e do fundo do corao. Agora, acredito ser melhor mudar o rumo dessa 
conversa. Vamos jantar. Amanh, ele ir embora e sozinho ter muito para pensar. No sabemos nada sobre a vida, nem quais os motivos que nos levam a fazer ou no 
fazer algo. Se o primo no se sente parte da famlia, isso agora no tem importncia. Vamos receb-lo como uma visita muito especial. Tenho f em Deus que, um dia, 
ele retornara, chamando-nos de primos e ao senhor, de tio. Luiz, agora mais calmo com as palavras do filho, disse:
- Meu filho, como sempre, voc sabe o que diz. Walther, seja bem-vindo  minha casa. Eu o recebo como filho do meu irmo muito querido. Voc nos receba do modo que 
acreditar ser o certo.
- S posso retribuir da mesma maneira. Estou realmente feliz por t-los conhecido e por saber que no sou sozinho no mundo, peo desculpas se o ofendi de alguma 
maneira, essa no era a minha inteno.
- Est bem, no vamos estragar o nosso jantar. Sei que vai ter muito o que pensar, mas, um dia, se Deus quiser, voltar  minha casa e me chamar de tio. Nesse dia, 
entenderei que compreendeu e perdoou ao Paulo. Ele era um irmo muito querido.
Walther ia responder, mas Cinira veio at eles:
- O jantar est pronto. Podem ir para a mesa, j vou servir.
Luiz, acompanhado por Walther, levantou-se. Lula, que estava em p ao lado, acompanhou-os. As moas estavam na cozinha, ajudando a me. Os rapazes se sentaram e 
ficaram esperando, tentando adivinhar a comida que a me havia feito naquela noite. Walther, embora estivesse feliz, sentia uma certa tristeza por ver toda a alegria 
de uma famlia que um dia haviam lhe roubado. Cinira e as moas terminaram de colocar vrias iguarias sobre a mesa e, em seguida, se sentaram. Comearam a comer. 
Walther percebeu que seu tio estava diferente de quando o conheceu. Sentia que ele estava distante, no prestando muita ateno ao que acontecia  sua volta. Sentiu 
que havia sido responsvel por aquilo. Os jovens, alheios  conversa difcil que Luiz e Walther haviam mantido, comiam e falavam muito. Queriam contar para a me 
como haviam sido recebidos  tarde, visitando os parentes. Cinira tentava ouvir a todos, mas percebeu que algo havia acontecido com seu marido, pois ele no estava 
bem. Olhando para ele e para Walther, pensava: Algo aconteceu entre os dois. Luiz no est bem e o Walther tambm parece um pouco triste. No est participando da 
conversa. No  o mesmo que aqui chegou pela manh. Que ter acontecido entre os dois? Apesar disso, o jantar continuou. Todos elogiavam a comida. Walther tambm 
foi obrigado a reconhecer que, embora nunca houvesse comido carne seca, era muito boa. O feijo e o arroz tambm estavam muito bem feitos e com um tempero especial. 
Percebeu que todos colocavam farinha sobre a comida. Um suco de caju acompanhava a refeio. Aps terminarem de comer, os pratos foram tirados. Dona Cinira foi at 
a cozinha e voltou com uma bandeja cheia de quindins. Todos avanaram sobre a bandeja. Walther se encantou com o sabor daquela iguaria. Diante da alegria dos primos, 
ele sentiu culpa por ter, sem querer, ofendido seu tio. Enquanto comia, olhava para ele com o canto dos olhos. Percebia que, embora se esforasse, ele no estava 
bem. No era o mesmo homem que o havia recebido com tanto carinho. Pensou em pedir perdo, mas sentiu que no adiantaria pois na realidade ele pensava mesmo tudo 
aquilo que havia dito. Paulo comprou a todos com dinheiro. Aps o jantar, voltaram para a sala. Novamente, foi colocado um disco na vitrola. Os jovens danavam e 
cantavam ao ritmo da msica. Walther procurou ser o mais natural possvel, tentou danar, mas ele tambm no era o mesmo que chegara pela manh. Ao ver toda a felicidade 
que Paulo havia proporcionado quela famlia e s outras que conheceu, ele ficou com mais raiva por haver sido tirada a mesma felicidade: ter muitos irmos e, principalmente, 
sua me. Pensava: Onde ela estar? Como ser sua vida? Lula prestava ateno no primo. Podia at adivinhar no que ele estava pensando. Chegou junto a ele, dizendo:
- Se quiser, pode ir se deitar, primo. Amanh, acordaremos cedo novamente. Logo mais, todos iro se deitar, pois pela manh tero que ir para a escola.
Walther agradeceu em pensamento. Realmente, ele queria sair dali, queria deixar de ver aquela famlia feliz e deixar de pensar na sua prpria, que fora sempre to 
austera. Olhou sorrindo para o primo, enquanto dizia:
- Estou um pouco cansado. Hoje, andamos muito, no estou acostumado. Queria mesmo dormir.
Lula, sorrindo, foi at a vitrola, baixou o volume, dizendo:
- Bem, pessoal! Se quiserem, podem continuar, mas eu e o Walther vamos nos deitar. Precisamos dormir. Quero que todos se despeam dele, pois amanh, quando sairmos, 
ainda estaro dormindo.
Foram se aproximando e se despedindo com abraos calorosos, demonstrando afeio sincera. Todos desejaram que ele voltasse breve. Walther tambm os abraava e, sinceramente, 
recebia aqueles abraos. Cinira se aproximou e, emocionada, disse:
- Fiquei muito feliz por t-lo recebido em minha casa. Espero que volte em breve ou nos escreva.
- Muito obrigado por tudo, escreverei, sim.
Luiz permanecia sentado em uma cadeira com o rosto virado para a janela. Olhava o cu muito estrelado e a lua crescente. Estava com o pensamento to distante que 
no percebeu que o volume da vitrola havia baixado, nem que os filhos estavam se despedindo do primo. Seu pensamento estava voltado para o passado, e em tudo o que 
ouviu de seu sobrinho. Lembrava-se de seu irmo, dizendo-lhe: No vou com vocs. Vou ficar aqui, encontrar a minha pedra e vou mudar a vida de todos ns. No vamos 
mais ter que nos preocupar com a chuva ou com a seca! Cinira se aproximou, tocou com carinho no ombro dele:
- Luiz, o Walther vai se deitar, quer se despedir de voc. Luiz, ao ouvir aquilo, voltou dos seus pensamentos. Levantou da cadeira. Olhou para Walther, que tambm 
o olhava com um sentimento de culpa, por involuntariamente t-lo ofendido. Luiz o abraou, dizendo:
- Fiquei muito feliz em conhec-lo e perceber que, apesar de tudo, se transformou em um homem de bem. Vejo em voc a imagem do meu irmo. Principalmente em seu olhos. 
Desejo, de corao, que tenha as respostas que procura e que um dia possa compreender e perdoar o meu irmo, e quando voltar aqui consiga me chamar de tio e ao Paulo, 
de pai. Faa uma boa viagem e no nos esquea.
- Obrigado por tudo. Quero lhe pedir perdo se, de alguma forma, eu o magoei. Tenha certeza de que estou muito feliz por conhec-los. Estou um pouco confuso, mas 
logo me encontrarei e, quem sabe, talvez entenda tudo com mais tranqilidade.
- No tenho nada para lhe perdoar. Disse o que sentia. Essa  uma prova de que realmente tem um bom carter. V em paz.
Abraaram-se. Lula acompanhava a cena. Sabia que tanto um quanto o outro estavam dizendo o que realmente pensavam. Assim que se separaram, Dona Cinira, disse:
- Walther, me acompanhe, vou levar voc ao quarto em que vai dormir.
Ele a acompanhou, ela abriu uma porta. Walther entrou. Ela mostrou a cama, dizendo:
- Este quarto era do Lula antes que ele fosse morar no stio Deixei sempre do mesmo modo, pois, de vez em quando, ele vem passar alguns dias conosco.
- Mas onde ele vai dormir?
- No se preocupe. Temos muitas camas. Ele dormir muito bem. Aqui tem toalhas, se quiser pode tomar um banho. J sabe onde fica o banheiro.
- Obrigado por tudo. Sinto ter ofendido seu marido. Falei algo sem pensar e parece que ele sentiu muito. Sinceramente, no queria que isso acontecesse. A senhora 
e todos aqui so maravilhosos.
- No se preocupe com o Luiz. Ele ficar bem e posso lhe garantir que est muito feliz por t-lo conhecido. Ele adorava o irmo e voc  muito parecido com ele. 
Ele no est estranho por algo que voc tenha dito, s est se lembrando do irmo, triste por saber que ele morreu e que nunca mais o ver.
- O Lula no pensa dessa maneira.
- Sei disso. Ele tem outras idias, outra religio, que, alis, foi sua fortaleza. Percebi que tudo aquilo em que acreditava lhe fazia muito bem. Li alguma coisa. 
Agora, v se deitar. Quando acordar amanh, estarei em p para me despedir e com um bom caf fresco.
- No se preocupe. J fez muito para me agradar.
- Voc  quem no deve se preocupar. Levanto cedo todos os dias. As crianas vo para a escola na parte da manh. Boa noite.
- Boa noite e, mais uma vez, muito obrigado.
Ela no respondeu, apenas sorriu e saiu. Ele ficou sozinho. Pegou a toalha e se dirigiu ao banheiro. Era vero e o calor fez com que suasse muito. Embora estivesse 
muito quente, havia sempre uma brisa. Abriu a torneira do chuveiro. A gua caa morna, quase fria, mas fez com que ele se sentisse muito bem. Enquanto se banhava, 
pensava em todos os rostos que havia conhecido. Todos eles eram seus parentes. Ao mesmo tempo que pensava na felicidade por t-los conhecido, sentia tambm um vazio 
por no ter tido uma famlia como aquela, nem mesmo um irmo. Antes, a falta de um irmo nunca o preocupou, mas agora o preocupava, pois sentia que lhe fora roubada 
essa felicidade. Terminou de tomar banho, voltou para o quarto. Deitou-se. Procurou o porta-retratos, lembrou que havia deixado com sua av. Pensou no rosto de Marta: 
Como era bonita. Preciso encontr-la, se no conseguir, nunca mais terei paz... Pensando em Marta, adormeceu. Pela manh, acordou antes que algum viesse cham-lo. 
Olhou para um relgio que havia no criado-mudo. Eram cinco e quinze. Em silncio, foi at o banheiro. A casa estava toda s escuras e silenciosa. Fez o mnimo de 
barulho possvel, no queria acordar as pessoas. Voltou para o quarto, pegou a sua maleta, colocou nela as roupas que havia tirado na noite anterior. Ficou deitado, 
esperando que algum se levantasse. Olhava em volta, notou que o quarto era muito simples, como todos aqueles em que dormira. Percebeu que embora a casa fosse confortvel, 
no era rica. Seus mveis eram simples, como simples eram as pessoas que ali moravam. Pessoas que o receberam com muito carinho e que eram sua famlia. Lembrou-se 
das coisa que dissera ao tio Luiz: Fiz mesmo uma coisa horrvel! Mas  o que sinto. Se Paulo no tivesse dado a eles tanto dinheiro, teriam o mesmo pensamento a 
respeito dele? Eu estaria aqui agora se no fosse o dinheiro que me deixou? Claro que no! Teria que estar trabalhando. Mas, por causa do dinheiro, no vou perdoar 
tudo o que me fez, principalmente com minha me Marta. De todos ns, foi ela quem mais sofreu. Eu, apesar de tudo, tive uma infncia e juventude feliz ou normal. 
Mas ela? O que fez de sua vida? Onde estar? Ouviu o barulho de uma porta se abrindo e alguns passos pelo corredor. No conhecia muito bem a casa, por isso no soube 
identificar quem havia acordado. Olhou novamente para o relgio, marcava seis horas. Deduziu que fosse Cinira quem havia se levantado. Esperou mais um pouco. Em 
seguida, tambm saiu do seu quarto e foi em direo  cozinha. Havia acertado. Era ela mesma quem havia se levantado e estava esperando a gua ferver para fazer 
o caf. Bateu suave  porta para que ela soubesse que ele estava ali e no se assustasse. Ela se voltou e, sorrindo, disse:
- Bom dia! J est acordado?
- Bom dia! Acordei j h algum tempo. Ouvi quando a senhora saiu do quarto.
- Sente-se, o caf j vai sair. Ainda  cedo para acordar os outros. Isso  bom, pois poderemos conversar um pouco a ss.
Walther se sentou. A gua ferveu e ela passou no coador de tecido. Um aroma delicioso se fez presente. Ele aspirou aquele perfume. Ela colocou o caf em um copo 
de vidro e lhe ofereceu, em seguida sentou-se em frente a ele. Olhou bem dentro de seus olhos e disse:
- Entendo, ou procuro entender tudo o que est passando por sua cabea, Walther. Ontem  noite, antes de dormirmos, o Luiz me contou o que conversaram.
- Percebi que o magoei, mas juro que no foi a minha inteno.
- Sei disso e conversei muito com ele. Voc tem o direito de estar confuso e at revoltado. Vivia tranqilo, sem imaginar que haviam mudado sua vida, seu destino, 
sem que lhe fosse perguntado. De repente, tomou conhecimento de tudo. Sente que, de certa maneira, foi roubado, mas no somos ningum para julgar os atos das outras 
pessoas e os desgnios de Deus. Ele est presente em nossas vidas todos os momentos, antes e aps a nossa morte. Quando nascemos, trazemos conosco o nosso destino 
traado por ns mesmos. Poderemos mudar algumas coisas. Poderemos fazer algumas escolhas, mas o essencial, este no. Tudo ser como o planejado.
- A senhora est falando como o Lula!  da mesma religio dele?
- No! Sou catlica fervorosa, mas vi com que tranqilidade meu filho passou por momentos difceis. Deve saber que ele perdeu a esposa muito jovem, mas a certeza 
que ele tem de que ela esta viva faz com que viva em paz. Por mais que eu no acredite nessa religio e seja catlica, no posso deixar de reconhecer que ela fez 
e faz muito bem ao meu filho.
- Ele no estar se alienando? Fingindo acreditar nisso para no sofrer? Para poder aceitar realmente a morte da esposa? No gosto muito de religio. Acredito que 
ela faz com que o homem se entregue e deixe de lutar por aquilo que deseja. Fica pensando e pedindo a um Deus distante que est l no cu, lugar esse que sabemos 
se realmente existe.
- Acredito que o cu e o inferno existam, sim. Deus no est l no cu, est aqui, agora, neste momento, ao nosso lado. Quanto a se alienar, no acredito nisso, 
meu filho  muito feliz.
- A senhora acredita ser lgico deixar de advogar e viver l naquele lugar, pobre e desconfortvel?
- Ele nunca quis estudar, desde pequeno sempre gostou do stio e da vida que tem l.
- Eu gostei do Lula assim que o vi. No posso dizer qual foi o motivo, mas senti que j o conhecia!
- Por isso estou lhe dizendo que nada acontece por acaso. Li isso em um dos livros que o Lula me deu. Pense comigo, por que voc, nascendo aqui, foi obrigado a ir 
embora para outro pas? Por que voltou agora? S pode ter sido a vontade de uma fora maior, vontade de Deus.
- Isso no foi vontade de Deus! Foi a ganncia de um homem!
- Talvez tenha razo, mas muitas crianas nascem no mundo todos os dias. Naquela poca, ali mesmo no garimpo, deveria haver muitas crianas, mas voc foi o escolhido. 
Por qu?
- No sei. Talvez porque eu estivesse mais perto. Porque outros pais no aceitaram o pedido do americano e no quiseram vender seus filhos.
- Pode ser, mas se acreditarmos naquilo que o Lula diz, tudo estava certo, havia um motivo maior.
- No consigo acreditar nisso. Que motivo seria esse? S sei que roubaram a minha vida. Hoje, aps ter conhecido todos os meus primos, fico pensando que poderia 
ter sido criado como seus filhos, com muitos irmos e uma me como a senhora.
- A me que o criou no foi boa?
- Foi, e muito. No posso me queixar de nada contra ela. Eu a amava e sentia ser muito amado.
- Ento, no tem do que se queixar. Se tivesse continuado aqui, no teria o mesmo destino. Poderia ser mais uma dessas crianas que crescem desnutridas e sem estudo, 
isso quando conseguem crescer. Muitas delas morrem muito cedo. Quando adultos, a maioria e analfabeta e no tem oportunidade de ter uma vida melhor. Casam se muito 
cedo e seus filhos seguem o mesmo destino. Assim, vo se Passando as geraes.
- A minha vida seria diferente. O Paulo encontrou a pedra e me vendendo, nem precisou dela para conseguir uma fortuna.
- Encontrou a pedra, sim, mas se no tivesse encontrado? Ele acreditava que a encontraria, mas nunca teve certeza disso, era um sonho que talvez nunca se realizasse.
- Mas se realizou. S que foi tarde para minha me. Pode mesmo imaginar o que sinto, sabendo que ela existiu e sem saber se j no morreu? Uma mulher que sofreu 
muito por ter sido afastada do seu filho. O que a senhora faria se um de seus filhos fosse roubado?
- Deus me livre, no quero nem pensar nisso!
- Ento, como pode me dizer que tudo estava certo? Ela ia responder, quando ouviram:
- Bom dia! Acordaram cedo.
Olharam para Lula que entrava na cozinha, j sentava e se servia de um copo de caf. Cinira respondeu:
- Assim que me levantei, o Walther veio at aqui, estamos conversando enquanto tomamos caf.
- Conversavam sobre o qu?
- Sobre vrias coisas, inclusive sobre a sua religio.
- Espero que no tenham falado muito mal dela, - disse rindo.
- No! Eu estava dizendo ao Walther que voc sempre diz que tudo est certo na vida. E que tudo tem sua hora. Ele estava argumentando que no acreditava nisso.
As coisas esto sempre certas diante de Deus. Existe at o momento certo para que o homem aceite essa verdade. E esta no  a hora certa para o Walther entender. 
A hora, agora,  de irmos embora. Ele precisa voltar para o seu pas. Quando chegar o momento certo, ele saber. Ver que tudo acontece sempre para o nosso bem. 
Entender que aquilo que costumamos chamar de destino se faz presente e o que tem que ser, ser. Walther ouviu aquelas palavras, admirou-se, pensou que ele ia se 
alongar na tentativa de o convencer que a sua religio era a certa. Lula continuou:
- Mame, temos que ir. Vamos comer alguma coisa antes de sairmos. O Walther no conversou muito com os nossos avs. Eles so simples, embora pensem e queiram fazer 
muitas perguntas, no sabem como. Vou fazer o possvel para que entendam o que representa o Walther em suas vidas. O vov j no entende muito bem, mas as avs so 
espertas. A av Maria, sem que o Walther percebesse, guardou o retrato da tia Marta. Vamos ter que convenc-la a devolver.
Walther olhou para o primo que sorria. Nervoso, disse:
- Que est dizendo? Ela no vai querer me devolver? Eu no dei para ela, apenas mostrei!  a nica foto que tenho da minha me!
-  tambm a nica foto que ela tem da filha. Ser difcil tir-la dela.
- Eu posso mandar fazer uma cpia e mand-la depois!
- Tente convenc-la disso. Pode tambm deixar com ela. Prometo-lhe que mandarei tirar uma cpia e a enviarei pelo correio.
- No posso fazer isso. Como saberei reconhecer a minha me se a encontrar, sem o retrato?
- Quando sua me tirou esse retrato, era muito jovem, hoje deve estar mudada. Mas no se preocupe, assim que a vir, saber que  ela. No vai precisar do retrato. 
Acredito que, se a encontrar, entender a justia de Deus.
- Se a encontrar, realmente serei o homem mais feliz deste mundo. Se ela estiver bem, a sim, acreditarei nessa justia que est dizendo.
- Vamos esperar. Agora precisamos nos preparar para a viagem...
Cinira colocou sobre a mesa leite, po e um bolo que havia preparado na noite anterior. Comeram. Walther permaneceu calado o tempo todo. Lula falava muito com a 
me, mas ele no ouvia. Pensava em sua vida e na me que no sabia como encontrar. Terminaram de tomar caf. Walther foi at o quarto, pegou sua maleta, Lula fez 
o mesmo. Quando voltaram, a casa ainda continuava em silncio. Todos dormiam. Despediram-se de Cinira. Ela abraou Walther, dizendo:
- V com Deus. Fiquei feliz por ter conhecido e t-lo recebido em minha casa. Espero que volte outras vezes e que consiga realizar o sonho de encontrar sua me.
- Obrigado, tambm gostei muito de t-la conhecido. Aps ter conhecido toda essa famlia, jamais vou esquec-los e pretendo voltar muitas vezes. De preferncia, 
com a minha me.
- Desejo de todo o meu corao que isso acontea.
Lula tambm se despediu da me, abraando-a e beijando-a.
- At logo, mame. Voltarei na semana que vem. No se preocupe com o primo, ele vai encontrar o caminho a seguir. Embora ele no acredite, Deus est ao seu lado, 
encaminhando-o. Primo vamos embora?
Walther sorriu. Os dois se afastaram, abanando as mos para Cinira, que correspondia. Entraram no carro e saram. Walther dirigia com cuidado. Lula no dizia nada, 
pensava na angstia que o primo estava sentindo. Durante o caminho, conversaram sobre a paisagem e a famlia. Walther disse:
- Seus irmos so muito alegres.
- Sim. Eles esto comeando a vida. Todos foram criados por uma grande mulher, dona Cinira, minha me. Ela  fabulosa!
Mais uma vez, Walther lembrou-se de Geni, a me que o havia criado. Disse:
- Tambm fui criado por uma grande mulher. Ela tambm foi maravilhosa. Ensinou-me a sempre ser honesto e viver do me trabalho. Tudo estaria bem na minha vida, se 
no tivesse descoberto toda essa histria.
- Devemos sempre ver as coisas pelo lado bom. Descobrindo essa histria, descobriu tambm que  hoje um homem com muito dinheiro. Poder mudar sua vida completamente. 
J imaginou o que vai fazer com todo esse dinheiro?
- Para ser sincero, ainda no. Vi alguns nmeros, mas no consigo imaginar o quanto realmente representa. Sinto que esse dinheiro foi ganho de uma maneira no muito 
certa.
- O que est dizendo? O tio Paulo trabalhou muito. De emprego para muitas pessoas. Esse dinheiro  limpo. Pode us-lo sem se preocupar com nada. Com ele, poder 
ter tudo o que sonhou
- Isso  que est sendo difcil. Nunca sonhei com nada que acreditava no poder conseguir com o meu trabalho.
- Mas agora pode sonhar e conseguir tudo o que quiser. Esse dinheiro  seu. Ele lhe pertence desde o incio.
- Est me dizendo que se no fosse a minha venda, talvez ele no existisse?
- Isso mesmo. Tio Paulo encontrou a pedra, mas no a vendeu isso  um sinal de que o que recebeu do americano foi multiplicado graas  sua inteligncia e ao seu 
trabalho. Portanto, o dinheiro  todo seu e deve us-lo para fazer a sua felicidade!
- A minha felicidade seria encontrar a minha me!
- Talvez ele sirva para isso. Acredite que a vida nos conduz pelos caminhos que teremos que seguir.
- Est bem, s me resta mesmo fazer isso.
Lula no respondeu, apenas sorriu. Chegaram ao stio. Assim que o jipe entrou na pequena estrada, Walther viu os avs na varanda. Quando chegou perto, pde ver o 
sorriso naqueles rostos enrugados. Parou o jipe, desceram. Lula correu para os avs e os abraou com carinho. Walther o seguiu, tambm os abraou, mas no com o 
mesmo entusiasmo de Lula. No fundo, culpava-os por terem expulsado sua me de casa. Enquanto os abraava, pensava: Se eles no a tivessem expulsado, nada daquilo 
teria acontecido.  Hoje, eu estaria ao lado da minha me. Entraram em casa. Lula, segurando a mo da sua av Maria, disse:
- Vov, o Walther, seu neto, tem que ir embora.
- Mas ele mal chegou.
-  verdade, mas ele tem muito para fazer, no pode ficar mais tempo. Ele vai, mas volta. No , Walther?
Walther no tinha inteno nenhuma de voltar, mas vendo o olhar de Lula e da av, respondeu:
- Claro que vou voltar.
- Sabe, meu neto, ficamos alegres com a sua visita e por saber que a minha filha Marta conseguiu ter o seu filho, apesar de tudo.
- Conseguiu, sim. Estou aqui.
- No consigo deixar de pensar nela. Hoje, aps tanto tempo ter passado, no consigo me perdoar por no ter evitado que o pai a expulsasse desta casa que era dela. 
Peo a Deus, todos os dias, que eu tenha notcias dela antes de morrer. Preciso saber o que aconteceu com sua vida.
- Tambm quero muito encontrar a minha me. No sei se a condeno por no ter evitado. No sei qual era o poder de uma mulher naquele tempo.
- No tnhamos poder algum, como ainda no temos. Os homens decidem, ns apenas obedecemos.
Walther se emocionou com o modo da av falar. Realmente aquela cultura era diferente da que havia aprendido, embora, em seu pas, no fosse muito diferente. L tambm 
as mulheres ficavam em casa s cuidando da famlia. Os homens traziam o dinheiro. As funes eram bem divididas.
- Vov, quero que saiba que, embora eu j a tenha condenado por no ter ajudado a minha me, entendo tambm a sua situao. Quem sabe, um dia, a mulher consiga ter 
os mesmos direitos dos homens. Consiga trabalhar e ter o seu prprio dinheiro para poder decidir o que seja bom para ela.
- Deus o oua, meu filho, Deus o oua. J est quase na hora do almoo. Vai almoar antes de partir, no vai?
Lula respondeu:
- Vai sim, e precisa ser logo, ele tem uma longa viagem, j so dez horas. Precisa sair antes do meio dia. Chegar  prxima cidade grande, quando estiver escurecendo. 
Assim, poder passar a noite. Mas precisa tambm que a senhora lhe devolva o retrato que ele trouxe.
- Que retrato?
- Vov, no se faa de tola. Sabe muito bem do que estou falando. Sei que o retrato da tia Marta est com a senhora. Ele pertence ao Walther.
- Mas  o nico retrato que tenho da minha filha!
- E tambm o nico retrato que ele tem da me. Ele me prometeu que vai mandar fazer uma cpia e mandar para a senhora, mas precisa desse.
- Tambm preciso. Voc pode mandar fazer uma cpia e mandar para ele.
Lula olhou para Walther, que permanecia calado:
- Voc  quem sabe, se quiser, eu a convencerei, mas ser justo?
Walther no respondeu. Em seu ntimo, queria muito aquele retrato. J havia se acostumado a olh-lo todas as noites, antes de dormir. Era a nica imagem que possua 
de sua me. Temia que, se no o tivesse, no conseguiria reconhec-la, caso a encontrasse. Lula, vendo que o primo no respondia, disse:
- Sei o valor deste retrato para voc, mas sei tambm o quanto a vov precisa dele. Prometo-lhe que mandarei fazer uma cpia amanh mesmo. Vai ficar ainda alguns 
dias em So Paulo, no vai?
- No pretendo ficar mais do que o necessrio, preciso voltar para o meu pas. No posso simplesmente abandonar tudo o que tenho l.
- Assim que a cpia ficar pronta, eu telefono, se ainda estiver l, mando no mesmo dia. Pode me deixar o seu endereo nos Estados Unidos. Se no estiver mais aqui 
no Brasil, eu enviarei para l. Voc  quem sabe...
Walther olhou para a av. Em seus olhos, via uma angstia muito grande. Aquele retrato, para ele, era muito importante, mas ela j estava to velhinha. No teve 
coragem de dizer no:
- Est bem, vou deixar o retrato com voc. Faa uma cpia maior. Assim que estiver pronta, me mande, mas quero essa original que est com a nossa av. Nessa, minha 
me colocou as mos. E essa que quero.
- Pode ficar tranqilo, eu lhe mandarei esta, assim que a cpia ficar pronta.
A velha senhora acompanhava a conversa dos dois sem interferir. Assim que Walther concordou em lhe dar o retrato, abraou-se a ele, chorando:
- Muito obrigada, meu neto. No imagina a felicidade que est me proporcionando. Penso nela sempre, mas agora poderei olhar para seu rosto e pedir perdo.
Walther no sabia o que responder. No estava acostumado com aqueles abraos. Lula entendeu a situao dele, dizendo:
- Est bem, vov, ele j entendeu tudo, mas agora vamos entrar. V at a cozinha ver com a Leda como est o almoo.
A senhora entrou, mas no foi para a cozinha, foi para seu quarto. Olhou para seu criado-mudo, onde havia colocado o porta-retratos. Pegou-o em suas mos, dizendo:
- Minha filha, no sei onde est neste momento, nem o que aconteceu com a sua vida. S quero que saiba que nunca a esqueci e que rezarei todos os dias para que seu 
filho a encontre. Que Deus Permita que eu a encontre tambm, antes da minha morte.
Colocou o porta-retratos de volta ao criado-mudo. Sorriu e saiu, indo, agora sim, para a cozinha. L chegando, disse para a Leda:
- Sinto que agora tudo vai ficar bem. Meu neto me deu o retrato da Marta. Vou poder olhar para seu rosto e pedir perdo todos os dias...
- Ainda bem, dona Maria, que a senhora est se sentindo assim! Agora, pode parar de ficar chorando pelos cantos. Seu neto  um moo muito bonito.
- Sei disso, mas tambm com ele eu faltei. No o protegi quando ainda estava na barriga da minha filha. Se o pai no tivesse mandado ela embora, ele ia nascer aqui 
e os dois estariam ao meu lado. Ao invs disso, ele foi criado num lugar distante e a minha filha nem sei por onde anda. Vamos agora servir o almoo, ele quer partir 
hoje mesmo.
- To cedo? Pensei que ele ia ficar mais alguns dias.
- Ele no encontrou aqui o que veio procurar. A sua me.
- Mas encontrou toda sua famlia, Leda. Conheceu os avs! Ser que no ficou feliz?
- Acredito que sim, dona Maria, mas sinto que tem uma mgoa muito grande contra ns. Sinto que culpa a gente por tudo o que aconteceu.
- Ele disse isso?
- No, foi muito carinhoso, mas eu sinto...
- Deve ser a sua imaginao. Ele me pareceu ser muito bom.
- Deus a oua e seja apenas a minha imaginao. Vou ajud-la com o almoo.
Lula estava, neste momento, mostrando para Walther onde eram beneficiadas a mandioca e o milho plantados no stio.
- Veja, como com estes pequenos moinhos, mandioca se transforma em farinha e o milho, em fub.
- Nunca tinha visto um moinho e nem imaginava que fosse assim. O que fazem com a farinha e o fub?
- Usamos o necessrio aqui no stio e vendemos o resto na cidade. Esses alimentos so essenciais para o nosso povo. O feijo e arroz jamais sero comidos sem farinha. 
Com o fub se fazem bolos, doces e  at servido para as crianas com leite.  um alimento muito rico em vitaminas.
Saram do moinho, Lula mostrou a plantao de mil mandioca. Walther, sempre criado na cidade, nunca havia visto plantao de perto. Apenas ia ao mercado e comprava 
tudo embalado. A plantao estava muito verde e viosa:
- Parece que esta plantao vai dar resultado. Est muito bonita!
- Sim! Graas a Deus, temos tido chuva durante muitos anos. Esperamos que continue assim, pois, se no chover, a seca voltar e tudo isto se tornar um deserto...
- No tem como planejar algum tipo de irrigao?
- Bem se v que no sabe o que seja uma seca. A gua some completamente. Com o tempo, talvez surjam meios de se conseguir gua mesmo sem as chuvas, mas acredito 
que esse dia ainda est muito distante.
- Talvez no esteja to longe assim. A tecnologia est evoluindo muito. Hoje, temos avies, carros. Algum vai encontrar um meio de trazer gua para c.
- Deus o oua. Se isso acontecer, o Nordeste brasileiro ser uma das melhores terras para se viver.
- Acredito que isso vai acontecer.
Assim conversando, voltaram para casa. A mesa grande j estava posta. Os avs somente os esperavam para comearem a comer. Walther e Lula sentaram. Os avs comearam 
a comer, no diziam nada. Av Maria olhava para Walther, pensando: Tenho tanta coisa para lhe dizer, meu neto... Mas no sei como fazer. Sei que me culpa por tudo 
o que lhe aconteceu, mas era e sou muito ignorante, muito covarde... Av Branca, me de Paulo, tambm se sentia culpada por no ter insistido mais com o cunhado 
na poca que ele expulsou a Marta, esperando um filho. Mas pensava: Sinto que no fiz tudo o que poderia ter feito. No ntimo, eu tambm culpava Marta pelo passo 
errado que dera, por ter se Perdido, ainda mais sendo com o meu filho. Eu achava que ela o tinha enganado. Como consegui agir daquela maneira? Como consegui deixar 
que o meu neto fosse expulso junto com a me? Terminaram de almoar. Walther voltou ao seu quarto. Em cima da cama estava colocada toda a sua roupa, limpa e passada. 
Tirou a roupa de Lula que estava usando, dobrou-a e a colocou sobre cama, no lugar em que estavam as suas. Vestiu-se, guardou o resto na maleta, voltou para a sala 
onde seus avs e Lula se encontravam. Despediu-se de todos, dizendo:
- Fiquei muito feliz em conhecer todos vocs e este lugar, vou embora porque preciso, mas vou voltar assim que for possvel Estava dizendo aquilo, mas sabia que 
jamais voltaria. Aquele lugar lhe trazia muitos pensamentos, num misto de raiva e de carinho. Ao abraar Lula, disse as mesmas palavras. S que Lula lhe respondeu:
- Sei que no quer mais voltar aqui, primo, mas no sabemos nada desta vida. Estarei esperando-o, quando voltar ser muito bem recebido.
- Por que est dizendo isso?
- Porque voc conheceu este lugar e nunca mais vai esquece:. Porque aqui esto as suas razes e elas so poderosas! Quem sabe at volte com a sua me!
- Sabe de alguma coisa que eu no sei? Sabe onde est minha me?
- No sei nada. Se soubesse onde est a sua me, claro que o levaria at ela. S sei que Deus  um Pai misericordioso e que nos d sempre a oportunidade de realizarmos 
os nossos sonhos. Sei tambm que o seu sonho  encontrar sua me, por isso sinto que a encontrar. Se no for nesta vida, ser na outra, mas vamos esperar que seja 
nesta mesmo.
- Tambm espero, mas acredito que vai ser impossvel.
- Para Deus, nada  impossvel. Ele pode tudo! Vamos confiar e entregar a nossa vida a Ele. Continue sua caminhada. Resolva o que vai fazer com a sua vida daqui 
para frente. Tem, agora, condies de ser outra pessoa, dinheiro suficiente para viver muito bem. Aproveite bem esse dinheiro, voc merece. Fiquei muito feliz mesmo 
em conhec-lo. Seguindo o que acredito, poderia ate dizer em rev-lo.
- Como me rever? S nos conhecemos agora!
- Nesta vida, meu primo... Mas sinto que nos conhecemos h muito tempo e que sempre fomos amigos.
- L vem voc novamente com essa conversa.
- Tudo bem, no precisa acreditar, mas no pode impedir que eu acredite. V com Deus, tenha certeza de que, independente da religio que seguimos, nunca estamos 
ss, Deus est sempre ao nosso lado, mostrando-nos o caminho que devemos seguir. Vou acompanh-lo em meu cavalo at a estrada. Walther, sorrindo, entrou no jipe 
e disse:
- Ser uma honra! Vamos?
Olhou para a varanda, l estavam os avs e Leda. Abanou o brao, dando adeus, no que foi correspondido. Lula montou no cavalo e seguiu na sua frente. Novamente estava 
voltando naquela estradinha cheia de buracos, nem notados quando chegou, devido  ansiedade. Dirigiu com cuidado. Sabia que aquele jipe era potente, s no sabia 
se haveria peas para trocar, caso alguma quebrasse, por isso tomou todo cuidado. Sabia que a viagem de volta para So Paulo seria longa, mas agora sabia tambm 
onde pernoitar. Dormiria na casa de v Zu. Contaria a ela que no conseguiu encontrar a me. Assim que chegaram na estrada principal, Lula desmontou e veio at o 
jipe. Disse, sorrindo:
- Bem, meu primo, aqui estamos. Esta estrada levar voc de volta, basta apenas seguir as placas. No se esquea de escrever, quero saber tudo o que fizer com a 
sua vida. V com Deus! Procure tirar do seu corao toda a mgoa que sente. Recomece sua vida em paz. Jesus o abenoe.
Walther sentiu um aperto no corao por se despedir daquele que at poucos dias era um estranho, mas por quem tinha um sentimento desconhecido. Apertou a mo do 
primo, dizendo:
- Estou emocionado por me despedir de voc. Tenho certeza de que encontrei um amigo, mas nesta vida mesmo, no em outra. Espero rev-lo antes de partir para a outra. 
Se quiser me visitar e conhecer o meu pas, ser muito bem-vindo!
- Seu pas  este, mas se eu quiser conhecer os Estados Unidos, irei sim. Pode me esperar. Quanto  outra vida, no se preocupe,  ainda muito jovem e tem muito 
para viver. Estou feliz por t-lo conhecido, ainda mais, por sentir que, apesar de tudo o que descobriu, est fazendo o possvel para entender e est tentando nos 
aceitar como a sua famlia. Siga seu caminho, lembre que a nossa caminhada, embora s vezes no parea,  sempre para o melhor.
Walther sorriu, soltou a mo do primo, acelerou o jipe, saiu com um aperto na garganta. Estava novamente na estrada. Sabia, agora, por todos os lugares que teria 
que passar. Voltava triste, por no ter encontrado sua me. Sentia em seu corao que no a encontraria. Lembrou-se de Paulo: Todos falaram muito bem dele. Os daqui 
at pode se dizer que tiveram motivo para isso, mas o Isaas, quando me falou a seu respeito, ainda no sabia que ele havia lhe deixado a casa. A v Zu tambm no 
o conheceu, mas disse que eu devia perdoar, porque tudo estava certo em cima desta Terra. No sei o que pensar. No vou mesmo conseguir encontrar a minha me. Se 
Paulo no conseguiu durante todos estes anos, como eu conseguiria? O melhor que tenho a fazer , como disse o Lula, recomear a minha vida. Ver o destino que vou 
dar a todo esse dinheiro. Quem sabe posso ter at o meu prprio negcio de seguros. E isso mesmo que vou fazer. Assim que chegar a So Paulo, verei se o dinheiro 
est liberado. J deve estar, vou pegar o primeiro avio que houver e vou voltar para minha terra. L, recomearei.

O ACIDENTE

J estava h algum tempo na estrada. Ela estava praticamente vazia. Passou por algumas carroas, um ou outro cavaleiro e algumas pessoas que seguiam andando pela 
margem. No havia visto at agora nenhum carro. Desviou os olhos para ver o relgio que estava no brao esquerdo. Ele marcava doze horas e cinqenta minutos. Fazia 
mais de uma hora que havia sado do stio. Quando voltou novamente os olhos para a estrada percebeu que algum a estava atravessando. Pisou no freio com toda fora, 
mas no conseguiu evitar a batida. Percebeu que algum caiu. Apavorado, desceu do carro e foi ver o que havia acontecido. Quando chegou, uma moa estava deitada, 
tentando se levantar. Chegou ao seu lado e a ajudou a sentar:
- Desculpe, quando a vi, tentei frear, mas no consegui evitar a batida!
A moa levantou a cabea. Ele pde notar que era muito bonita. Morena, com longos cabelos negros e uns olhos grandes e assustados. Seus olhos se cruzaram. Ficaram 
assim por alguns segundos, olhando-se calados. Ele, desesperado, voltou  realidade:
- Voc est bem? Est sentindo dor?
Ela tentou levantar e ficar em p, mas no conseguiu. Sua perna doa muito:
- Minha perna est doendo, mas no se preocupe, o senhor no teve culpa. Eu atravessei a estrada sem olhar. Estava distrada.
- Por aqui deve ter algum hospital. Vamos at l para ver se tudo est bem com a sua perna?
- No, estou bem. Preciso ir para casa, meus irmos esto sozinhos. Foi s uma batida, no quebrou nada.
Walther olhou para a perna da moa. Percebeu que no havia quebrado:
- Onde voc mora?
Ela, apontando com o brao, respondeu:
- Ali naquela casa.
Ele olhou e viu outra estradinha igual  do stio e uma casa pequena e muito simples. Percebeu que a distncia era longa:
-  muito longe, ser melhor que entre no jipe e eu a levarei at l.
- No precisa! No  to longe assim! J estou acostumada a andar.
Tentou andar, mas no conseguiu. Encostou no jipe:
- Acho que o senhor tem razo. Com essa dor, vou demorar muito para chegar...
- Vamos at um hospital. Deve haver algum aqui por perto.
- Tem sim, na cidade, estou voltando dele agora. Fui visitar minha me, ela est l j h seis dias. Por isso preciso voltar logo para casa, meus irmos esto sozinhos, 
se eu no voltar ficaro assustados.
- Vamos fazer o seguinte. Voc entra no jipe, vamos at a sua casa, contamos para seus irmos o que aconteceu, depois iremos at o hospital. Se quiser, pode levar 
um deles com voc. Quantos so?
- Doze.
- Doze? Voc tem doze irmos?
Ela, vendo o espanto dele, sorriu e respondeu:
- No, tenho onze. Somos doze comigo!
Ele percebeu que ela estava mais calma e que sorrindo ficava mais bonita ainda. Tambm, sorrindo, disse:
- No consigo imaginar uma casa com doze irmos. Sou filho nico, fui criado sozinho. Deve ser uma atrapalhao. Como uma pessoa pode ter doze filhos?
Ela, sorrindo, disse:
- Na realidade, meus pais s tiveram trs filhos. Eu e mais dois irmos, os outros so crianas que minha me foi acolhendo e cuidando.
- Disse minha me. Seu pai onde est?
- Ele morreu quando eu era ainda criana, no me lembro dele. Desde ento, minha me tem cuidado de todos ns e de muitas outras crianas.
- Sua me cuida de doze filhos? Como ela faz?
- Meu pai deixou um sido, onde plantamos mandioca, milho e feijo. L, tem vrias galinhas e duas vacas que garantem o leite, manteiga e queijo. Algumas pessoas 
da cidade ajudam. Meus dois irmos, assim que fizeram dezoito anos, no encontrando emprego aqui, foram para So Paulo. Hoje, esto casados, trabalham em uma empresa 
e todos os meses nos mandam dinheiro. Outras crianas que minha me criou tambm cresceram e foram embora, mas sabem que ela precisa de dinheiro para dar a outras 
crianas o mesmo que deu a elas, por isso tambm mandam dinheiro.
- Isso  suficiente?
- Vivemos muito bem, no nos falta nada. Mame costura para algumas pessoas na cidade, eu a ajudo cuidando da casa e das crianas. Nossa! Ns nos conhecemos h poucos 
minutos e j lhe contei quase tudo da minha vida!
- Por que est a p? No tem uma conduo?
- Temos uma carroa, mas ontem quebrou, meu irmo a est consertando. Precisava ir ao hospital ver a minha me.
Walther ficou calado. Ela tentou dar um passo, mas no conseguiu. Ele a amparou, dizendo:
- Entre no jipe, vou lev-la at em casa. Vamos falar com as crianas e depois vamos at o hospital.
Ela percebeu que no poderia andar, s lhe restou entrar no jipe. Aps t-la acomodado, ele recolheu uma sacola, onde havia alguns alimentos que estavam esparramados 
pelo cho. Pegou tudo, colocou na sacola, deu a volta e entrou tambm. Ligou o jipe, fez uma manobra e entrou na pequena estradinha. Dirigia devagar, pois havia 
muitos buracos que faziam com que ela soltasse alguns gemidos. Chegaram a um pequeno riacho, onde havia uma ponte feita com dois troncos de rvore e algumas madeiras. 
Walther passou por ela com cuidado. A casa era um pouco distante da ponte. Para se chegar at ela, havia mais uns dez metros. Walther disse:
- No vai conseguir chegar andando at a porta de entrada.
- Consigo, sim. S precisa me amparar de um lado. Irei Pulando.
Ele, com ar de quem no estava acreditando, abriu a porta do jipe e a ajudou descer. Ela, com dificuldade, desceram. Ele a segurou pela cintura, ela passou o brao 
por suas costas e comeou a pular em uma perna s. Andaram por alguns metros. Ele era bem mais alto do que ela, precisava ficar curvado, logo estava com as costas 
doendo. Ela tambm se cansou rapidamente. Pararam. Walther olhou em direo da casa e notou que ainda faltavam muitos metros. Na porta, apareceu um rapazinho. Ela 
comeou a gritar, abanando as mos. O rapaz, quando a viu, veio correndo em sua direo. Logo apareceram mais crianas que o seguiram. Assustaram-se primeiro, com 
aquele carro e um homem desconhecido. Depois por v-los abraados. O rapazinho, que parecia ser o mais velho, sem perceber que ela estava machucada, disse:
- Laura! Que aconteceu? Quem  esse homem?
Ela olhou para Walther sem saber o que responder, pois at agora no sabia o seu nome. Ele, percebendo que realmente no haviam se apresentado disse:
- Meu nome  Walther, houve um acidente e Laura est com a perna machucada. Estvamos tentando chegar em casa para avisar voc, mas parece que vai ser impossvel.
- Est machucada?
- Estou, e est doendo muito. Acho que vou precisar ir at o hospital. No sei quanto tempo vou demorar, por isso, quero que volte para casa e cuide de tudo. Dentro 
do carro tem uma sacola com carne e algumas frutas. Leve e prepare alguma coisa para as crianas comerem, mas no chegue perto do fogo.
Walther estava abismado com tantas crianas, que, admirado olhavam para ele e para o jipe. Percebeu que eram de todas as idades, alguns morenos, outros louros e 
negros. Ele acompanhou Denilson at o jipe, abriu a porta, retirou a sacola e lhe entregou. Laura, preocupada, perguntou:
- Quem ficou tomando conta dos bebs?
- A Lurdinha e a Tea. No se preocupe, estamos todos bem E melhor que v logo para o hospital, sua perna est inchando.
Ela e Walther olharam para sua perna e notaram que estava mesmo vermelha e um pouco inchada. Walther, imediatamente ajudado por Denilson, cada um de um lado, levou-a 
at o jipe e a colocou no banco traseiro com a perna estendida sobre ele. Com muito custo, pois a estrada era estreita, Walther conseguiu manobrar o jipe e coloc-lo 
de frente para que conseguisse sair. Laura fez mais algumas recomendaes para Denilson que, sorrindo, abanou a mo despedindo-se. Bem devagar, Walther colocou o 
jipe em movimento. Ao chegarem ao hospital, ele entrou e pediu uma cadeira de rodas. Laura sentia muitas dores. Uma enfermeira o acompanhou. Ficou abismada ao ver 
aquele carro que era muito bonito. Por aqueles lados, era muito difcil se ver um carro, muito menos como aquele. Ficou mais abismada ainda ao ver Laura...
- Laura! Que aconteceu?
- Sofri um acidente, minha perna est doendo muito...
- Vamos logo l para dentro. O doutor Morais vai atender voc.
- Com muito carinho, Walther retirou-a do carro e colocou-a na cadeira. A enfermeira conduziu-a com cuidado, mas com rapidez para dentro. Levou a cadeira at um 
consultrio. O mdico, ao v-la, perguntou espantado:
- Laura! Que aconteceu? Acabou de sair agora mesmo daqui! Antes que Laura respondesse, Walther disse:
- A culpa foi minha, eu a atropelei com meu jipe, quando ela atravessava a rodovia.
- No! A culpa no foi dele! Eu estava distrada, pensando em minha me e como ia fazer para cuidar das crianas sozinhas e atravessei sem olhar. Ele no teve como 
desviar.
- Isso agora no importa, precisamos ver essa perna. Vai tirar uma radiografia para ver se est quebrada, depois conversaremos.
A enfermeira a conduziu at outra sala, onde iria tirar a radiografia. Walther ficou esperando, sentado em um banco. Enquanto esperava, seu pensamento corria solto: 
Como isso foi acontecer? Embora ela diga que no, sei que a culpa foi minha. Estava envolvido em meus pensamentos e no prestei ateno na estrada. Tomara que no 
tenha sido nada grave.  uma moa to bonita. No  mais uma menina, mas seus olhos so como se fosse. Estranho o que senti quando a olhei pela primeira vez quando 
nossos olhos se encontraram. Ela no me pareceu ser uma estranha, parece que j a conheo de algum lugar... Ficou assim pensando por algum tempo, at que a porta 
se abriu e Laura saiu, sentada na cadeira, sendo conduzida pela enfermeira, que disse:
- Vamos esperar um pouco at a radiografia ficar pronta Quer que avise a sua me que est aqui?
- No, por favor. Ela ficaria muito nervosa ao saber que sofri um acidente. Vamos ver o que o doutor Morais diz, depois falarei com ela. Voc a conhece, sabe como 
 preocupada com todos ns.
- Tem razo e, no momento, o que ela menos precisa  se preocupar.
Enquanto as duas conversavam, Walther olhava em sua volta, pensando: Como a Laura pode dizer que isto aqui  um hospital? Em meu pas, no seria mais que um pequeno 
centro mdico. Tudo  to pobre, embora seja muito limpo. Este pas  to diferente, dentro dele mesmo. So Paulo, Rio de Janeiro, lugares onde passei e vi tanta 
riqueza, enquanto neste lado existe s pobreza. Qual ser o motivo de ser assim? No parava de pensar, querendo entender e conhecer a terra na qual havia nascido. 
Seus olhos corriam por tudo, de repente, pararam em Laura, que ainda conversava animadamente com a enfermeira, sem prestar ateno nele. Ele a olhou, mas desta vez 
a viu diferente: Por que tudo isto est acontecendo? S vai me atrasar. Preciso voltar para o meu pas. Mas, s agora, aps ter passado o susto e saber que ela est 
sendo atendida, foi que comecei a prestar mais ateno nela. E mesmo muito bonita. Realmente, Laura possua lindos cabelos negros, levemente ondulados. Estavam presos 
para trs por uma presilha. Seus olhos eram castanho-escuros e muito brilhantes. Sua pele morena, no chegava a ser escura. Dentes e boca perfeitos. Ela formava 
um conjunto muito bonito. Ele a ia olhando, sem conseguir desviar os olhos. Sua saia estava levantada at a altura dos joelhos. Ele pde notar que suas pernas tambm 
eram bem feitas e bonitas. Estava distrado, olhando, quando viu o mdico se aproximando. Disse:
- Por esta radiografia no tem nada quebrado, foi apenas uma luxao, mas, mesmo assim, ser preciso imobilizar por alguns dias.
- Imobilizar? No pode! O senhor sabe que l em casa h muitas crianas! Minha me est aqui! Como vou fazer para cuidar delas?
- A Eunice ter que ficar aqui por mais alguns dias. No est bem, alimenta-se muito mal e trabalha muito. Ficando aqui, poder descansar e se alimentar. Quando 
voltar, estar como nova.
- Quantos dias mais ela ter que ficar?
- Deveria ficar no mnimo mais dois dias, mas diante da situao poder sair antes. Estou dando um medicamento atravs do soro. Depois disso, poder ir embora, mas 
ter que continuar o tratamento em casa, se no, da prxima vez em que tiver outro ataque como aquele, poder ser fatal.
- Deus me livre! No fale isso, doutor. No posso imaginar a minha vida sem ela. Por isso mesmo  que no posso ficar imobilizada.
- Mas precisa, embora no tenha quebrado. Se no imobilizar, sentir muitas dores e poder complicar.
- No sei como vou fazer...
- Vai ter que se organizar. As crianas maiores a ajudaro com os menores. Amanh bem cedo, poder vir buscar a Eunice, mas, mesmo assim, ela ter que ter muito 
cuidado e se alimentar bem.
Walther prestava ateno na conversa dos dois. Percebeu que Laura estava mesmo muito aflita. Pensou um pouco e os interrompeu:
- Com licena. Sei que sou o culpado por toda esta situao. Quero e preciso ajudar. Posso ficar durante o dia com vocs, ajudar de alguma maneira e,  noite, dormirei 
em algum hotel. Assim que sua me voltar, eu irei embora.
O mdico e Laura se olharam e no conseguiram evitar um sorriso. Foi ele quem disse:
- O senhor no deve ter prestado muita ateno na cidade. E muito pequena, praticamente tem trs ou quatro ruas. No temos um hotel, nem sequer uma penso!
- Realmente, estava to aflito que no prestei ateno, mas precisamos encontrar uma maneira de eu ficar e ajudar no que for Preciso.
Laura olhou para ele e percebeu que estava nervoso. Pensou um pouco. Sabendo que precisava de ajuda, disse:
- Embora no o considere culpado, preciso de ajuda. Se quiser, pode ficar l em casa,  muito simples, mas arrumaremos um modo de o acomodar.
- Boa idia, Laura! Garanto ao senhor que ficar muito bem Embora garanta tambm que ter muito trabalho. Aquelas crianas so um terror.
Laura sorriu:
- Nem tanto, doutor. So apenas crianas que querem brincar e viver.
Walther pensou mais um pouco. Aquilo no estava em seus planos. Queria chegar logo a So Paulo, terminar de arrumar sua vida e voltar o mais rpido possvel para 
os Estados Unidos. Muita coisa havia acontecido desde que chegara ao Brasil. Sua cabea estava muito confusa. Sabia que agora tinha dinheiro para recomear uma vida 
nova em seu pas. Sabia tambm que, sozinho, no conseguiria encontrar sua me. O que mais desejava era voltar. Esquecer tudo o que havia se passado em sua vida, 
a sua origem e usufruir do dinheiro que lhe pertencia por direito. Dinheiro que sua me havia pago com muitas lgrimas e sofrimento. Tudo isso passou por sua cabea, 
mas sabia tambm que aquela jovem precisava de sua ajuda. Olhou para os dois, dizendo:
- Tenho que viajar, mas posso adiar por alguns dias. Vou ficar o tempo que for preciso.
Laura e o mdico sorriram. No ntimo, ela ficou feliz. Precisava de ajuda e ele, com certeza, a ajudaria. O mdico disse:
- Assim est muito bem. Vou imobiliz-la. Iro embora e amanh voltaro para levar a Eunice.
Assim fez, logo Laura estava com uma tala que pegava a perna toda, desde a coxa, envolvendo os ps. Walther acompanhou a enfermeira at o jipe. Ela empurrava a cadeira 
de rodas. Assim que chegaram, ele, com muito cuidado, colocou Laura no banco de trs. Aps acomod-la, entrou no jipe, se despediram, ele foi dirigindo bem devagar. 
Laura o olhava por trs. Ele  um moo bonito! Quem ser? De onde ter vindo? Walther, agora, prestava ateno  cidade. Realmente, era muito pequena. Pelo retrovisor, 
olhou para trs. Laura, no mesmo instante, tambm olhou, seus olhos se encontraram. Os dois sentiram como se um raio os houvesse atingido. Uma corrente eltrica 
passou por seus corpos. Ficaram calados, olhando-se por alguns segundos, sem conseguirem desviar os olhos. Depois, meio sem graa, viraram o rosto para o lado. Ficaram 
calados, no sabiam o que dizer. Sentiam que o corao batia mais forte. Walther respirou fundo, querendo voltar ao seu normal. Laura ficou olhando para fora, apreciando 
a paisagem, tentando no demonstrar o que estava sentindo. Foi um momento mgico para os dois, cada um de seu modo tentava disfarar. Ficaram assim calados por alguns 
minutos. Walther interrompeu o silncio:
- O doutor tinha razo, no percebi como a cidade era pequena!
Ela, ainda um pouco encabulada, disse:
- O senhor ficou muito assustado com tudo o que aconteceu, por isso no deve ter notado.
- Com certeza, foi isso mesmo que aconteceu, mas, por favor, no me chame de senhor. No sou to velho assim. Meu nome  Walther. O seu  Laura. Um bonito nome.
- Obrigada, tambm gosto dele. Estou pensando que no devia ter aceitado a sua ajuda, parece ser muito ocupado e deve estar com pressa de voltar para o seu destino.
- No sou muito ocupado, alis, no momento, no sei muito bem quem sou. Preciso, sim, voltar logo ao meu destino.
Ela no disse nada, apenas sorriu. Logo chegaram  pequena estrada que os levaria at  casa de Laura. Com cuidado, ele entrou e foi dirigindo bem devagar, tentando, 
ao mximo, evitar os buracos, mas isso era quase impossvel. Chegaram  pequena clareira, onde existia um pequeno corredor cercado por uma cerca baixa de madeira:
- Daqui para a frente, acredito que vai ser preciso que eu a carregue.
-  muito longe! Sou pesada! Deve ter uns dez metros! Ser que vai conseguir?
- No  to longe assim, tambm no precisa se preocupar, as crianas j nos viram e esto correndo para c. Vou peg-la em meus braos,  magrinha, no deve pesar 
muito, mas, se me cansar, Paramos um pouco.
- Est bem, vamos tentar. De qualquer maneira, no vou Poder andar mesmo.
Logo as crianas chegaram. Todos estavam curiosos e preocupados com Laura. Denilson se aproximou:
- Parece que quebrou mesmo. Como vai fazer para chegar at em casa?
- Vou carreg-la. Vamos demorar um pouco, mas vamos chegar.
Saiu do jipe, deu a volta, abriu a porta. Laura se esforou e conseguiu ficar mais perto da porta. Ele a segurou pela cintura e vagarosamente a retirou. Com ela 
em seus braos, seguiu, sendo acompanhado pelas crianas que corriam  sua volta. Laura segurava em seu pescoo, dizendo:
- Para elas, tudo o que  diferente se transforma em festa.  muito bom ser criana.
- Tem razo. A criana no se preocupa com nada. S com o que vai comer e onde vai dormir.
Ele continuou andando por alguns metros, mas logo se cansou. Parou e, com ela nos braos, vagarosamente se ajoelhou, colocando-a no cho. Enquanto fazia esses movimentos, 
os rostos se encontraram. Por um segundo, as peles se tocaram e novamente aquela corrente eltrica percorreu seus corpos. Novamente tentaram disfarar um do outro 
o que estavam sentindo. Mas foi uma tarefa quase impossvel. Seus rostos ficaram vermelhos, seus olhos se encontraram e no conseguiram desviar-se. Ficaram se olhando, 
como se s agora houvessem se encontrado realmente. As crianas tambm se sentaram, estavam curiosas para saber quem era aquele homem. Walther, disfarando, comeou 
a brincar, ora com uma, ora com outra. Aos poucos, elas comearam a rir. Logo se viu rodeado por rostinhos que o olhavam curiosos. Laura, sorrindo, disse:
- Elas esto estranhando a sua presena, nunca viram um homem aqui em casa.
- Disse que seu pai morreu, mas voc no  casada?
- No, nunca me interessei por rapaz algum.
- Disse que seus irmos, assim que atingiram uma certa idade, foram embora. Voc, por que no foi?
- Nunca quis deixar minha me sozinha. Nunca senti vontade ou necessidade de ir embora daqui. Adoro este lugar e as crianas-Mame est muito cansada, precisa da 
minha ajuda.
Ele sorriu, levantou-se dizendo:
- Bem, vamos andar mais um pouco?
Ela, tambm sorrindo, levantou os braos para que ele a pegasse no colo novamente. Ele a segurou carinhosamente. Agora sentia um prazer enorme em t-la em seus braos. 
Sentia o calor de seu corpo e uma vontade imensa de apert-la junto a si, mas no o fez. Segurou-a normalmente. Ela tambm queria se encostar a ele, mas se conteve. 
Caminharam desta vez at a casa. Entraram em uma sala grande, onde havia uma mesa imensa, rodeada por muitas cadeiras. Walther olhou em sua volta e percebeu que 
havia um corredor com quatro portas. Pensou: Devem ser os quartos. Onde estaro as janelas? Da estrada, s vi duas. Olhou para o alto, no havia forro, podia-se 
ver as telhas que cobriam a casa feita de tijolos e pintada toda de branco. No cho, cimento vermelho e brilhante. Denilson se apressou e colocou na frente de Laura 
uma cadeira com braos. Walther, com muito cuidado, sentou-a. Tea j estava com um banquinho em suas mos e o colocou na frente da cadeira. Walther levantou a perna 
de Laura e colocou-a em cima do banquinho. Viu que quatro crianas, ainda bebs, estavam brincando no cho, em cima de uma colcha. No conseguiu esconder a curiosidade:
- Quem so essas crianas? De onde elas vieram?
- Alguns, como Denilson e Tea, so irmos legtimos. Seus pais pediram para minha me cuidar deles por algum tempo. Foram para So Paulo, prometendo voltar para 
busc-los. Isso j faz cinco anos. Em relao aos outros, os pais morreram ou abandonaram os filhos. As pessoas, sabendo que mame no se recusa de cuidar de criana, 
mandam-nas para c.
Lurdinha saiu de um quarto, trazendo nos braos uma criana. Ao v-la, Laura sorriu:
- Essa  a Ritinha, tem apenas dois meses de vida. Sua me a deixou aqui. Ela  ainda tambm uma menina, tem quinze anos. Seus pais no a quiseram mais em casa, 
desde que descobriram que ela estava esperando uma criana. Mame a recolheu, cuidou dela ate a criana nascer. Assim que Ritinha nasceu, em uma manh, encontramos 
uma carta, na qual pedia que mame cuidasse da menina, pois ela ia tentar a vida em outro lugar. Assim que ficasse bem, voltaria para busc-la.
- Acredita que ela vai voltar?
- Para ser sincera? No. Como j aconteceu com outras crianas, seus pais nunca mais voltaram. No fundo, no os culpo pois sabem que, aqui, a criana ser muito 
bem cuidada. Bem melhor do que se ficasse com eles.
- No entendo como pais podem abandonar seus filhos.
- Por estes lados, isso  comum. A misria  muito grande Eles precisam tentar a vida em outro lugar. Eles so obrigados a sair da sua terra, procurar sustento.
- Isso  lamentvel. Tem que existir uma soluo para esse problema.
- Talvez algum dia ela seja encontrada, enquanto ela no chega, vamos fazendo a nossa parte.
- Esperemos que sim, acredito que tenha razo, mas est confortvel?
- Muito! No sei o que fazer para agradecer tudo o que est fazendo!
- No tem o que agradecer, afinal, tenho minha parte de culpa, se no a tivesse atropelado, no estaria precisando da minha ajuda.
- Se eu no estivesse atravessando a estrada to distrada, voc no teria me atropelado.
- Isso agora  o que tem a menor importncia. Agora, vai ficar a, quieta, e me dizer o que devo fazer. Tenho que confessar. Nunca estive em uma situao igual a 
esta! Nunca me vi no meio de tantas crianas! No sei por onde comear ou o que fazer.
- O meu maior problema vai ser preparar a comida. As panelas so grandes e as crianas no tm fora, nem altura para cozinhar. Denilson  o mais velho. Est com 
doze anos, mas ainda no alcana.
- No sei cozinhar!
- No  difcil, vou ficar ao seu lado, ensinando.
- Est bem, mas no sei se vai dar certo.
- Claro que vai. S precisa me levar at a cozinha. Vai ter que me carregar novamente...
Ele sorriu, ela parecia muito segura de si. Denilson, ao lado, acompanhava a conversa. Walther olhou para ele, afastou o banquinho e colocou o brao em volta da 
cintura de Laura. Ela levantou braos, passou por seu pescoo. Ele a levantou e caminhou em direo  cozinha, seguindo Denilson que carregava a cadeira. Entraram 
na cozinha. Denilson colocou a cadeira em frente a uma mesa, menor do que aquela que havia na sala. Walther acomodou Laura. Em seguida, olhou para o fogo. Nunca 
havia visto um igual. Era enorme, feito de tijolo, em um buraco era colocada a lenha. Por cima, uma chapa de ferro que ficava quente o tempo todo, enquanto a lenha 
queimava por baixo. Em um canto, havia um tipo de pedestal, onde panelas brilhantes estavam penduradas. Em outro canto, um armrio forrado com papel rosa, recortado 
na forma de flores, onde estavam pratos, xcaras e copos. No meio da cozinha, havia a mesa. Ao lado, uma pia, onde a loua era lavada. Reparou que no havia torneira:
- No tem torneira, Laura? Como consegue gua?
- L fora tem um poo. Denilson vai lhe mostrar. A gua  carregada aqui para dentro, em um balde que est ao lado do poo. Cada um de meus irmos mandou um pouco 
de dinheiro e mame mandou colocar uma bomba manual. J deve ter percebido que no temos luz eltrica...
- No, eu no havia notado. Como fazem  noite?
- Temos alguns lampies a querosene e lamparinas que so espalhados por toda a casa.
Ele no acreditava no que estava vendo. Nunca pensou que pessoas pudessem viver daquela maneira. Mas notou, tambm, que, para elas, era natural. Que no eram infelizes 
por isso. Saiu de casa, acompanhado por Denilson. Foi at o poo. Comeou a abaixar e levantar uma alavanca. De repente, uma quantidade muito grande de gua saiu 
por um cano. Denilson havia colocado o balde embaixo, logo ele estava cheio de gua fresca e cristalina. Walther apanhou o balde e voltaram para a cozinha. Laura 
estava com Lurdinha, escolhendo feijo e o colocando dentro de um caldeiro grande. Assim que ele entrou, ela disse:
- Pode colocar o balde em cima da pia. Assim que terminar de escolher o feijo, vamos colocar gua dentro do caldeiro e depois lev-lo ao fogo para cozinhar.
Walther obedeceu a todas as ordens. Logo, o caldeiro com feijo estava sobre o fogo. Em seguida, fez o mesmo com outra panela, onde, seguindo as instrues de 
Laura, temperou arroz. Ele particularmente, estava adorando tudo aquilo. Outra panela foi colocada com um pedao de carne, que ele foi virando de um lado para outro. 
Laura, sorrindo, seguia todos os seus passos. Quando ele terminou de colocar todas as panelas sobre o fogo disse:
- E agora? Que mais preciso fazer?
- S temos que prestar ateno para no deixar queimar Logo estar tudo pronto e vamos conhecer o sabor do seu tempero
- Confesso que estou curioso. Nunca antes havia feito uma comida como essa. Em meu pas, gostamos muito de sanduches. Minha me, de vez em quando, cozinhava assim, 
mas papai no gostava, por isso aos poucos ela tambm foi se acostumando com os sanduches, pastas e batatas.
Laura ficou calada, estava encantada, olhando para ele. Notou que ele tinha dentes perfeitos. Quando falava, em seu queixo aparecia um furinho que lhe dava um charme 
especial. No entendia por que a presena dele lhe fazia tanto bem. Na realidade, ela nunca antes havia se interessado por homem algum. Todos que conhecera eram 
sempre sem atrativo, mas com ele, desde o incio, foi diferente. Tudo nele lhe agradava. Estava distrada, quando Denilson perguntou:
- Laura, no est na hora da gente tomar banho?
- Est, sim. Walther, preciso de mais um favor seu.
- J lhe disse que no estou fazendo favor. O que ?
- As crianas precisam tomar banho. Sabe aquele pequeno riacho, onde tem aquela ponte?  l que, todos os dias, a esta hora, vamos tomar banho. No  fundo e a gua 
 cristalina. Hoje no vou poder ir, mas s o Denilson e a Tea, sozinhos, no conseguiro dar banho nas crianas. Poderia ir com eles?
Walther olhou para as crianas que brincavam na sala. Notou que havia louros, morenos e duas negras. Mais uma vez se viu diante de uma situao nunca esperada. Nunca 
estivera perto de tantas crianas, muito menos, nunca passou por sua cabea que algum dia daria banho em uma delas. Olhou para Laura respondendo:
- Estou vivendo experincias diferentes. J cozinhei, agora no sei se vou conseguir, mas vou tentar isso tambm.
- Claro que vai conseguir. No tem segredo. Basta s ficar olhando para ver se elas realmente se lavam, pois gostam de ficar brincando e esquecem de se lavar.
Walther olhou para Denilson, que acompanhava a conversa:
- Pois se tem que ser, que seja! Vamos embora.
- Foram at o riacho. Walther os seguia, prestando ateno nos movimentos das crianas. Assim que chegaram, elas foram se despindo e entrando na gua, que parecia 
estar fria, mas como o calor era muito grande, deveria estar muito boa. As crianas passavam sabonete pelo corpo. Riam e jogavam gua umas nas outras. Walther ficou 
na margem, prestando ateno em todas elas. Percebeu que ali no havia perigo algum. Era raso e a gua descia calma. Sentiu muito calor. Tirou as calas e a camisa, 
somente com a roupa de baixo entrou na gua e comeou a lavar as crianas e a brincar com elas, tambm jogando gua. Aquele banho se transformou em uma grande brincadeira. 
Todos riam. Estava to bom que nem viram o tempo passar. Lurdinha, que havia ficado em casa com Laura, chegou  margem do rio, ficou olhando toda aquela algazarra. 
Gritou bem alto para que ele pudesse ouvir:
- Seu Walther! Seu Walther! Ele a ouviu, voltou a cabea:
- Que foi? Aconteceu alguma coisa?
- No! Esto demorando muito, a Laura est preocupada, pediu para eu vir ver se aconteceu alguma coisa.
- Nossa! Nem vi o tempo passar. Esta gua est muito fresca e com todo esse calor, no poderia haver algo melhor. Crianas! Vamos sair, nos enxugar e ir para casa. 
Precisamos ajudar a Laura com o jantar.
As crianas no queriam sair da gua, estavam se divertindo muito, mas sabiam que precisavam obedecer. Protestando, saram. Vestiram a roupa por cima do corpo molhado. 
Walther, mais uma vez, se admirou:
- No trouxeram toalhas? No vo se enxugar? Foi Lurdinha quem respondeu:
- No  preciso, com esse calor todo, em poucos minutos vo estar secos. Vamos, crianas!
Enquanto ela seguia com as crianas, Walther foi at o jipe, abriu a maleta, tirou uma cala e uma camisa limpa. Enquanto se vestia, olhava para as crianas indo 
para casa. Olhou para o cu: A Lurdinha tem razo, est muito quente mesmo. O sol est quente, no tem nenhuma nuvem. No posso negar que aqui  muito bonito e tranqilo. 
Com certeza, estou conhecendo paisagens diferentes das que estava acostumado. H algum tempo, jamais poderia imaginar que estaria em um pas longe do meu e totalmente 
diferente. Que ia conhecer pessoas as quais no sabia que existiam, mas hoje sei que so toda a famlia que tenho. O Olavo, o Isaas, a Ismnia, av Zu e o Lula 
me disseram tantas coisas a respeito de destino, de Deus e de outras vidas Ser que tudo o que disseram  verdade? Ser que j vivi outras vezes? Por que tenho a 
impresso de j conhecer a Laura? Isso  impossvel! Nunca estive aqui e ela nunca saiu daqui... Porque tive que vir para este lugar to distante da minha terra? 
Minha me. Ser que ainda est viva? Onde estar? Estava assim distrado, olhando para o cu, quando ouviu algum chamando por seu nome. Olhou para a frente, era 
Denilson que gritava e abanava a mo. A princpio, assustou-se, mas logo percebeu que no estava acontecendo nada grave. Ele apenas o estava chamando. Terminou de 
abotoar a camisa. Penteou seus cabelos, andou em direo  casa. Sabia que tinha um dever de conscincia. Fora ele quem atropelara Laura, no poderia deix-la sozinha 
com todas aquelas crianas. Ao entrar na sala, percebeu que, sobre a mesa, havia pratos e canecas de alumnio. As crianas j estavam sentadas. Olhou para a cozinha, 
Laura estava com Lurdinha. Com uma colher de pau, tentava mexer em uma panela, mas ela era muito alta. Por mais que tentasse, no conseguia alcanar. Sorrindo, aproximou-se:
- No lhe disse que eu faria isso?
- Disse, mas eu sabia que estava se divertindo muito com as crianas, no quis interromper. Com a ajuda da Lurdinha, consegui preparar tudo, s tem, agora, que me 
ajudar a levar as panelas para a mesa.
- Pode deixar que eu levo. Antes, vou coloc-la perto da mesa para que possa comer tambm.
Ela sorriu, enquanto erguia os braos para que ele a levantasse. Foi o que ele fez, levou-a at perto da mesa. Em seguida, voltou para a cozinha. Com a ajuda de 
dois panos de prato, carregou para a sala uma panela com arroz, outra com feijo e outra ainda com carne cozida. Serviu as crianas e, por ltimo, a ele prprio 
e a Laura. Em seguida, sentou. Comeram em silncio. Ritinha, a menina recm-nascida, comeou a chorar. Lurdinha levantou e foi atend-la. Aps o jantar, as crianas 
saram da mesa. Os maiores ajudaram a tirar e lavar a loua. Laura colocou Ritinha sobre a mesa e a trocou. Lurdinha trouxe uma mamadeira. Laura deu a ela. Em seguida, 
foi colocada em um bero que havia no quarto, onde Laura e sua me dormiam. Do lado de fora da casa, havia uma cobertura, cujo cho tambm era recoberto com cimento 
vermelho. As crianas comearam a brincar. Mais uma vez, Walther pegou Laura em seus braos e a carregou para fora. J havia anoitecido. Alguns lampies de querosene 
foram acesos e espalhados por toda a casa. Walther sentou-se ao lado de Laura, enquanto as crianas brincavam. Eles conversavam:
- Estou impressionado at agora com o modo como as pessoas trataram voc no hospital, Laura.
- Por qu?
- Parece que todos a conhecem.
- Realmente me conhecem. Alis, conhecem a minha me. Ela  muito querida em toda a cidade. Todos sabem do carinho com que cuidou e cuida das crianas. Sabem, tambm, 
que qualquer pessoa que precise, ela estar disposta a ajudar.
- Sua me parece ser uma grande mulher.
- Tambm acho, alis, todos acham a mesma coisa. Alguns dizem at que ela  uma santa.
- De acordo com algumas coisas que ouvi, ela deve ser um esprito iluminado.
- Deve ser mesmo... s vezes, penso que veio a este mundo, s para ajudar...
- Disseram-me que todos temos uma misso para cumprir, parece que ela est cumprindo a dela muito bem.
Laura no disse nada, ficou pensando em sua me. Ela tambm a admirava muito. Por isso, nunca quis deix-la. Seus irmos haviam ido embora, mas ela sentia que precisava 
ficar ali. Agora, estava preocupada. Sua me estava doente, ela no sabia como seria sua vida sem ela. Walther percebeu que uma nuvem de tristeza envolveu o rosto 
de Laura:
- Parece que est preocupada, Laura!
- Estou mesmo. Minha me no est bem. Sei que precisa de tranqilidade, seu corao est com um problema muito srio algo mais grave. No sei se conseguiria seguir 
com o seu trabalho no sei se conseguiria continuar cuidando das crianas do modo como ela cuida...
- Acredito que no deva se preocupar com isso. O mdico disse que ela poder voltar para casa amanh.  sinal que est bem seno ele no permitiria. Talvez precise 
s de um pouco de ateno.
- Desejo, do fundo do meu corao, que realmente seja assim Falando nisso, no quero abusar, mas poderia ir amanh, com o Denilson busc-la?
- Claro que vou. Quero muito conhecer a sua me, me parece uma pessoa extraordinria!
- E ! Tenho certeza de que vai gostar muito dela. J est tarde, est na hora de as crianas irem para a cama.
- Voc tambm deve estar cansada. Seu dia hoje no foi fcil.
- Estou mesmo cansada. Crianas! Por hoje chega! Est na hora de dormir.
Embora protestando, as crianas pararam de brincar. Sabiam que estava na hora, um atrs do outro foram beijando Laura, sorriam para Walther e entravam em casa. Os 
mais velhos iam encaminhando os menores. Walther os acompanhou. Na casa, havia trs quartos. Em um, havia duas camas de casal e duas de solteiro. Lurdinha levou 
para l e acomodou algumas crianas que dormiam juntas nas camas de casal. Nas duas de solteiro, dormiam ela e a Tea. Denilson entrou em outro quarto, que, como 
o primeiro, possua tambm duas camas de casal, mas s uma de solteiro. Acomodou as outras crianas e se deitou. Trs bebs, inclusive a Ritinha, foram colocados 
em outro quarto, onde havia dois beros e duas camas de solteiro. Walther deduziu que aquele deveria ser o quarto de Laura e sua me. Aps todas as crianas estarem 
acomodadas, ele voltou para junto de Laura, que ainda estava fora de casa. Sentou-se ao lado dela, dizendo:
- J esto todos deitados. Do modo como brincaram, devem estar cansados e logo estaro dormindo.
- So umas crianas adorveis. Muito obedientes. Mame tem verdadeira adorao por todas, e elas tambm por ela.
- Estou curioso por conhecer a sua me. Fiquei olhando tudo por aqui. Notei que precisam de muitas coisas. Por que no tm energia eltrica?
- S tem luz na cidade. Ficaria muito caro traz-la at aqui. Mas j estamos acostumados. Isso no nos preocupa. Os lampies iluminam muito bem.
- Com energia eltrica, poderiam ter uma geladeira, rdio...
- Gostaria muito de ter um rdio. Sempre que vou  cidade, fico escutando as msicas que so tocadas em uma loja. Adoro msica, mas isso est muito longe de acontecer. 
A prioridade da minha me  a alimentao e o bem-estar das crianas. Ela agradece, todos os dias o que Deus nos d...
Walther no disse nada, apenas ficou pensando: Ser que Deus realmente existe? Enquanto essas mulheres vivem com tanto sacrifcio, cuidando de todas essas crianas, 
eu tenho hoje tanto dinheiro, que ainda no consegui imaginar o quanto vale na realidade. Ser que o Isaas, a v Zu e o Lula tinham razo quando falaram em reencarnao? 
Laura percebeu que ele estava com os olhos distantes, perdido em seus pensamentos. Perguntou:
- Em que est pensando?
- Na vida e como ela joga conosco...
- Por que diz isso?
- Estou pensando em como voc e sua me vivem aqui com toda essa simplicidade e parece que so felizes...
- E somos! Vivemos a vida que escolhemos!
- Mas vivem em completo estado de pobreza! Como diz que pode ser feliz?
- Esta  a vida que sempre conhecemos. O importante para ns  termos sade. Por isso, estou preocupada com a minha me. Com sade, o resto se torna fcil. A gente 
tem o suficiente para viver. As crianas crescem saudveis. No precisamos de mais nada. Deus nos d tudo de que precisamos.
Walther continuava intrigado com a passividade com que ela encarava a vida. No entendia como podia existir uma pessoa com to poucos sonhos. Sua me lhe ensinara 
que nunca deveria colocar o dinheiro acima de tudo. Que ele era importante, mas no a prioridade da vida, mas, naquele caso, ele sentia que o dinheiro ali seria 
muito importante. Tinha muito, poderia facilitar a vida daquelas mulheres Poderia aumentar a casa, colocar mveis novos e trazer energia eltrica. Muita coisa poderia 
fazer por elas. Ele pensava: Se tudo o que as pessoas falaram sobre um Deus justo for verdade, talvez tenha sido por esse motivo que atropelei a Laura e parei aqui 
neste lugar.
- Estou um pouco cansada. Ser que poderia me fazer mais um favor?
Ele voltou de seus pensamentos:
- Claro o que ?
- Poderia me levar para o quarto?
- Claro que sim.
Levantou, aproximou-se dela, que j estendia os braos para que ele a carregasse novamente. Agora, os dois j haviam se acostumado com aquela situao. Ela mostrou 
o quarto onde deveria ser levada. Enquanto caminhavam, dizia:
- Vou ficar naquele quarto. L no outro, onde o Denilson dorme, tem uma cama vaga. Poder dormir ali. Espero que, embora simples, seja uma cama confortvel.
- No se preocupe, tambm estou cansado, vou dormir logo. Chegaram ao quarto. Ele se debruou para coloc-la na cama.
Enquanto fazia isso, seus rostos e olhos se encontraram. Novamente, aquela estranha energia percorreu o corpo dos dois e, antes que se dessem conta, estavam se beijando 
apaixonadamente. Sem descolar os lbios, ele a deitou completamente na cama. Ela no resistiu, tambm se entregou quele beijo com paixo. Comearam a se acariciar 
e logo estavam completando aquele amor imenso que brotara em seus coraes. Amaram-se com ardor e paixo. A casa estava em silncio, nada interrompeu aquele momento 
mgico. Assim que o amor foi saciado, continuaram abraados. Permaneceram calados, ainda confusos pelo acontecido. Ritinha chorou, foi como um sino que os trouxe 
de volta  realidade. Laura se afastou, tentando esconder o rosto. O bero estava junto  cama. Ela sentou, colocou Ritinha sobre as pernas. Pegou uma fralda que 
estava dentro do bero, trocou-a. Em seguida, pegou-a no colo, deu a ela uma mamadeira que estava tambm no bero. Ritinha comeou a mamar. Ela ficou o tempo todo 
de olhos baixos, sem coragem de olhar para Walther que, tambm atordoado pelos acontecimentos, ficou por alguns segundos calado, olhando para ela sem entender o 
que havia acontecido. Ficaram, assim, com medo de dizer qualquer coisa. Ele quebrou o silncio:
- Como voc deve estar confusa, tambm no entendi o que aconteceu, s sei que desde que a vi, senti que a amava. Senti que, para voc, no sou indiferente. Agora, 
tenho certeza. Quero viver com voc por toda a minha vida. E voc? O que sente?
Ela, vagarosamente, levantou os olhos:
- No sei o que dizer... Como deve ter notado, nunca tive outro homem antes... No devamos ter feito isso...
- Tem toda razo, no devamos ter feito, mas foi mais forte que tudo. Estou apaixonado, quero me casar e lev-la comigo.
- No posso! Como deixar minha me sozinha? Ainda mais agora que est doente?
- Vamos dar um jeito. Voc no sabe, mas tenho muito dinheiro. Posso mandar arrumar esta casa, trazer energia eltrica ou comprar uma casa na cidade. Poderemos contratar 
quantas pessoas forem necessrias para ajudar sua me.
- No sei... No vou fazer nada que a magoe...
- Amanh, quando for buscar sua me no hospital, conversarei com ela. Parece-me ser uma boa pessoa, vai entender o nosso amor.
- Est bem, tambm sinto que o amo e quero ficar ao seu lado para sempre. Mas, por favor, no fale com ela antes de chegar em casa. Quero estar ao seu lado quando 
for falar. Preciso ver com meus prprios olhos qual vai ser a sua reao. Eu a conheo muito bem, se pensar que, concordando, vai me fazer feliz, vai concordar sem 
discutir, mas sei que vai sofrer muito. No quero mago-la de maneira alguma...
- Est bem, vou fazer como quiser. Agora, j est tarde, vou para o outro quarto, amanh ser outro dia e tudo vai ser resolvido. Acredita que vai poder cuidar da 
Ritinha sozinha?
- Vou sim, ela agora est mamando, quando terminar, dormir em seguida. Se precisar, eu o chamarei.
- Tenho uma idia melhor. Vou me deitar a nessa cama que deve ser da sua me. Assim, ficarei mais perto e poderei ouvir, se Precisar.
- Est bem, tambm acho melhor.
Ele a beijou mais uma vez. Ela terminou de dar a mamadeira ele acomodou Ritinha no bero. Os dois deitaram e ficaram pensando em tudo o que havia se passado. Logo, 
estavam dormindo. Walther acordou com o choro de Ritinha. Abriu os olhos, viu Laura e Lurdinha que cuidavam dela. Olhou pela janela, percebe que o sol j raiara. 
Sorriu dizendo:
- Bom dia! Parece que est um bom dia mesmo. As duas se voltaram. Ele pde perceber que os olhos de Laura estavam brilhantes e ela parecia feliz:
- Bom dia, Walther! Tem razo, o dia est lindo!
- Que horas so? A que horas vou buscar sua me?
- Agora so sete horas mais ou menos. Acredito que minha me s poder sair l pelas dez.
- Tenho tempo de me levantar e ir at o riacho tomar um banho. Vou colocar uma roupa limpa, quero estar apresentvel para poder impression-la.
- No precisa fazer nada disso. Minha me  muito simples, no vai se importar com que roupa est vestido. Ela, assim que olhar em seus olhos entender tudo. E muito 
inteligente.
- Acredito nisso, mas a primeira impresso  a mais importante.
Laura no disse nada, apenas sorriu. Terminou de dar a mamadeira para Ritinha dizendo:
- Pronto, Lurdinha, ela j est pronta, pode ir com ela para o quintal. Precisa tomar um pouco de sol.
Lurdinha, calada, obedeceu. Pegou Ritinha e saiu do quarto. Laura olhou para Walther, que ainda continuava deitado:
- Preciso ir para a sala ver como as crianas esto. Devem estar com fome, preciso preparar o caf.
Ele se levantou, esticou os braos para o alto, se espreguiando gostosamente:
- Est, bem, senhorita! Vou lev-la, mas antes ter que m dar um beijo de bom dia.
- Fiquei observando voc, Walther, enquanto dormia. No sei se sonhei, ou se tudo aquilo aconteceu mesmo.
- Claro que aconteceu. Descobri que a amo e muito, hoje mesmo falar com a sua me e depois vamos cuidar para que ela fique bem. Em seguida, vamos embora. Vamos nos 
casar e vamos ser felizes para sempre, como acontece nos contos de fadas.
Ela sorriu, no podia acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Sentia que o queria muito, sentia como ele, que seriam felizes. No conhecia aquele homem, mas 
confiava nele. Ele se debruou sobre ela, beijou-a carinhosamente. Ela levantou os braos e, dessa vez, abraou-o e correspondeu ao beijo. Ele a levou nos braos 
at a sala. A mesa j estava colocada, as crianas, sentadas, esperando. Lurdinha entrou com um bolo que havia assado em um forno de barro que havia no quintal. 
Denilson entrou trazendo um balde com leite. Walther pegou o balde, colocou o leite em um caldeiro de alumnio e levou ao fogo para ferver. Enquanto fazia aquilo, 
pensava: Ainda estou um pouco tonto com tantas coisas que esto acontecendo desde que cheguei a esta terra. Que mais me estar reservado?
- Agora que colocou o leite para ferver, j pode ir tomar o seu banho. Quando voltar, ele vai estar fervido.
Olhou para Laura, que dizia isso e disse, sorrindo:
- Voc  maravilhosa. Amo muito voc.
Denilson e Lurdinha, ao ouvirem aquilo, arregalaram os olhos. Walther percebeu e, sorrindo, continuou:
-  isso mesmo, eu amo a Laura e vamos nos casar. Os dois arregalaram mais ainda os olhos. Denilson disse:
- Casar? Como? Conheceram-se ontem? A me j sabe disso?
- No, a me ainda no sabe, mas vai saber quando voltar do hospital. O Walther e voc iro busc-la.
- Como isso aconteceu, Laura? Foi Walther  quem respondeu:
- No sabemos como aconteceu, por isso no sei como responder, mas estamos apaixonados e vamos nos casar. No diga nada  sua me at chegarmos em casa. Quando ela 
estiver aqui, bem instalada e tranqila, vou falar com ela.
- Se ela no deixar?
- Acredito que vai deixar, ao menos vou fazer tudo para convenc-la.
- No sei no... No estou entendendo nada... Laura, sorrindo, disse:
- Tambm no estou entendendo, Denilson, s sei que gosto do Walther e quero ficar com ele para sempre.
- No sei no...
- Vou at o riacho tomar um banho, no quer ir comigo? Denilson estava um pouco desconfiado daquele estranho que chegou do nada e agora estava querendo levar sua 
irm embora. Com o rosto fechado, respondeu:
- No, no vou. Preciso cuidar dos animais. Walther percebeu que ele havia ficado bravo. Resolveu no insistir:
- Est bem, vou sozinho. Quando voltar, poderei ajud-lo.
- No precisa, j estou acostumado... 
Walther olhou para Laura, que sorriu, balanando a cabea, pedindo com os olhos para que ele tivesse pacincia. Walther sorriu para ela, tambm balanando a cabea. 
Saiu em direo ao riacho. J fora da casa, parou e ficou olhando  sua volta. O lugar era isolado, no havia casas por perto. Estavam completamente afastados da 
cidade que ficava do outro lado da rodovia. Viu alguns caminhes que passavam pela estrada. O mato era rasteiro com uma ou outra rvore. Apesar disso, o lugar era 
bonito e agradvel. Denilson saiu da casa e passou calado por ele. Walther o seguiu com os olhos, viu ao longe uma vaca que pastava, sossegada: Deve ser dela que 
ele tirou o leite. Nunca pensei que algum pudesse viver dessa maneira, o mais impressionante  que parece que so felizes... Dirigiu-se ao riacho, tirou a camisa 
e entrou na gua. O sol estava quente. Apesar de ser ainda cedo, o calor j era imenso. Ficou naquela gua fresca, sentindo um prazer que nunca sentira igual. Olhando 
o cu muito azul e sem nuvens, lembrou-se de tudo que acontecera na noite anterior entre ele e Laura. Foi maravilhoso! No sei como aconteceu, mas foi maravilhoso! 
Conheci muitas mulheres, mas nunca uma igual a ela. O nosso encontro foi puro e sincero. Senti como se j a conhecesse h muito tempo. Ser que todos tinham razo? 
Existiro mesmo outras vidas? Estou feliz! Sinto que a minha vida daqui em diante vai ser diferente. Muita coisa j mudou, mas agora sei que, alm de todo o dinheiro 
que recebi, encontrei tambm o amor de minha vida. O nico problema vai ser a me dela, mas vou saber como falar com ela. Vou mostrar que meu nico desejo  a felicidade 
da sua filha. J pensei em tudo. Vou dar a ela uma casa nova, com muito conforto e dinheiro para que possa cuidar destas crianas e de outras, se quiser. Vou fazer 
qualquer coisa para ter Laura ao meu lado. Vou fazer isso mesmo. Vou falar com ela e sei que a convencerei. Agora, vou para a casa tomar caf. Estou com fome. Saiu 
da gua. Foi at o jipe, pegou outras roupas limpas, pensando: Ainda bem que a Leda lavou as minhas roupas. Preciso me apresentar bem diante da minha futura sogra... 
Ao entrar na sala, viu Laura sentada no mesmo lugar em que a deixara. Foi at ela, beijou-a na testa e dirigiu-se at a cozinha. Lurdinha estava atrapalhada com 
uma concha de feijo. Tentava tirar leite de um caldeiro e colocar em uma leiteira menor. O caldeiro era muito alto, por isso estava com tanta dificuldade. Ele 
se aproximou e, tirando a concha de sua mo, comeou a encher a leiteira. Levou para a mesa, primeiro a leiteira, depois o bule com caf e, ajudado por Laura, serviu 
as crianas que comiam, caladas, mas demonstrando felicidade com os olhos. Quando terminaram, saram correndo para o quintal. Walther as seguiu com os olhos. Laura 
tambm, dizendo:
- O dia est apenas comeando, elas tm muito para brincar.
- Estou me lembrando de quando era criana. De como  bom ser criana. No existe preocupao alguma, o nico pensamento  como vai se brincar...
Lurdinha, Tea e Denilson retiraram da mesa as canecas e levaram para a cozinha. Walther levou a leiteira e o bule. Voltou para a sala:
- Aqui dentro est muito quente, no quer que a leve para fora?
- Gostaria muito, se no for muito trabalho...
- Trabalho? Trabalho? Estou louco de vontade de peg-la no colo novamente.
A felicidade estava estampada em seus rostos.

SONHOS DESFEITOS

Ela sorriu, levantando os braos. Ele a pegou carinhosamente no colo, beijou seu rosto, cabelos e a conduziu para fora. Sentou-a na mesma cadeira em que estivera 
sentada na noite anterior. De onde estavam, podiam ver as crianas brincando:
- Vendo todas essas crianas, me pergunto: o que faz uma pessoa dedicar sua vida a cuidar de crianas que no so suas?
- Tambm no sei, s sei que, desde que me conheo por gente, sempre estive rodeada por irmos, alguns cresceram, foram embora, mas sempre chega um novo.
- Disseram-me que todos temos uma misso parta cumprir, talvez seja essa a misso da sua me.
- Talvez seja mesmo. Ela  uma santa. Eu me orgulho muito de ser sua filha.
- J deve estar na hora de irmos busc-la. Estou ansioso para conhec-la e pedir a sua mo em casamento.
- Tem mesmo certeza de que quer fazer isso? No ter sido apenas um entusiasmo de momento?
- Eu tenho certeza! Amo voc! E voc? Foi entusiasmo? Est arrependida?
- No! Sinto que tambm amo voc, s no sei como isso aconteceu to de repente...
- Tambm no sei, mas isso no tem importncia. Vamos conversar com a sua me. Tudo vai dar certo.
- Est bem, s prometa que no vai falar nada, at chegar aqui em casa. Eu mesma quero contar tudo...
- Vou fazer tudo da maneira como desejar. Prometo que no direi nada. Vou l dentro falar com o Denilson. Desde manh, quando soube da minha inteno em levar voc 
embora, ele no est com cara de bons amigos.
Laura sorriu:
- Isso  natural, voc no passa de um estranho que chegou e mudou as nossas vidas. Est preocupado com mame e tambm no est entendendo nada. No o culpo, pois 
eu tambm estou confusa com tudo o que est acontecendo.
- Eu j fiquei confuso, mas agora no estou mais. Sei que a amo e quero voc ao meu lado para sempre!
Levantou-se da cadeira em que estava sentado, beijou sua testa e entrou em casa para falar com Denilson. O menino estava terminando de ajudar as irms com a loua 
do caf:
- Denilson, est na hora de irmos ao hospital buscar a sua me.
- J vou, estou terminando o meu trabalho.
Walther percebeu que ele ainda estava contrariado, mas no disse nada. No queria complicar mais a situao. Entraram no jipe e seguiram para o hospital. Denilson 
seguiu o caminho todo sem dizer uma palavra, s respondia com monosslabos a qualquer comentrio de Walther. Chegaram ao hospital, a enfermeira que atendeu Laura 
no dia anterior estava l. Ao v-los, falou sorrindo:
- Bom dia! Ainda bem que chegaram! Eunice est ansiosa, perguntando a todo momento seja chegaram.
Walther correspondeu ao sorriso, dizendo:
- Bom dia, pode avis-la de que estamos aqui.
- Podem me acompanhar at o quarto. Ela, at agora, no sabe do acidente com a Laura. Precisamos falar com cuidado, o corao dela no est bem. No pode sofrer 
emoes.
- No se preocupe, vamos falar com calma. Ademais, a Laura est muito bem.
- Tem razo, o acidente no foi muito grave. Venham.
Ela entrou no corredor que dava nos quartos. Os dois a seguiram. Denilson foi na frente, estava tambm ansioso para que sua me voltasse para casa. A enfermeira 
entrou. Eunice estava com a cabea baixa, guardando, em uma sacola, algumas roupas. A enfermeira entrou, dizendo:
- Pronto, Eunice. Eles chegaram.
Ela levantou os olhos. Ao no ver Laura, perguntou:
- Onde est Laura, Denilson? Quem  o senhor?
Walther estava parado na porta. Ao v-la, seu corao disparou. No sabia se entrava ou saa. No podia acreditar no que estava vendo. No ouviu o que ela disse, 
apenas ficou ali parado sem conseguir falar e desejando, do fundo do corao, que estivesse enganado. A enfermeira, sem nada perceber, respondeu:
- No precisa ficar nervosa, Eunice. A Laura sofreu um pequeno acidente, mas est bem, apenas teve uma pequena luxao na perna. Por isso, est com ela imobilizada 
e tambm por isso, no pode vir. Mas est bem.
- Acidente? Ela est bem mesmo?
Comeou a ficar muito nervosa, Denilson tentou acalm-la:
- Est sim, me! Queria muito vir buscar a senhora, mas no vai poder andar por alguns dias.
- Se voc est me dizendo, acredito. Jamais ia me mentir.
- Estou dizendo a verdade. Agora, vamos embora? Vai poder ver com seus prprios olhos.
- Vamos sim, mas o senhor, quem ?
A enfermeira e Denilson olharam para Walther que, petrificado, estava ainda encostado na porta, sem conseguir dizer uma palavra. A enfermeira, julgando que ele estivesse 
constrangido, respondeu:
- Este  o senhor que, por acidente, atropelou a Laura, mas a est ajudando muito. Ele possui um jipe, veio aqui para levar voc at sua casa.
- O senhor atropelou a Laura? Como foi isso?
- Me! Isso agora no tem importncia. Vamos para casa. Todos esto sentindo muito a sua falta. A Laura est bem.
- Vamos, sim, mas quero saber toda essa histria.
A enfermeira a ajudou a descer da cama. Walther pegou a sacola que estava em suas mos. Denilson a abraou de um lado, a enfermeira do outro, saram do quarto. Walther 
os seguiu em silncio. Estava confuso, sem entender o que estava acontecendo. Seu corao batia acelerado. Pensava, nervoso: No pode ser! Devo estar louco! No! 
No estou louco! E ela mesma! Olhei aquela fotografia muitas vezes! E ela sim! Um pouco mais velha, mas  a mesma da fotografia! Meu Deus! Ela e Marta... A minha 
me... Aquela a quem estou procurando desde que aqui cheguei... Procurei por tanto tempo! J havia perdido a esperana de encontr-la! Mas se isso for verdade, quer 
dizer que a Laura  minha irm? No! Isso no pode ser verdade... Eu amo a Laura... Quero me casar com ela... No pode ser verdade! No pode! Os trs caminhavam 
na sua frente, sem imaginar por um minuto a agonia que ele estava vivendo naquele momento. Chegaram junto ao jipe. Walther, tentando se manter o mais calmo possvel, 
correu na frente e abriu a porta para que Eunice entrasse. Ela agradeceu, sorrindo. Entrou. Walther aproveitou esse momento para olh-la mais uma vez. Olhou para 
ela de tal maneira que chamou a sua ateno:
- Por que est me olhando assim? Parece que est muito nervoso.
- Desculpe, senhora...
Fechou a porta rapidamente e foi para o lado do motorista. Entrou, ficou esperando Denilson sentar atrs. Ele afastou a maleta para o canto e sentou. Olhou para 
Walther, que estava olhando para um ponto distante, no percebendo que tudo estava pronto para que fossem embora:
- Pronto, o senhor j pode ir.
Walther ouviu, olhou para ele, ligou o motor e saiu em direo da casa. Dessa vez, ele foi calado. Cabea mais uma vez confusa, julgando estar sonhando. Enquanto 
Eunice e Denilson iam conversando, ele ia pensando: No pode ser ela... Eu devo estar sonhando... Seu nome  Eunice... Minha me chamava-se Marta. No pode ser ela! 
Na fotografia, ela era jovem! Devo estar enganado... Preciso estar enganado! Como no estava prestando muita ateno em nada, nem percebeu quando chegaram junto 
 pequena estrada que os levaria at em casa. Entrou na estradinha. Assim que chegaram ao mesmo lugar onde ele havia carregado Laura nos braos, Denilson disse:
- Me, vai ter que andar at em casa com muito cuidado...
- Que  isso, Denilson! Est acreditando naquela histria que o mdico disse, que estou doente? Acredita mesmo que no vou poder andar at em casa? Estou louca para 
ver as crianas e, Principalmente, a Laura. Abra a porta para que eu possa descer.
Denilson, sorrindo, saiu do jipe, abriu a porta, estendeu a mo para ajud-la a descer. Walther permaneceu sentado, olhando pelo retrovisor, tentando descobrir alguma 
coisa que lhe mostrasse que estava errado. Na porta da casa, algumas crianas os viram chegando. Comearam a pular e gritar. Eunice caminhou em direo da casa e 
abanou as mos para as crianas, que vieram correndo para encontr-la. Laura estava fora. Walther, ao sair, deixou-a sentada em uma cadeira, olhando as crianas 
menores que no andavam e estavam deitadas no cho sobre um cobertor. Ela no tinha como se locomover. As crianas chegaram perto de Eunice, que se ajoelhou para 
abra-las. Walther continuou dentro do jipe. No sabia o que fazer. Lembrou-se da noite que tivera com Laura. Meu Deus! No h duvida alguma. E ela mesma! Que vou 
fazer? Como dizer a Laura o que est acontecendo? Como dizer a ela que cometemos um erro terrvel? Como dizer a ela, que apesar de tudo, eu ainda a amo?
- O senhor no vem?
Ele, ouvindo Denilson, voltou  realidade:
- Pode ir na frente, vou em seguida...
Me e filho, rodeados pelas crianas, seguiram em frente. Walther acompanhou-os com o olhar. Esses cabelos encaracolados, embora tenham alguns fios brancos, so 
os mesmos da fotografia. No tenho dvida alguma. S se for irm gmea! Ficou ali sentado. Viu quando eles chegaram perto de Laura. Eunice abraou a filha e beijou 
seu rosto:
- Ainda bem que voc est aqui. Fiquei preocupada quando a vi no hospital.
- Como pode ver, estou muito bem.
Eunice, ajudada por Denilson, levou Laura para dentro da casa. Walther saiu do jipe. Olhou para aquela imensido que o rodeava. O sol estava alto e muito quente. 
Percebeu que sua camisa estava toda molhada de suor. No sabia o que fazer. Olhou para o riacho, viu a gua que descia tranqila e muito fresca. Entrou de roupa 
e tudo. Deitou, enquanto a gua fria passava por sobre seu corpo. Isso no pode estar acontecendo comigo! Desejei tanto encontrar a minha me, percorri tantos quilmetros 
atrs dessa esperana. Agora que a encontro, desejaria que isso nunca tivesse acontecido! Todos disseram que est tudo certo, que existe um Deus verdadeiro e justo. 
Se ela for realmente a minha me, eles esto completamente enganados! Se esse Deus existe, e  justo, no est sendo comigo! Permitiu que eu fosse separado de minha 
me quando eu era ainda criana e agora, permite que eu me apaixone e me deite com minha irm. Isso no  justo! Isso no pode ser coisa desse Deus que dizem ser 
to sbio. No! No existe Deus algum! No existe nada! S a maldade das pessoas. A maldade e a ganncia do Paulo que teve coragem de me vender e me separar de minha 
me! Que vou fazer da minha vida agora? Ficou ali por muito tempo, nem podia imaginar o quanto. Seu desespero e sua revolta eram imensas.
- Seu Walther, a Laura pediu que eu viesse cham-lo. Est contando para a mame como foi o acidente. Disse que quer o senhor l para continuar com a conversa. Disse 
que o senhor tem que estar presente.
Walther olhou para Denilson, levantou-se, sentiu a roupa pesada em seu corpo. Foi em direo ao jipe, dizendo:
- Vou em seguida, s vou trocar esta roupa molhada por outra seca. Pode ir na frente.
- Vou mesmo, estou com muitas saudades de minha me. Ainda bem que ela est bem.
- V, sim, aproveite a presena dela o mais que puder... Vou em seguida...
Denilson voltou correndo para casa. Walther o acompanhou com os olhos. Sabia que teria que resolver aquela situao. Teria que contar a Laura tudo o que havia descoberto, 
s no sabia como fazer isso. Trocou de roupa lentamente. No tinha pressa. Chamaria Laura de lado, contaria tudo, depois, iria embora. Voltarei para minha terra. 
Vou aproveitar que tenho muito dinheiro, dinheiro que mereo, pois paguei com a separao da minha me. Estou pagando agora, com o tudo que estou passando. Com esse 
dinheiro, vou procurar ser o mais feliz possvel. Sei que isso vai ser impossvel, pois nunca vou conseguir esquecer a Laura. Embora saiba que  minha irm, no 
consigo deixar de am-la, de desej-la como mulher... Vestiu-se. Sabia que Eunice no podia sofrer emoes fortes por isso decidiu que no diria nada. Precisava 
encontrar uma maneira de ficar a ss com Laura. Precisava contar tudo, no poderia simplesmente desaparecer. Vagarosamente, comeou a caminhar em direo a casa 
Sentia seu corpo pesado, como se tivesse o mundo inteiro sobre suas costas. Em casa, Laura conversava animadamente com a me:
- Mame, a senhora sempre diz que temos um destino certo. Devo confessar que, a partir de agora, estou comeando a acreditar.
-  Por que est dizendo isso, Laura?
- S pode ter sido uma grande vontade do destino eu ter sido atropelada. Quando aconteceu, fiquei desesperada, pois, com a senhora doente, precisava cuidar das crianas. 
Mas agora vejo que foi muito bom e que tudo estava certo.
- No estou entendendo...
- Quando ele me atropelou, tambm ficou nervoso, mas depois nos olhamos e sentimos uma atrao profunda. Vamos esperar que ele chegue, temos algo para lhe contar...
- J estou adivinhando... Vocs se apaixonaram?
Laura ia responder no exato momento em que Walther entrou. Olhou para ele e, sorrindo, disse:
- Ele est aqui e juntos vamos lhe contar tudo, no , Walther? Ele olhou para ela, sentindo que, apesar de tudo, ainda a amava.
Viu o modo como ela o olhava. Seu corao se apertou. Disse:
- Sinto muito, Laura, mas acho que tudo o que combinamos no poder se realizar...
- Como no? Voc se arrependeu? No me ama realmente?
- No  isso... No me arrependi e a amo mais do que nunca... S acredito que agora o nosso amor no vai mais ser possvel...
Eunice, ao ouvir aquilo, disse:
- Do modo como Laura estava me contando, pensei que estivessem apaixonados e que iria me pedir para se casar com ela....
- Desculpe, senhora, realmente a minha inteno era essa, mas aconteceu algo que mudou tudo...
- Podemos saber o que foi?
Ele se aproximou de Laura, pegou suas mos e as beijou. Ela, com lgrimas caindo por seu rosto, disse:
- Voc no pode ter me enganado daquela maneira... Senti que me amava... Por que fez essa maldade comigo?
- No a enganei. Amei voc assim que a vi e, infelizmente, amo voc ainda, mas o nosso amor  impossvel...
- Impossvel, por qu?
- Ns falamos muito a seu respeito, mas nada em relao ao meu. No lhe contei por que estou to longe da minha casa e o que estou fazendo neste serto.
- Isso no pareceu ter muita importncia...
- No tinha mesmo, mas agora tem. Preciso contar tudo. No final, as duas compreendero...
- Espere, minha filha. Parece que o moo est muito nervoso, precisamos ouvir o que ele tem para contar. Moo, como deve ter notado, a minha filha  uma moa simples, 
criada aqui nesta terra. No sabe nada da vida. Sempre esteve ao meu lado. Se ela fez qualquer coisa que possa lhe parecer errado, garanto que no foi sua inteno. 
No sei o que aconteceu entre vocs, mas, seja o que for, ela  minha filha, eu a amo, por isso no precisa dizer mais nada. No precisa arrumar uma desculpa. Pode 
ir embora que vamos ficar aqui, no se preocupe com nada...
- No  nada disso! O que aconteceu entre ns foi maravilhoso! Eu amo sua filha!
- Por favor, Walther, no diga mais nada. Como a mame disse, pode ir embora! Vou ficar bem.
- Vim para c na esperana de encontrar algum. Mas no consegui. Estava voltando frustrado para So Paulo. Minha viagem havia sido intil... Por isso estava distrado, 
pensando em tudo o que havia acontecido. Estava desiludido e triste. Foi a que a atropelei. Agora, tudo mudou. Senhora, por favor, fique calma, sei que est doente 
e que no pode sentir emoes fortes. No fique nervosa. Amo sua filha, s que tenho agora uma dvida muito grande e s a senhora poder me esclarecer tudo...
- Eu? Como posso lhe esclarecer qualquer dvida? No o conheo!
- Estou com uma terrvel dvida, sim! Desejo, do fundo do meu corao, estar errado, mas sinto que no estou... Por isso preciso contar uma histria... A minha histria...
Eunice levantou, aproximou-se de Laura que estava chorando, sentada em uma cadeira.
- Minha filha, pare de chorar... Se o moo tem uma histria para contar, vamos ouvir. Sempre lhe disse que Deus est ao nosso lado e que tudo tem que ser da maneira 
que Ele achar melhor. Nada de mal pode acontecer, enquanto estivermos juntas. Acalme-se Moo, pode comear, mas, antes, preciso saber se a sua histria  muito longa. 
Se assim for, ter que deixar para depois, est quase na hora do almoo e as crianas precisam comer.
- Laura, sua me tem razo. Pare de chorar, por favor... No a enganei. Tudo o que disse e fiz foi sincero. Continuo amando voc Quando terminar de contar tudo, 
vai ver que o nosso amor no vai ser possvel e a culpa no  minha, nem sua. O culpado de tudo  apenas o destino. Senhora, acredito ser melhor cuidarmos da alimentao 
das crianas, pois receio que minha histria vai ser um pouco longa. Vou ajudar a senhora a preparar o almoo, depois que as crianas estiverem alimentadas poderemos 
conversar com mais tranqilidade.
- Obrigada por sua ateno, mas no preciso de sua ajuda. Preferia que, enquanto eu e as meninas preparamos o almoo, o senhor sasse daqui. Se quiser, no precisa 
nem ficar, pode subir no seu carro e ir embora.
Ele notou com que ressentimento ela havia dito aquelas palavras. Sentiu que, enquanto tudo no fosse esclarecido, sua presena naquela casa no era bem recebida.
- Desculpe, senhora, mas no posso ir embora antes de esclarecer tudo. No quero que a Laura continue pensando que a enganei. Vou ficar l fora, quando estiver livre 
voltarei e contarei tudo e, se a senhora ainda quiser, vou embora.
Eunice respondeu, seca: - O senhor  quem sabe.
Dizendo isso, ela foi para fora, chamou Lurdinha e Tea. Juntas, foram para a cozinha. Laura olhou mais uma vez para ele. No conseguiu esconder a decepo que estava 
sentindo, abaixou a cabea. Ele, percebendo que nada mais tinha para dizer, saiu para o quintal. L fora, respirou fundo. No entendia por que o destino havia sido 
to ingrato com ele. Novamente, lembrou-se de todas aquelas pessoas que haviam falado sobre um Deus que era Pai e justo. Ele no foi Pai, nem justo comigo! Por que 
eu teria que ter vindo para c e descoberto tudo isso? Tinha minha vida organizada. Era feliz no meu pas sem saber que era adotado! Por que tudo isso? Procurei 
intensamente a minha me e, agora que a encontrei, no queria t-la encontrado. Tudo isso parece brincadeira. Se existe realmente esse Deus, Ele gosta de se divertir 
com o sofrimento de seus filhos! Dirigiu-se at o riacho. Sentou-se em sua margem, ficou olhando a gua passar. No conseguia acreditar que tudo aquilo estava realmente 
acontecendo. Talvez eu esteja me precipitando, quem sabe esteja enganado. Se ela no for a minha me? Pode ser algum muito parecida! Mas se for? No pode ser! No 
 justo! Ficou ali por muito tempo. Seus olhos presos na gua, seu pensamento em seu passado. Sua vida toda passou na sua frente. Que estou fazendo aqui? Por que 
tive que embarcar naquele avio?
- Seu Walther, minha me mandou perguntar se o senhor no quer comer...
Ao ouvir Denilson, ele levantou a cabea:
- No, Denilson. Por favor, diga que no estou com fome. Pea que, por favor, assim que estiver livre, mande me chamar.
- Est bem.
Denilson afastou-se. Walther voltou novamente seus olhos em direo  gua, que continuava seu curso, sem se importar com o que estava se passando com ele. Seu desespero 
era imenso. Sem conseguir se conter, permitiu que lgrimas lavassem seu rosto. Deixou que soluos sassem do fundo do seu corao. Novamente, no viu o tempo passar. 
Novamente, Denilson chamou-o. Novamente, seus olhos se voltaram para o menino:
- A me disse que j terminou o servio e que o senhor j pode ir at l. Que o senhor tem? Est chorando?
Walther passou as mos sobre os olhos:
- No, deve ser o sol. No estou acostumado.
O menino no disse nada, apenas fez uma careta, demonstrando no estar acreditando naquela mentira. Afastou-se para o lado oposto da casa. Embora no soubesse o 
que estava acontecendo, sentia que alguma coisa havia mudado. Pela manh, ao ir para o hospital acompanhado de Walther, percebeu que tanto ele como Laura estavam 
felizes. Agora, os dois estavam chorando. Sua me pediu que cuidasse das crianas, pois ela, Laura e Walther precisavam conversar. Ele, como sempre fez, obedeceria. 
Tinha por Eunice verdadeira adorao. Quando seus pais foram embora, foi ela quem os acolheu, ele e Lurdinha. Ela sempre foi para os dois uma verdadeira me. Ns 
propomos, mas Deus... Walther levantou, caminhou em direo  casa. Agora, chegara a hora da verdade. Tudo seria esclarecido. Seu corao batia forte, suas pernas 
tremiam. No estava entendendo seus sentimentos. Ao mesmo tempo em que estava feliz por finalmente encontrar a me, queria que no fosse ela. Sentia por Laura um 
amor profundo. Lembrou-se de Isaas quando lhe disse sobre a outra metade da laranja. Tenho certeza de que ela  a minha outra metade. O que senti e sinto por ela 
 muito forte. Tomara que eu esteja errado. Que a Eunice no seja a Marta... Mas eu preciso encontrar a minha me. Meu Deus, se  que realmente existe, ajude-me 
neste momento... Entrou em casa. Laura e Eunice estavam sentadas. Havia sobre a mesa uma jarra com suco e um bule com caf. Lurdinha e Tea estavam no quarto com 
os bebs. Denilson foi encarregado de cuidar dos menores que brincavam no quintal. Assim que Eunice viu Walther, disse:
- O senhor poderia ter vindo almoar. Percebo que est nervoso, mas se estiver com fome, ainda tem comida no fogo.
- Obrigado, senhora, mas no estou mesmo com fome. Preciso terminar logo para poder saber o que vou fazer com a minha vida.
- Pode sentar e comear quando quiser. Estamos ansiosas por saber o que est acontecendo.
Walther sentou. Olhou para a jarra com suco. Eunice, percebendo, disse:
- Pode se servir.
Ele encheu uma caneca de alumnio que estava na sua frente. Bebeu o suco. Ainda com a caneca na mo, disse:
- Antes de tudo, preciso dizer que o que aconteceu entre mim e Laura foi algo bonito e me deixou muito feliz. Hoje, quando fui ao hospital, a minha inteno era 
trazer a senhora para casa. Assim que chegssemos, eu pediria a mo dela em casamento.
- Por que no fez isso? Por que mudou de idia?
- Para comear, preciso dizer que no sou brasileiro. Alis sou, mas fui criado nos Estados Unidos. Cheguei ao Brasil h pouco dias. Vim at aqui, atendendo a um 
pedido de meu tio.
Eunice e Laura prestavam ateno em tudo que ele dizia. Walther comeou a contar tudo, desde o momento em que recebe a carta de Paulo. No dizia nomes, apenas meu 
tio, me e pai. Enquanto falava, notava que o rosto de Eunice se transformava. Ela estava como que petrificada e com os olhos perdidos em um passado distante. Mas 
permaneceu calada o tempo todo. Walther, enquanto falava, prestava ateno na expresso do rosto dela. A cada palavra dita, percebia que no estava enganado. Ela 
era mesmo a sua me. Ela era mesmo a Marta e, para sua tristeza, a me de Laura. Contou da surpresa que teve ao descobrir ter sido adotado. Contou da surpresa maior 
ao receber a carta de Paulo. Da me de cuja existncia s agora ele tomara conhecimento. Da verdadeira adorao que sentiu pela moa do retrato. Contou da viagem 
que fizera para encontr-la. Da tristeza que sentiu quando percebeu que essa mesma viagem havia sido intil.
- Ao chegar hoje ao hospital e v-la, reconheci imediatamente. Fiquei por muitas horas seguidas olhando aquela fotografia. Era a ltima coisa que fazia ao me deitar 
e a primeira ao acordar. Conhecia todos os contornos de seu rosto, seus olhos e cabelos. Tudo, enfim... Estava logicamente mudada, mais velha, ma eu tive quase certeza 
que se tratava de Marta, minha me. Por isso tudo que contei, pode imaginar como estou me sentindo em relao  Laura? Meu nome  Walther Soares Brown. Eunice no 
conseguia mais guardar sua emoo. As lgrimas desciam livremente por seu rosto. Ele terminou de falar. Ao ver que ela chorava, percebeu que no restavam mais dvidas. 
Havia, finalmente, encontrado sua me. A moa do retrato. Aquela que muito devia ter sofrido com sua ausncia. Com lgrimas, levantou-se da cadeira em que estava 
sentado. Vagarosamente, andou em volta da mesa. Eunice tambm se levantou. Os dois, chorando, se abraaram, sem conseguir parar ou mesmo se preocupar com as lgrimas 
que corriam. No diziam nada. Naquele momento, as palavras seriam inteis. Eunice beijava todo o rosto de Walther, que retribua com a mesma intensidade. Laura, 
ao ver aquela cena, compreendeu tudo. Tambm chorava. Sabia agora o porqu do desespero dele. Sabia, agora, porque ele dizia que o amor deles era impossvel. Sabia, 
mas no queria aceitar. Vendo ali os dois se abraando com tanto carinho, ficou calada. Sentia que no tinha o direito de interromper aquele momento to esperado 
por eles. Aps o abrao demorado, Eunice se afastou, olhou nos olhos de Walther:
- Meu filho querido... No pode imaginar como sonhei com este momento... No pode imaginar o quanto sofri, quando soube que o Paulo havia vendido voc. Quando descobri, 
minha vida terminou. O meu desespero foi to grande que sa sem rumo. No me importava com mais nada. Voc disse que Paulo morreu. Para ser sincera, no estou sentindo 
nada. Ele foi o homem a quem me entreguei com amor e sinceridade, mas foi tambm o homem que me causou um mal irreparvel. Sofri muito com sua ausncia. No esqueci 
voc um dia sequer. Todos os dias eu pensava em voc. Rezei, fiz promessa para poder um dia encontr-lo. Obrigada, meu Deus, por este momento. Sempre confiei na 
sua bondade. Tanto que tinha certeza que este dia chegaria.
Walther, ainda abraado em Eunice, beijando sua testa e seus olhos, disse:
- No sabia de sua existncia, mas assim que soube, compreendi todo o sofrimento que deve ter passado, decidi que a iria encontrar, mas cheguei a duvidar disso. 
Foi exatamente quando perdi a esperana que atropelei a Laura.
S nesse momento os dois se lembraram dela, que estava olhando e chorando tambm. Eunice se soltou de Walther e foi ao encontro de Laura:
- Minha filha, nunca lhe contei essa histria, pois no achei ser necessrio. Voc ouviu tudo. Entendeu o que se passou em minha vida?
- Sim, mame! Ouvi e entendi. Deve ter sido muito triste ver-se sem o filho e de uma maneira to srdida. Deve ter sofrido muito...
- Sofri, sim, mas a alegria que estou sentindo neste momento compensa tudo. Meu filho, est um lindo moo. No o conheo ainda, mas me parece ser uma boa pessoa 
tambm. Pelo visto, a Geni e o Alan o criaram muito bem.
- Disso no posso me queixar. Tive uma vida muito feliz. Eles foram maravilhosos. Nunca fizeram qualquer coisa para que eu sequer desconfiasse ou pensasse ser adotado.
- Isso era o mnimo que poderiam ter feito. Mas, mesmo assim, nunca lhes perdoarei, assim como no perdoarei jamais ao Paulo...
- Entendo a sua posio, mas o Paulo tambm sofreu muito de remorso. Ele a procurou durante todos estes anos. Tenho l no jipe a carta que me deixou. Vou dar  senhora 
para que leia. S no entendo por que a senhora trocou de nome e se escondeu aqui! Por que no foi para casa de sua famlia?
- Meu filho, j ouviu aquele ditado: "A gente prope, mas Deus dispe". Hoje, com mais idade e vivendo tudo que j vivi, posso afirmar que esse ditado  verdadeiro. 
Durante nossa vida, muitas vezes planejamos. Alguns desses planos do certo, outros no. Ficamos nervosos ou tristes, quando nossos planos no do certo, mas logo 
adiante, com o passar do tempo, vamos entender que o que havamos planejado no era to bom assim. Vamos entender que tudo est sempre certo nos planos de Deus.
- A senhora tambm faz parte dessa religio que acredita na reencarnao?
- Deus me livre! Isso  coisa do diabo! No, meu filho, sou catlica, acredito em Deus e em todos os santos. Isso de reencarnao  coisa do diabo!
- Engraado, conversei com muitas pessoas que acreditam nessa religio e que disseram as mesmas coisas que a senhora disse a respeito da vida. Ao saber a verdade 
sobre a minha vida, revoltei-me muito. Sempre houve algum dessa religio que me disse para no me revoltar, pois tudo estava sempre certo, que Deus era sbio e 
justo.
- Foi mesmo? Se essa religio fala sobre Deus, no pode ser do diabo. No acha? Agora, estou com vontade de conhecer mais a respeito dela. Mas acredito que temos 
uma longa conversa. Agora que j estou mais calma, vamos nos sentar novamente? Voc conhece um lado da histria, deve estar curioso para saber o outro.
Walther se soltou dos braos da me, deu um beijo em sua testa e voltou para o seu lugar. Sentou ao lado de Laura e em frente a Eunice. Olhou para Laura que permanecia 
calada. Assim como ele, sentia o mundo todo em suas costas. Seus sonhos haviam terminado. Eles nunca poderiam se amar, a no ser como irmos, mas ela no conseguia 
aceitar. Ainda com os olhos marejados, apenas sorriu. Eunice, que agora estava pensando em tudo o que havia passado em sua vida, no prestou ateno no desespero 
dos dois. Sentada em frente a eles, comeou a falar:
- Quando tomei conhecimento de que voc estava sendo levado para fora do pas, fiquei desesperada. Sa do garimpo com a esperana de poder ainda encontr-lo e evitar 
que aquela trama combinada entre Paulo, Alan e Geni pudesse ser desmanchada. Embora soubesse que isso seria quase impossvel, tentei, mas no consegui. Ao chegar 
 estrada principal, percebi que j era tarde demais. Eles haviam sado muitas horas na minha frente. Eu estava a p, eles, de jipe ou caminho. No sabia com qual 
carro haviam sado, s sabia que no estariam a p como eu. Olhei para os dois lados da estrada, no sabia que caminho tomar. Era quase analfabeta, mal conseguia 
escrever meu nome. Fiquei ali parada, sem saber que rumo tomar. Ajoelhei-me, comecei a chorar. Entrei em desespero. Chorei muito, amaldioei a tudo e a todos. No 
entendia por que Deus havia permitido que uma maldade como aquela fosse cometida. Desesperada, pensava:
- Isso no pode estar acontecendo comigo! Nunca fiz mal a ningum! Sou catlica, temente a Deus! Meu nico pecado foi ter me apaixonado e entregado todo meu amor 
para o Paulo! Por que Deus permitiu? Por qu?
- Eu chorava, xingava e praguejava contra tudo e contra todos os santos nos quais eu havia sempre acreditado:
- Isso que est acontecendo comigo no  justo! Eu no mereo. Deus no pode ter-me dado um filho para depois tir-lo dessa maneira. E o Paulo? Por que me enganou? 
Por que me traiu?
- Ali, ajoelhada, com o rosto entre as mos, chorei por muito tempo. Quando, cansada, j no tendo mais lgrimas, tomei uma resoluo:
- No resta mais nada na minha vida. No sei que caminho tomar. No sei o que fazer. S me resta morrer... Vou me jogar embaixo do primeiro caminho que passar.
- Levantei, peguei a maleta e comecei a andar. Olhei para a estrada, no via nada. Tudo era deserto. Vi, bem longe, um caminho que se aproximava. Preparei-me. Seria 
atravs dele que deixaria esse mundo que s tinha me feito tanto mal. Quando o caminho estava se aproximando, larguei a maleta, calculei a distncia, fechei os 
olhos e me joguei. No pensei mais em nada, apenas queria morrer. Ouvi o barulho de pneus arrastando no asfalto. Abri os olhos. Vi um homem que descia do caminho 
e vinha, muito nervoso, em minha direo:
- Tu ests louca? Queres morrer?
- Assustada, comecei a chorar e respondi:
- Eu quero morrer sim... No posso mais continuar vivendo...
- No sei qual  o motivo, mas se queres mesmo morrer, arrume um modo de no prejudicares ningum! Se tivesses morrido embaixo do meu caminho, ias me arrumar um 
grande problema! Eu teria muita dificuldade em convencer a polcia que foste tu quem te jogaste!
- Ele estava furioso. S a percebi que, mesmo sem querer, estive prestes a prejudicar uma pessoa que no conhecia e que no tinha nada a ver com meus problemas. 
Abaixei a cabea, continuei chorando. O homem, agora mais calmo, segurando meus braos, ajudou-me a levantar e disse:
- Parece que ests mesmo desesperada! Levante, vamos conversar. Que ests fazendo aqui neste deserto? Onde  a tua casa?
- Levantei, olhei para ele. Era um senhor de uma certa idade, no posso precisar quanto, mas no era nenhum rapaz. Seu olhar era carinhoso, do modo que falava percebi 
que no era aqui do Nordeste. Falava de um modo como eu nunca ouvira antes. Ainda receosa, respondi:
- No sei onde estou.... No sei onde fica a minha casa... Nem sei se ainda tenho casa....
- Como no sabes onde  a tua casa? Do modo que falas, pode-se ver que s do Nordeste.
- Sou do Piau.
- Do Piau? Ests muito longe de casa. Como chegaste at aqui?
- Olhei novamente para aquele estranho. No queria contar tudo o que havia acontecido. Ele deve ter percebido. Continuou falando:
- Est bem, no queres dizer nada, no vou insistir. No vou at o Piau, mas se quiseres, posso te levar um bom pedao. Tu queres?
- Tornei a olhar para tudo. Deixaria para morrer mais tarde. Teria que pensar em um modo que no prejudicasse ningum. S no poderia voltar para minha casa. Sabia 
que meu pai no aceitaria. Mas sabia tambm que era a nica coisa que podia fazer. No tinha outro lugar para ir. Contaria o que o Paulo havia feito. Meu pai ficaria 
bravo, talvez at me batesse, mas no me mandaria embora novamente. Pelo menos, era isso que eu esperava. Balancei a cabea, aceitando o convite daquele estranho. 
Ele pegou a maleta que estava no cho. Encaminhou-me para a porta do caminho. Subi, acomodei-me no banco. Ele deu a volta, entrou do outro lado. Sorriu, ligou o 
caminho e acelerou. Olhei ainda em direo ao garimpo. Paulo estava l, mas eu nunca mais queria v-lo. Aps dirigir calado por um bom tempo, o homem disse:
- Tu s ainda muito jovem, no deves ter nem vinte anos. Como podes pensar em morrer? Tem a vida toda pela frente!
- No soube o que responder. No me sentia jovem, ao contrrio. Naquele momento, s queria morrer ou que o tempo voltasse e eu pudesse ter o meu pequeno Joo novamente 
em meus braos. Novamente, lgrimas comearam a cair por meu rosto. Ele percebeu:
- No precisas responder, muito menos chorar. Temos uma longa viagem. Precisamos falar sobre qualquer coisa. J que no queres falar sobre ti, falarei sobre minha 
vida. Queres ouvir?
- No sei at hoje o porqu, mas me senti muito  vontade com ele. Balancei a cabea, dizendo que sim. Ele comeou a falar:
- Como  o teu nome?
- Meu nome  Marta...
- Muito prazer! Meu nome  Jos Loureno, mas todos me chamam de gacho, nasci no Rio Grande do Sul. Sou casado, tenho quatro filhos. Trs guris e uma guria. Ela 
tem quinze anos, deve ser essa a tua idade tambm, no ?
- No, vou fazer dezoito. Ele sorriu:
- No parece! s muito menina! Mas isso no importa. Amo a minha famlia. A minha mulher  uma prenda. Quando me casei, j era caminhoneiro. Por mais que ame a minha 
famlia, amo muito mais a minha liberdade. Adoro viver na estrada! J percorri quase todo esse Brasil. Meu caminho carrega qualquer tipo de carga. Vou de um lugar 
para outro. Este Brasil  muito bonito! A vida tambm ! No sei o que levaria uma pessoa a no mais querer viver. Tu sabes?
- Percebendo que ele estava tentando descobrir alguma coisa e confiando nele respondi:
- Sei... A desiluso, a traio, o sofrimento.
- Isso tudo faz parte da vida. Todos passam por esses problemas, mas nem todos querem morrer por isso. Na vida tudo passa. O sofrimento, com o passar do tempo, vai 
ficando cada vez mais distante. Quando menos esperamos, outra coisa acontece que nos faz esquecer a anterior. Essa  a vida! Por isso, nada  desculpa para no se 
querer viver. Nada!
- O senhor est dizendo isso porque tem quatro filhos, ningum os roubou...
- Roubar?! Se algum fizesse isso, eu mataria!
- Pois foi isso que me fizeram. Roubaram o meu filho! Por isso estou desesperada.
- Ele diminuiu a marcha. Quase gritou:
- Roubaram? Como? Isso no pode ser verdade.
-  verdade, sim... Roubaram o meu Joo...
- Queres me contar como foi isso? No posso acreditar que algum faria uma maldade dessa.
- Contei tudo o que havia se passado, ele ouviu em silncio. Quando terminei de falar, ele disse:
- Agora, estou quase entendendo a tua atitude, mas acredito que ests tomando um caminho errado. No deves querer te matar, mas, ao contrrio, fazer tudo para encontrar 
o teu filho e denunciar aqueles que fizeram esse crime. Deves voltar para tua casa. Conversar com teus familiares e depois ir  polcia. Esse  o caminho. Nunca 
se matar! Deves viver para o dia em que tiveres novamente teu filho em teus braos.
- No sei se a polcia vai fazer isso.
- Eles tm que fazer. Esse tal de Paulo  um criminoso!
- Estava realmente nervoso. Eu apenas pensava em tudo o que ele havia dito. Realmente, tinha razo. Eu no podia morrer, tinha que viver e, de alguma maneira, recuperar 
meu filho.
- O senhor tem razo. Vou fazer tudo o que for possvel para recuperar o meu filho! O senhor foi um anjo que Deus me mandou!
- Ele soltou uma gargalhada:
- Anjo eu? Deves estar louca. Posso ser tudo, menos um anjo!
-  um anjo, sim. Eu estava desesperada. No acreditava em nada. Com tudo o que me disse, voltei  realidade. Vou viver! Nunca mais vou querer morrer! Vou encontrar 
meu filho! No sei como ou quando, mas o encontrarei!
- Se as minhas palavras serviram para fazer com que mudasses de idia, j estou feliz. Se por isso me consideras um anjo, que seja, sou um anjo.
- Ele ria enquanto dizia isso. Eu, realmente, estava dizendo a verdade. Naquele momento, ele era mesmo um anjo que Deus mandou. Viajamos o dia inteiro. J estava 
comeando a escurecer, quando ele parou o caminho. Estranhei:
- Por que parou?
- Logo vai escurecer, estou cansado. Vou preparar alguma coisa para comermos, depois vamos dormir, amanh de madrugada seguiremos viagem.
- Fiquei muito assustada, at a ele havia sido muito bom. Conseguira at me fazer rir algumas vezes. Mas, comer, dormir, onde? No havia nada por ali, a no ser 
mato e estrada. Ele percebeu o meu espanto. Sorrindo, perguntou:
- Que  isso? Ests com medo do qu?
- O senhor falou em comer e dormir, s no sei como poderemos fazer isso. No est pretendendo fazer alguma maldade comigo, est?
- Ele me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez. Ficou furioso e, gritando, falou:
- Meu Deus do cu! Quem ests pensando que sou? Meu nome  Z Loureno! Sou gacho e cabra macho tche! Tu s ainda uma guria, podias at ser minha filha! Nunca que 
eu ia te fazer qualquer mal. Por esta imensa estrada posso ter quantas mulheres quiser! Nunca ia precisar de uma guria como tu. Posso no ser aquele anjo, mas tambm 
no sou nenhum diabo! S vamos comer e dormir, nada mais! Desce da e vem me ajudar.
- Confesso que, naquele momento, senti muita vergonha. Como pude imaginar aquilo? Ele salvou a minha vida, deu-me uma nova esperana, tratou-me com carinho, realmente 
como se fosse sua filha. Cabisbaixa, desci do caminho, segui-o. Ele abriu um compartimento, foi tirando panela colher, faca, prato e uma lata com carvo que acendeu 
em seguida.. Abriu outro compartimento, tirou arroz, farinha e um pedao de toucinho. Na panela, colocou pedaos de toucinho, alho, cebola, pimenta e sal. De um 
garrafo, tirou gua e encheu a panela. As brasas estavam fortes. Em menos de meia hora, a gua secou. Durante todo esse tempo, no disse uma palavra. Percebi que 
estava mesmo muito bravo. Cada vez eu sentia mais o quanto o havia ofendido. Um pouco sem graa, disse:
- Seu Z Loureno, quero lhe pedir desculpas. Nunca podia ter duvidado de sua amizade. Salvou a minha vida...
- Ele me olhou por alguns minutos, sem dizer nada. Aos poucos, seu rosto foi se transformando e logo expressou um sorriso:
- Est bem, tu tens motivos para duvidar e temer as pessoas. Foi trada por algum em quem mais confiava. No me conheces. Tambm tive minha dose de culpa. Devia 
ter te avisado que o caminhoneiro, de vez em quando, faz a sua prpria comida e que no caminho sempre tem tudo o que  preciso para isso. Existem muitas estradas 
como esta, sem uma viva alma por perto, onde no tem lugar para se comer. Desculpe e fica calma, tudo passou, vais agora comer um arroz como nunca comeste em tua 
vida.
- Tambm sorri. Ele pegou um prato e colocou arroz dentro. Comi e, para ser sincera, nunca poderia imaginar que aquele arroz feito daquela maneira pudesse ser to 
bom. No sei se era por estar com muita fome, mas me pareceu o manjar dos deuses. Tentei outras vezes fazer igual, mas nunca consegui que ficasse bom daquela maneira. 
Quando terminamos de comer, ele perguntou:
- Gostaste?
- Sim! Muito! Est maravilhoso!
- Fico feliz que tenhas gostado. Agora, vamos tentar dormir? Amanh bem cedo, seguiremos a viagem. Ests longe da tua casa e eu muito mais da minha. Tu vais para 
o Norte, eu para o Sul, por isso dentro de alguns dias teremos que nos separar. Mas no te preocupes, tenho muitos amigos caminhoneiros, arrumarei algum para te 
levar ao teu destino.
- Temos que nos separar? Precisa mesmo?
- Infelizmente, sim, estou h muito tempo longe de casa. Estou voltando, mas deixa o teu endereo, quando estiver passando pelo Piau, vou te visitar. J que sou 
teu anjo, no posso ficar sem ter notcias tuas. Deu uma gargalhada. Eu tambm. Eu estava triste e com medo por ele ir embora. Sentia que, enquanto estivesse ao 
seu lado, nada de mal me aconteceria.
- Tenho medo de ficar sozinha.
- J te disse que no precisas te preocupar. Encontrarei algum que vai te deixar em casa. Sou conhecido e respeitado, ningum vai ousar mexer em um fio do teu cabelo. 
Fique tranqila.
- Se o senhor est dizendo...
- Podes ficar sossegada. Agora, vou colocar uma rede aqui fora, fica presa nessa rvore e no caminho. Vou dormir aqui, tu dormirs na bolia.
- Vai dormir aqui fora?
- Vou, a noite est quente. Estou acostumado. Vai para dentro. Amanh, vamos acordar cedo. A tarde, quando estiver escurecendo, pretendo chegar a uma cidade, onde 
tem a penso de um amigo. Passaremos a noite l. Ali tambm  um lugar de encontro de caminhoneiros. Vou encontrar algum para te levar.
- O senhor  quem sabe. Est bem, vou para o caminho.
Subi na bolia, acomodei-me, dormi como uma criana. Na manh seguinte, ele me acordou. Lavamos a boca e o rosto com um pouco da gua do garrafo. Seguimos viagem. 
Conversamos muito. Ele falou de sua mulher e filhos. Falei da minha famlia e da certeza que um dia ia encontrar o meu filho. Em dado momento, o gacho disse:
- Sabes, Marta? Estou aqui pensando em como  esta vida.
- Por que isso agora?
- Depois de tudo o que me contaste, de at ter me considerado um anjo, chego a pensar que a nossa vida  como um jogo de domin. Conheces?
- Conheo, eu, meus primos e irmos jogvamos sempre.
- Pois estou achando que a nossa vida  como esse jogo. Ela vai de um lado para outro, dependendo da pedra que aparece.
- Confesso que naquele dia no entendi muito bem o que ele quis dizer, mas hoje, depois de muito tempo passado, compreendo e acredito que ele tinha toda razo, quando 
disse aquilo. A nossa vida  mesmo um jogo. Hoje, com voc aqui ao meu lado, fico pensando: quantas voltas a vida deu para nos reunir novamente? Mas vou continuar 
a minha histria. Como ele dissera na noite anterior, quando estava escurecendo, entramos em uma cidade. Aps uns dez minutos, ele estacionou o caminho em uma esquina. 
Descemos, ele pegou minha maleta e me entregou, depois pegou um saco que colocou nas costas. Comeamos a caminhar. Dessa vez, eu no senti medo. Caminhamos por duas 
quadras, entramos em uma rua, onde havia vrios caminhes estacionados. Ele parou em frente de uma casa grande, pintada de branco com as janelas de verde. Entramos. 
L dentro, havia uma sala muito grande, onde muitos homens estavam sentados e comendo. Um deles se aproximou, sorrindo:
- Gacho! Voc voltou?
- Isso mesmo! Como vai tudo por aqui?
- Na mesma vida de sempre. Entre. Quem  essa moa?
- Enquanto entrvamos, o gacho dizia:
- Esta guria  uma amiga. Estamos cansados e com muita fome, disse a ela que aqui tem a melhor comida do mundo.
- Seja bem-vinda, moa. Depois que comer a minha comida, vai ver que ele no exagerou,  mesmo a melhor do mundo.
- Eu estava envergonhada no meio de todos aqueles homens que se levantaram para nos receber. O gacho era mesmo muito conhecido. Foi abraado por todos. Ele tambm 
parecia muito feliz por encontrar os amigos. O dono da penso disse:
- Tenho um bom quarto para os dois, fica ali naquele corredor,  o nmero vinte e dois.
- Ao ouvir aquilo, o gacho falou, bravo:
- Que  isso, amigo? Ests me estranhando? Esta guria est s me acompanhando na viagem! Quero um quarto s para ela. No ests vendo que ela  ainda uma menina?
- O homem percebeu que no devia ter dito aquilo:
- Desculpe, gacho. Sabe como ! Eu pensei...
- Pensaste demais! Ser que um homem no pode estar acompanhado sem segundas intenes?
- J pedi desculpas! Moa, vem comigo, vou lhe mostrar o seu quarto.
- Eu olhei para o gacho, que fez um sinal para que eu o acompanhasse. Um pouco sem graa, o segui.
- Ali naquela porta  o banheiro, se quiser pode tomar banho. O seu quarto  aquele ali. O gacho vai ficar naquele em frente ao seu. Desculpe, moa, por aquilo 
que disse l dentro.
Eu no sabia o que dizer. No podia acreditar que estava em uma situao como aquela. Apenas sorri e entrei no quarto. Era um quarto simples, com duas camas de solteiro, 
um guarda-roupa e, na janela, havia uma cortina branca estampada com flores vermelhas. Larguei a maleta no cho, sentei na cama, fiquei olhando tudo e pensando: 
Como vim parar em um lugar igual a este? Como me encontro agora no meio de pessoas estranhas? Ser que vou conseguir chegar em casa? Desesperada, comecei a chorar 
novamente. Chorava muito, queria parar, mas no conseguia, os soluos saam l do fundo do meu corao, pensei: Por que tudo isso est acontecendo comigo? Que mal 
eu fiz a Deus para que ele permitisse tudo isso? Estou sozinha, com pessoas estranhas! Perdi meu filho e o homem a quem amava e em quem confiava. Por que, meu Deus? 
Por qu? Eu no mereo...
- Chorei nem sei por quanto tempo. As lgrimas secaram. Passei as mos pelo rosto e pela cabea. Peguei a maleta, tirei de dentro dela uma saia, uma blusa e roupas 
de baixo. Na pressa de ir embora, no peguei muita roupa. Me esqueci de pegar dinheiro. No tinha um centavo, pensei: Quando o gacho for embora, sem dinheiro, como 
vou conseguir chegar em casa?
- Ia entrar em desespero novamente, mas desta vez me contive e pensei: No adianta! Vou ter que seguir o meu caminho. Quando sa de casa, viajei todos aqueles dias, 
no tive medo, pois estava ao lado de pessoas conhecidas. Alm do que, tinha um motivo. Estava indo ao encontro do meu amor, e agora? Que motivo tenho? Nenhum, a 
no ser encontrar o meu filho. Vou encontrar! No sei quando, mas vou! Vou continuar seguindo o meu caminho, seja tudo o que Deus quiser. Agora, neste momento, estou 
com fome e precisando muito de um banho. Peguei a minha roupa, abri a porta devagar, olhei o corredor, estava deserto. Entrei rpido no banheiro. Ele era pequeno 
e apertado. Tranquei a porta. Havia um caldeiro com gua quente e uma bacia grande. Eu j estava acostumada com aquilo. No hotel da Geni, tambm era assim. Sempre 
que a bacia e a gua eram usadas, em seguida era trocada a bacia e colocada nova gua. Tomei um banho tambm rpido, pois no estava me sentindo bem naquele lugar. 
Sequei-me com uma toalha, vesti minha roupa e sa correndo para o quarto. Queria sair daquele lugar o mais rpido possvel. No quarto, terminei de secar meus cabelos. 
Apesar de tudo, agora estava me sentindo muito melhor do que antes. Fiquei l dentro por alguns minutos, quando ouvi uma batida na porta. Assustei-me:
- Quem ?
- Sou eu, o gacho! Ests pronta para jantar?
- Estou!
- Ento, venha!
Abri a porta, ele me recebeu com aquele sorriso que agora eu j conhecia:
- Parece que ests muito bem! O banho tambm parece que te fez bem.
- Estou muito bem, obrigada. Nem sei como agradecer tanta bondade.
- No tens nada para agradecer, no me disseste que eu era um anjo? S estou cumprindo o meu dever de guardio. Vamos?
Ele era sensacional, cada vez o admirava mais. Estendi minha mo e segurei a dele. Caminhamos em direo  sala de jantar. Sentamos, havia na mesa muita comida e, 
principalmente, muita carne. O gacho, notando meu espanto ao ver toda aquela comida, disse:
- Ests achando que  muita comida?
- Estou.
- Pois no ! Quando eu comear a comer, vers que no  muita. Esta comida  muito boa, tu tambm comers mais do que de costume.
Realmente, ele tinha razo, a comida era deliciosa. Ele comeu e bebeu vinho.
- Viu, guria? No te disse que ias comer alm do que estavas acostumada? Agora, vai para o teu quarto e no saias de l. Daqui a pouco, iro chegar algumas moas 
para divertir os caminhoneiros. Vai ter muito barulho, mas precisamos tentar dormir.
Entendi o que ele estava dizendo, eu j conhecia aquele tipo de moa a que ele se referia, pois muitas freqentavam o hotel da Geni, naquelas festas dos sbados 
 noite. Eu conversava muito com elas. Sabia que por detrs daquelas roupas extravagantes, alegria e rostos pintados, todas tinham a sua histria e eram seres maravilhosos, 
que sonhavam encontrar um homem que as levasse para o altar. O que elas queriam mesmo era ter uma casa, marido e filhos. No disse nada ao gacho, apenas balancei 
a cabea, confirmando. Ele se levantou, eu o acompanhei. Levou-me de volta ao meu quarto. Entrei, fechei a porta e deitei naquela cama. Meu corpo cansado se acomodou 
perfeitamente. Ali, sozinha, lembrei-me de voc, quando o colocava para dormir. Meus olhos novamente se encheram de lgrimas e meu corao comeou a doer. O desespero 
retornou. Pensei: No posso me conformar com a idia de nunca mais ter o meu menino nos braos. Nunca mais poder nin-lo para que durma! Onde estar agora? Ser 
que est com frio ou fome? Estar tambm sentindo a minha falta? Meu Deus! Minha Nossa Senhora! A Senhora tambm foi me! Como pde permitir que isso acontecesse 
comigo? A Senhora me conhece! Sabe que no mereo! Por qu? Por qu? Ali, deitada naquela cama, com o corao em pedaos, com o peso do mundo inteiro em minhas costas, 
chorei muito. No sei por quanto tempo, mas, cansada, adormeci. Sonhei que estava em um lugar com muitas crianas e que passava por entre elas, procurando por voc. 
Olhava rostinho por rostinho, mas no conseguia encontrar o seu. Tambm no sonho eu estava desesperada... Tambm no sonho eu chorava... Agora, Eunice, ou melhor, 
Marta, relembrando de tudo, estava emocionada. Lgrimas novamente corriam por seu rosto. Walther tornou a se levantar, deu a volta e a abraou com muito carinho 
e disse:
- Minha me... Como suspeitei, assim que soube de tudo, a senhora sofreu muito, mas agora estou aqui! Conseguiu me encontrar. Nunca mais vamos nos separar! Fique 
calma... Sabe que esse corao que sofreu tanto no est bem... Agora nada de mal pode lhe acontecer... Precisamos resgatar todo o seu sofrimento...
Ela correspondeu ao abrao e, beijando seu rosto, disse:
- No se preocupe, meu filho, estou bem e ningum morre de felicidade! S estou emocionada por relembrar tudo aquilo. Mas estou muito bem. Sempre esperei por este 
dia. Sabia que chegaria e, graas a Deus, chegou...
- Foi tambm o que mais desejei desde que tomei conhecimento de que a senhora existia.
- Por isso, preciso lhe contar tudo. Naquela manh, samos bem cedo. Viajamos mais trs ou quatro dias, no me lembro muito bem. A estrada era solitria, no encontramos 
nenhuma cidade grande, onde houvesse uma penso ou qualquer coisa parecida. Comemos comida que ele preparava e dormimos, eu no caminho, ele na rede. Conversamos 
muito, ele era muito alegre e falador, chegamos at a cantar. Eu sabia que ele queria me distrair, por isso fingi que estava bem, mas, na realidade, no estava, 
no conseguia esquecer voc por um minuto nem ao Paulo. Na ltima noite, ele me disse:
- Amanh, vamos chegar a uma cidade, onde tem um posto de gasolina grande. L tambm  uma parada obrigatria para os caminhoneiros. Ali teremos que nos despedir.
- Por qu?
- Dali, irei para o Sul e tu, para o Norte, mas, como j te disse, no precisas te preocupar. J ests bem perto da tua casa, mais umas seis horas, chegars. Vou 
encontrar algum que te levar em segurana.
- Sabe que estou com medo...
- Sei, mas no tem motivo algum para isso.
- Nunca mais vamos nos encontrar?
- Claro que sim! Estou sempre por aqui, vais me dar o teu endereo e eu vou at tua casa quando estiver passando por l.
- Vai mesmo?
- Claro que sim! Sou teu anjo, no sou?
Fiquei mais calma ao saber que estava perto de casa, sabia que no ia ser fcil ser recebida de volta, mas no tinha outra coisa para fazer. No tinha para onde 
ir. Precisava contar para a minha famlia o que o Paulo tinha feito, precisava encontrar uma maneira de recuperar voc. Chegamos ao posto que ele havia dito. Havia 
muitos caminhes estacionados. Perguntei:
- Por que tem tantos caminhes aqui?
- Porque daqui a estrada se divide para muitas direes. Deste ponto, pode-se seguir para qualquer parte. H tambm quartos. Por isso te disse que encontrarei algum 
para te levar.
Ele estacionou, descemos. Eu estava cansada, meu corpo todo doa, mas sabia que j estava perto de terminar. Logo eu estaria em casa. No posto, havia um pequeno 
restaurante. Estvamos com fome, pois havamos comido muito mal nos ltimos dias. Gacho me mostrou uma mesa e ns nos sentamos. Um rapaz se aproximou e nos deu 
o cardpio. Escolhemos a comida. Gacho pediu uma cerveja:
- Hoje, posso beber, porque vou sair s amanh. Saindo bem cedo, quando for  tarde, antes de escurecer, j estars em tua casa. Tens que me prometer que nunca mais 
vais tentar te matar.
- Pode ficar tranqilo, nunca mais pensarei nisso! Como voc disse, a nossa vida  como se fosse um jogo. De agora em diante, vou me lembrar sempre disso e s vou 
jogar com as pedras que vierem parar em minhas mos.
- Boa, guria.  assim que se fala. Um dia, a gente tem que ter pedras boas e assim tambm poderemos ganhar. No ?
- Espero que sim...
- Podes esperar! Um dia, quando as pedras boas chegarem em tuas mos, vais te lembrar do que estou dizendo hoje!
- Acredita mesmo nisso, gacho?
- Claro que sim! As pedras so distribudas por algum. Esse algum no pode s nos mandar pedras ruins! Um dia, nem se for por distrao, mandar pedras boas!
- Quando terminou de falar, soltou uma grande gargalhada. Eu tambm achei engraado o modo como ele disse tudo aquilo. Bom amigo... Como ele previu, estou hoje me 
lembrando de suas palavras... Hoje estou com pedras boas nas minhas mos... Hoje estou muito feliz...
- Minha me, esse homem era um sbio! Tem certeza de que ele no tinha religio?
- Era um sbio, sim, e um verdadeiro anjo... Ele disse vrias vezes que no tinha religio, que s acreditava em Deus.
- Embora no tivesse religio, acredito que foi mesmo um anjo mandado por Deus. Que aconteceu depois?
Aps terminarmos o almoo, pediu que eu esperasse, e foi em direo a alguns homens que conversavam. Fiquei olhando de longe, abraou e foi abraado. Conversou por 
alguns minutos. Depois voltou e disse:
- Conversei com os caminhoneiros meus amigos, guria. O nico que vai para os teu lados  o Gilmar. Ele disse que vai te levar sem problemas. S que vai sair amanh 
bem cedo. Hoje, como quase todos, bebeu demais. Achei bom, porque sei que tambm ests cansada. Agora que j comeste, vou arrumar um quarto para que possas passar 
esta noite. Venha comigo!
Pegou a minha mo, me levantando. Juntos, fomos at um senhor. Gacho disse:
- Seu Jeremias, estamos cansados, precisamos descansar. Antes que penses demais, precisamos de dois quartos.
O homem me olhou e depois para ele:
- Tem certeza, Gacho?
- Claro que sim! Quero dois quartos!
- Est bem, no precisa ficar nervoso! S tem um problema, no tenho dois quartos vagos, s tem um, o menor de todos.
- Est muito bom. Ela fica com o quarto, eu durmo no caminho.
- Voc  quem sabe. No posso fazer nada.
Eu estava cansada, mas sabia que ele estava muito mais que eu, pois havia dirigido muitas horas seguidas:
- No preciso dormir no quarto, Gacho. Voc est muito cansado. Dirigiu muitas horas!
- Que  isso, guria? J estou acostumado! Tu ficas com o quarto e no se fala mais nisso.
Percebi que no adiantava dizer mais nada. Ele estava decidido e eu, muito cansada para discutir. Olhei para o homem, ele me mostrou o quarto que ficava ali mesmo, 
do lado da cozinha. Enquanto eu me dirigia para l, o gacho disse:
- Vou at o caminho pegar a tua maleta. Poders tomar um banho e descansar. 
Olhou para o homem e perguntou:
- Ela pode usar o banheiro, no pode?
- Claro que sim! Venha, moa, vou lhe mostrar o quarto.
Enquanto o gacho foi para o caminho, eu acompanhei o homem. Entrei no quarto que, alm de pequeno, no sei se por estar perto da cozinha, cheirava muito mal. Mas 
eu no estava em condies de escolher. Ademais estava mesmo muito cansada. Sentei na cama, fiquei olhando em volta e pensando: Ainda bem que estou perto de casa! 
S mais um dia! Gacho bateu  porta. Pedi que entrasse. Ele, como sempre, estava sorrindo:
- Aqui est a tua maleta. Puxa, guria! Este lugar  horrvel! Ainda bem que escolhi o caminho.
- Est muito bom. Nem sei como agradecer.
- J disse que no precisas agradecer. Estou fazendo porque quero, tu no ests me obrigando a nada. Alm do mais, sou teu anjo da guarda, no sou?
-  sim! E no poderia ser melhor!
- Agora, descansa, j ests quase chegando em casa. Sabes que vais ter que reunir foras para enfrentar teus pais...
- Sei disso, mas vou conseguir convenc-los.
Ele saiu do quarto. Abri a maleta, minhas roupas estavam todas sujas. Durante a viagem, fui trocando e, na pressa, no tinha pegado muitas. S tinha agora, limpas, 
uma saia estampada e uma blusa branca abotoada na frente. Com as roupas nas mos, dirigi-me ao banheiro que o homem havia me mostrado antes de abrir a porta do quarto. 
Entrei no banheiro. Este era pior do que o outro, mas era melhor que nada. Tomei um banho rpido, pois, como da outra vez, no estava  vontade no meio de tantos 
homens. Entrei no quarto, deitei-me e adormeci sem perceber. No sonhei, talvez estivesse muito cansada para isso. Ouvi uma batida na porta e o gacho me chamando:
- Guria! Est na hora de te levantares... O Gilmar j est tomando caf e vai sair logo. No  bom que o deixes esperando.
Abri os olhos, percebi onde estava. Sentei na cama, dizendo:
- Vou estar pronta dentro de alguns minutos.
- Vou te esperar para tomarmos caf juntos. Assim que fores embora, irei tambm.
Ao ouvir aquilo, senti um aperto no corao. Eu j havia me acostumado com sua presena. Sabia que era um bom amigo e que nunca o esqueceria. Ele se afastou, levantei 
e rapidamente me vesti. Sa do quarto, fui at o banheiro. Lavei meu rosto, penteei meus cabelos, sa. Vi o Gacho que estava sentado ao lado de um outro homem. 
Aproximei-me:
- Bom dia!
O gacho respondeu:
- Bom dia, guria, este  o Gilmar. Vai te levar at bem perto da tua casa, na estrada.
- Muito prazer, senhor.
- O prazer  todo meu, mas voc  muito bonita!
- Obrigada.
- Gilmar! Podes parar! J te disse que ela  como se fosse minha filha! Se acontecer alguma coisa com ela, vai te ver comigo!
- Pode ficar tranqilo gacho, no vai acontecer nada! Vou levar essa moa direitinho.
Olhei com mais ateno para Gilmar. Ele era um pouco mais jovem que o gacho. Tinha cabelos pretos e um sorriso franco. Senti que estaria bem em sua companhia. Sentei 
e tomei o meu caf. Quando terminamos, nos levantamos. O gacho me acompanhou at o caminho do Gilmar. Ele foi na frente para verificar se as cordas que seguravam 
a carga e os pneus estavam em ordem. O gacho me disse:
- Agora, vamos nos despedir. Quero que me ds teu endereo!
- No sei escrever!
- Eu sei, sabes ao menos me dizer onde ?
- Claro que sei!
Expliquei onde ficava o stio da minha famlia. Ele anotou em um papel, me deu um outro com um endereo:
- Este  o meu endereo, se algum dia precisar, podes me procurar. Moro em Porto Alegre, no Rio do Grande Sul.
Peguei o papel, dobrei e guardei no bolso da saia, junto com meu registro de nascimento. Ele perguntou:
- Tens algum dinheiro?
- No, na pressa esqueci de pegar...
- No tenho muito, mas podes levar este...
- No precisa! No disse que j estou chegando?
- Ests chegando, mas vais ter que comer alguma coisa durante a viagem. No quero que peas ao Gilmar. Alm do mais no estou te dando,  apenas um emprstimo. Vou 
te visitar e espero receber de volta.
- Se for assim, vou aceitar. Tambm no quero pedir ao Gilmar. Ele j est fazendo muito em me levar.
Peguei o dinheiro, coloquei no mesmo bolso. Ele pegou a minha mo e, apertando, disse:
- Agora que ests indo embora, vou te dizer que, ao te ajudar, tambm me ajudaste. Estou com a minha vida toda enrolada. Minhas ltimas viagens no tm sido boas. 
Vendo-te assim, desprotegida, percebi que minha famlia e, principalmente minha filha, ficam muito sozinhas. Nunca estou presente. Vendo o quanto precisas de algum, 
resolvi que j trabalhei muito, j consegui um bom p de meia. No vou parar de ser caminhoneiro, pois  a minha vida. No sei fazer outra coisa, mas de agora em 
diante s farei viagens curtas. Estarei sempre perto de casa.
- Ento, no vai voltar para me ver?
- Essa viagem eu farei, nem que seja s uma vez. Vai com Deus, guria. S feliz e espera as boas pedras que viro, com certeza.
- Obrigada, gacho. Estarei esperando por voc em casa.
- Quando eu chegar, quero ter boas notcias a respeito do teu filho.
- Tambm espero.
No me contive e me atirei em seus braos e ns nos abraamos com muito carinho. Eu sentia que estava perdendo um amigo, que me ajudou sem saber quem eu era e sem 
querer nada em troca. Ouvimos uma voz. Ns nos voltamos. Era Gilmar que dizia:
- Pessoal, a conversa est muito boa, mas est na hora de irmos embora.
- Ns nos separamos, ele beijou a minha testa e se afastou. Subi no caminho, abanei a mo, no conseguia evitar as lgrimas que corriam sem parar. Ele tambm abanava 
a mo. Embora no estivesse chorando, percebi que seus olhos estavam tristes. Eu comearia uma nova etapa da minha viagem, mas sabia que estava perto de chegar em 
casa.

ANJOS NO CAMINHO

Marta enxugou os olhos com as mos, pois lgrimas caam. Walther estava emocionado, ouvindo aquela histria:
- Que grande homem  esse gacho! A senhora ainda tem o endereo dele?
- Sim. Nunca me desfiz dele. Est guardado em uma caixa no guarda-roupa.
- Poderia me mostrar?
- Claro que sim. Depois, eu mostro para voc.
- Est bem, mas se estava to perto de casa, por que no chegou l?
- Porque a gente se prope, mas Deus dispe. Eu no sabia, mas naquele tempo minha vida estava dando uma nova virada. Chego mesmo a pensar que realmente existe uma 
fora maior, que nos dirige para o nosso verdadeiro caminho.
- Agora estou tambm quase acreditando nisso. Desde que cheguei a este pas, algumas pessoas me falaram sobre isso, a princpio no acreditei, mas agora estou sendo 
levado a crer.
-  isso mesmo, meu filho. Se voltar ao seu passado, ver que, como todas as pessoas, teve bons e maus momentos. Ver, tambm, que tanto nos bons, como nos maus 
momentos, uma ajuda sempre veio, atravs de uma idia ou de algum.
Walther ficou olhando para um ponto distante. Rapidamente repassou sua vida. Percebeu que o que Marta estava dizendo era verdade. Agora mesmo, se no houvesse atropelado 
Laura, somente passaria por aquela estrada e estaria longe, sem saber o que havia acontecido com sua me.
- Mas  preciso acontecer sempre uma coisa ruim? Precisa sempre ser atravs do sofrimento? Dos desencontros?
- No sei...
- Por favor, continue! Estou realmente muito curioso.
Depois que o Gilmar colocou o caminho na estrada e o gacho desapareceu, fiquei olhando o caminho. Gilmar era diferente do gacho, no falava, dirigia com os olhos 
voltados para a estrada. Ao perceber isso, encostei-me bem perto da janela e fiquei apreciando a paisagem. Ele s falava o necessrio. No princpio, estranhei, mas, 
depois, agradeci, pois tambm no estava com vontade de conversar. Tinha muito em que pensar. Primeiro, precisava chegar a casa e convencer meu pai a me receber 
de volta. Depois, precisava encontrar uma maneira de recuperar voc. No ntimo, eu sabia que isso era quase impossvel, pois voc agora era filho deles e estava 
muito longe. Mesmo que chegasse at voc, como provaria que era meu filho? Viajamos em silncio. Por volta do meio-dia, paramos em um pequeno posto de gasolina. 
Eu estava com fome. Gilmar disse:
- Esta vai ser a ltima parada, vamos comer, mas no vamos nos demorar.
- Est bem, preciso mesmo comer algo, estou com fome.
Ele no respondeu, abriu a porta e desceu. Eu fiz o mesmo. Entramos em um pequeno bar. No tinha muita coisa para se comer, apenas alguns pedaos de carne seca boiando 
em um molho de uma aparncia ruim, mas eu estava com fome. Comi um pedao envolvido em farinha. No era o suficiente, mas sabia que logo mais estaria em casa e poderia 
comer uma comida de verdade. Quando terminei de comer, tirei do bolso o dinheiro que o gacho havia me dado. Ao ver o meu gesto, Gilmar, furioso, disse:
- Nada disso! Pode guardar o seu dinheiro! Vou pagar toda a despesa!
- Obrigada, mas no precisa. Tenho dinheiro.
- J disse, guarde esse dinheiro!
Percebi que no adiantava discutir. Guardei o dinheiro de volta no bolso. Voltamos para o caminho e seguimos viagem. J eram quase trs horas da tarde, eu contava 
os minutos que faltavam para chegar a casa. O sol estava muito quente; eu, muito empoeirada. Mais uma vez, Gilmar falou:
- Daqui at onde voc mora faltam mais ou menos duas horas.
- Isso  mesmo muito bom, no vejo a hora de chegar.
- Desde que o gacho me falou a seu respeito, estou com algumas dvidas.
- Que dvidas?
- Por quanto tempo voc e ele estiveram juntos na estrada?
- Por cinco ou seis dias.
- Onde dormiram?
- Na estrada mesmo e em uma penso.
- Ele me disse que no aconteceu nada, que voc  uma moa de respeito, no aconteceu mesmo?
- Aconteceu o qu?
- No se faa de tonta! Vocs dormiram juntos, no dormiram?
- No! Ele me tratou como se fosse sua filha!
- Parou o caminho bruscamente. Olhou-me com raiva, disse gritando:
- Acha mesmo que vou acreditar em uma mentira como essa?
- No  mentira! - Respondi assustada, pois notei que a expresso do seu rosto havia mudado. 
- Ele lhe deu carona sem cobrar nada?
Amedrontada e muito assustada, respondi: - Isso mesmo...
- Pois comigo vai ser diferente! Voc  muito bonita! Agora que estamos chegando, j est na hora de me pagar!
Segurou-me pelos braos, tentando desabotoar minha blusa. Fiquei desesperada, no queria nada com aquele homem. Comecei a gritar, mas no adiantava. No havia alma 
viva por ali. No meu desespero, quando ele tentou me beijar, mordi seus lbios, abri a porta, desci e sa correndo. Corri muito, sem olhar para trs. Meu corao 
batia forte, mas eu no parava de correr. As lgrimas desciam em abundncia por meu rosto. Estava cansada, quase no conseguia respirar, mas no parava. Sentia que 
ele me seguia. Estava apavorada. De repente, no consegui correr mais. Minhas pernas se recusavam a obedecer. Ajoelhei, sem flego. Ouvi a buzina do caminho. Olhei 
e, aliviada, percebi que ele estava desviando, seguindo em outra direo. Respirei fundo e sentei no cho para descansar. Minha maleta havia ficado no caminho. 
Mas no me importava, a nica coisa importante, naquele momento, era que ele havia ido embora. Quando senti que j havia descansado o suficiente, levantei. Olhei 
 minha volta. S enxerguei a estrada. No havia nenhuma casa. Comecei a andar. O sol estava quente, eu sentia sede, mas no podia parar. Tinha que chegar a casa, 
sabia que aquele era o caminho que precisava seguir. No sei por quanto tempo andei. Mas no conseguia mais continuar. Vi uma casa, estava a no comeo da estradinha. 
Um homem capinava. Gritei com as foras que ainda me sobravam. Ele no ouviu. Fui andando em sua direo, precisava descansar, beber um pouco de gua. Sentia que 
as minhas foras no dariam para chegar at ele, mas, mesmo assim, continuei. Outra vez meus joelhos se dobraram, outra vez fui obrigada a parar. S que, dessa vez, 
ele viu. Eu estava do outro lado do riacho. Ao me ver, comeou a gritar:
- Nice! Nice! Nice, venha c! Tem uma moa aqui!
Desfaleci, no vi mais nada. Walther no se conteve. Levantou, perguntando:
- Que tipo de homem era esse Gilmar? Um canalha?
- Tambm senti muito dio, mas hoje no. Como dizia o gacho, ele foi s uma pedra ruim colocada em meu caminho para mudar a minha vida.
- No sei se posso acreditar! Era s uma pessoa sem carter! Nada alm disso!
- Pode ser, mas, de qualquer maneira, mudou a minha vida. Por causa dele, estou aqui hoje, rodeada de crianas, dando a elas todo o amor que no consegui dar a voc.
- Pensando dessa maneira, talvez a senhora tenha razo... Walther tornou a sentar, olhou para Laura, que no dizia nada, apenas deixava as lgrimas carem. Marta 
seguiu os olhos dele. Percebeu que a filha chorava:
- Desculpe, minha filha, nunca lhe contei, pois no achei necessrio.
- No se preocupe, mame, estou s muito triste com tudo o que lhe aconteceu, mas foi assim que veio para c e conheceu meu pai?
- Foi sim, quando abri os olhos, vi uma moa sentada ao lado da cama em que eu estava deitada. Ela sorriu ao perceber que eu acordava. Ofereceu-me uma caneca. Ainda 
assustada, olhei para ela e para a caneca. Perguntei:
- Que tem a dentro?
- Pode beber sem medo,  ch de erva-santa, vai acalm-la, mas beba devagar, parece que faz muito tempo que no toma gua.
Ela era muito bonita, tinha olhos grandes que me transmitiram bondade e sinceridade. Peguei a caneca e bebi devagar. Devolvi a caneca. Ela perguntou:
- Que aconteceu? Parece que foi atacada.
Ao seu lado estava um homem, o mesmo que eu havia visto e por quem gritara. Os dois eram ainda muito jovens. Senti que estava protegida, contei tudo o que havia 
acontecido com o Gilmar. Disse, tambm, que minha casa ficava por aqueles lados. Disse que precisava encontrar o caminho at ela. Ouviram-me em silncio. Quando 
terminei de falar, ela disse:
- Agora, procure esquecer tudo isso, j passou. No pode ir embora agora, est anoitecendo, durma aqui esta noite, amanh bem cedo o Z Antnio vai tentar descobrir 
onde fica a sua casa.
Olhei pela janela. Realmente, estava anoitecendo. Estava muito cansada, no discuti, no sei se foi por causa do ch, adormeci em seguida. No dia seguinte, acordei 
com o choro de uma criana. Abri os olhos, a moa estava trocando a fralda de uma criana. Imediatamente, lembrei-me do que havia acontecido no dia anterior. Sentei 
na cama e disse, curiosa:
- Bom dia! No vi essa criana ontem.
- Bom dia! Dormiu bem? Voc no viu nada, estava cansada e assustada demais para isso.
- Dormi muito bem, preciso agradecer o que a senhora e seu marido fizeram para me ajudar...
- No tem que agradecer nada, somos todos filhos do bom Deus, portanto, somos todos irmos...
Ela terminou de trocar a criana e a colocou no peito para mamar. A criana comeou a mamar com muita fora. Olhei  minha volta, percebi que ela e o marido deviam 
ter dormido em uma rede que se encontrava em um canto do quarto. Ao lado da cama em que eu estava sentada, outras duas crianas ainda dormiam. Havia uma mesa sobre 
a qual ela havia trocado a criana, um fogo a lenha, feito de tijolos e com algumas barras de ferro que serviam para segurar as panelas, um armrio onde eram guardadas 
as louas e os mantimentos. Do outro lado, havia uma mquina de costura. Tudo muito pobre. Eu tambm tinha sido criada em uma casa pobre, mas nunca havia visto pobreza 
igual quela. Ela percebeu que eu olhava tudo. Disse:
- Est admirando a casa?
- Estou. Ontem no vi nada.
- Deve estar achando tudo muito pobre.
No respondi e fiquei envergonhada. Como ela notou o que eu estava pensando? Continuou:
- Foi tudo o que conseguimos em seis anos de casados. Ns trabalhvamos em um engenho de acar. Meu marido conseguiu comprar este stio, faz pouco tempo que nos 
mudamos para c. Mas eu no reclamo, gosto muito do meu marido e sei que ele sente o mesmo. Tenho mais dois filhos, o maior com quatro anos, se chama Jos Antnio, 
como o pai; o menor com dois, Manoel Antnio, mas a gente o chama de Manezinho. E esta  a Laura, est com dois meses.
Ao ouvirem aquilo, Walther se levantou. Laura, esquecendo que a perna estava imobilizada, tentou se levantar e ficou em p por alguns segundos. Ele a segurou antes 
que casse. Ela perguntou, quase gritando:
- Mame! A senhora est dizendo que no  minha verdadeira me? Est dizendo que sou filha de outra mulher?
- Desculpe, minha filha, nunca disse nada, pois, na realidade, amo voc e aos seus irmos como se fossem realmente meus filhos.
- Isso agora no tem importncia, mame! Estou muito feliz por saber que no sou sua filha verdadeira!
- Meu Deus! Com tudo o que aconteceu, esqueci-me do sofrimento que passaram sem necessidade. Devia ter dito logo no comeo que no eram irmos.
Walther abraou Laura, agora com muito amor, sem culpa.
- Quer dizer que podemos nos casar? Quer dizer que no somos irmos?
Marta sorria ao ver a felicidade estampada no rosto dos filhos:
- No so irmos, podem se casar quando quiserem.
Eles se soltaram, Walther deu a volta novamente em redor da mesa, s que desta vez abraou a me com mais carinho ainda, por toda a felicidade que sentia:
- Minha me! Obrigada por toda a felicidade que est me dando neste momento.
- Eu  quem estou feliz por vocs, nada me far mais feliz que ver os meus dois filhos unidos e felizes. Deus  mesmo muito bom! Obrigada por estas pedras boas que 
est me mandando agora. Obrigada pela felicidade que estou sentindo neste momento...
Marta se levantou, foi ao encontro de Laura, abraou-a com muito amor e carinho:
- Minha filha, sei que ser muito feliz ao lado dele, j demonstrou que  um bom homem e que a ama de verdade. Sempre ouvi dizer que "casamento e mortalha no cu 
se talham." Vocs estavam destinados um para o outro! Que Deus os abenoe.
Os dois, abraados, sorriam sem parar. Walther pegou um banquinho, colocou-o ao lado da cadeira em que Laura estava sentada, dizendo:
- Agora, vamos continuar ouvindo sua histria, s que abraados. No quero ficar longe dela nem por mais um minuto. No pode imaginar como sofri, quando pensei que 
ela era minha irm, sofria mais ainda por no conseguir deixar de a querer como minha mulher. No sabia como seria a minha vida sem ela ao meu lado.
Marta se desculpou mais uma vez:
- Eu devia ter contado logo que me falaram que se amavam, mas depois de ter descoberto que era meu filho, aquilo que esperei toda a minha vida, voltei ao passado 
e realmente esqueci. Desculpem...
- No faz mal, agora que sabemos, est tudo bem.. Eu amei essa menina assim que a vi! Acredito que estive esperando por ela toda a minha vida.
Laura, enquanto o ouvia falar, chorava e ria ao mesmo tempo. Walther continuou:
- Agora que essa parte importante foi esclarecida, a senhora pode continuar? Ainda estou curioso para saber por que mudou de nome e por que no foi para casa.
- Vou continuar. Tentei me levantar, mas senti uma tontura, voltei a deitar. Eunice se assustou:
- Que voc tem? Est plida.
- No sei, estou tonta e sem foras, no consigo me levantar.
- Voc est muito fraca. Ontem, ficou muito tempo no sol e sem beber gua. No se preocupe, fique a. Vou lhe trazer um pouco de caf com leite. Depois que comer, 
vai se sentir melhor.
Tentei novamente me levantar, mas no consegui. Ela foi at o fogo, voltou com uma caneca e tentou me entregar, mas no consegui segurar. Ela estava com voc ainda 
mamando. Colocou voc na cama de solteiro junto com os meninos que ainda dormiam. Abraou-me por trs e me ajudou a levantar. Com muita pacincia, fez com que eu 
bebesse um pouco do caf com leite. Eu no conseguia beber. Tomei apenas alguns goles. Deite-me novamente. Depois ela colocou a mo na minha testa, dizendo:
- Est com muita febre. Vou lhe fazer um outro ch.
- Preciso levantar. Tenho que ir para casa.
- No vai conseguir assim como est. Fique calma, volto j.
- Saiu, foi para o quintal, logo depois voltou, acompanhada por Z Antnio, dizendo:
- Ela no est bem. No est podendo nem se levantar, mas quer ir embora.
- No tem que se levantar. Pode ficar deitada, no precisa ir embora hoje. Sua casa no vai sair do lugar.
Senti que, mesmo que quisesse, no conseguiria levantar, apenas sorri e fiquei tranqila. Sentia que estava entre amigos e que nada demais me aconteceria. Voltei 
a dormir. Fiquei doente por mais dois dias. Eunice cuidava da casa, das crianas e, agora eu tambm estava sendo tratada por ela. Conversvamos muito. Contei tudo 
o que havia se passado na minha vida. Ela ouviu, depois, disse:
- Todos passamos por momentos difceis. Quando isso acontece, ficamos com medo de no suportar, mas tudo passa. Voc est sofrendo muito, mas Deus  nosso pai, no 
d uma cruz maior do que aquela que a gente possa carregar. Ela era assim, muito otimista e com uma f que nunca vi igual. Ela me dizia essas coisas, mas eu no 
conseguia entender por que tudo aquilo estava acontecendo. No terceiro dia, ao acordar, percebi que estava sozinha em casa. Levantei, sa para o quintal. Vi Eunice 
e Z Antnio sentados  beira do riacho, as crianas brincavam perto deles. Percebi que conversavam. Voltei para casa, resolvi que j estava bem o bastante para 
ir para casa, s no sabia como fazer. No tinha idia da distncia em que ela estava. Tinha muito medo de pedir ajuda a outro motorista. A minha experincia com 
o Gilmar havia sido muito triste. Estava sentada na cama, pensando em como faria. Eunice e Z Antnio entraram:
- Bom dia! J acordou?
- Bom dia, Nice. Acordei e estou muito bem, penso que est na hora de voltar para casa.
-  sobre isso mesmo que queremos falar com voc.
- Sei... Querem que eu v embora...
- Nada disso, ao contrrio, queremos que fique! Precisamos de sua ajuda.
- Ajuda? Ficar? Como? Por qu?
Z Antnio continuou:
- Precisamos falar seriamente. Comprei estas terras do Z Venncio, um amigo que estava indo para So Paulo. Precisava de dinheiro, vendeu-me por um preo muito 
bom. Tinha um pouco guardado, aproveitei. Isso j faz quase um ano. H alguns dias, ele me escreveu, dizendo que est muito bem, ganhando muito dinheiro no ramo 
de construo. Sabendo que sou um bom pedreiro, quer que eu o v encontrar e trabalhar com ele. Garantiu que, em pouco tempo, ganharei o bastante para montar uma 
casa e levar a Nice e as crianas. Disse que viveremos muito melhor do que aqui.
Fiquei olhando para ele, sem entender o que eu tinha a ver com tudo aquilo. Ele continuou:
- Estou com muita vontade de ir. Quero dar uma vida melhor para meus filhos. Em uma cidade grande, as crianas vo poder ir  escola.
- Acredito que vai ser muito bom, s no estou entendendo em que posso ajudar.
- Desejo muito ir, mas no tenho coragem de deixar a Nice e as crianas sozinhas. J percebeu que moramos distante da cidade, no temos nem um animal para nos conduzir 
at l. Eu j tinha me conformado por no poder ir, mas quando voc chegou, contou sua histria, percebemos que talvez quisesse ficar aqui por um tempo. No sabe 
se seu pai vai aceit-la de volta.
Fiquei pensando, enquanto ele continuava falando:
- Com voc ao lado da Nice, irei tranqilo, no vai ser por muito tempo. Logo virei buscar todos e, se quiser, poder ir tambm.
Quando terminou de falar, os dois ficaram me olhando, ansiosos por saberem minha resposta. Eu estava confusa, acabara de conhecer aquelas pessoas e queriam que eu 
ficasse com eles. Entretanto, ajudaram-me, deram-me abrigo e comida em um momento que precisei. No sabia o que fazer. Eunice percebeu. Disse:
- Sei que mal nos conhece e por isso deve estar preocupada, no queremos que fique sem pensar. Gostei de voc assim que a vi. Sinto que, ao seu lado, poderei ficar 
tranqila, esperando a volta do Z Antnio, mas, se no quiser, pode falar. No vamos conden-la.
Eu estava atordoada, no sabia o que fazer. Contudo, o Z Antnio tinha razo. Eu no sabia se meu pai ia me aceitar de volta. Ali eu tinha um abrigo, quase uma 
famlia, tinha tambm as crianas, que me dariam a impresso de que estava com voc, meu filho.
- Est bem, ficarei s at voc voltar; depois vou tentar ir para casa.
- Se quiser pode fazer isso, mas em uma cidade grande e com dinheiro, ter mais facilidade para tentar recuperar seu filho. Do modo como o meu amigo disse, logo 
terei muito dinheiro e uma casa. Ajudarei em tudo o que for possvel.
- Est bem, eu fico.
Eunice me abraou, agradecida. Eu retribu o abrao. Tambm tinha gostado dela assim que a vi. Isso  uma coisa que ainda no entendi. Por que gostamos de algumas 
pessoas assim que as conhecemos e de outras no? Walther a interrompeu:
- Se o Isaas, a v Zu ou o Lula estivessem aqui, diriam que  por causa das reencarnaes, que so nossos amigos ou inimigos.
- Acredita nisso?
- No sei, mas estou quase acreditando, muita coisa est acontecendo comigo. Por favor, continue.
- Em menos de quinze dias, Z Antnio partiu. Eu e Eunice ficamos sozinhas com as crianas. No teramos problemas, pois, alm da cabra que fornecia leite, havia 
tambm galinhas espalhadas pelo terreiro, uma roa de batata, mandioca e milho que os dois plantaram. Antes de partir, Z comprou uma saca de arroz, feijo e farinha. 
Reservei o dinheiro que o gacho me deu para comprar alguma coisa que faltasse. Ele disse que assim que recebesse o primeiro salrio, mandaria pelo correio. Tudo 
certo, ele partiu. Eunice chorou, aps se despedir do marido, mas sabia que a separao seria por pouco tempo, e que aquilo seria bom para seu futuro e o de seus 
filhos. Ele ficou sem dar notcias mais de um ms. Um dia, estvamos as duas na roa, quando um homem chegou em uma bicicleta. Estranhamos, mas logo percebemos que 
era o carteiro. Ele se apresentou, dizendo:
- Tenho esta carta para dona Eunice Bezerra de Souza.
- Ns nos olhamos. Sabamos que era notcia do Z. Eunice pegou a carta. O carteiro continuou:
- Meu nome  Mrio. Sou o nico carteiro da cidade. Vim at aqui trazer esta carta e avisar que a dona Eunice vai ter que ir at o correio levando este papel, porque 
chegou tambm uma quantia em dinheiro, mas s pode ser retirado l.
Tornamos a nos olhar. No conseguimos esconder a nossa alegria.
- Vamos logo!
- No se esquea de levar um documento, vai ter que assinar.
Na hora, no entendi o porqu de a Eunice dizer:
- S temos o registro de nascimento.
- Vai servir. Vai dar tudo certo.
- Muito obrigada por ter vindo aqui nesta distncia.
- No precisa agradecer, alm de ser o meu trabalho, estou feliz que a notcia agradou as senhoras.
- Nem pode imaginar o quanto.
Ele sorriu, montou na bicicleta e foi embora. Eunice rasgou o envelope, dentro tinha uma carta. Ela comeou a ler em voz alta.

"Querida Eunice:

Sabe que no sei escrever direito, por isso pedi para o meu amigo escrever. Aqui tudo  muito diferente do que a gente pensou. A cidade grande  muito complicada. 
No tem tanto dinheiro como o Z Venncio disse, alm disso faz muito frio. Estou trabalhando de pedreiro em um prdio de dez andares. Nunca vi um to grande. O 
salrio  pouco, mas como preparo a minha comida e durmo no alojamento da obra e fiz muita hora extra, do meu primeiro pagamento sobrou um pouco que estou mandando 
para voc. Estive pensando e acho que aqui o nosso futuro no vai ser muito melhor que a. A ao menos a gente tem um pedao de cho. Aqui, vai ser muito difcil 
conseguir um. Com esse dinheiro que estou mandando, voc vai poder tratar dos meninos. O que sobrar voc guarda. Resolvi que vou ficar aqui s at conseguir um bom 
dinheiro. Quando eu voltar, vou comprar uma carroa e um cavalo para a gente poder ir at a cidade. Vou tambm comprar material de construo e arrumar a nossa casa 
e a a gente vai ser muito feliz. Estou com muitas saudades suas e dos meninos. Mas sei que no vai ser por muito tempo. A Marta ainda continua a com voc? Atrs 
do envelope, tem o endereo para voc me escrever e contar como tudo vai por a. Sem mais, um beijo cheio de saudade.  Z Antnio.

Quando ela terminou de ler, vi que estava chorando. No falei nada. Estava imaginando o que ela sentia. Eu sabia como era triste ficar longe de quem se ama. Eu sentia 
muita saudade de voc, meu filho. Apesar da saudade, ficamos alegres, no s pelo dinheiro, mas por saber que ele havia cumprido o prometido. Com o papel na mo, 
Eunice disse:
- Precisamos ir at a cidade receber o dinheiro, mas no podemos deixar as crianas sozinhas. Estou pensando que voc poderia ir no meu lugar, Marta.
- Como, ir no seu lugar? Vai ter que mostrar algum documento!
- Foi por isso que disse ao carteiro que s tnhamos o registro de nascimento. No sei voc, mas eu s tenho o meu registro de nascimento, nele no tem fotografia, 
voc vai at l e se apresenta como se fosse eu, no gosto de ir  cidade, muito menos de andar, prefiro ficar aqui.
- Para pegar dinheiro no correio, acho que vou ter que assinar o seu nome e eu no sei escrever!
- No sabe?!
- No! S sei assinar mais ou menos o meu nome, mais nada.
- Ento, vai ter que treinar.  Venha at aqui na mesa.
Rasgou um saco de papel que vinha com as compras, pegou um lpis, escreveu alguma coisa e me fez copiar vrias vezes, at que eu soubesse fazer sem olhar. Quando 
achou que estava bom, disse:
- Pronto! Agora  ir, assinar onde mandarem e pegar o dinheiro.
- Acha que vai dar certo?
- Claro que vai! Ningum me conhece e voc vai apresentar o meu registro. Sei que o Z mandou a gente economizar e guardar o que sobrar, mas, quando pegar o dinheiro, 
passe na venda e compre um bom pedao de carne. Merecemos, no ?
No consegui discordar dela. Alm disso, no vi nada de mal. Fiz o que ela pediu. Ela nunca tinha ido  cidade, nem eu. Por isso, ningum ia desconfiar. Como no 
tinha conduo, tive que andar mais ou menos uns quarenta minutos. Enquanto caminhava, achei que ela estava com a razo quando disse que no gostava de andar, s 
no me disse que era to longe. Fui direto ao correio, apresentei o papel e o registro de nascimento. Recebi o dinheiro e, como ela havia pedido, comprei carne, 
banha e sal. Voltei para casa. Quando cheguei, ela perguntou:
- Deu tudo certo, Marta?
- Claro que deu, aproveitei para conhecer a cidade, entrei na igreja, rezei, pedindo a Deus que nos abenoasse e que iluminasse o meu caminho, quando voc for embora 
encontrar o seu marido.
- Parece que o Z no quer mais levar a gente para l. Mas, se for para a gente ir, j decidiu se vai com a gente?
- Ainda no sei... Estive pensando, meu pai estava muito nervoso quando me expulsou, no sei se vai me aceitar, mas preciso tentar. Quando o Z voltar, antes de 
irem embora, vou at em casa. Se ele me receber, vou ficar l, mas se no quiser me aceitar de volta, vou com vocs e seja tudo o que Deus quiser.
- No pense mais nisso, hoje vamos ter um timo jantar! As crianas bem que esto precisando de um bom pedao de carne. Vamos cozinhar?
Ela era uma pessoa espetacular, estava sempre rindo e de bem com a vida. S ficava triste quando pensava no marido e na distncia que os separava. Naquela noite, 
jantamos como h muito no fazamos. As crianas tambm comeram  vontade. Quando terminamos de comer e colocamos as crianas para dormir, ela disse:
- Enquanto voc foi para a cidade, fiquei pensando que no pode continuar sem saber ler nem escrever, Marta!
- Acha isso importante?
- Claro que ! Resolvi que vou ensinar voc, no sei muito, mas lhe ensinarei tudo o que sei. Devo ter guardada em algum lugar uma cartilha com a qual eu aprendi.
- Acha que vou conseguir, Nice?
- Tenho certeza. Voc  muito esperta! Quando entender as letras, vai ver como  bom saber ler.
- Se voc acredita, vou tentar.
- Hoje no, porque daqui a pouco vai escurecer e com lamparina no d para ler, mas amanh vamos comear. Assim, quando o Z mandar outra carta, no vou precisar 
ler em voz alta. Voc mesma vai ler.
Ela estava muito animada, bem mais do que eu. No achava que ler fosse importante. No dia seguinte, depois de cuidarmos das crianas, fomos para a roa, fazamos 
isso todos os dias. Era importante regar, deixar tudo sem mato para que a batata, o milho e a mandioca crescessem bem. Depois do almoo, ela pegou a cartilha, deu-me 
um lpis, um pedao de papel e comeou a me ensinar. Encontrei muita dificuldade, no sei se por que no era mais criana ou por no achar necessrio. Mas ela no 
desistiu, continuou me ensinando. Todos os dias, aps o almoo, eu tinha que estudar. Aos poucos, fui conseguindo juntar as letras e formar algumas palavras. Fazia 
aquilo para agradar a Eunice, no por sentir vontade. Durante cinco meses, uma carta e dinheiro chegavam. Eu ia at a cidade buscar o dinheiro no correio. Era tambm 
o dia em que a gente comia carne. Na cidade, algumas pessoas j me conheciam como Eunice. Sabiam que eu morava naquele stio do Morrinho. Eunice tinha um bom dinheiro 
guardado. Em sua ltima carta, Z disse que pensava em voltar mais ou menos em trs meses. Eunice ficou muito feliz. Ela sabia que no iria mais embora, mas sabia 
tambm que nada era pior do que ficar sem o seu marido. Marta parou de falar. Lgrimas voltaram a descer de seus olhos. Walther perguntou:
- Que aconteceu, me? Do que se lembrou agora que a faz chorar?
Ela secou os olhos com as mos. Disse:
- Realmente, foi tudo muito triste. Mais uma vez, Deus colocou em minhas mos pedras ruins, uma prova muito difcil...
- Que aconteceu?
- Vou continuar, minha filha. O que vou contar agora tem muito a ver com voc.
- Conte logo, por favor!
- Como acontecia todos os dias, naquela manh fomos at a roa, que ficava a uns vinte metros da casa, l perto do riacho. Enquanto Eunice carregava voc no colo, 
o Zezinho ia agarrado na sua saia. Eu levava o Manezinho em um caixote, onde voc sempre ficava. Voc tinha sete meses, ainda no andava. Colocamos o caixote embaixo 
daquela rvore perto da gua, onde seus irmos brincavam. De dentro da roa, eu e a Eunice ficvamos sempre olhando os trs. Ali havamos capinado para que pudssemos 
ver o que faziam. Eunice entrou na roa. Eu fui com um regador pegar gua no riacho para molhar a roa. Estava voltando com o regador cheio, quando vi a Eunice dar 
um grito e um pulo. Em seguida, ela sentou, gritando muito. Larguei o regador e corri para ela. Os seus irmos, que brincavam perto de onde voc estava, tambm ouviram 
e correram para ela. Ao chegar perto, ela disse:
- Foi uma cobra, Marta! Foi uma cobra que me picou! Tire as crianas daqui!
- Entrei em desespero:
- Como cobra? Nunca vimos uma cobra por aqui!
- No sei, mas eu senti e vi quando ela fugia por ali! Era preta e vermelha! Tire os meninos daqui! Ai! Est doendo muito...
Olhei para ver se ainda via a cobra, mas no a vi. Peguei os meninos e levei para junto da caixa em que voc estava. L no havia cobra alguma, pois o lugar era 
limpo de mato. Disse para seus irmos:
- Vocs dois fiquem a parados, junto da Laura. No saiam antes que eu mande. No se mexam!
Voltei para junto da Eunice, que chorava. Parecia que estava sentindo muita dor:
- Que vamos fazer, Nice? Voc precisa ser socorrida!
- Como? No sei se vou poder andar at a cidade!
- Eu vou correndo e trago ajuda!
- No pode deixar as crianas sozinhas. A cobra pode voltar! No acho que estou em condies de cuidar deles.
- No posso lev-los comigo. Vou demorar muito para chegar at a vila!
- Preciso da sua ajuda para me levantar, vamos para dentro da casa.
Ajudei-a a levantar-se, mas doa muito. Ela, mesmo no querendo, gemia. Eu estava em pnico. Com muito custo, consegui lev-la e deit-la na cama. No sabia o que 
fazer, mas sabia que alguma coisa tinha que ser feita. Falei devagar, tentando esconder dela o meu desespero:
- J sei o que vou fazer. Vou buscar as crianas, coloco a Laura de volta no bero, levo os meninos comigo e vou o mais depressa possvel at a cidade buscar socorro.
-  muito longe! Os meninos no vo conseguir andar.
- Eu carrego os dois!
- No vai conseguir...
- Claro que vou! Preciso trazer ajuda! S tenho que preparar uma mamadeira para a Laura, depois, vou correndo.
Voltei correndo ao lugar em que os tinha deixado. Trouxe os trs para dentro da casa. Preparei a mamadeira, enquanto ouvia os gemidos da Eunice. Coloquei voc no 
bero, dei a mamadeira, comeou a mamar. Eu sabia que, antes mesmo de terminar, j estaria dormindo. Embora continuasse mamando na Eunice, agora j tomava, de vez 
em quando, leite de cabra. A Eunice dizia que era pra voc ficar mais forte. Aps t-la acomodado, voltei-me para ela, dizendo:
- Agora, eu vou, Nice, fique calma, logo vou trazer algum aqui para ajud-la.
Estava saindo quando ela me chamou. Voltei. Ela, chorando, disse:
- Marta, no sabemos que tipo de cobra me picou, nem se era venenosa... Receio que, quando voltar, no estarei mais aqui... Por isso, preciso que me prometa uma 
coisa...
- No vou prometer nada! Quando chegar ajuda, voc vai estar aqui e vai ficar tudo bem!
- No temos certeza, por isso tem que me prometer que se alguma coisa acontecer comigo, no vai nunca abandonar meus filhos, ao menos at o Z Antnio voltar...
- No vai lhe acontecer nada! Voc vai estar aqui quando ele voltar!
- Prometa, por favor...
Ela segurava minha mo com muita fora e pedia com lgrimas. Para me ver livre e poder ir embora, disse:
- Est bem, Nice! No vai lhe acontecer nada, mas, se acontecer, eu prometo que cuido das suas crianas. Agora, preciso ir. Estamos perdendo tempo. Volto logo.  
Tente ficar acordada.
Ela largou minha mo, sorriu. Peguei os meninos, coloquei um em cada lado da cintura, sa correndo. Corri at chegar  estrada, mas eles, embora fossem ainda pequenos, 
pesavam e, como podem ver, sou pequena. Na estrada, corri por mais alguns metros, mas logo comecei a ficar cansada. Fui obrigada a diminuir meus passos. Estava desesperada, 
sabia da gravidade da situao, mas no conseguia andar mais depressa. Continuei andando, mas, muitas vezes, fui obrigada a parar e descansar, pois minhas pernas 
no obedeciam. O Manezinho chorava, o Zezinho queria voltar para casa. Eu dizia que no podia, que precisvamos buscar o doutor para cuidar da mame. Eles pareciam 
entender a situao, eu continuava. Naquele dia, levei mais de duas horas para fazer o percurso que, normalmente, eu levava quarenta minutos. Durante o caminho, 
eu ia rezando muito, pedindo a Jesus e Nossa Senhora para que nada de mau acontecesse com a Eunice. Finalmente, cheguei  praa da cidade. Fui direto procurar o 
hospital, que no era como o de hoje. Havia s um grande galpo, cuidado por quatro freiras. O doutor Morais, recm-formado, era o nico mdico da cidade. Entrei 
depressa, muito cansada e, chorando, no conseguia falar. Uma das freiras me viu e perguntou:
- Que aconteceu? Por que est chorando desse modo?
No conseguia responder e falei com a voz trmula e baixa:
- Minha amiga! Uma cobra!
- No estou entendendo nada. Tente se acalmar para poder falar direito.
Tirou as crianas dos meus braos e me fez sentar em um banco:
- Agora me conte o que aconteceu...
Ainda cansada e apavorada, contei tudo o que havia acontecido. Quando terminei de falar, ela disse:
- Quanto tempo faz que ela foi picada? Que tipo de cobra era?
- No sei que cobra era! No sei quanto tempo se passou! S sei que ela est l, precisando de ajuda...
- Est bem, vou chamar o doutor Morais, ele saber o que fazer. Fique aqui esperando. Ele acabou de sair, no deve nem ter chegado em casa.
- Por favor, no demore.
Ela saiu e eu voltei a rezar. Naquele momento, no podia fazer outra coisa. Rezei muito, pedi, implorei, fiz at promessa. Depois de um tempo que me pareceu uma 
eternidade, ela voltou, acompanhada pelo doutor Moraes. Quando viu o meu estado, disse:
- Sabe ao menos como era a cobra? Voc a viu?
- No sei, parece que era preta e vermelha.
- Preta e vermelha?
Percebi que ele ficou nervoso:
- Que foi, doutor?
- Pode ser uma coral.
- Que tem isso?
- Se for uma coral, receio que no poderemos fazer muita coisa por sua amiga...
- No diga isso, doutor! Por favor...
- A minha charrete est a fora, vamos o mais rpido possvel.
Pegou as duas crianas, a freira me ajudou a subir, samos correndo. Sentei com as crianas no colo. Ele fez com que o cavalo corresse muito. Chegamos. Parou a charrete. 
Descemos e corremos para casa. Quando estvamos chegando, ouvi voc chorando, desesperada, Laura. Corri mais ainda. A Eunice estava deitada no cho, ao lado do bero. 
Deve ter tentado atend-la, quando comeou a chorar, mas no conseguiu e caiu. Corremos para ela. Doutor Morais a recolocou na cama, enquanto eu pegava voc no colo 
para que parasse de chorar. Ela ainda estava viva, mas desmaiada e, pela expresso do rosto dele, percebi que nada iria adiantar. Recomecei a chorar. Ele examinou 
o local da picada, dizendo:
- Deve ter sido mesmo uma coral e para ela no temos antdoto. Sinto muito, mas acredito que ela no vai resistir...
- No pode ser! O senhor tem que fazer alguma coisa! E mdico!
- Sou mdico! No sou Deus!
- Fui a culpada! Se tivesse corrido mais, teria chegado a tempo...
- No se culpe! Nada iria adiantar.
Eunice abriu os olhos, olhou-me. Disse bem baixinho:
- No se esquea da promessa que me fez...
- No vou esquecer, nunca, mas voc vai ficar boa.
Sorriu e tornou a fechar os olhos. Da a alguns minutos, o doutor disse:
- Terminou... Ela se foi...
- Eu ouvi, mas no entendi nem queria entender. Fiquei olhando para ele e para ela. Voc, Laura, chorou em meus braos. Voltei  realidade, pois tudo aquilo me parecia 
um sonho.
- Que o senhor est dizendo?
- Que ela se foi, no podemos fazer mais nada.
Embora eu no quisesse, fui obrigada a entender e aceitar.
- Meu Deus, o que vou fazer agora? Por que isso tinha que acontecer?
O doutor deixou que eu chorasse. Quando achou que j era o bastante, disse:
- Agora, precisamos cuidar do enterro.
- Enterro? Como vou fazer sem ela?
- Vai continuar cuidando dos seus filhos. Ela se foi, mas as crianas continuam aqui e precisam muito de voc. Onde est o seu marido?
Ao ouvir aquilo, lembrei-me da promessa que havia feito. Fiquei com medo que, se ele soubesse que eu no era a me, me tirasse as crianas. Rpido, respondi:
- Ele est em So Paulo, mas vai voltar logo.
- Acredita que vai poder ficar aqui sozinha at ele voltar?
- Vou... Vou sim...
- Qual era o nome dela?  sua parente?
Naquele momento, com medo de perder as crianas e sabendo que o Z voltaria logo, respondi:
- O nome dela  Marta. Ela apareceu aqui um dia e foi ficando. No  minha parente, mas eu gosto muito dela.
- Sabe onde mora a famlia?
- No...
- Tem algum documento dela?
- Tenho s o registro de nascimento.
- Entregue-me, vou levar para a cidade, depois algum vir busc-la.
Eu estava meio tonta, parecia que tudo aquilo era um sonho. Peguei o meu registro de nascimento e dei a ele. Foi embora, dizendo:
- Vai ter que ficar aqui com ela at eu voltar com algum. Acha que pode?
- Posso, sim... Preciso alimentar as crianas...
- Faa isso, voltarei logo.
- Est bem...
Ele saiu, eu fiquei ali parada, olhando para Eunice que parecia dormir. No estava querendo aceitar a realidade. Comecei a falar:
- Voc est muito bonita... Quando o Z Antnio voltar, vai ficar feliz por v-la. Ele tambm est com muita saudade.
- Voc, Laura, comeou a chorar novamente, trazendo-me de volta  realidade. Tornei a olhar para Eunice, s que desta vez no tive como me enganar. Ela estava morta 
mesmo e eu, com vocs trs. Eu, que havia rezado tanto, naquele momento me revoltei e gritei:
- Deus! Como deixou isso acontecer? Ela no podia ter morrido! Tem trs crianas! Por que no me levou no lugar dela? Eu, que no tenho mais nada. J me tirou tudo! 
E, agora, a minha amiga. Minha irm! Deus! Onde o Senhor est? No ouvi resposta alguma. Com voc no colo e chorando muito, fui at o fogo e preparei sua mamadeira. 
Os meninos tambm estavam com fome. Aqueci um pouco de comida e dei para eles. No consegui comer nada, tinha como um caroo na garganta. Estava sentindo muita tristeza. 
Meu corao estava doendo por aquela perda.
Marta parou de falar. No conseguia continuar. Lgrimas corriam por seu rosto. Laura tambm chorava e Walther fazia um esforo imenso para no demonstrar seus sentimentos. 
O momento era de muita emoo. Laura disse baixinho:
- Pobre me, que pena no a ter conhecido...
- Deve sentir mesmo, minha filha... Ela era uma pessoa especial... Sentiria muito orgulho de voc e de seus irmos...
- Da senhora tambm, pois cumpriu a sua promessa. Alm de cuidar muito bem de mim e de meus irmos, cuidou e ainda cuida de muitas crianas.
- Sim, mas para isso tive que cometer um crime...
- Crime? Que crime?
Sem entender muito bem o que fazia, naquele momento eu tomei uma falsa identidade. Permiti que sua me fosse enterrada com o meu nome. Para todos os efeitos, passei 
a ocupar o lugar dela.
- Foi obrigada! Tinha que cumprir a promessa! Precisava nos proteger! 
- Tudo isso  verdade, hoje eu sei, mas eu poderia ter dito a verdade. Ningum iria me tirar vocs.
Walther levantou da cadeira, foi at a porta e ficou olhando para o cu. Elas perceberam. Marta perguntou:
- Meu filho, que aconteceu? Por que se levantou? No quer ouvir o resto da histria?
- Quero! S estou pensando como foi intil toda a procura do Paulo. Por que ele nunca teve a idia de procurar nos cartrios das cidades vizinhas? Fatalmente, chegaria 
at aqui e encontraria um atestado de bito. O que mais me intriga  que eu tambm pensei em vrias formas de a encontrar, mas por nenhum instante essa idia passou 
por minha cabea.
- Talvez tenha sido porque vocs nunca me sentiram morta. Por isso no procuraram o atestado.
Ele voltou a se sentar:
- A senhora deve ter razo, realmente, sempre que a julgava morta, eu afastava esse pensamento. Todavia, se tivssemos encontrado o atestado, nunca mais a procuraramos 
e eu, provavelmente, no estaria hoje aqui. S vim na esperana de encontr-la. Mas, por favor, continue.
Marta continuou:
- Eunice estava ali deitada com os olhos fechados. Aproximei-me dizendo:
- No quero aceitar... Voc no pode ter morrido dessa forma.... Que vou fazer? Como vou cuidar sozinha das crianas?
Naquele momento, em meu desespero, pareceu v-la ao meu lado, dizendo:
- Deus no d uma cruz mais pesada do que aquela que a gente possa carregar.
Ao me lembrar do que ela sempre dizia, senti como se uma brisa suave me envolvesse. Ela continuava ali deitada, parecendo que dormia. Pensei: No adianta mesmo eu 
ficar com medo e me lastimar. O que tenho a fazer agora  deix-la bem bonita. Vou pegar seu vestido azul, aquele de que tanto gostava. Levantei, peguei o vestido. 
Vocs trs dormiram logo depois que dei o almoo. Peguei um balde, fui at o riacho, trouxe gua. Coloquei em cima do fogo para que esquentasse. Dei um banho nela, 
vesti o vestido azul, penteei seus cabelos. Ela ficou linda. Nada mais poderia fazer por aquela amiga que eu conhecia h to pouco tempo, mas que era muito querida. 
Agora, voc est pronta para encontrar com Deus. Pode ir tranqila, no vou deixar seus filhos sozinhos at que o Z Antnio chegue. Ele vai saber o que fazer.
- Fiquei ali olhando e conversando com ela, at que o doutor Morais voltou, acompanhado por quatro homens. Um era o delegado e os outros, seus auxiliares. Entraram, 
enrolaram o corpo de Eunice em um lenol branco que trouxeram. Ela foi levada at uma carroa que estava parada do outro lado do riacho. Naquele tempo no tinha 
ainda essa pequena ponte. Existia s um tronco de rvore por onde se passava. Eu os acompanhei.
- A senhora quer ir junto?
- Para onde vo lev-la?
- Para o cemitrio, ser enterrada imediatamente.
- No sei o que fazer, no posso deixar as crianas sozinhas, se as levar,  como voltarei depois com os trs?
- A senhora  quem sabe, infelizmente, poderei lev-la, mas, como sabe, no posso ficar muito tempo longe do Posto de Sade. No poderei traz-la de volta.
- Obrigada, doutor. Mas no posso ir. Afinal, acredito que ser melhor para as crianas no presenciarem o enterro. Eles so ainda muito pequenos. Vou ficar aqui, 
ela j deve estar na companhia de Nossa Senhora.
- Est bem, tome cuidado com essa cobra, ela ainda deve estar por a.
Estremeci:
- O senhor acha mesmo?
- Claro que sim. Fique atenta, quando estiver andando por esses matos. Com a casa, no precisa se preocupar, pois ela tambm tem medo de gente. Mas fique sempre 
atenta e cuidado com as crianas para que no entrem na roa sozinhas. Quando no estiver em casa, deixe a porta e a janela trancada.
- Est bem, vou fazer isso.
Foram embora, abanei a mo para minha amiga, irm, que estava indo para sempre. Quando sumiram na estrada, voltei para casa. Vocs continuavam dormindo. Olhei para 
os trs, pensando:  Dormem como anjos que so, no imaginam a grande perda que esto sofrendo neste momento. Preciso pensar no que vou fazer daqui pra frente. Tomei 
um gole de caf, no tinha comido nada, tambm no tinha vontade alguma de comer. Fiquei com a caneca em minha mo, olhando tudo em minha volta. Sem saber por onde 
comear. No sei, meus filhos, mas parece que eu estava sendo guiada por uma fora qualquer. Meu olhar foi at o armrio, onde estava a cartilha. Ao v-la, tive 
uma idia: Vou escrever para o Z Antnio, pedindo que volte! Peguei a cartilha e um papel de saco. Comecei a treinar, pois em uma das vezes que fui ao correio, 
comprei envelopes e um caderno, onde a Eunice escrevia e mandava cartas para o marido. S que eu no havia aprendido o suficiente, conhecia as letras, conseguia 
formar uma ou outra palavra, mas no sabia como escrever uma carta. Nunca me arrependi tanto como naquele momento por no ter prestado mais ateno s aulas que 
ela me dava. Bem devagar, fui juntando uma letra com outra, formei algumas palavras. Aos poucos, consegui escrever. Z Antnio, volta logo. A Nice morreu. Escrevi 
s isso, no conseguia nem sabia escrever mais. Nem sei se escrevi certo, mas era tudo o que podia fazer. Copiei, de uma das cartas que o Z Antnio havia mandado, 
o nome dele e o endereo. Coloquei a carta dentro do envelope. Pensei: Pronto, agora j  um comeo, quando ele chegar, vamos ver o que a gente vai fazer. No mesmo 
instante, desesperei-me novamente. Pronto nada! Como vou levar esta carta at o correio? No posso deixar as crianas sozinhas! Meu Deus! Parece que tudo est dando 
errado. Por que est fazendo isso comigo? Por qu? Mais uma vez me revoltei contra Deus. Ele estava sendo implacvel comigo. Tudo de ruim estava acontecendo, eu 
estava de mos atadas, sem poder fazer nada. Depois de maldizer muito, pensei: No tem jeito, vou ter que esperar at quando o carteiro vier trazer outra carta do 
Z Antnio. A eu dou esta carta pra ele colocar no correio.  isso mesmo! S preciso esperar, enquanto o carteiro no chega vou continuar cuidando das crianas. 
Naquela noite no conseguia dormir. Tratei das crianas, eram muito pequenas para perceberem a ausncia da me e j estavam acostumadas comigo. O Zezinho, por ser 
maior, foi o nico que sentiu a falta dela. Quando perguntou, eu respondi que ela tinha ido encontrar com o papai, mas logo os dois voltariam juntos. Ele ficou um 
pouco triste, mas era criana, adormeceu. Eu fiquei olhando para ele, imaginando que era voc, meu filho. Meu querido Joo, que eu no sabia onde estava, mas ele 
e os irmos estavam ali e precisavam da minha proteo. Chorei muito ao lembrar tudo o que havia acontecido. Foi to rpido que eu nem estava acreditando que era 
verdade. Pensava que, a qualquer momento, veria a Eunice sorrindo e brincando como sempre. Meu corao se apertava, no entendia por que Deus havia permitido que 
uma coisa como aquela acontecesse. No podia ter feito aquilo com ela e com aquelas crianas que no tinham culpa de nada nesta vida. Nem eu! Nunca fiz mal algum! 
Por que tudo aquilo estava acontecendo comigo? Mais uma vez me revoltei: No! Deus no existe!  tudo mentira o que sempre aprendi a respeito Dele! Revoltada e com 
lgrimas nos olhos, adormeci. No dia seguinte acordei, senti a realidade. Estava sozinha mesmo! Ia comear a me lamentar, quando olhei para o meu lado. Vocs dormiam 
como anjos. Sabia que logo acordariam e precisavam ser alimentados. Levantei, tinha muita coisa para fazer. Precisava alimentar e trocar as crianas, ainda tinha 
que cuidar da roa. J estava acostumada, fazia aquilo todos os dias, s que sempre ao lado da Eunice, mas agora eu estava sozinha. No sabia se ia conseguir. Levantei, 
avivei o fogo, coloquei uma chaleira com gua para ferver. Sa para o quintal. O dia estava lindo. Pensei: Tudo continua, a vida continua. Tambm tenho que continuar... 
Pensei em Eunice e na promessa que havia feito. Vou cumprir, minha amiga... Vou cumprir... Seus filhos nunca vo ser abandonados. Assim que o Z Antnio voltar, 
ele vai encontrar uma soluo. Se for preciso, vou continuar aqui at que eles cresam. As crianas logo acordaram. Troquei-as e alimentei-as, brinquei com elas 
como fazia todos os dias. A vida seguia normal, s faltava Eunice. Sempre que me lembrava dela, sentia vontade de chorar, mas como se houvesse algum invisvel me 
ajudando, logo um de vocs fazia qualquer coisa que chamava minha ateno e eu, sem perceber, mudava o meu pensamento. Fiquei com medo de que a cobra voltasse. Todos 
os dias, quando saa de casa, trancava bem a porta e a janela. Andava sempre com um pedao de madeira na mo ou no cho, bem perto, ao alcance da minha mo. Se a 
cobra aparecesse, eu a mataria sem d. Quando voltava para casa, antes de levar as crianas para dentro, eu entrava e olhava tudo. Assim que entrava, tornava a fechar 
a porta. Nunca mais vi a cobra. No sei para onde ela foi. Fazia vinte e poucos dias que Eunice havia morrido e eu, escrito a carta. Um dia, aps ter dado almoo 
para as crianas, estava fora da casa tomando um pouco de caf. Vi a bicicleta do carteiro se aproximando. Meu corao bateu mais forte. Finalmente, ele apareceu! 
Agora, vou poder mandar a carta! O Z vai voltar. Entrei em casa, peguei a carta e sa correndo para encontr-lo. Ao me ver, abanou a mo. Atravessei correndo o 
tronco sobre o riacho e o encontrei. Ele desceu da bicicleta, dizendo:
- Tenho outra carta para a senhora e o dinheiro tambm est l no correio.
Peguei a carta, dizendo:
- Obrigada, mas no pode imaginar o quanto estou feliz por ver o senhor. Preciso de um favor seu!
- Pode pedir, farei tudo para ajudar a senhora.
Ia entregar a carta, quando olhei para aquela que ele me entregou. No sabia ler direito, mas o nome do Z Antnio eu havia decorado e aquele que estava na carta 
no era o dele. Falei:
- Esta carta no  do Z Antnio! De quem ?
Ele pegou a carta, olhou o remetente.  Disse:
- No  mesmo! Quem mandou foi um tal de Z Venncio.
- Z Venncio? Por que o Z Antnio no escreveu?
Peguei a carta novamente em minhas mos. Estava muito nervosa. Entreguei a carta de volta:
- Por favor, seu Mrio, no sei ler direito, assim nervosa como estou  que no vou conseguir mesmo! Pode me fazer o favor de ler?
Ele pegou o envelope, rasgou, tirou de dentro um papel. Comeou a ler. Dona Eunice: Com muito pesar, estou lhe enviando esta carta. A notcia que tenho no  muito 
boa, mas sou obrigado a lhe contar. O Z Antnio caiu do alto da construo, foi socorrido logo, mas no resistiu. Sinto muito, mas ele morreu. Estou mandando para 
o correio o ltimo salrio e o pouco de dinheiro que ele tinha guardado no alojamento. Se a senhora quiser, pode me escrever para o endereo que est no envelope, 
farei tudo o que puder para ajud-la. Sem mais, enviando os meus sentimentos. Jos Venncio. Ele terminou de ler, devolveu-me a carta. Como eu, tambm estava abismado:
- Sinto muito, dona Eunice. Como isso foi acontecer? Que vai fazer agora?
Com a carta na mo, comecei a chorar:
- No sei! No sei! Por que nada em minha vida d certo?
Vendo que eu chorava, desesperada, ele disse:
- Dona Eunice, no fique assim... Deus sempre protege seus filhos! Ele vai dar um jeito de ajudar a senhora...
- Deus? Que Deus? Ele no existe! Se existir, no sabe que eu existo! Nunca esteve ao meu lado e nem me protegeu! At agora, s tirou tudo o que eu tinha!
- No  assim, ele lhe deu seus filhos!
- Meus filhos?
Ia dizer a ele que no eram meus filhos, mas me calei. Percebi que aquele no era o momento para contar a verdade. Estava desorientada, mas me lembrei da promessa 
que havia feito. Ele continuou:
- Sim, seus filhos. So crianas lindas e precisam da sua proteo. Sei que est nervosa e assustada, mas Ele dar um jeito. Acredite nisso!
- Que jeito? No tem jeito!
- No se preocupe, no fim tudo d sempre certo. Confie.
- No sei o que vou fazer... No sei como ser a minha vida daqui pra frente...
- No se preocupe, Deus nunca d uma cruz maior do que aquela que a gente possa carregar...
Ao ouvi-lo dizer aquilo, lembrei-me de Eunice. No sabia quantas vezes eu a tinha ouvido dizer aquilo. Novamente, senti como se uma brisa suave me envolvesse. Ele 
continuou:
- Nunca estamos sozinhos, dona Eunice, sempre que estamos em aflio algum aparece ou alguma coisa acontece para ajudar a gente...  sempre a presena de Deus ao 
nosso lado. Ele manda ajuda de uma maneira ou de outra. Agora, tambm estar protegida... Acredite...
No sei o por que, mas aquelas palavras me faziam bem. No mesmo instante, lembrei-me do gacho que surgiu em minha vida, num momento em que julguei tudo perdido, 
depois foi a prpria Eunice e seu marido. Enxuguei meu rosto com as mos: No sei se o que est dizendo  certo, mas tambm no tenho outra coisa para fazer. S 
esperar que essa ajuda chegue. Como o senhor disse, tenho ainda minhas crianas e vou cuidar delas para sempre.
- Assim  que se fala. Vai dar tudo certo, a senhora vai ver.
Sorri, ele se despediu, montou na bicicleta e foi se afastando. Fiquei ali parada, olhando-o ir embora. De repente, percebi que parou a bicicleta, deu a volta e 
veio em minha direo:
- Dona Eunice! Como vai fazer para ir at a cidade receber o dinheiro? No pode deixar as crianas sozinhas nem levar os trs...
- No sei... No sei. Como vou fazer? No tinha pensado nisso! No vai dar para eu ir.
- J sei! Sabe que no posso vir para c todos os dias, mas, quando chegar  cidade, vou ver se consigo uma maneira de ajudar. No se preocupe, vou encontrar uma 
soluo. At logo!
Ele foi embora. Fiquei ali parada, pensando em tudo o que havia acontecido e sem saber o que fazer. Por mais que pensasse, no conseguia entender o que estava acontecendo. 
Deus havia me tirado meu filho e agora me deixava ali com trs crianas para que eu cuidasse. Por que ele deixou aquelas trs crianas sem pai e me? Um pai e uma 
me que os amavam muito, que fariam tudo para a felicidade deles. Voltei o meu olhar para a carta. Vi aquelas letras escritas.  s um simples papel, mas est modificando 
a minha vida. No sei se realmente Deus existe. S sei que no adianta ficar me lamentando. Como disse o seu Mrio, alguma soluo vai ter que surgir. Preciso cumprir 
a minha promessa e agora vai ser para sempre, at que as crianas cresam e possam cuidar de suas vidas. Prometi e vou cumprir. Eu pensava aquilo para me conformar, 
mas, no ntimo, sabia que seria muito difcil conseguir. Comecei a chorar novamente. Estava ajoelhada no cho, chorando, quando ouvi o Zezinho me chamando:
- Me! A Laurinha t chorando.
Ao ouvir aquilo, o meu corpo estremeceu. Ele estava me chamando de me! Senti uma emoo muito grande. Era verdade, ele era o meu filho! Ele e os outros dois. Dali 
pra frente, seriam os meus filhos e eu lutaria por eles. Voltei correndo para casa. Estava sofrendo com muitos problemas, mas as crianas no tinham culpa de nada 
que estava acontecendo. Precisavam da minha presena, e eu estaria ali, sempre pronta. Era o mnimo que podia fazer em troca do que Eunice e o marido tinham feito 
para me ajudar. Alm disso, eu j as amava como se realmente fossem minhas. O carteiro no voltou. Soube mais tarde que ele no conseguiu ningum para me ajudar. 
No me preocupei, pois, no momento, no precisava de dinheiro. Ainda tinha muito arroz, feijo e farinha. O leite da cabra era suficiente para as crianas. Sabia 
onde ficava o ninho de cada galinha, por isso ovos tambm no faltavam. A minha vida voltou ao normal. s vezes, quando me lembrava que estava ali, sozinha, longe 
de tudo, ficava com medo, mas logo passava. Dois meses se passaram, eu j havia me acostumado com aquela vida. Tudo corria bem. Em uma noite, voc, Laura, no dormiu 
bem. Estava com muita febre. Fiz um ch, mas fiquei apavorada porque a febre no baixava. Fiz tudo o que sabia para que voc, parasse de chorar e dormisse, mas no 
consegui. Quando amanheceu, voc ainda ardia em febre e chorava. Entrei novamente em desespero. Como ia fazer para socorr-la? Precisava lev-la a um mdico, mas 
como? Naquela distncia e com os dois pequenos. Lembrei-me de Eunice, como eu no tinha conseguido socorr-la, porque no corri o suficiente. Novamente, entrei em 
desespero, novamente me revoltei com aquele Deus que s me fazia sofrer. Logo eu, que me julgava uma boa pessoa, que nunca fiz mal a ningum! Embora eu j no tivesse 
tanta certeza se Ele existia mesmo, realmente, era a minha nica esperana. Com voc chorando em meus braos, e chorando tambm, comecei a falar:
- Meu Deus! No sei se o Senhor realmente existe, mas, neste momento, precisa existir! Ajude-me! D-me uma idia para eu conseguir levar minha menina at o mdico. 
J me tirou tanto! Levou meu filho para longe... Levou a Eunice e o Z Antnio. Colocou essas crianas em minhas mos! Por favor, ajude-me! No permita que minha 
menina morra! Pedi muito. Mas sabia que nada poderia acontecer, a no ser novamente tentar chegar at a cidade a tempo. Sabia que, desta vez, seria pior, pois teria 
que levar os trs. Resolvi que tentaria. Talvez, dessa vez, eu conseguisse chegar a tempo. Estava trocando sua fralda, quando ouvi uma voz:
-  de casa! Tem algum a?
Meu corao estremeceu, era a voz de uma mulher. Corri para fora. Uma freira estava l abanando-se. Ao me ver disse:
- Desculpe, estava passando pela estrada, est muito quente, ser que pode me dar um pouco de gua?
Sem responder, ajoelhei, peguei suas mos e comecei a beijar, dizendo: Obrigada, meu Deus! Muito obrigada. Ela se espantou com minha atitude:
- Que est acontecendo? S preciso beber um pouco de gua!
Percebi o que estava fazendo:
- Desculpe, irm,  que a minha filha est muito doente, eu preciso lev-la at o mdico e no tenho conduo.
- Onde est a menina?
- Ali dentro da casa, venha, por favor.
Ela entrou, pegou voc nos braos, colocou a mo em sua testa, dizendo:
- Ela est mesmo com muita febre. Vamos lev-la, minha charrete est a fora, perto do riacho. Mas antes, por favor, d-me um pouco de gua...
Dei uma caneca com gua e enquanto ela bebia, terminei de trocar voc. Peguei os meninos, fomos at a charrete. Acomodei-os no banco de trs. Sentei-me no banco 
da frente, com voc nos braos, ao lado dela. Fomos embora. Ela fez com que o cavalo corresse o mais rpido que conseguia. Percebeu que eu estava muito nervosa. 
Disse:
- No fique assim, no deve ser nada grave! A menina vai ficar bem.
- Assim espero.
- Meu nome  Ceclia. Eu e mais trs irms moramos na cidade. Tomamos conta do posto de sade. Minhas irms cuidam dos doentes. Eu, embora no devesse, pois sou 
uma irm de caridade, no gosto de ver pessoas sofrendo e com dor, por isso ando o dia inteiro com a charrete, vou de fazenda em fazenda, em busca de dinheiro para 
mantermos o posto.
- Foi muita sorte minha, hoje, ter passado por aqui.
- No foi sorte no! Foi Deus.
- Por que est dizendo isso?
- Passo quase sempre por aqui. Muitas vezes, vi a sua casa, mas nunca parei. Estou sempre muito apressada. Hoje, no sei por que senti, quando estava passando por 
aqui, muita sede. S pode ter sido Deus, atendendo a suas preces.
Fiquei pensando, depois, disse:
- Deve ter sido isso mesmo. No momento em que chegou, eu estava rezando, pedindo a Ele que me ajudasse de alguma maneira ou que me desse uma idia de como fazer 
para socorrer a minha menina.
- Viu? No falei que foi Deus? Ele nunca nos abandona! E um pai maravilhoso!
Naquele momento, lembrei-me daquilo que Mrio, o carteiro, havia me dito: Quando estamos em desespero, Deus sempre manda algum ou faz com que alguma coisa acontea 
para nos ajudar. Aps me lembrar disso, falei:
- Muitas vezes, duvidei da bondade de Deus. Cheguei at a acreditar que Ele no existia.
- Existe sim, minha filha. Est em toda parte e com todos ns. Foi Ele quem me fez parar e entrar em sua casa. Ele  um pai maravilhoso! Nunca mais duvide disso.
- No quero duvidar, mas minha menina vai morrer!
- No vai, no! Se Ele me fez parar, foi justamente para evitar que ela morra. Ela vai ficar bem.
Ela falava com tanta f que me contagiou. Tambm comecei a acreditar que voc no morreria. Chegamos  cidade, fomos direto ao posto. O doutor Morais a examinou. 
Quando terminou, disse:
- No precisa se preocupar, me. Ela no tem nada grave,  apenas uma inflamao na garganta. Vou dar uma injeo e um remdio para levar. Em poucos dias, estar 
bem. E uma menina saudvel. Vai resistir.
Mais tranqila, sentindo-me protegida, disse:
- Obrigada, doutor. Se no fosse a irm Ceclia, no sei o que teria acontecido...
- Tem razo. A irm Ceclia  uma tima pessoa, parece que est sempre na hora e no lugar certo. Mas... A senhora no  aquela que mora l no Morrinho? A que perdeu 
a amiga picada pela cobra?
- Eu mesma!
- Muitas vezes pensei na senhora, l sozinha. Como tem passado?
- Estou bem, s tive esse problema com a minha filha, mas, de certa maneira, vai tudo bem.
- Seu marido j voltou?
- No, recebi uma carta me avisando que ele morreu...
- Morreu? Como?
- Estava trabalhando na construo de um prdio, caiu l do alto.
- Que pretende fazer?
- Criar os meus filhos.
- Parece que  uma mulher muito corajosa.
- Parece, mas no sou... s vezes, sinto muito medo... Tenho medo de no conseguir...
- Vai conseguir, sim. Disso tenho certeza!
Irm Ceclia entrou, sorridente:
- No lhe disse que a menina ia ficar bem? Deus nunca nos abandona. Se o doutor j terminou com a menina, podemos ir embora.
- S vou aplicar uma injeo e dar um remdio. Dona Eunice, depois disso, poder ir embora, e no se esquea de dar o remdio na hora certa.
- No vou esquecer, doutor. Outra vez, muito obrigada.
Ele aplicou a injeo. Voc chorou muito, Laura, mas logo depois dormiu. Irm Ceclia me levou de volta. No caminho, disse:
- Agora no vai ficar sozinha por muito tempo. Sempre que passar pela estrada, irei visit-la.
- Isso vai me deixar feliz e tranqila. Obrigada.
Com a roupa que ela usava, quase no podia se ver nada do seu corpo, a no ser o rosto. Seus olhos eram de um azul muito forte.
- A senhora no nasceu aqui no Nordeste, nasceu?
- No, nasci em Santa Catarina, meus pais so imigrantes alemes.
- Como veio parar aqui?
- Minha congregao se dedica aos doentes. Eu e minhas irms fomos mandadas para esta cidade. Aprendemos, assim que entramos para o convento, que devemos obedecer 
s ordens sem reclamar. Quando fui mandada para c, confesso que fiquei com medo, mas logo me acostumei. Percebi que aqui teria muito trabalho e poderia ajudar pessoas 
que realmente precisavam. J estou aqui h quase dez anos e pretendo ficar para sempre. Quando chegamos, no tinha socorro mdico algum na cidade. Eu e minhas irms 
conseguimos montar esse pequeno posto. Mas, um dia, ele ser maior e melhor. Ao menos  o que desejo.
- Vai conseguir! Tenho certeza!
- Eu tambm tenho. Deus no vai abandonar todas essas pessoas que moram por aqui.
Continuamos seguindo em direo ao meu stio. Em dado momento, ela disse:
- Gostei muito de voc. J percebi o amor que tem por seus filhos, admiro a sua coragem de continuar vivendo ali sozinha.
- No tem outro remdio. No tenho para onde ir.
- Se tivesse ao menos uma charrete ou carroa, no teria mais tanta dificuldade para ir at a cidade. Se eu tivesse dinheiro, eu mesma compraria uma para voc.
- Dinheiro! Tenho dinheiro! Esqueci!
- Que dinheiro?
- Eu estava guardando todo o dinheiro que meu marido mandava. Quando recebi a carta dizendo que ele havia morrido, veio tambm um dinheiro que est no correio! No 
fui receber, porque no tinha como deixar nem levar as crianas. Mas o dinheiro esta l.
- Sabe quanto ?
- No, mas parece que  uma boa quantia.
- Quem sabe vai dar para comprar uma charrete ou uma carroa.
- No sei nem sei quanto custa!
- Hoje no d mais tempo, j est tarde, mas amanh bem cedo eu volto e levo voc novamente at a cidade. Vai levar todo o dinheiro que tem em casa. Juntando com 
o que tem no correio, talvez d para comprar uma charrete! Vou procurar saber se algum est querendo vender e o preo.
- A senhora acredita mesmo que vou conseguir comprar?
- No sei, vamos ver.
- A senhora  mesmo outro anjo que caiu em minha vida!
Ela deu uma gargalhada:
- Outro anjo? Por qu? J teve outros?
- Sim, primeiro foi o gacho, um motorista de caminho, depois foi a Eunice e o Z Antnio que me acolheram no stio.
Ela parou a charrete:
- Que est dizendo? Voc no  a Eunice?
Percebi que havia falado demais. Comecei a chorar. Ela continuou:
- No chore! Responda a minha pergunta. Voc no  a Eunice? No  a me das crianas?
Vendo que no tinha outra soluo, contei como tudo tinha acontecido. Quando terminei de falar, ela disse:
- Sabe que o que fez no foi certo, no sabe?
- Sei, sim, mas no tinha outro jeito! Eu tinha prometido! Fiquei com medo de no poder ficar com as crianas! Era s at o Z Antnio voltar.
- Est bem, pode parar de chorar. No vou contar para ningum. Para todos os efeitos, voc  a me das crianas e, se depender do que me contou, continuar sendo. 
Temos agora que pensar em um modo de conseguir uma conduo para tornar a sua vida mais fcil.
Sorri, fiquei aliviada, pois algum mais sabia toda a verdade e agora eu tinha uma amiga que, com certeza, iria me ajudar. Ela colocou novamente o cavalo em movimento. 
Chegamos a casa. Sorrindo, disse:
- Amanh voltarei para lev-la ao correio.
Despediu-se, sorrindo, e me chamando de Eunice. Voc, Laura, continuava dormindo. Seus irmos estavam cansados, j era mais de uma hora da tarde e ningum havia 
comido nada. Coloquei-a no bero. Dei um bom banho nos dois. Preparei uma alimentao rpida, vocs comeram e eu me alimentei. Em seguida, coloquei-os para dormir. 
Sa, sentei em um pequeno banco que havia a fora. Olhei para o cu e como sempre, estava azul, com poucas nuvens e o sol brilhava. Lembrei-me da orao que havia 
feito a Deus, pedindo um caminho, uma idia. Percebi, naquele momento, que Ele realmente existia e que nunca me abandonara. Colocou em meu caminho irm Ceclia, 
uma mulher maravilhosa que, eu sabia, iria me ajudar muito. Passei o resto do dia pensando em como havia sido a minha vida. Menina pobre, criada sob o jugo de um 
pai rigoroso, depois, encontrei o amor atravs do Paulo, na felicidade que senti, meu filho, quando o peguei em meus braos e na tristeza e no sofrimento quando 
o perdi. No entendia por que tudo aquilo tinha acontecido. No entendia por que estava agora com trs crianas que precisavam dos meus cuidados e de quem, com certeza, 
eu cuidaria. Aquele cu lindo, aquele campo verde, tudo aquilo deveria ser obra de um Deus poderoso, um Deus que, agora eu tinha certeza, sempre esteve e continuaria 
ao meu lado. Hoje, tendo voc aqui na minha frente, vendo que o meu menino se transformou em um homem bonito, um homem que viajou muitos quilmetros para me encontrar 
e, com a ajuda desse mesmo Deus me encontrou, s posso agradecer por tudo que passei, e dizer, com todo o meu corao: Esse Deus realmente existe!  um Pai amoroso 
e divino. Eunice respirou fundo. Seus olhos brilhavam de felicidade e tranqilidade. Laura, como Walther, estava emocionada. Olhou para Marta, dizendo:
- Obrigada, minha me, por tudo o que fez por ns trs... Obrigada por ter sido sempre uma me maravilhosa...
- No, minha filha... No deve me agradecer, vocs foram a minha salvao, vocs me deram vontade de continuar vivendo, eu, que no tinha mais nada na vida...
Walther estava admirado com a fora daquela mulher to pequena de estatura, mas com um corao muito grande, um corao que tinha lugar para abrigar a muitos. No 
sabia o que dizer, ficou calado, apenas observando. Aps alguns segundos, perguntou:
- Minha me, como se tornou me de tantos outros?
- Foi a vida, meu filho. Foram as pedras que Deus colocou em meu caminho. Hoje, acredito que tudo acontece sempre como tem que ser. Os momentos de crise e sofrimento 
nos obrigam sempre a tomar decises. Descobri, tambm, que sempre temos s dois caminhos para seguir. Quando temos um problema, podemos ficar chorando, lamentando-nos 
ou levantar a cabea e seguir em frente. Assim foi a minha vida. Vrias vezes, eu tive que decidir que caminho tomar. Vou continuar a minha histria. Acredito que 
entendero melhor. Na manh seguinte, Irm Ceclia chegou cedo. Vinha sorridente e alegre, como sempre:
- Bom dia! Est pronta para irmos ao correio?
- Estou sim, as crianas tambm. Aqui est o dinheiro que eu tinha guardado.
- Isso  muito bom! Estive conversando com algumas pessoas. Parece que o seu Pedro da Olaria vai embora e tem alguns animais para vender. No sei o preo, mas assim 
que pegarmos o dinheiro no correio, vamos at l falar com ele. Quem sabe, no ?
- Tomara que d certo, preciso muito de uma conduo, nunca mais quero passar o que passei ontem, o mesmo desespero.
- Como est a menina?
- Est muito bem, dormiu a noite toda, nem parece que esteve to doente.
- Criana  assim mesmo, recupera-se, de qualquer doena. Mas chega de conversa, vamos embora?
Sempre rindo, ajudou-me a colocar as crianas na charrete. Na cidade, aps retirar o dinheiro, fomos at a olaria falar com o senhor Pedro. Irm Ceclia falou com 
ele. Tinha uma carroa e um cavalo, queria vender os dois. No me lembro agora a quantia que eu tinha, nem o que ele pediu, mas me lembro que, ao ouvir o valor que 
ele queria, percebi que no conseguiria comprar. Irm Ceclia no se deu por vencida. Disse a ele que eu morava distante e que tinha as trs crianas, contou o que 
havia acontecido no dia anterior, por isso eu precisava muito de uma conduo. Ele ouviu, ela continuou falando, at que ele concordou. Venderia pelo dinheiro que 
eu tinha. Ao ouvir aquilo, fiquei muito feliz. Irm Ceclia se voltou para o meu lado dizendo:
- No lhe disse que Deus  pai?
- Tambm acho. S tem mais um problema. Nunca mexi com cavalo ou carroa, no sei conduzir...
- Isso no  problema, em pouco tempo vai aprender.
- No precisa se preocupar, moa. O cavalo  manso. Est acostumado a pegar no pesado. No vai dar trabalho, no.
- J sei o que fazer. Vou amarrar a minha charrete na carroa e voc vai dirigindo. Durante o caminho, irei ensinando. At chegarmos ao stio, j ter aprendido.
- Ser?
- Claro que ser! Voc  inteligente! Aprender com facilidade. Seu Pedro, pode nos ensinar como se faz para atrelar o cavalo  carroa?
- A senhora no atrela na charrete?
- Sim, mas na carroa no  diferente?
- Tem s uma pequena diferena, venham, vou ensinar.
Ensinou-nos. Amarrou a charrete atrs da carroa. Samos, com ela ao meu lado, enquanto eu dirigia. Ela foi me ensinando, no demorei muito para aprender. Quando 
chegamos em casa, no acreditei que possua agora uma conduo. No teria mais problemas, caso uma das crianas ficasse doente novamente. Mais uma vez, agradeci 
a Deus por toda a ajuda que estava me dando. Daquele dia em diante, ela vinha uma ou duas vezes por semana nos visitar. Sempre trazia um pouco de alimento, principalmente 
carne, pois sabia que eu no tinha dinheiro para comprar. Tornou-se verdadeiramente meu anjo da guarda. Em uma de suas visitas, enquanto tomvamos caf e conversvamos, 
ela olhou para a mquina de costura. Perguntou:
- Voc sabe costurar?
- No, quem costurava era a Nice.
- Quer aprender? Poder fazer roupas para as crianas e para voc.
- Claro que quero! A senhora vai me ensinar?
- No respondeu, foi at a mquina, comeou a mexer. Quando examinou bem, disse:
- Est muito boa. Vou lhe ensinar com uma condio!
- Qual?
- Nas minhas andanas, recebo muitas roupas dos filhos dos fazendeiros, s vezes so quase novas, outras esto descosturadas, sem botes, algumas at rasgadas. Tenho 
uma poro delas em casa. Separei para consertar antes de distribuir, mas nunca tenho tempo. Acha que pode fazer esse servio?
- No sei, mas, se me ensinar, vou fazer com prazer. Nada que eu fizer poder pagar o muito que fez e tem feito por ns.
- No estou pedindo para fazer isso como pagamento. O que fiz est feito,  a minha obrigao, sou uma irm de caridade, alm do mais, gosto muito de voc e das 
crianas. Estou pedindo s porque no me sobra muito tempo para esse trabalho.
- Vou fazer, com muito prazer.
Ela passou algumas tardes me ensinando. Como ela disse, eu era inteligente, aprendi logo. Daquele dia em diante, trazia-me, todas as sextas-feiras, roupas que recolhia 
durante a semana. Eu consertava, lavava e passava. Ela deixava umas e levava outras. Durante mais de um ano, tudo caminhou bem, vocs cresciam saudveis. Irm Ceclia 
no nos deixou faltar nada. Agora, eu s no consertava as roupas, mas tambm fazia algumas peas com retalhos de tecido que ela trazia. Com a carroa, eu ia para 
a cidade, sempre que precisava. Posso dizer que vivi um perodo muito bom, sem problema algum. Laura a interrompeu:
- Eu me lembro dela, mas nunca soube dessa histria.
- Tem razo, mas isso aconteceu porque, aos poucos, a nossa amizade foi se tornando to grande que nem nos lembrvamos mais de como havia comeado.
Walther perguntou:
- Como a senhora comeou a cuidar das outras crianas?
- Ah, meu filho. Acho que foi a vida, destino ou o prprio Deus, que, hoje sei, encaminha a nossa vida para onde ela deve ir. Todos os meses, eu levava as crianas 
at o posto de sade, para tomar vacinas ou pegar algumas vitaminas. Em uma sexta-feira, quando a Irm Ceclia veio trazer e levar as roupas, disse:
- Na sexta-feira que vem a senhora no precisa vir at aqui. Vou levar as crianas ao posto, aproveito para pegar as roupas e deixo as que estiverem prontas.
- Est bem, vamos fazer assim. Antes de passar no posto, passe l em casa, estarei esperando-a.
Tudo combinado. Na sexta-feira, assim que cheguei  cidade e antes de ir ao posto, passei pela casa das irms. Bati palmas, mas ningum veio me atender. Estranhei, 
pois havia combinado com a Irm Ceclia. No entendia por que ela no estava em casa. Bati algumas vezes. Como ningum atendeu, resolvi ir ao posto para ver se algum 
sabia dela. Ao entrar, eu a vi, conversando com quatro crianas. A mais velha, que tinha nove anos, segurava e abraava os menores com muita fora. As crianas, 
muito magrinhas e sujas, estavam descalas. Em seus pequenos rostinhos, a nica coisa que se via muito bem eram os olhos. Aproximei-me:
- Ainda bem que encontrei a senhora, Irm. Estava preocupada.
- Desculpe, Eunice, mas surgiu um problema inesperado.
- Que aconteceu?
- Hoje, pela manh, chegou aqui na cidade uma mulher com estas quatro crianas. Ela estava muito doente, veio direto aqui para o posto. Foi feito o que se podia, 
mas no adiantou, ela morreu.
- Nossa! Que tristeza! Essas crianas?
- Sim, so dela, a menina disse que no tem pai, que a me veio com eles, fugindo da seca.
- Meu Deus! E agora?
-  isto que estou tentando dizer para a menina. Aqui na cidade, todos so muito pobres. Essas crianas no podem ficar abandonadas por a, so ainda muito pequenas, 
posso tentar arrumar uma casa para ficarem, mas no todas juntas. Vou tentar conseguir um lugar para cada uma, s que ela no quer aceitar.
A menina, chorando, disse:
- No vou mesmo. Prometi pra minha me que ia tomar conta deles e que nunca a gente ia se separar. Vou embora daqui com eles...
A menina chorava muito, mas em seus olhos percebi que havia muita determinao. Segurei na sua mo, perguntando:
- Como  o seu nome?
- Marinalva...
-  um nome muito bonito. No precisa chorar. Voc fez uma promessa para sua me, e as promessas precisam ser cumpridas. No se preocupe com nada, s pense que, 
quando fazemos uma promessa, Deus nos ajuda a cumprir...
- Minha me sempre disse isso. Que Deus no abandona a gente nunca, mas Ele abandonou... Levou minha me...
- No abandonou, no! Sua me teve que ir embora, mas ele deixou a Irm Ceclia. Ela vai encontrar uma soluo. No , Irm?
- Irm Ceclia no estava entendendo nada. Sabia que ia ser muito difcil encontrar um lugar onde todos pudessem continuar juntos. Mesmo assim, respondeu:
- , sim, vamos encontrar uma soluo... Mas como?
- Eu sei!
- Sabe, Eunice? Qual ?
- Vou levar todos para minha casa.
- No pode! J tem trs para cuidar!
- Onde comem trs, podem perfeitamente comer sete. Deus no vai deixar faltar nada. Sei como  importante se cumprir uma promessa. Como a senhora sabe, h muito 
tempo fiz uma, Deus me mandou a senhora para me ajudar a cumprir. Agora, chegou a minha vez de ajudar esta linda menina a cumprir a dela.
A menina me olhou e comeou a chorar mais forte. Chorava tanto que seu corpinho magro estremecia:
- A senhora vai mesmo levar a gente pra sua casa? Todos ns?
- Vou, sim. A casa  pobre, no sei ainda onde vo dormir, mas vamos dar um jeito. L no vai faltar comida e muito carinho. Que acha?
- A gente est acostumado com a pobreza e at com a fome, a gente no come muito, no...
Sem que esperasse, ela se jogou em meus braos. Abracei-a com muito carinho. Ela me conquistou assim que a vi. Irm Ceclia, muito preocupada, disse:
- Quer mesmo ficar com todos? So pequenos, vo lhe dar muito trabalho.
- Vou ficar com eles, sim. Tenho certeza. O que  o trabalho?
- Sendo assim, que Deus seja louvado! Vamos embora.
Ajudou-me a levar as crianas at a carroa, dizendo:
- No posso ir com vocs. Tenho algumas coisas para fazer, mas amanh bem cedo estarei l para ver se tudo est bem.
- Tudo vai estar bem, Irm. S tem uma coisa. Dessas roupas que trouxe esta semana, vou tirar algumas para eles. Tenho pouca roupa e nenhuma que sirva para a Marinalva.
- Ora, Eunice! Pegue todas que precisar. Tem comida para eles?
- Tenho sim, no se preocupe, tudo vai ficar bem.
Separei as roupas, peguei aquelas que achei que serviriam para Marinalva e as crianas e fomos embora. Eu estava me sentindo muito bem. Sabia que no ia ser fcil 
cuidar de sete crianas, mas j havia aprendido que Deus daria um jeito e nada nos iria faltar. Em casa, pendurei duas redes, onde dormiria eu e a Marinalva. Os 
pequenos dormiriam nas camas de casal e de solteiro. Dormiriam desconfortveis, mas muito melhor do que nos lugares em que haviam dormido ultimamente. Walther a 
interrompeu:
- A senhora foi muito corajosa e bondosa tambm.
No se tratava de coragem ou bondade, eu no podia separar aquelas crianas que j haviam sofrido muito e, agora, o pior, tinham perdido a me. Marinalva tambm 
demonstrou que no ia se separar dos irmos. Eu no podia deixar que elas sassem pelo mundo sem destino. Sabia como isso era difcil.
- Deu certo?
- Sim, ela j era grande, ajudou-me muito. Preparei arroz, feijo e um pedao de carne e farinha. Dava d de ver o modo como elas ficaram quando viram toda aquela 
comida. Devia fazer muitos dias que no comiam. Antes da comida, fiz com que todos tomassem banho no riacho e colocassem roupas limpas. Comemos e elas me pareceram 
cada vez mais bonitas. No dia seguinte, logo cedo, como havia prometido, Irm Ceclia chegou, trazendo muitas roupas e alimentos. Quando chegou, eu estava terminando 
de fritar uns bolinhos de farinha e ovo que as crianas comeriam com caf e leite. Ela entrou, carregando as sacolas:
- Bom dia, Eunice! Vim tomar o seu caf e trazer algumas coisas. Est tudo bem por aqui?
- Bom dia, Irm. Entre. Est tudo muito bem. Mas, quantas coisas! Onde conseguiu?
- Percorri, ontem  tarde, algumas casas, contando o que voc havia feito e dizendo que ia precisar de ajuda para alimentar todas essas crianas. As pessoas me deram 
tudo isso.
- Muito obrigada. A senhora  mesmo um anjo!
Ela deu aquela gargalhada gostosa:
- Um anjo que no gosta de ver doentes? Falta muito para eu ser um anjo.
- Para ns, foi e continua sendo um anjo maravilhoso.
- Est bem, mas d logo esse caf.
Tomamos o caf. Daquele dia em diante, a minha vida mudou. As crianas davam mesmo muito trabalho. Estavam com dois, trs, quatro anos. Aquela idade em que so muito 
peraltas, descobrindo o mundo e sem medo de nada. Precisava ficar com vinte olhos em cima delas para que no se machucassem. Elas brincavam muito. Aos poucos, seus 
rostinhos foram enchendo, a cor voltou. Em pouco tempo, estavam saudveis e felizes. No incio, choravam por falta da me, mas, aos poucos, foram se acostumando. 
Marinalva fazia tudo o que podia para me ajudar. Ela era maravilhosa e sabia como conseguir o que queria.
- Onde ela est hoje?
- Quando fez quinze anos, a Irm Ceclia arrumou um colgio na capital, onde ela foi estudar. Formou-se, arrumou um bom emprego, casou-se e vive muito bem. J me 
deu dois netos. Escreve-me sempre, uma ou duas vezes por ano vem me visitar. Todos os meses manda dinheiro. E um dos meus orgulhos.
- A senhora deve ter muitos.
- Sim, muitos... Vou continuar. Tudo corria muito bem, fazia cinco meses mais ou menos que eu estava com as crianas, quando a Irm Ceclia, um dia, chegou bem cedo. 
Trazia em sua companhia uma mocinha. Ao v-la, percebi, por sua barriga, que estava esperando criana. Irm Ceclia, com aqueles belos olhos azuis que brilhavam 
muito, disse:
- Esta  a Valdete. Como j percebeu, est precisando da nossa ajuda. Seus pais a expulsaram de casa.
Olhei para a menina e me vi, quando tambm fui expulsa de casa por meu pai. Meu corao se apertou, no perguntei nada. Apenas sorri, dizendo:
- Seja bem-vinda, minha filha. Aqui no vai lhe faltar nada, nem ao seu filho. Poder ficar at a criana nascer, depois, se quiser, poder ir embora ou continuar 
aqui.
A menina no disse nada, apenas chorou, tentou se ajoelhar e beijar minhas mos, mas no permiti:
- Vou ficar sim, obrigada, senhora.
Ficou. Aps seis meses, ao acordar pela manh, percebi que ela no estava em casa. Deixou apenas um bilhete e a menina que havia nascido vinte dias antes. Deus me 
mandou mais uma criana que eu iria criar e amar. Depois dessa, veio outra e mais outra. Desde o incio, por todos os anos passados, muitas mes e crianas passaram 
por aqui. Esto espalhados por este Brasil e alguns at no exterior. A Irm Ceclia se encarregou de me trazer as crianas e as mes abandonadas. Como tambm de 
comentar com as pessoas e, principalmente, com os fazendeiros aquilo que eu estava fazendo. Em pouco tempo, conseguiu material de construo e alguns empregados 
das fazendas, juntos, reformaram a minha casa, aumentaram a quantidade de quartos. Providenciaram mveis novos que nos deram muito mais conforto. Irm Ceclia me 
ensinou tambm a ler, escrever e a falar. Agora, eu quis aprender, sabia como era importante.
- A senhora  uma santa, por isso todos a respeitam e a conhecem na cidade.
- No, meu filho. No sou santa. Apenas dancei conforme a msica foi cantada. Joguei conforme as pedras que me foram dadas. Por aqui passaram crianas de todas as 
idades. Atravs de cada uma, acompanhei o seu crescimento. Atravs dos olhos delas, eu via voc crescendo, tornando-se homem. Cada olho era como se fosse uma janela. 
Costumo dizer que sou como uma casa grande, com muitas janelas.
Walther se levantou, disse, quase gritando:
- Que a senhora disse!?
- Sou uma casa grande, com muitas janelas.
- No vai acreditar! Quando sa  sua procura, eu sonhava sempre que a senhora estava em uma casa com muitas janelas. Fiquei o tempo todo procurando por essa casa. 
Nunca a encontrei.
Eunice comeou a rir, enquanto dizia:
- Como no? Est diante dela. Foi Deus quem guiou o seu caminho para chegar at aqui.
Walther foi at ela e a abraou, dizendo:
- S pode ter sido... S pode ter sido... Obrigado, meu Deus, por ter feito isso. Obrigado, minha me, por existir e ser to maravilhosa. Me, ao lhe contar tudo 
o que havia acontecido, deixei de mencionar algumas coisas por no ter certeza ainda se era mesmo a minha me. A Marta por quem Paulo procurou a vida toda. A carta 
que ele me deixou est l no jipe. Vou busc-la. Garanto que vai ter muitas surpresas e felicidade ao l-la.
- Gostaria muito de ler. Apesar de tudo o que passei tenha sido por causa dele, nunca o esqueci. Ele foi o nico homem que amei na vida.
- Est bem. Vou buscar a carta. Volto logo.
Ele saiu correndo. Voltou em seguida, trazendo a caixa que continha todas as suas fotos pelas quais Paulo pde acompanhar seu crescimento. Entregou  Marta:
- Nesta caixa, vai encontrar toda a minha vida, atravs de fotografias. Aqui est tambm a carta que Paulo me deixou. Nela vai saber como foi a vida dele depois 
que se separaram.
Marta pegou a caixa, foi para seu quarto. Laura sorriu para Walther:
- Ela est muito feliz.
- Sim, mas no mais que eu! Quando vim para este pas, nunca pensei que teria tantas surpresas.

ESCOLHAS E RESGATES

Eles no perceberam, mas desde que Marta comeou a contar sua histria, duas pessoas invisveis aos seus olhos acompanhavam tudo e, nesse momento, sorriam, felizes, 
concordando com a cabea. Uma delas era a Irm Ceclia, a outra, Paulo, que, desde o incio, muitas vezes, chorou e tentou abraar Marta, principalmente assim que 
a viu:
- Marta! Minha Marta querida! Como procurei por voc todos esses anos! Como voc est bonita! Por onde andou? Que lhe aconteceu?
Tentou abra-la, mas foi impedido por Irm Ceclia, que disse:
- No se aproxime dela. A sua presena pode lhe fazer mal. Vamos ficar aqui, ouvindo o que ela vai contar. Voc saber de tudo.
- Como minha presena pode lhe fazer mal? Eu a amo! Sempre amei.
- Sei do amor que sente por ele- Sei que no deseja lhe fazer mal algum, acontece que ela, hoje, ainda est usando um corpo fsico, voc, no. As energias so diferentes. 
Tenha calma, vamos ouvir.
Paulo no discutiu. Ele tambm queria saber o que havia acontecido com Marta, desde que ela o deixara. Agora, j sabia como tudo havia acontecido e por que ela no 
voltara para casa. Ao mesmo tempo em que se sentia feliz por rever, finalmente juntos, o filho e a mulher que sempre amou, sofria por saber que ele havia sido a 
causa de tanto sofrimento. Quando acordou aps a sua morte e tomou conhecimento de que havia morrido e de que precisava de repouso at que seu novo corpo pudesse 
se ambientar  nova vida, acreditou, finalmente, naquilo que havia aprendido sobre a vida eterna do esprito. Era verdade. Sentia seu corpo como se ainda vivesse 
na Terra, mas no estava mais doente, nem sentia mais falta de ar. Estava exatamente como quando morreu, cabelos brancos, envelhecido, s que com muita sade. Quando 
Irm Ceclia veio convid-lo para fazer uma viagem, nunca imaginou que fosse para finalmente encontrar sua amada Marta, nem que presenciaria o encontro dela com 
o filho que ele miseravelmente havia lhe roubado. Agora, ali, diante da felicidade dos dois, no se conteve, comeou a chorar com muita dor e arrependimento. Irm 
Ceclia tambm estava feliz, pois, finalmente, sua amiga, quase irm, havia encontrado a felicidade to merecida. Estava junto de seu filho amado, por quem sofrera 
a vida toda, mas, mesmo com esse sofrimento, no se furtou de ajudar muitos que precisavam. Abraou Paulo, dizendo:
- Agora, vamos embora. J sabe como tudo se passou, j sabe que a vida pode dar muitas voltas, mas, no final o que resta  sempre paz, felicidade e amor profundo 
de Deus por todos ns.
- Sei, finalmente, mas no consigo me perdoar. Ela  uma santa! No deveria ter passado por tudo isso. Eu, s eu, fui o culpado por todo o seu sofrimento.
- Por que diz isso?
- Apesar de tudo que a fiz sofrer, dedicou sua vida a crianas. Criou muitas como se fossem suas. Deu amor e carinho. S uma santa faria isso.
- Realmente, ela cumpriu muito bem quase tudo o que havia prometido antes de renascer.
- Prometido? Antes de renascer? Que est dizendo?
- Que antes de renascermos escolhemos a vida que vamos ter e prometemos cumprir tudo.
- Li muito sobre isso. E verdade, mesmo, que escolhemos o modo como vivemos na Terra?
- Sim, sempre que voltamos ao mundo espiritual, e j foram muitas as vezes e sero muitas mais ainda, ao tomarmos conhecimento de tudo o que fizemos durante a nossa 
vida na Terra, escolhemos como e onde vamos renascer. Prometemos muito, pois l nos sentimos seguros e protegidos, mas, ao voltarmos aqui para a Terra, na maioria 
das vezes no cumprimos nem cinco por cento do prometido.
- Cinco por cento? S isso? Custa-me acreditar.
- Como demorou muito para acreditar na vida eterna...
- Tem razo, se eu soubesse antes tudo o que sei agora, talvez no tivesse feito tantas coisas erradas como fiz.
- Se assim fosse, no haveria mrito algum. Por isso, Deus nos d o esquecimento de tudo. Sempre que renascemos, voltamos com o esprito puro, pronto para aprender 
e decidir sobre o que faremos com a vida que nos foi dada. Isso se chama livre-arbtrio.
- Livre-arbtrio? Que quer dizer na realidade? Li tambm sobre isso.
- Ento, sabe que podemos escolher esse ou aquele caminho. Nada pode interferir em nossa escolha. Ele tambm nos torna responsveis por essa mesma escolha.
- Embora tenha lido muito, sempre achei complicado. Poderia explicar melhor, Irm?
- Poderia no, Paulo, posso e vou explicar tudo, s que no vai ser aqui. Agora, est tudo muito bem. Marta vai ler a sua carta. Entender o resto todo. Depois disso, 
algumas coisas ainda acontecero. Enquanto ela l, terei tempo de conversar com voc e lhe mostrar como o livre-arbtrio funciona. Vamos embora?
- Queria ficar mais um pouco ao lado deles para poder participar da felicidade que esto sentindo.
- Ter muito tempo para isso. O importante, agora,  que entenda todo o resto. Venha.
Paulo percebeu que no adiantava insistir. Ela sabia o que queria. Sorriu e a acompanhou. Segurou em sua pequena mo e os dois seguiram, voando. Ele ainda no havia 
se acostumado com aquilo, deliciava-se com aquela sensao. Chegaram a uma casa. Era uma casa branca, com janelas azuis. Entraram. Ela disse:
- Esta  a minha casa. Fico aqui pouco tempo, pois vivo andando por a, mas, quando estou aqui, sinto-me muito bem. Pode se sentar, temos muito para conversar.
Paulo olhou para a ampla sala que era agradvel, mveis claros e bem posicionados. Quadros pendurados de uma beleza nunca vista por ele antes. Disse:
- Esta casa faria inveja a qualquer pessoa na Terra.
Ela deu aquela gargalhada,  qual Marta havia se referido. Disse:
- Esta  uma das vantagens de estarmos mortos. Podemos ter a casa e tudo do modo como quisermos.
- No posso acreditar no que est dizendo. E verdade? Podemos ter tudo? Todos podem? - Uma pergunta de cada vez. Podemos ter tudo sim e da forma como quisermos, 
mas nem todos podem. Deus nos criou para que tivssemos felicidade. O sofrimento por que passamos foi atrado por ns mesmos. Por isso, alguns podem, outros no, 
dependendo de como usaram seu livre-arbtrio.
- Precisa mesmo me falar de livre-arbtrio?
- Mas se foi para isso que trouxe voc at aqui. Para conversarmos sobre isso! O nome Jos Pedro Pereira de Alcntara lhe lembra alguma coisa?
Paulo ficou pensando, como se quisesse lembrar-se de algo, mas no conseguiu:
- No, no me traz lembrana alguma.
-  o Sarita de Albuquerque?
- Tambm no! Quem so?
- H muito tempo, Sarita de Albuquerque era uma linda menina. Nasceu filha de uma famlia pobre, mas digna. Foi criada com muito amor e dedicao. Quando cresceu, 
tornou-se uma moa muito bonita. Por onde passava, atraa a ateno de todos. Aos poucos, percebeu que, com sua beleza, poderia conseguir tudo o que quisesse. Percebeu 
que, em troca do seu corpo, os homens lhe dariam jias e dinheiro. Usou seu corpo, fez dele um instrumento de trabalho. Ganhou muito dinheiro. Quando foi ficando 
mais velha, deixou de atrair tantos homens como antes, embora ainda fosse muito bonita. Resolveu que, para manter o seu padro de vida, precisava continuar no mesmo 
ramo, mas sabia que sozinha no conseguiria. Com todo o dinheiro que havia ganhado durante a vida, montou uma casa, onde os homens viriam e teriam noites de amor 
com vrias moas, que ela contratou. Tinha muito orgulho da casa e das suas "meninas." O dinheiro, que antes ganhava sozinha, agora vinha em muito maior quantidade. 
Nunca se casou, mas manteve durante uma boa parte de sua vida um romance com Jos Pedro Pereira de Alcntara, um mdico filho de um rico fazendeiro de caf, por 
isso, criado com muito mimo. No queria ser mdico, s o foi para agradar ao pai, que insistia em ter um filho doutor. Por isso se deixou envolver por jogo, bebidas 
e glamour das noites. Aos poucos, esqueceu-se de sua profisso, tornou-se um bbado inveterado. Mas isso no o incomodava, pois o dinheiro de sua famlia, aliado 
ao de Sarita, era suficiente para os dois. Tudo caminhava. Eles viviam sem maiores problemas. Sarita tinha como sua fiel escudeira uma moa chamada Orlanda, mas 
que todos chamavam de Landa. Ela era uma espcie de espi. Quando estava junto com as moas e algum falava mal de Sarita, dizia que no gostava dela. Por isso, 
era uma espcie de confidente. Todas confiavam muito nela. Mas sempre que via ou ouvia alguma coisa que julgasse ser errado, corria para contar para Sarita. Havia 
uma outra moa que se chamava Linda. Era uma recm-chegada. Uma das mais bonitas da casa. Um dia, Landa percebeu que ela estava chorando. Aproximou-se e, mansamente, 
perguntou:
- Que est acontecendo, Linda? Por que est chorando?
- Estou desesperada! No sei o que fazer.
- O que foi? Que pode ser to grave?
- Descobri que estou grvida.
- Nossa! A Sarita vai ficar desesperada. Voc  quem tem mais cliente aqui.
- Por isso mesmo  que estou desesperada, Landa. Sei que ela no vai aceitar.
- Por que est dizendo isso?
- Porque meu corpo vai mudar e os clientes no vo querer uma mulher grvida.
- Por que no fala com ela?
- Tenho medo de que, quando ela descobrir, me mande embora, no tenho para onde ir.
- Ela precisa saber, Linda. Quem sabe vai compreender.
- No, voc sabe como ela . Quando vim para c, falou muito a respeito disso. No sei como foi acontecer.
- Quer que eu fale com ela?
- No! Por favor, no! Tenho medo.
- Est bem, no vou falar nada. Mas acredito que seria melhor falar antes que ela descubra.
- No sei...
- Pense bem, se ela descobrir de outra forma, poder ser pior.
- Vou pensar.
Landa saiu dali e foi direto para o quarto de Sarita. Ela estava diante do espelho, maquiando-se:
- Posso entrar, Sarita?
- Claro que pode, o que aconteceu?
Landa entrou. Ela adorava aquele quarto, l tinha tudo com o que sempre sonhou, mas sabia que nunca conseguiria um igual. No era muito bonita, por isso no tinha 
muitos clientes. Por esse mesmo motivo, vivia fazendo tudo o que Sarita queria. Sempre que trazia alguma novidade, Sarita lhe dava algum dinheiro. Naquele dia, ela 
entrou, colocou-se atrs de Sarita, dizendo, mansamente:
- Tenho algo para lhe dizer que vai deix-la muito nervosa... Sarita levantou-se:
- Que aconteceu? Que descobriu?
- A Linda est grvida...
Sarita enfureceu-se:
- Grvida!? No pode ser. Ela no podia ter feito isso. Como descobriu?
- Ela me contou agora mesmo...
- Por que ela no me falou?
- Est com medo de sua reao.
- Que reao? Como ela pode saber qual vai ser a minha reao?
- Disse a ela para lhe contar. Por favor, no faa nada para ela desconfiar que lhe contei.
- Est bem, no vou fazer isso, elas no podem desconfiar que voc me conta tudo o que acontece. Mas preciso fazer alguma coisa. Est bem, pode ir, vou pensar em 
algo. Obrigada, pegue este dinheiro, mas continue insistindo para que ela venha falar comigo.
Landa saiu feliz, guardando o dinheiro no seio. Sabia que, enquanto continuasse a ser fiel, seria sempre recompensada. Sarita voltou a se sentar em frente ao espelho, 
s que agora sua expresso era de preocupao. Pensou: No posso deixar que essa gravidez v para a frente. Ela  uma das melhores meninas que tenho. Se ficar com 
a barriga grande, por muito tempo no vai poder trabalhar. Como vou fazer para impedir isso? Levantou, saiu, foi para o grande salo, onde as moas ficavam. Ainda 
era cedo, por isso o salo estava vazio. As moas estavam se preparando para a noite. Olhou em volta para ver se estava tudo em ordem. Aquela noite seria muito boa, 
pois era o dia que haveria jogo, por isso os homens mais ricos da cidade viriam. Sabia que muito dinheiro iria rolar e que certamente sobraria muito para ela. Sorriu 
contente. Aps pensar nisso, uma sombra de preocupao passou por seu rosto: Preciso encontrar um meio de evitar o prejuzo que essa criana causar. Landa saiu 
do quarto de Sarita, dirigiu-se ao seu para tambm se preparar. Ela era assim, vivia como co perdigueiro, procurando algo que pudesse contar e, assim, guardar mais 
dinheiro para sua velhice. A noite chegou. Como o previsto, logo os homens tambm comearam a chegar. As moas desfilavam pelo salo, demonstrando o quanto eram 
bonitas. Sarita desfilava entre elas, quando percebeu que Linda no estava ali. Perguntou a Landa:
- Onde est a Linda?
- No sei, no passei pelo quarto dela, mas deve estar l.
- Pode deixar, eu mesma vou ver o que est acontecendo.
Ao entrar no quarto, percebeu que Linda estava muito plida:
- Que voc tem, Linda? Parece um defunto.
- No sei, Sarita. Senti um enjo muito forte, estou um pouco tonta.
- Sabe o porqu disso? Comeu alguma coisa que lhe fez mal?
- No sei, comi o mesmo que todas...
- Estou desconfiada de uma coisa. No tem nada para me contar?
Linda estremeceu:
- Por que est me perguntando isso?
- Menina, j vivi muito. Isso que tem est me parecendo gravidez...
- Grvida, eu? No, no, deve estar enganada, s no estou me sentindo bem, mas logo vai passar...
- No sei, no, mas, para tirar dvidas, vou pedir ao doutor Jos Pedro que a examine amanh.
- No precisa! Sei que no estou grvida. Vai passar logo.
- Mesmo assim, ser melhor que ele a examine...
Linda, no suportando mais, comeou a chorar:
-  verdade, Sarita! Estou grvida e no sei o que fazer...
Sarita a abraou, dizendo, mansamente:
- Por que est to nervosa? Isso no  nenhum fim do mundo. Tudo vai dar certo. De quanto tempo est?
- No tenho muita certeza, mas deve ser de dois meses.
- Ento, no se preocupe, essa criana poder ser tirada sem problema algum para voc. Vou falar com o Jos Pedro, logo tudo ficar bem e voc voltar a brilhar 
em meu salo novamente.
- Tirar o meu filho? No! No quero. Isso  um assassinato!
- Assassinato? Filho? Que filho? No  ainda um filho,  apenas um feto, no est nem formado.
- Mas vai se transformar em uma criana. No meu filho. No sei ainda o que vou fazer, desconfio de que vou ter que ir embora, mas o meu filho vai nascer.
Sarita, percebendo que no tinha usado a ttica certa, mudou seu tom de voz:
- Est bem... No pensei que queria tanto esse filho... No vai ter problema algum, vai continuar aqui at a criana nascer. J ganhei muito dinheiro com voc, posso 
muito bem cuidar de voc durante esse tempo. Ainda no est aparecendo e tem muitos clientes esperando por voc, por isso se arrume e brilhe como sempre.
Linda no acreditou naquilo que estava ouvindo. Nunca pensou que a reao de Sarita seria aquela:
-  verdade mesmo o que est dizendo? Vai deixar que eu continue aqui?
- Claro que sim! Voc  a melhor das minhas meninas. Alm disso, quero muito bem a voc, considero-a como se fosse minha filha.
- Obrigada, dona Sarita! Obrigada mesmo. Pode deixar, esta noite estarei mais bonita que nunca. No vai se arrepender por me ajudar. Serei a melhor de todas.
Sarita sorriu, saiu. Do lado de fora, sua expresso mudou novamente: Preciso encontrar um meio de interromper essa gravidez. Preciso e vou encontrar. Voltou para 
o salo. Tudo caminhava muito bem. Aquela noite seria mesmo muito rendosa. Mas no conseguia se esquecer de Linda e daquele enorme problema. Em dado momento, percebeu 
que todos os olhares se dirigiram para o mesmo lado. Era Linda que surgiu no alto da escada. Estava com um vestido verde que mostrava com nitidez as linhas de seu 
corpo e dava mais vida aos seus cabelos louros e olhos verdes. Ela era de uma beleza deslumbrante. Sarita sorriu ao perceber os olhos dos homens que acompanhavam 
os passos de Linda, enquanto ela descia as escadas com altivez e graa. Ela  realmente uma beleza! No posso ficar sem ela! O prejuzo ser imenso. Continuou andando 
por ali, conversando com um e com outro. Mas a imagem de Linda no saa de seu pensamento. Percebeu quando Jos Pedro chegou. Sorriu: Ele vai ser a minha soluo. 
S ele pode me ajudar. Aproximou-se, estendeu a mo que ele beijou suavemente. Embora mantivessem um romance h muito tempo, perante todos eram somente bons amigos, 
ele, s um cliente da casa. Ela, sorrindo, disse:
- Preciso falar com voc urgente, Jos Pedro. Vou para o meu quarto. Disfarce e v ao meu encontro.
- Que aconteceu, Sarita? Por que todo esse mistrio?
- No posso falar aqui, v at meu quarto.
- Est bem, irei, mas antes vou pegar uma bebida.
- Nada disso! Precisa estar sbrio para entender o que quero e do que preciso.
- Est bem, v que irei em seguida.
Sarita, disfarando, saiu e foi para seu quarto. Cinco minutos depois, Jos Pedro entrou:
- Que aconteceu, Sarita? Parece to aflita.
- Estou com um problema imenso, preciso de sua ajuda.
- Que problema?
Contou a ele a conversa que teve com Linda. Quando terminou, ele disse:
- Entendi tudo, s no sei como posso ajud-la.
- Voc  mdico.
- Fui mdico. Fui! Hoje, sou s um bbado.
-  um bbado, mas ainda tem o seu diploma. Pode muito bem fazer um aborto.
- Espere a. No exero minha profisso, mas um dia fiz um juramento. No vou assassinar ningum!
- Assassinar o qu? Est louco? Ela est apenas de dois meses, nem tem certeza se  de tanto tempo. No tem nada dentro da barriga, apenas um feto que nem forma 
tem.
- No vou fazer isso, alm do mais, disse que ela no quer. No vai permitir, como eu faria?
- Ela no precisa saber.
- Como no vai saber? Est louca, Sarita?
- Ela ficou muito nervosa e, segurando em seu brao com fora, disse:
- No estou louca, mas vou ficar, se no fizer o que quero. Alm de louca, nunca mais vou querer v-lo na minha vida!
- Que est dizendo, Sarita? Sabe que no vivo sem voc...
- J pensou no prejuzo que vou ter se ela insistir em carregar essa barriga? No posso permitir.
- No sei... No sei se vou conseguir...
- Claro que vai, Jos Pedro!
- Como pensa em fazer isso?
- Podemos dar a ela alguma coisa que a faa dormir. Voc faz o trabalho e pronto.
- Pronto, como? Quando ela acordar, vai perceber o que fizemos, no vai aceitar. Pode fazer um escndalo. J pensou nisso?
- J pensei em tudo. Faa o seu trabalho, deixe o resto por minha conta. Saberei como falar com ela.
- No sei, vou pensar.
- No tem muito tempo para pensar. Vai ser esta noite, quando todos forem embora. Por isso, trate de no beber. Precisa continuar sbrio.
- Como, no beber? Logo esta noite?
- Isso mesmo! No podemos esperar! Quanto mais tempo passar, mais difcil ser.
- Que fao agora?
- Volte para o salo. Vou providenciar tudo. Tenho um p que far com que ela durma a noite toda. Vamos fazer o que tem que ser feito, amanh estar tudo bem.
- Estar tudo bem? No sei se isso vai dar certo.
- Claro que vai.
Irm Ceclia, enquanto falava, parecia estar distante, murmurando para si mesma. Lembrou que Paulo estava ali. Disse:
- Est entendendo o que significa o livre-arbtrio, Paulo?
- No, no sei se estou entendendo...
Naquele momento, Jos Pedro e Sarita tiveram o direito de exercer o livre-arbtrio. Tinham dois caminhos para seguir. Ele, principalmente, poderia aceitar ou no. 
Se aceitasse, cometeria um crime; se no aceitasse, talvez, eu disse talvez, perderia a mulher que amava.
- Que caminho ele tomou?
- Que caminho voc tomaria?
- Eu? No sei, mas nunca cometeria um crime. Ainda mais contra uma criana que s queria nascer. S eu sei quanto a Marta e eu prprio sofremos quando cometi aquela 
loucura.
Naquele momento voc tambm exerceu o seu livre-arbtrio.
- Como assim?
- Voc tambm tinha dois caminhos. Continuava com seu filho e sua mulher ou o trocava por dinheiro.
- Ali foi diferente. Se ele continuasse ao nosso lado, sofreria toda aquela misria que ns mesmos havamos sofrido.
- Voc encontrou a sua pedra logo depois...
- Mas eu no sabia que ia encontrar! Se soubesse, no teria feito aquilo!
- Se soubesse, no estaria exercendo o seu livre-arbtrio. Precisava decidir que caminho tomar na situao em que estava.
- Tomei o caminho errado, no foi?
- Sim, porm, mesmo assim, tudo no final deu certo. Mas no  de voc que estamos falando. Estamos falando de Jos Pedro e Sarita.
- Isso mesmo, eles conseguiram o que queriam?
Durante a noite, Sarita ficou, como sempre, sem despertar suspeitas. Sabia que Linda no bebia, por isso no haveria problema algum em lhe dar o tal p para que 
ela dormisse. Linda fez tudo o que sabia fazer. Recebeu em seu quarto um rico fazendeiro, que sempre vinha  cidade para v-la. J eram quase cinco horas da manh, 
quando todos se retiraram. Finalmente, o salo ficou vazio, s restando as "meninas", que, cansadas, estavam sentadas pelas vrias poltronas que havia por l. Sarita 
se aproximou de Linda, dizendo:
- Como sempre, voc esteve maravilhosa.
- Obrigada, dona Sarita. E tudo que posso fazer para agradecer tanta bondade. Preciso trabalhar bastante enquanto a minha barriga no comea a aparecer, depois vou 
ter que me afastar por um bom tempo.
- Isso est muito longe ainda. Vai demorar muito. No quer tomar um pouco de champanhe, antes de se deitar?
- Sabe que no bebo.
- Ento, acompanhe-me com um suco. No gosto de beber sozinha.
- Se for um suco, eu a acompanho.
- Fique aqui, sei que est cansada, vou buscar o champanhe e o suco.
Sarita se dirigiu at o bar, Linda a seguiu com os olhos, admirada com a beleza e o porte dela. Quando chegou ao bar, Sarita pegou uma taa, encheu de champanhe. 
Em um copo colocou o suco e o p que faria Linda dormir por um bom tempo. Com os copos nas mos, aproximou-se:
- Pronto, aqui est, Linda. Vamos beber, depois iremos nos deitar.
Linda pegou o copo, bebeu quase de uma vez:
- Este suco de abacaxi est timo! Tambm est tanto calor, no ?
- Est calor mesmo. Alm disso, deve estar cansada, eu, ao menos, estou, e muito.
- A noite foi muito boa. Parece que os clientes ficaram satisfeitos.
- Ficaram sim. Tudo correu como devia. 
Linda sentiu seu corpo amolecer. Tentou ficar com os olhos abertos, mas no conseguiu. As outras moas perceberam, correram para ajudar. Sarita as acalmou, dizendo 
que no era nada, que ela s tinha bebido um pouco a mais. Ajudada por Landa, levou Linda para o seu prprio quarto. Jos Pedro j as estava esperando. Embora tivesse 
prometido, no agentou, bebeu, e muito. Ao v-lo naquele estado, Sarita ficou nervosa, com medo de que ele no conseguisse fazer o trabalho. Mas ele falou com ironia:
- Fique calma, minha querida. Vai ser fcil, estou acostumado a matar crianas todos os dias...
- Cale a boca! Est bbado e falando asneiras. Ser que conseguir mesmo?
- Claro que conseguirei. Deite-a a na cama, j est tudo preparado. A sua fiel escudeira j preparou tudo.
Realmente, enquanto a festa transcorria no salo, Landa forrou a cama com lenis e preparou tudo, seguindo as instrues de Jos Pedro. Ele, cambaleando, fez tudo 
o que tinha que ser feito. Depois, disse:
- Pronto, j est terminado. Agora,  s esperar. Amanh, ela sentir algumas dores, depois vai expelir o feto. Ficar bem dentro de alguns dias.
- Tem certeza de que ela vai ficar bem?
- Vai sim, ela  jovem e forte. Eu  que no estou bem, preciso de um trago.
Jos Pedro tomou quase uma garrafa inteira. No estava se sentindo bem por aquilo que havia feito, mas de qualquer maneira o fato estava consumado. Naquele momento, 
era, juntamente com Sarita, o responsvel por um esprito que havia sido impedido de nascer e cumprir sua misso aqui na Terra. Sombras negras o envolveram. Sarita 
continuava impassvel. Para ela, havia feito o que julgava ser o certo. Linda permanecia adormecida, entorpecida pelo p. No plano espiritual, aquela atitude fez 
com que muitos sofressem.
- Quem?
- Sempre que voltamos para a Terra, deixamos aqui, no plano espiritual, irmos que nos amam e que fazem tudo para que possamos cumprir com xito a nossa misso. 
Quando nos desviamos do caminho, eles sofrem muito, por mais um nosso fracasso. Mas no havia nada para ser feito. Ambos, Jos Pedro e Sarita fizeram uso do livre-arbtrio 
e nada nem ningum poderia ter evitado. A no ser eles prprios. Agora, o destino deles estava nas mos deles mesmos.
- No estou entendendo. Como nas mos deles?
- Como j lhe disse, somos responsveis por nossos atos. Ns mesmos, um dia, teremos de dar a nossa sentena.
- Isso  terrvel, Irm!
- No, Paulo, isso  divino! Essa  a justia divina que no condena, no pune.
- Com o tempo, vou acabar aprendendo tudo isso, mas agora estou curioso para saber o que aconteceu quando Linda acordou!
Pela manh, ela, realmente acordou. Percebeu logo que no estava em seu quarto.  Conhecia bem aquele quarto em que estava. Pensou: O quarto de Sarita! O que estou 
fazendo aqui? Foi levantar, mas sentiu uma dor muito forte na barriga, que fez com que se deitasse novamente. No percebeu que em um sof, ao lado, Jos Pedro dormia 
tranqilamente. Ela colocou as mos por debaixo do lenol, percebeu que alguma coisa havia acontecido. Deu um grito estridente. Logo o quarto se encheu de gente. 
As moas acordaram com o grito. Sarita havia acordado e ido at o banheiro que ficava no corredor, estava secando o rosto quando ouviu o grito. Largou a toalha, 
foi tambm para o quarto. Linda chorava, com as mos sujas de sangue. Ao ver Sarita, perguntou:
- Que aconteceu comigo? Por que estou aqui no seu quarto?
Sarita viu que as outras moas olhavam horrorizadas para Linda e para ela. Logo, retomou seu controle:
- Fique calma... No aconteceu nada. Vocs todas podem voltar para seus quartos. Ela est bem, s um pouco assustada, nada mais.
As moas obedeceram. Uma a uma foram embora. No entendiam o que havia acontecido. Alm disso, estavam cansadas demais. A noite havia sido muito movimentada, estavam 
com sono. Foram dormir novamente. Linda chorava sem parar. Sarita se aproximou, dizendo:
- Minha filha, no fique assim. Tudo ficar bem. Logo estar nova em folha.
- Que aconteceu, dona Sarita? Que sangue  este? Que aconteceu com meu filho?
- Ontem  noite teve um problema, teve que ser socorrida s pressas. Infelizmente, perdeu a criana que estava esperando.
- Perdi a criana? Como? No senti nada! No pode ser...
- Essas coisas acontecem. No  a primeira vez nem ser a ltima. Ademais, at que foi bom ter acontecido. Imagine o que seria a sua vida daqui para frente se essa 
criana permanecesse dentro de voc. Ficaria muito tempo sem trabalhar. E quando nascesse, ento? No poderia ficar aqui. Teria que ir embora.
- Isso no importa. Eu queria essa criana. Queria muito! Se no pudesse ficar aqui, eu iria embora, sim, arrumaria um outro emprego. Faria tudo para dar felicidade 
 minha criana. Isso no podia ter acontecido! No podia...
- Mas aconteceu e voc no poder fazer nada. Agora, eu e a Landa vamos lev-la de volta para seu quarto. L ficar melhor. Vai ficar bem quietinha, recuperar-se 
o mais rpido possvel. Em breve, tudo isso passar e voc tornar a ser a menina mais linda e desejada da minha casa. Agora, tente dormir novamente. Lembre-se de 
que foi a vontade de Deus.
Linda no entendia. Pensava: Como ela consegue ser to fria e falar dessa maneira? Como ela pode dizer que foi bom meu filho ter morrido? Ela no entendia, mas estava 
muito fraca para discutir. Sentiu um enorme desejo de dormir, foi o que fez. Depois que levaram Linda para o quarto, Sarita voltou, acordou Jos Pedro. Ela estava 
feliz por ter convencido Linda de que tudo havia sido inevitvel. Uma triste realidade. Abraou-se a ele, dizendo:
- No lhe disse, Jos Antonio, que daria tudo certo? Ela aceitou muito bem o que lhe disse. Est certa e conformada que foi tudo como Deus queria.
- Como est se sentindo, Sarita?
- Quem? Eu? Estou tima. No lhe disse que conseguiria? No posso perder essa menina. Ela vale ouro!
- No est sentindo remorso?
- No! Nem voc deve sentir! Isso tudo faz parte da vida! Para que iramos querer uma criana aqui?
- No sei, no sei.
- Ento, esquea tudo e me d um abrao. Vamos nos amar como nunca.
Paulo estava estarrecido. Estou pensando o mesmo que a Linda. Como ela podia ser to fria?
Eram onze horas da manh quando Sarita voltou ao quarto. Linda continuava dormindo, s que ao olhar para seu rosto, Sarita no gostou do que viu. Ela estava muito 
plida e queimava em febre. Levantou o lenol, viu que estava deitada em uma poa enorme de sangue. Percebeu que ela estava tendo uma hemorragia. Assustou-se, foi 
correndo chamar Jos Pedro, que j estava tomando mais um trago.
- Jos Pedro! Venha correndo! Linda no est bem!
Ele largou o copo em que estava tomando seu trago:
- Que ela tem?  Voc est muito assustada!
- No sei o que ela tem! Vamos logo!
Ao entrar no quarto, ele percebeu que realmente Linda no estava bem. Examinou e constatou:
- Ela est tendo uma hemorragia muito intensa, Sarita, receio que j seja tarde demais. Precisamos lev-la a um hospital.
- Hospital? No! No podemos!
- Por que no? Se no for atendida imediatamente, morrer. Precisamos ir agora!
- Se formos a um hospital, sabero que ela sofreu um aborto, iro querer saber quem praticou. Que vamos dizer? Que fizemos isso sem o conhecimento dela? Isso  crime, 
Jos Pedro! Poderemos ser presos!
- Tem razo, no havia pensado nisso. Que vamos fazer, Sarita? Ela precisa de atendimento.
- Parece que ela no est sentindo nada. Ser que est desmaiada?
- Perdeu muito sangue, sua presso est muito baixa, se no tomarmos logo uma atitude, ela vai morrer!
- Vai sentir alguma dor?
- No, acredito que no, apenas sentir muita fraqueza.
- Ento, deixe que se v em paz...
- Que est dizendo, Sarita? Vai deix-la morrer, assim dessa maneira?
- Ou isso, ou a cadeia, temos que escolher. Paulo no se conteve, disse, nervoso:
- Meu Deus, essa mulher era mesmo um monstro, Irm!
-  verdade, Paulo, naquele momento, ela teve mais uma oportunidade para exercer o seu livre-arbtrio. Ela havia errado ao provocar um aborto sem o conhecimento 
de Linda, mas tinha nesse momento a oportunidade de se redimir, s que no fez isso. Jos Pedro, fraco, dominado por aquele amor insensato e pela bebida, abaixou 
a cabea, concordando. Ficaram os dois ali, ao lado de Linda, at que ela deu o ltimo suspiro.
- Deixaram-na morrer?
- Sim... Assim que ela morreu, Sarita, aliviada, chamou Landa. Quando ela entrou no quarto, olhou para a cama e percebeu que Linda estava morta, perguntou assustada:
- Que aconteceu, dona Sarita? Ela parece...
- Morta!  isso mesmo, ela morreu...
- Como? Por qu?
- No sabemos, teve uma hemorragia.
Landa quis comear a chorar, mas Sarita disse:
- No vai chorar agora. Temos muito que fazer. Primeiro, v comunicar para as outras o que aconteceu. Ela morreu de pneumonia.
- Elas no acreditaro! Ontem  noite, todas viram como ela estava maravilhosa no salo...
- Isso no importa! Todas tero de jurar que ela morreu de pneumonia! E isso que o doutor Jos Pedro vai escrever no atestado de bito. E isso ser a realidade. 
Diga a elas que ningum, mas ningum mesmo, deve dizer outra coisa. Entendeu?
- Entendi, vou falar com elas.
Landa saiu. Jos Pedro estava novamente com o copo na mo. Escutou tudo o que Sarita disse. No foi capaz de fazer nada. Apenas seguiu as ordens dela. Assinou o 
atestado de bito. No houve perguntas. Linda foi enterrada sem maiores problemas.
- No aconteceu nada, Irm? Eles no foram presos?
- No, Paulo, ele, sendo mdico, embora no exercesse a profisso, tinha registro e podia, assim, assinar um atestado.
- No posso acreditar.
- Sei que  difcil, Paulo, mas foi isso mesmo que aconteceu. Aquela foi a primeira vez. Muitas outras vezes eles provocaram aborto em outras moas da casa. Com 
o consentimento delas ou no. A prpria Sarita fez muitos em si mesma. Ela tinha horror s em pensar que poderia ter naquela casa uma criana. Ela no suportava 
essa idia.
- Se outras moas morressem? Ela no ficou com medo de que isso acontecesse?
- No, no houve mais mortes. Ela no teve medo, pois sabia que, se algo acontecesse, Jos Pedro estaria ali para assinar outro atestado de bito.
- Eles ficaram assim, impunes?
- Sim, viveram muitos anos sem problema algum. Continuaram suas vidas de orgia e bebidas. O tempo passou, ele foi o primeiro a morrer. Por causa da bebida, adquiriu 
uma cirrose heptica. Sarita, com quase sessenta anos, morreu de pneumonia. A nica que ficou viva por mais dez anos foi Landa. Envelhecida e sem famlia, acabou 
em um asilo para velhos. L, conviveu com outros idosos. Alguns deles doentes. Quando ia dormir, no suportava os gemidos de dor de alguns que tinham doenas incurveis 
e que estavam simplesmente esperando a morte chegar. Ela possua verdadeiro horror a doenas e muito medo de sentir dor. Naqueles dez anos em que esteve l, pde 
repensar a sua vida. Percebeu que todo o dinheiro que havia conseguido atravs de sua maldade, naquele momento, no servia para nada. Alm disso, no lhe sobrara 
nada. Gastou tudo o que ganhou, comprando roupas e jias, na tentativa de ficar bonita. Quanto mais envelhecia, mais desesperada ficava. Agora, ali naquele lugar 
de tristeza e sofrimento, pde entender como sua vida havia sido intil. Finalmente, ela tambm morreu. Irm Ceclia parou de falar por alguns segundos. Paulo perguntou:
- Os trs se encontraram aqui no plano espiritual?
- Sim, ficaram vagando perdidos por muito tempo. Sabiam que s tinham uns aos outros, mas no conseguiam se encontrar. Foram perseguidos por todos aqueles espritos 
que no deixaram nascer, que existiam mais em suas lembranas do que na realidade. Era o resultado da culpa que, aos poucos, foram sentindo. Suas prprias conscincias 
os atraam. Tentavam se esconder, mas no conseguiam. Sofreram muito, descobriram que a morte no era o fim, mas sim uma continuao. Enquanto viveram na Terra, 
atravs de meios escusos, conseguiram esconder seus crimes, mas aqui no. Aqui possuam um inimigo do qual no podiam se esconder: suas conscincias. Sofreram muito. 
Seus amigos espirituais sempre estiveram ao lado deles, intuindo bons pensamentos. Aos poucos, foram entendendo a extenso do que fizeram. Um aps o outro foi se 
arrependendo, sendo recolhido e trazido para esta colnia. Aqui, finalmente, se reencontraram. Juntos, novamente se sentiram bem. Agora sabiam todo o mal que haviam 
feito. Queriam e pediam a todo instante a oportunidade de renascer novamente e assim poder resgatar os erros cometidos.
- Foi concedido?
- Sim, Deus, na sua infinita bondade, sempre nos d a oportunidade de resgatarmos o mal praticado. Finalmente, obtiveram a permisso. Teriam que voltar juntos para 
a Terra. Precisavam escolher como seria essa nova encarnao.
- Eles escolheriam?
- Sim, foram chamados para isso. Haviam conversado muito entre eles. Jos Pedro entendeu que havia se entregado  bebida e  vida de prazeres por haver nascido em 
uma famlia rica, onde teve tudo sem ter que trabalhar para isso. Pediu para nascer em uma famlia pobre e s conseguir o que sonhava atravs do seu trabalho. Sarita 
entendeu que havia perdido sua encarnao por ter sido gananciosa e colocado o dinheiro acima de tudo. Pediu, tambm, para nascer em uma famlia pobre, ter muitos 
filhos, podendo, assim, dar oportunidade de nascer a todos aqueles que havia impedido. Landa entendeu que havia tambm perdido sua encarnao, por ter nascido feia, 
sem atrativo. Pediu para nascer bonita. Assim, evitaria o risco de praticar o mal, no teria mais motivo. O irmo, programador das reencarnaes, ouviu os trs. 
Assim que terminaram de dizer como queriam a sua vida na Terra, disse:
- Vocs esto, neste momento, decidindo seu futuro. Ser como pediram, mas tero tambm uma misso para cumprir.
- Os trs olharam para ele, sem entender. Jos Pedro, perguntou:
- Que misso?
- Vocs impediram que muitos espritos reencarnassem. Esse crime ter de ser resgatado, por isso, se encontraro na Terra. Voc e Sarita nascero em uma casa pobre. 
Voc vai trabalhar como garimpeiro e encontrar uma pedra que lhe dar fortuna. Vai se casar com Sarita, tero muitos filhos. Alm de seus prprios. Com o dinheiro 
que conseguir, construiro um orfanato. Assim, podero receber a todos que impediram de nascer. Voc, Landa, ser bonita. Encontrar com os dois e os ajudar no 
orfanato. Tero todas as condies para cumprirem o compromisso que esto fazendo agora. Sempre haver ajuda de nossa parte. S depender de vocs, para que tudo 
d certo e possam voltar vitoriosos.
- Assim ser fcil! Dessa vez no vamos fracassar.
- No ser to fcil assim, Jos Pedro. Vocs cometeram crimes que devero ser reparados. Se tudo caminhasse bem, no haveria mrito algum, no resgatariam nem cresceriam 
no aprendizado. Por isso, haver momentos em que tero que decidir e tero que usar o livre-arbtrio. Dessas escolhas depender o futuro de cada um. A misso que 
esto levando, com certeza, chegar s suas mos. Depender s de vocs se a aceitaro ou no. Depender de vocs, tambm, como ela ser feita. No se esqueam de 
que nunca estaro sozinhos, independente das escolhas que fizerem. Encontraro amigos e inimigos. Os inimigos serviro para fazer com que caminhem, os amigos os 
ajudaro na caminhada.
Paulo estava com a boca aberta. Sua voz quase no saiu, quando perguntou:
- Garimpo? Pedra? Est me dizendo que eu sou o Jos Pedro? Sarita  a Marta?
- Isso mesmo, so vocs.
- Mas no deu nada certo. No casamos, no tivemos muitos filhos! Ficamos separados a vida toda! Perdemos nosso filho!
- A sua vida foi exatamente aquela que pediu antes de partir daqui. Mas, l na Terra, no se conformou com a pobreza. Revoltou-se e, na primeira oportunidade, quando 
chegou a hora de exercer o seu livre-arbtrio, trocou tudo por dinheiro, embora encontrar a pedra fizesse parte do planejado.
- Eu no tinha certeza que a encontraria! Mas, mesmo assim, sei que fui o culpado. Mas a Marta? Ela sofreu muito mais que eu. Perdeu o seu filho. No conseguiu cri-lo.
- Sarita nunca quis crianas por perto. Muitas moas choraram por serem obrigadas a ficar sem os filhos. Entre elas, uma perdeu a vida.
- Linda?
- Sim, ela mesma. Voltou para c antes do tempo por ter sido assassinada. Aquele filho que estava esperando seria o comeo de uma nova vida. Dessa vez, ela veio 
com dinheiro para tentar comprar o mesmo filho que vocs tiraram dela. Eu disse tentar. Se voc tivesse resistido, ela seguiria o seu caminho, mas voc no resistiu, 
viu naquela criana mais uma vez a oportunidade de obter lucro.
- Mais uma vez? Ento o Walther era o filho da Linda? Geni era a prpria?
- Isso mesmo. Ela veio em busca do seu filho.
- Mas ela no o teve. Ele foi adotado. Marta era a sua verdadeira me.
- Aqui no plano espiritual no existem documentos, filhos sem pais, ou pais sem filho. Aqui s existe a lei do amor. Os laos sangneos so importantes, mas tanto 
o sangue como o corpo permanecem na Terra, o que importa, realmente, so os laos espirituais, os compromissos assumidos.
- Est me dizendo que toda criana adotada pertence mesmo aos pais adotivos?
- Sim. Nenhuma criana chega aos braos dos pais, se no for pela lei do amor e do compromisso. Ningum est fora do lugar em que realmente deveria estar.
- Nunca imaginei que fosse assim...
- A Lei de Deus  justa. Jesus se fez homem exatamente para nos ensinar isso. Ensinou que o amor ao prximo, a caridade e o perdo eram os caminhos que nos levariam 
at Deus. Ensinou que, para cada ao, existe sempre uma reao. Temos, em nossas mos, a felicidade presente e futura.
- Se eu no tivesse feito aquela troca, tudo seria diferente?
- Sim, quando se encontraram aqui, no plano espiritual, a Geni e o Walther entenderam e perdoaram e, todos juntos, decidiram que voc e Sarita, criariam o Walther, 
dando-lhe amor e carinho. Geni resgataria outros compromissos e s exigiria seu filho de volta, caso um de vocs ou os dois o desse a ela. Foi programado que esse 
dia chegaria. Era a oportunidade que vocs teriam de exercer novamente o livre-arbtrio.
- Estou entendendo... Eu fui o escolhido... Fracassei mais uma vez...
- No existem fracassos, existem apenas aprendizados. Com a sua pretensa fraqueza, deu a oportunidade para que Marta cumprisse sua misso. Ela, sem voc e o filho, 
dedicou a vida a todas aquelas crianas que, um dia, no permitiu que nascessem. E a muitas mais.
- Ento, no final, deu tudo certo?
- Isso mesmo! Tudo est sempre certo.
- Por que no sabemos disso, quando estamos na Terra?
- J lhe disse que no haveria mrito algum. As conquistas no teriam valor.
- Estou feliz, pois, apesar de tudo o que fiz, a Marta  hoje uma mulher amada e respeitada por muitos. Alguns a consideram uma santa.
- Como pode ver. Ela est muito longe da santidade, mas, nesta encarnao, est dando um passo longo para isso.
- Tem razo, Irm...
- Voc tambm aprendeu muito, Paulo. Viu que o dinheiro s  bom quando pode trazer a felicidade. Sempre deu dinheiro para orfanatos, socorreu a Lorena e o pequeno 
Leo, quando a vida os colocou em seu caminho. Sofreu a solido e o desespero por no conseguir encontrar seu amor.
- Sim, ficamos separados nessa vida. Mas sei que amo Marta e que sempre a amarei.
- Por esse mesmo motivo, ela tambm ficou sozinha. O nico amor dela foi e ser voc, mas precisava que fosse assim. A separao no seria necessria, poderiam caminhar 
juntos; mas, separados, cada um teve seu aprendizado. Hoje, esto com a misso cumprida e com louvor. Aprenderam muito e em uma prxima vez se encontraro novamente 
para uma felicidade plena. Sero, como dizem, almas gmeas.
- Ns nos encontraremos novamente? Seremos felizes?
- Sim, fizeram por merecer. No disse que Deus  um pai amoroso?
- Quando ser isso?
- O tempo aqui passa depressa. Marta est na Terra e permanecer l por um bom tempo. Ainda no terminou a sua misso.
- Ela est doente. Seu corao no est bom.
- Sim, porm no vai morrer ainda. Mas, no se preocupe, um dia ainda estaro juntos.
- S posso mesmo esperar... A senhora me falou sobre Sarita e Jos Pedro, mas e com a Landa, o que se passou?
- Como ela pediu, nasceu muito bonita em Santa Catarina. Era loira e tinha olhos azuis.
- Landa  a senhora, Irm? Irm Ceclia sorriu:
- Sim. Eu mesma.
- Como pode ser? Assim como a Marta, a senhora  considerada por todos, uma santa.
Ela soltou uma gargalhada e disse:
- Assim como Marta, estou longe da santidade. Vou lhe contar a minha histria. Nasci em uma famlia que, embora no fosse rica, vivia muito bem. Todos eram imigrantes 
alemes e haviam chegado h pouco. Desde pequena, fui muito religiosa. Ia sempre  igreja. Perto, havia um convento. Elas possuam um orfanato. Geralmente, ia at 
l para brincar com as crianas. Minha me ficou muito doente e morreu. Meu pai, vendo-se sozinho, entregou-me s freiras para que cuidassem de mim, at ele retornar, 
pois estava indo trabalhar no norte do pas. Levou com ele meus dois irmos, j que poderiam trabalhar ao seu lado. Ele nunca mais voltou. Embora fosse uma criana 
linda, nunca fui adotada. As freiras no entendiam por que isso acontecia. Elas me tratavam muito bem, mas eu era mais uma criana das muitas que viviam ali. Muitas 
das crianas iam embora com seus pais adotivos, porm ningum me queria. Cresci, sempre tentando entender por que minha me havia morrido. Por que meu pai havia 
me abandonado? Nunca obtive essas respostas. Por esse motivo, fui uma criana muito infeliz. Quando cheguei aqui, compreendi que assim deveria ser para que eu aprendesse 
o valor de uma famlia. Criada no meio de cnticos e oraes, apaixonei-me pela Virgem Maria. Sabia que ela havia perdido o filho na cruz. Muitas vezes, tentei imaginar 
o seu sofrimento. Quando fiquei mocinha, as freiras nos levaram at um lugar muito pobre que havia na cidade. Diante de tanta pobreza e misria, decidi, naquele 
dia, que seria uma irm de caridade. Na minha congregao, as freiras se dedicam aos pobres e aos doentes. Eu jurei que cumpriria todas as determinaes, mas no 
suportava ficar ao lado de pessoas doentes. No princpio, isso foi um problema, mas a madre superiora percebeu que eu tinha outra qualidade. Atravs de minhas palavras, 
sabia como conseguir o dinheiro necessrio para que as obras fossem feitas. Quando fui mandada para o Nordeste, ao ver tanta pobreza, senti que ali conseguiria cumprir 
a minha misso, que era tentar ajudar a todos que precisassem. S quando conheci Marta, foi que comecei realmente. Fiquei ao lado dela durante dezesseis anos.
- Pediu a beleza e no fez uso dela?
- Nunca me achei bonita, mas isso tambm nunca me preocupou. Sentia que tinha que fazer algo pelos pobres, principalmente pelas crianas. Hoje, sei que, com o nome 
de Landa, cometi muitos erros, mas aprendi atravs de todo sofrimento que senti naquele asilo, onde fui internada e, depois da morte, no tempo todo em que fiquei 
vagando, sozinha, sofrendo todo tipo de horror que eu mesma havia plantado em muitos irmos cujo nascimento eu havia ajudado a impedir. Entendi que eles tinham o 
direito de estar me perseguindo. Prometi que dedicaria minha prxima vida na Terra a ajud-los. Foi o que fiz.
- Conseguiu, por isso est aqui, ajudando-me? Hoje  um esprito iluminado!
- Consegui muitos pontos, mas ainda tenho muito a fazer para, finalmente, ser um esprito iluminado. Ainda tenho muitos irmos precisando de ajuda, irmos que, de 
uma maneira ou outra, prejudiquei.
- Eu, ao contrrio, no consegui ponto algum. Por minha culpa, Marta sofreu tanto. Por minha culpa, no fomos felizes nem tivemos muitos filhos...
- Os caminhos podem ser mudados. Muitas voltas podem ser dadas. Podemos at nos afastar, mas o final  sempre um s: a luz divina. No conseguiram ficar juntos, 
mas conseguiram resgatar muitos dos erros que praticaram. Em cada encarnao, sempre ganhamos algum ponto. Sempre aprendemos alguma coisa. Vou repetir. Deus  um 
pai amoroso.
- Estou entendendo, mas tenho ainda algumas dvidas.
- Quais?
- Isaas, Ismnia, Leo, Lorena, Gacho, Gilmar, Eunice e Z Antnio, todos eles fazem parte da mesma histria? Todos deveriam nos ajudar?
- Sim, todas as pessoas que encontramos sempre fazem parte da nossa histria. Os encontros so determinados para que as misses possam ser cumpridas.
- Mesmo os inimigos? Aqueles que nos ofendem e machucam? O Gilmar, por exemplo. Ele tentou estuprar a Marta! De que maneira pode ter servido?
- Foi um dos mais importantes. Ele era um homem bom, depois que Marta saiu correndo, no entendeu como tinha feito aquilo com ela. Era casado, tinha dois filhos 
e gostava muito da esposa. Martirizou-se muito com aquela atitude.
- No estou entendendo...
- Ele serviu como um instrumento para que Marta saltasse do caminho exatamente naquele lugar. Assim, encontraria Eunice e Z Antnio, dois espritos amigos que 
se prontificaram a renascer e ajud-la na misso. Eles estavam ali naquele lugar com aquelas trs crianas somente esperando a chegada dela para poderem voltar para 
c.
- Foi tudo planejado? Eles morreriam assim que ela chegasse?
- Sim. As crianas eram resgate de Marta. Naquele momento, com a morte dos dois, ela teve a oportunidade de exercer o seu livre-arbtrio.
- Como assim?
- Poderia no ter aceitado, poderia ter entregado as crianas para qualquer um e ter ido embora para casa, como era o seu plano inicial. Mas escolheu cumprir a promessa 
e criar as crianas. S assim poderia comear a sua misso.
- Meu Deus! Como tudo que est me dizendo tem lgica. Quantas vezes me revoltei com a vida que levava? Quantas vezes julguei que Deus no existia?
- Ele existe, sim, Paulo, est em toda parte, principalmente ao lado de cada um. Ele nos d de acordo com o que fazemos e desejamos. D-nos o direito de escolher 
as nossas provas.
Paulo no suportou. Seus olhos se encheram de lgrimas. Sentia-se o mais ingrato dos homens. Sentiu o quanto havia perdido, mas tambm o quanto havia ganhado. Ajoelhou-se, 
elevou os braos, deixou que seu rosto se banhasse com lgrimas de agradecimento e humildade. Irm Ceclia acompanhava, em silncio, aquela demonstrao de fervor.
- Chore, meu amigo. As lgrimas s nos fazem bem. Ontem, juntos, praticamos muitas maldades; hoje, juntos, louvamos a Deus, nosso pai e criador.
Abraaram-se. Eram dois espritos unidos pelo amor de Deus.

O DESTINO DA PEDRA

Enquanto isso, Marta permanecia em seu quarto, lendo a carta que Walther havia lhe entregado. Muitas vezes teve que parar e secar as lgrimas, ao reviver todos aqueles 
momentos que passou ao lado de Paulo, principalmente quando seu filho foi roubado. Ao ver que Paulo havia encontrado a pedra de seus sonhos, jogou a carta de lado. 
Falou em voz alta:
- Ele encontrou a pedra? Ele encontrou a pedra? Por que, meu Deus, isso s aconteceu depois que ele vendeu nosso filho? Por que o Senhor foi to injusto com a gente?
No momento em que ela dizia isso, Irm Ceclia e Paulo chegavam e ouviram. Os dois se olharam e sorriram. Paulo disse:
-  uma pena que ela no saiba como isso foi bom. Que isso foi a melhor coisa que poderia ter-nos acontecido.
- Hoje, ela no sabe, mas, um dia, saber.
Paulo se aproximou de Marta e, com a ponta dos dedos, lhe enviou um beijo. Ela sentiu um bem-estar incrvel. Disse:
- Talvez um dia eu tenha essas respostas. Por enquanto, vou dizer o que digo todos os dias antes de dormir: seja feita a vossa vontade. Continuou lendo.
Walther e Laura estavam na sala, conversando sobre tudo o que a me lhes contara. Estavam felizes, principalmente por descobrirem que no eram irmos. Poderiam, 
assim, casar-se. Walther no cabia em si de tanta felicidade. Marta terminou de ler a carta, ficou por alguns minutos com ela na mo, relembrando tudo. Percebeu 
que Paulo tambm havia sofrido muito com a separao, mas agora nada mais poderia ser feito para que se reencontrassem. Pensou: Ele se foi para sempre. Por que tudo 
teve que ser dessa maneira? Por que no conseguimos ficar juntos e criar nosso filho? Por que tivemos que sofrer separados? No sei... Talvez nunca consiga essas 
respostas... Ainda bem que consegui rever meu filho... Obrigada, meu Deus... Levantou e, com a caixa e a carta nas mos, foi para a sala. Sem que fosse notada por 
Walther e Laura, ficou olhando. Sorriu ao notar a felicidade em que se encontravam. Pensou: Obrigada, meu Deus, por este momento de felicidade. Obrigada por ter 
trazido de volta meu filho. Obrigada por ele ser como . Entrou na sala, dizendo:
- Walther, meu filho, terminei de ler a carta.
- Que achou?
- Antes de ler, tinha muito ressentimento do Paulo, mas agora, tendo voc aqui ao meu lado, vendo o quanto ele se arrependeu e sofreu tambm, s me resta desejar 
que esteja muito feliz no cu.
- Deve estar... Deve estar. Viu que ele encontrou a pedra?
- Vi, mas, infelizmente, encontrou-a tarde demais. Essa pedra e o dinheiro que lhe deixou, vo fazer com que tenha uma vida muito boa. Voc merece, meu filho. Ela 
 e sempre foi sua. Desejo que seja muito feliz.
- Tem razo, essa pedra me daria muita felicidade, se fosse minha, mas ela  sua. O Paulo a guardou durante todos esses anos, s no lhe deu por no a ter encontrado. 
A senhora  quem a merece. No preciso dela, o dinheiro que ele me deixou  mais do que o suficiente para que eu viva o resto da minha vida com todo o conforto. 
A senhora, agora, poder ir embora conosco. Eu e a Laura vamos nos casar, queremos que venha morar em nossa casa.
- Sabe o quanto estou feliz por ter reencontrado voc, mas no posso ir embora daqui. Tenho minhas crianas, no posso deixar que fiquem abandonadas.
- Poderemos contratar algum para que tome conta de tudo por aqui.
- Nem pensar nisso, Walther! So todos meus filhos. Nunca os abandonarei. Graas a eles, um dia, refiz a minha vida.
- J fez o bastante, me. Criou e deu amor para muitas crianas. Pode, agora, simplesmente se dedicar aos netos que lhe daremos.
- Obrigada, meu filho, mas no posso aceitar. Meus netos vo ter tudo, mas ainda existem por aqui crianas que nunca vo ter nada. Por isso, vou continuar neste 
lugar. Se  assim que quer, assim ser, mas poder, ao menos, aumentar esta casa, ou mandar construir uma maior na cidade. L tem luz eltrica, ter mais conforto.
- Vivi quase toda a minha vida aqui. Mas se diz que a pedra  minha mesmo, quero que me faa um favor. Venda e todo o dinheiro que conseguir ser usado para a construo 
de uma casa, onde as crianas vo viver melhor. Podemos at construir uma escola para as crianas da cidade, mesmo as que tm pais. Acha que o dinheiro vai dar para 
isso, meu filho?
Walther comeou a rir:
- Claro, para isso e muito mais. Vai se sentir feliz se isso acontecer?
- Muito!
- Que seja. Amanh bem cedo, vou para So Paulo. Isaas deve saber como trocar a pedra. Voltarei o mais breve possvel.
Foi o que ele fez. No dia seguinte, bem cedo, foi para So Paulo. A viagem de volta foi mais rpida do que a de vinda. Ele, agora, estava feliz, havia encontrado 
a me e a mulher que amava. Chegou, contou tudo a Isaas e Ismnia, que vibraram. Como ele previra, Isaas que sempre trabalhou ao lado de Paulo, sabia como conseguir 
um bom dinheiro pela pedra. Contratou uma firma que construiria a casa para Marta. Tudo certo, voltou para junto delas. A construo durou quase seis meses. Durante 
todo esse tempo, ele retornou a So Paulo com freqncia. Combinou com Laura que se casariam no mesmo dia da inaugurao da casa-escola. Marta no cabia em si de 
tanta felicidade. Paulo e Irm Ceclia tambm vieram vrias vezes para ver como eles estavam. Finalmente, o grande dia chegou. A casa ficou pronta, cada detalhe 
foi examinado por Marta. Havia dez quartos, todos muito bem mobiliados e uma sala imensa. Na parte de baixo, um salo dividido em vrias salas que serviriam como 
salas de aulas. Professores foram contratados. Na parte de fora da casa, foram construdas outras salas. Os meninos aprenderiam marcenaria, sapataria e outras profisses; 
as meninas aprenderiam a bordar e costurar, alm de aspectos ligados  higiene domstica. Marta percorria todos os aposentos. Sentia uma felicidade muito grande. 
Em dado momento, lembrou-se de Irm Ceclia. Sorriu, feliz. Toda a cidade estava em alvoroo para ver o casamento e a inaugurao da casa. Uma grande festa foi programada. 
Dois dias antes do casamento, Marta se mudou com as crianas. Estava preocupada, pois Walther no lhe dissera quem seriam seus padrinhos. Quando ela perguntou, disse 
que era uma surpresa. O casamento seria s dez horas da manh. Marta estava ajudando Laura a colocar o vestido de noiva:
- Voc est linda, minha filha! Que Deus a proteja! Sei que vai ser muito feliz!
- Assim espero, mame.
Algum bateu  porta. Marta foi abrir. Seu corao quase parou.
- Me! Minha me...
A velha senhora no conseguia falar de tanta emoo. Apenas abriu os braos. Marta se abraou a ela e, chorando, disse:
- Quanta saudade senti da senhora, me! Mas tive medo de voltar.
- Perdo, minha filha. Perdo por no ter evitado que seu pai fizesse aquilo!
- Ora, me, isso agora no importa. Estou bem, no final, tudo deu certo. Sou, hoje, a mulher mais feliz deste mundo. Reencontrei meu filho e, agora, a senhora. Nada 
mais desejo nessa vida...Me.

COMPANHEIROS DE JORNADA

Ficaram assim por um longo tempo. Quando se soltaram, Marta pde ver seus tios, que tambm estavam l. Abraaram-se e  choraram muito. O reencontro, depois de tanto 
tempo, s poderia ser de muita emoo mesmo. Marta perguntou:
- Como chegaram at aqui?
- Seu filho foi nos buscar, ele  um bom rapaz.
- , sim! Apesar de tudo, recebeu uma boa educao. Desde que o reencontrei, s me trouxe alegria. Esta  a minha filha, Laura. Vai se casar hoje com o Walther.
Laura se aproximou dos velhos e os abraou carinhosamente. Marta saiu do quarto, acompanhando-os. Queria agradecer a Walther por tudo que estava fazendo por ela. 
Ao chegar  sala, parou mais uma vez. Ficou sem fala:
- Que  isso, guria? No conheces mais os amigos?
- Gacho? Gacho!  voc mesmo?
- Seu filho foi pessoalmente ao Rio Grande me procurar e encontrou. Durante muito tempo, procurei-te por essas estradas. No podes imaginar como fiquei contente, 
quando soube que estavas viva e bem. Estou quase com setenta anos, mas mesmo assim no podia deixar de vir. Venceste mesmo! Encontraste teu filho e conseguiste esta 
casa, que  uma beleza!
Marta correu, abraou-se quele homem que havia conhecido por pouco tempo, mas que fora muito importante em sua vida. Ele estava acompanhado dos filhos. Sua mulher 
havia falecido h cinco anos. Marta se sentiu mal, pediu uma cadeira. Todos ficaram preocupados, principalmente Walther, pois sabia do problema que tinha no corao. 
Correu para o lado dela. Abraou-a e colocou-a sentada:
- Por favor, mame, fique calma.
- No se preocupe, meu filho, ningum morre de felicidade e ainda vou viver muito.
Walther pediu a Isaas que, quando estivesse vindo para a festa, passasse pela casa de v Zu e a trouxesse junto. Para ele, era muito importante que todas as pessoas 
que encontrou durante o tempo em que procurava pela me estivessem ali naquele dia que, para ele, era o mais feliz de todos que j havia vivido. Lula veio com seus 
pais, primos e irmos. Abraou o primo, dizendo:
- No lhe disse que Deus cuida de todos ns?
Walther concordou com a cabea. Correspondeu ao abrao.
- Obrigado por tudo que me ensinou e falou.
Olhou por trs dos ombros de Lula. Seu tio Luiz estava ali, acompanhado de Cinira e os filhos. Sorriu para o tio:
- Como pode ver, estou muito feliz por esta imensa famlia que tenho. Sei que o magoei, mas, naquele dia estava um pouco perdido. Hoje, aps tudo o que aconteceu, 
posso pedir que me abrace? Quero, durante esse abrao, cham-lo de meu tio. Posso?
Luiz, emocionado demais, no conseguiu dizer nada. Apenas abriu os braos. Walther tambm, em silncio, abraou-se a ele. Naquele momento, no eram necessrias palavras. 
Lula apenas sorriu e agradeceu em pensamento, por poder assistir quele momento de reconciliao. Walther estava abraado ao tio, quando ouviu uma voz, que disse 
em um portugus ruim:
- Poder participar desse festa?
Walther se voltou e viu o amigo. Correu para junto dele, perguntando em ingls:
- Voc tambm veio, Steven?
- Claro que sim! Achou que eu ia deixar de estar presente em um momento como este? O Isaas escreveu me contando do casamento. Arrumei tudo para poder estar aqui, 
hoje, nesse dia to importante para o meu melhor amigo.
- Eu  que estou feliz. Mas, venha, quero que conhea, Laura! Laura se aproximou. Steven sorriu e disse:
- Ela  muito bonita, Walther! Moa, cuide muito bem do meu amigo. Ele atravessou o oceano para encontrar voc.
Walther traduziu o que ele disse. Laura respondeu: Vou cuidar, pode ter certeza.
Steven sorriu, estava realmente feliz por ver a alegria do amigo.

EPLOGO

O casamento se realizou. A festa foi grande e muito concorrida. J era noite quando todos comearam a ir embora. Gacho, a famlia, Isaas, Ismnia, Leo, v Zu e 
o Steven pernoitaram na casa de Marta, que agora podia abrigar a todos. Walther e Laura foram de jipe ate Teresina, ficariam em um hotel por aquela noite. No dia 
seguinte, bem cedo, Marta acordou cedo, mandou preparar um caf reforado, pois todos iriam embora. Walther e Laura chegaram quase na hora do almoo. Walther conversou 
com todos. Em dado momento disse:
- Mame, viemos nos despedir. Eu e Laura estamos seguindo para o Rio de Janeiro. De l, tomaremos um avio que nos levar para os Estados Unidos.
- Vo para l? Pensei que ficariam aqui para sempre!
- Vamos por um ou dois meses. Preciso pedir demisso de meu emprego e colocar a casa de meus pais  venda, mas voltaremos. Decidi que vou, juntamente com o Isaas, 
retomar os negcios do Paulo. Ficaremos morando em So Paulo, mas estaremos sempre por aqui. Nunca mais quero me separar da senhora. Alm do mais, este  o meu pas! 
A minha terra! Todos que amo esto aqui.
- Ainda bem, meu filho. Temi que novamente iramos nos separar!
- Nunca mais, mame!
- Por que se refere ao Paulo pelo nome, nunca como pai?
- No sei, mas ainda no o sinto como pai. Talvez um dia, talvez um dia...
- No esquea que ele fez o que fez, pensando muito no seu bem-estar...
- Pode ser, mas, por enquanto, vou continuar chamando-o de Paulo.
Marta no quis insistir. Sabia que, no fundo, ele tinha as suas razes. Todos se despediram. Isaas levou consigo v Zu que, durante toda a viagem, foi contando 
histrias para Leo, que estava encantado com ela. Marta passou o dia cheio de afazeres. Contratou algumas mulheres da cidade para ajud-la com as crianas. Por recomendao 
do doutor Morais, deveria fazer o mnimo de esforo.  noite, aps as crianas irem dormir, foi de quarto em quarto olhar como estavam. Sorriu ao ver que elas dormiam 
tranqilas naquelas camas limpas e quentes. Saiu. A noite estava quente, o cu estrelado. Respirou fundo, lembrou-se de Irm Ceclia. Falou em voz alta:
-  uma pena, minha amiga, que no esteja aqui para ver o que conseguimos. Sinto muita sua falta... Irm Ceclia, juntamente com Paulo, estava ao seu lado. Sorriu 
e mandando um beijo, disse: - Estou aqui, sim, minha amiga, e sempre estarei a seu lado. Sei o quanto conseguimos. Voc  que no imagina, na realidade, o quanto 
foi. Marta sorriu. Podia jurar que estava sentindo o perfume dela, pensou: Devo estar louca! Dona!  nesta casa que ajudam as pessoas? Marta olhou para baixo. Na 
calada, uma mocinha apresentando uma barriga era quem perguntava. Ela olhou para cima, sentiu novamente o perfume. Disse: -  sim, minha filha, pode entrar. Ceclia 
e Paulo se olharam e sorriram. Ceclia, com os olhos marejados, disse: - Vamos embora, meu amigo. Ela tem ainda muito para fazer. Foram embora. Marta olhou para 
uma estrela.  Sorriu, enquanto dizia:
- Entre, minha filha, entre! Vejo que vai ter uma linda criana...



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